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Os Robinsons do Cosmos

Francis Carsac

Após uma colisão interplanetária, um pequeno pedaço da Terra (exatamente um pequeno pedaço da França) se translada de nosso globo e se crava sobre um planeta desconhecido com seus habitantes, seus animais, suas casas, seus campos, suas árvores… E certamente, a vida contínua. Mas é necessário explorar este novo mundo, batizado Tellus; os descobrimentos mais assombrosos esperam os Robinsons do Cosmos. Há seres que pensam sobre Tellus que têm práticas, uma língua, cujo espírito funciona como o nosso, mas cujo aspecto é incrível. Há também monstros de pesadelo, lembrando os mastodontes pré-históricos. É este descobrimento progressivo de um novo universo, ao mesmo tempo que o estabelecimento de uma civilização nova que diz de uma maneira pasionante Francis Carsac. Sua novela é um certamente dos melhores livros de «Ciência ficção» escritos por um Francês e publicados na França. Pela amplitude da concepção, a sutileza, e inclusive a poesia, pode competir com as admiráveis obras do grande escritor inglês R.S. Lewis, cujos não se tem não esquecido o famoso Silêncio da Terra parecido nesta coleção.

Francis Carsac

Os Robinsons do Cosmos

Tradução: Mário Henrique Leiria

Original: Francis Carsac Les Robinsons du Cosmos

1955

PRÓLOGO

Não vou contar aqui a história do cataclismo, nem a da conquista de Tellus, a qual podereis achá-la detalhadamente estudada nas obras da minha irmã. Eu quero simplesmente contar minha própria vida. Todos vocês, descendentes meus ou dos meus companheiros, que habitais este mundo, por direito de nascimento, gostarão, com certeza, de conhecer as impressões e lutas de um homem, nascido em outro planeta, que foi transportado para cá por um fenômeno sem precedentes, embora mal explicado, e que quase perdeu a esperança antes de compreender a magnífica aventura que se lhe oferecia.

Para que escrever este livro? Sem dúvidas não vais lê-lo todo. Já conheceis o essencial.

Escrevo principalmente para o futuro. Recordo que naquela Terra que desconheceis, e que jaz em algum rincão ignoto do espaço, a curiosidade dos historiadores se centrava no testemunho de tempos remotos. Quando tiverem transcorridos quinhentos ou seiscentos anos, este livro terá o interesse de ser o relato de uma testemunha ocular do Grande Começo.

Na época em que inicio esta narração, eu não era este ancião encovado e um pouco chocho que sou agora. Tinha então vinte e três anos.

Fazem sessenta anos. Sessenta anos que passaram como um suspiro. Sei que estou perdendo minhas faculdades: meus movimentos não têm a precisão de antes, me canso rápido e poucas coisas me atraem: meus filhos e meus netos, ainda gosto também de um pouco de geologia e tomar sol, ou melhor, sois, já que temos dois.

Tenho pressa, portanto, em ditar ao meu neto Pierre — minhas mãos tremem demasiado e me impedem de escrever — a história insubstituível e única de um destino humano.

Me ajuda o diário escrito durante minha vida e que destruirei ao acabar esta tarefa. Acho que falarei sobre tudo que tenha interesse. Por outro lado, não queria frustrar a curiosidade, às vezes um pouco sádica, dos historiadores, sobre o que foram minhas modestas alegrias e minhas penas.

Ao ditar, contemplo pela janela como ondula o trigo sob o vento, e me parece por um momento, estar de volta à minha Terra natal, até que me dou conta de que as árvores têm duas sombras…

PRIMEIRA PARTE

O CATACLISMO

I — OS SINAIS PRECURSORES

Antes de tudo, quem sou eu?

Para vós, meus descendentes imediatos, a precisão é inútil. Porém, muito breve, vossos filhos e os filhos de vossos filhos, esquecerão inclusive minha existência.

Quão poucas coisas relembro do meu avô!

Era o mês de julho de 1975, quando terminei meu primeiro ano como ajudante no laboratório de Geologia na Faculdade de Ciências de Bordeaux, uma cidade da Terra.

Tinha então vinte e três anos e, sem ser um Adônis, era um jovem de boa aparência.

Se minha estatura, agora reduzida pela idade, me apequena neste mundo de jovens gigantes, na Terra minhas largas espáduas e meus 1,83m se faziam impor. Para vós, 1,83m não é mais que uma altura mediana. Se quereis conhecer meu antigo aspecto, contemplem Jean, o maior dos meus netos. Eu era como ele, moreno, de grandes mãos, nariz saliente e olhos verdes.

Estava muito contente da minha nomeação. Então voltei ao mesmo laboratório onde anos antes desenhava meus primeiros fósseis. Entretanto, me divertia com os erros dos estudantes ao confundir formas que uma vista habituada distinguia imediatamente.

Chegado o mês de julho, e tendo terminado os exames, me dispunha, com meu irmão Paul, a passar umas férias na casa do nosso tio Pierre Bournat, diretor do observatório recentemente construído nos Alpes, cujo espelho gigante de 5,5m de abertura iria permitir aos astrônomos franceses lutar em pé de igualdade com seus colegas americanos. Meu tio era secundado em seus trabalhos por seu colaborador Robert Menard, um homem de quarenta anos, algo apagado, porém de grande sabedoria, e por um exército de astrônomos, matemáticos e técnicos, os quais estavam ausentes, já que se encontravam em comissão de serviço ou em férias, quando se produziu o cataclismo.

Naquele momento, não tinha ao seu lado mais ninguém além de Menard e seus dois alunos Michel e Martina Sauvage, que eu já conhecia.

(Michel morreu há seis anos e Martina, vossa avó, me deixou, como já sabeis, faz somente três meses. Naquela época, eu estava muito distante de imaginar os sentimentos que iriam me unir a eles.) Para dizer a verdade, eu estava satisfeito em estar com meu tio e meu irmão — Menard não contava em absoluto — e, devido ao meu temperamento solitário, achava— os hóspedes inconvenientes, apesar, ou melhor, talvez por causa de sua juventude.

Michel tinha então trinta anos e Martina vinte e dois.

Foi exatamente a 12 de julho de 1975, às quatro da tarde, quando tive notícias dos primeiros sinais anunciadores do cataclismo.

Terminava de fazer minhas malas, quando chamaram à porta. Fui abrir e me detive ante a visita do meu primo Bernard Verilhac, geólogo como eu. Três anos atrás ele havia tomado parte na primeira expedição Terra-Marte. No ano anterior tinha ido embora.

— De onde vens agora? — perguntei-lhe.

— Estávamos dando uma pequena volta, sem escala, além da órbita de Netuno.

Como um cometa.

— Em tão pouco tempo?

— Paul aperfeiçoou positivamente nossa velha astronave, «Rosny». Agora alcança 2.000km com facilidade. Por segundo!

— Como foi a viagem?

— Magnífica. Tiramos um monte de fotos esplêndidas. Porém a volta foi difícil.

— Algum acidente?

— Não. Fomos desviados. Paul e Claude Romkier, o astrônomo de bordo, explicam isto pela incursão de uma enorme massa material, porém invisível, passando pelo sistema solar. Porém Sigurd não compartilha desta opinião e Ray Mad Lee, nosso jornalista, crê que os cálculos da volta se realizaram depois de se celebrar em excesso a passagem pela órbita Netuniana.

Consultou seu relógio.

— São 4:20. Vou embora. Felizes férias! Quando virão conosco? Próximo objetivo: os satélites de Júpiter Com certeza haverá trabalho para dois geólogos, no mínimo.

Ali terás um bom tema para a tese, bastante novo, pelo menos. Voltaremos a falar disto. Tenho a intenção de passar para ver teu tio este verão.

Fechou a porta atras dele.

Jamais voltaríamos a nos ver. Meu velho Bernard! Com certeza está morto. Teria já noventa e seis anos. Sustentava que os marcianos possuem o segredo de dobrar a vida dos homens. Talvez ainda viva, em algum lugar do Espaço. Se soubesse o que iria acontecer não o teria abandonado.

Com meu irmão, tomei o trem naquela mesma noite. No dia seguinte, cerca de quatro horas da tarde, chegamos à estação de… não importa o nome, não o tenho anotado e não posso recordar-me dele. Era uma estação pequena e insignificante.

Nos aguardavam. Apoiado em um carro, um homem jovem, ruivo e mais alto que eu, fez-nos sinais e em seguida se apresentou.

— Michel Sauvage. Seu tio se desculpa por não poder vir, já que se acha retido por um trabalho importante e urgente.

— Ainda com as nebulosas? — perguntou meu irmão.

— Não com as nebulosas. Melhor ainda, no Universo. Ontem à noite eu quis fotografar Andrômeda, por causa de uma «supernova» que havíamos descoberto. Fiz o cálculo para focar o grande telescópio e, afortunadamente, por curiosidade, dei uma olhada pela ocular, o pequeno telescópio que se regula paralelamente ao grande «Tele». Andrômeda não estava lá. Encontrei-a… a 18 graus da sua posição normal!

— É curioso — observei, vivamente interessado. — Bernard Verilhac me disse ontem…

— Ele já regressou? — cortou Michel.

— Sim, atravessarem a órbita de Netuno. Disse-me que seus cálculos tiveram resultados errados, e que algo na volta os havia desviado da sua rota.

— Isto interessará muito ao Sr. Bournat.

— Bernard passará pelo laboratório este verão. Entretanto, vou escrever-lhe pedindo detalhes.

Enquanto falávamos, o carro corria com rapidez pelo vale. Uma via férrea seguia a estrada em paralelo.

— O trem chegará até o povoado?

— Não, é a linha que foi construída recentemente pela fábrica de metais leves que nos foi cedida. Afortunadamente toda a instalação é elétrica. Do contrário ela teria que ser movida, ou mover o Observatório.

— É importante esta fábrica?

— Trezentos e cinquenta empregados, no momento. Este número dobrará, no mínimo Tomamos a estrada em espiral que subia ao observatório, situado no topo de um pequeno monte. A seus pés, no vale, ficava o povoado. Um pouco mais elevada, estendia— se o aglomerado da indústria e as casas pré-fabricadas do seu pessoal. Uma linha de alta tensão se perdia ao longe, por trás das montanhas.

— Provém da represa construída especialmente para a fábrica. Fornece energia também para nós — explicou Michel.

Na base do observatório ficavam as casas do meu tio e dos seus ajudantes.

— Como isto mudou em dois anos! — observou meu irmão.

— Esta noite seremos muitos na janta: seu tio, Menard, vocês dois, minha irmã e eu, Vandal, o biólogo…

— Vandal! Nos conhecemos desde meninos. É um velho amigo da família.

— Está aqui com um de seus colegas de Academia, o célebre cirurgião Massacre.

— Um nome estranho para um cirurgião — brincou meu irmão Paul. — Francamente, não o deixaria me operar.

— Te equivocas. É o cirurgião mais hábil da França e, provavelmente, da Europa!

Temos também conosco um amigo e discípulo seu, o antropólogo Andrés Breffort.

— Breffort? Não foi ele que pesquisou sobre os patagões — perguntei.

— Ele mesmo. Como vês, a casa é grande, porém muito frequentada.

Assim que chegamos, entrei no observatório e chamei à porta do escritório do meu tio.

— Entre! — gritou.

— Ah! És tu! — disse, suavizando o tom de voz. — Levantou-se da cadeira, impondo sua gigantesca estatura, e me estreitou em um feroz abraço.

Ainda hoje parece que o vejo, com o seu cabelo e suas sobrancelhas cinzas, os olhos como carvão e sua enorme barba de ébano abandonada por sobre seu jaleco.

Um tímido «Bom dia, Sr. Bournat» me obrigou a dar meia volta. Ali estava, de pé diante da sua mesa, o insignificante Menard, com seus papeis cheios de sinais algébricos.

Era um homenzinho com uma cavanhaque e um rosto enorme cheio de rugas.

Sob essa insignificante aparência ocultava-se alguem capaz de falar doze idiomas, de chegar a conclusões inverossímeis e para quem as mais áridas especulações matemáticas e de física transcendental eram tão familiares como o era para mim o contorno das cercanias de Bordeaux. Nessas matérias, meu tio, observador e investigador admirável, não chegava à sola dos seus pés; porém ambos dominavam completamente a Astronomia e a Física Nuclear.

A batida de uma máquina de escrever chamou minha atenção a outro ângulo.

— É verdade — disse meu tio — Esqueci de te apresentar. Senhorita, meu sobrinho Jean, uma peça má que jamais soube somar completamente. A vergonha da família!

— Não sou o único — protestei — Paul não é melhor que eu.

— É verdade — disse meu tio — e pensar que seu pai fazia malabarismos com as integrais!

A raça está se perdendo. Enfim, não sejamos injustos com o que eles são.

Jean será um excelente geólogo e espero que Paul realizará um bom estudo sobre os assírios.

— Os indus, tio, os indus!

— É a mesma coisa, são da mesma laia! Jean, te apresento Martina Sauvage, a irmã de Michel, nossa ajudante.

— Como está? — disse-me ela, estendendo a mão.

Um pouco embaraçado estreitei sua mão. Esperava encontrar uma rata de laboratório, de óculos e com nariz pontiagudo. Ao contrário, ali estava uma garota bem formada, como uma estátua grega, cabelos longos e tão negros como os do seu irmão eram ruivos, a testa talvez um pouco baixa, porém com uns olhos verde-cinza esplêndidos e um rosto de uma regularidade desesperadora, tanto era sua perfeição.

Não posso dizer que era bonita. Não, era bela, mais formosa que nenhuma mulher que houvesse visto antes.

Estreitou familiarmente minha mão e internou-se novamente em seus cálculos.

Meu tio me levou à parte: — Vejo que Martina te causou boa impressão. — brincou — Não falha nunca. Imagino que isso se deve ao contraste com este lugar. E agora me desculpa, porém é necessário que eu termine o trabalho antes de jantar, para estar preparado para as observações desta noite. Como já sabes, careço muito de pessoal. Jantamos às sete e meia.

— É importante este trabalho? — perguntei — Michel me informou que ocorreram estranhos fenômenos…

— Estranhos fenômenos! Melhor dizer que toda Ciência vai por água abaixo! Escuta isto: Andrômeda a dezoito graus da sua posição normal! Das duas uma: ou esta nebulosa se mudou, e neste caso, dado que anteontem estava em seu lugar de costume, haveria alcançado uma velocidade fisicamente impossível: ou então — e esta é minha opinião, a mesma de meus colegas de Monte Palomar — sua luz foi desviada por algo que anteontem não estava ali. E não somente a sua luz, também a das estrelas situadas na mesma direção, a de Netuno e talvez também… Existe uma hipótese não de todo absurda: tu sabes, ou melhor dizendo, tu ignoras que a luz é desviada pelos campos de gravitação intensa. Tudo ocorre como se uma enorme massa houvesse feito sua aparição entre nós e Andrômeda, no interior do sistema solar. E esta massa é invisível! Parece uma loucura, uma impossibilidade, mas é correto.

— Bernard me explicava que na volta da sua última expedição…

— Tu o viste? quando?

— Ontem — Que dia ele voltou?

— Anteontem à noite, precisamente depois de atravessar a órbita de Netuno. E me disse que se haviam desviando da rota no regresso.

— Quanto? E como?

— Não lhe perguntei. Sua visita foi muito rápida. Virá aqui neste verão.

— Neste verão! Porque no verão? Prepara um telegrama ordenando-lhe que venha imediatamente com seus companheiros e que traga o diário de bordo. O filho do jardineiro te levará ao Telégrafo. Isto pode ser a solução do enigma! Este verão, tem graça! Vamos, move-te. Ainda estás aqui?

Me eclipsei e redigi o telegrama, que Benoit levou correndo ao povoado. Nunca saberei se Bernard o recebeu…

Depois fui à casa do meu tio, onde encontrei os convidados: Primeiro Vandal, de quem eu havia sido aluno quando preparava minha licenciatura: alto e encurvado, de cabeleira prateada, mesmo ainda contando quarenta e cinco anos. Me apresentou seu amigo Massacre, pequeno e moreno, de gestos eloquentes, e Breffort, de bom andar, ossudo e taciturno.

Pontualmente, às sete e vinte, chegaram meu tio e sua comitiva. E às sete e meia estávamos à mesa.

Excetuando meu tio e Menard, visivelmente preocupado, todos estávamos alegres, inclusive Breffort, que nos explicou com ironia as dificuldades que teve para evitar um matrimônio realmente honorífico, porém pouco agradável, com Ona, a filha de um chefe da Terra do Fogo.

Já eu, estava fascinado por Martina. Quando estava séria, seu belo rosto repousava como um mármore frio, porém quando sorria, seus olhos cintilavam, sacudia seu abundante cabelo, inclinando ligeiramente a cabeça e, na verdade, ficava ainda mais formosa.

Não gozei muito tempo da sua companhia àquela noite. Às 8:15h meu tio levantou— se e fez um sinal. Saíram com Menard e, através da janela, vi que se dirigiram ao laboratório.

II — O CATACLISMO

Passamos para o terraço, para tomar o chá. O entardecer era suave. O sol poente avermelhava as elevadas montanhas sobre o Leste. Michel falava do descrédito em que haviam caído os estudos de astronomia planetária desde que, segundo sua expressão, a missão Paul Bernadac havia iniciado a marcha «Sobre o próprio terreno».

Depois Vandal nos pôs ao corrente das últimas descobertas da biologia. Fez-se noite.

Uma meia-lua brilhava acima das montanhas, as estrelas cintilavam.

O orvalho noturno forçou-nos a entrar no salão. As luzes estavam apagadas. Eu estava sentado em frente à janela, ao lado de Michel. Tenho gravados todos os detalhes deste entardecer, apesar dos anos, em minha memória. Via a cúpula do observatório destacando-se contra a luz, flanqueada por pequenas torres, onde ficavam as lentes acessórias. A conversação ficara limitada a apartes, e eu conversava com Michel.

Sem saber porque, me sentia feliz e leve. Tinha a impressão de pesar muito pouco e estava me sentindo tão cômodo na minha cadeira, como um bom nadador na água.

No observatório iluminou-se uma pequena janela, apagou-se, voltou a iluminar-se.

— O chefe precisa de mim — disse Michel — Vou para lá.

Consultou seu relógio fosforescente.

— Que horas são? — perguntei-lhe.

— São 11:36 horas.

Levantou-se e, ante sua e nossa estupefação, este gesto simples o projetou contra a parede, a uns três metros de distância.

— Mas… eu não peso nada!

Eu me levantei também e, apesar de minhas precauções, fui direto de cabeça contra a parede.

— Fomos apanhados!

Foi um concerto de exclamações de surpresa. Durante uns instantes revoluteamos pela sala como o pó varrido pelo vento. Todos sentimos a mesma sensação angustiosa, um vazio interior, uma vertigem, a perda quase total do sentido do equilíbrio.

Agarrando-me aos móveis, cheguei até a janela. Parecia um pesadelo!

As estrelas dançavam uma sarabanda desenfreada, como quando se refletiam sobre uma onda agitada. Palpitavam, agigantavam-se, apagavam-se, reapareciam, deslizavam de um lugar para outro.

— Olha! — gritei.

— É o fim do mundo — gemeu Massacre.

— Realmente, parece o fim. — sussurrou-me Michel. E notei como seus dedos se cravavam nas minhas costas.

Baixei os olhos, fatigados pelo balé estelar.

— As montanhas!

Os cumes das montanhas desapareciam! As mais próximas ainda estavam intactas, porém as do fundo à esquerda, haviam sido cortadas rente, como o talho de uma faca no queijo. E aquilo se precipitava para nós!

— Minha irmã! — gritou Michel com uma voz rouca, e abalou-se pela porta.

Vi-o subir facilmente a grandes passadas, de mais de dez metros cada uma, pelo caminho do observatório.

Eu sentia o cérebro vazio, mas, acima do medo, eu registrava o progresso do fenômeno.

Era como uma grande navalha que nos ameaçava de cima, uma navalha invisível, debaixo da qual tudo desaparecia.

Aquilo durou, talvez, vinte segundos! Ouvia as exclamações distantes dos meus companheiros. Vi Michel arrojar-se dentro do Observatório. De repente este desapareceu!

Tive tempo somente para ver como, uma centena de metros mais abaixo, a montanha cortada a pico mostrava seus extratos como em um diagrama geológico, iluminada por uma estranha e lívida luz, uma luz do Outro Mundo.

Instantes depois, com um ruído ensurdecedor, o cataclismo nos alcançou. A casa oscilou, me agarrei a um móvel. A janela estalou, como se empurrada do interior por um joelho gigantesco. Fui aspirado para fora, arrastado por um vento de uma potência inconcebível, preocupado com meus companheiros, rolando ladeira abaixo, chocando— me com as pedras e os arbustos, transtornado, meio asfixiado, sangrando copiosamente pelo nariz.

Ao cabo de uns poucos segundos, aquilo terminou. Encontrei-me 500 metros mais abaixo, no meio de corpos esparsos, de restos de móveis, vidros e telhas. O observatório havia reaparecido e parecia intacto. Era de dia, um curioso dia, correto, ocre.

Levantei a vista, observei um astro solar, roliço, distante. Meus ouvidos zumbiam, meu joelho esquerdo estava inchado e os olhos injetados. O ar cheirava de maneira especial.

Meu primeiro pensamento foi para meu irmão. Ele jazia, as costas contra o solo, a poucos metros. Acerquei-me, admirado de gravitar de novo. Paul tinha os olhos fechados; e sua panturrilha direita, ferida por um estilhaço de vidro, sangrava. Quando fechava seu ferimento com um lenço, ele voltou a si.

— Ainda estamos vivos?

— Sim; está ferido, porém sem gravidade. Vou ver os outros.

Ele se alisou.

— Vamos!

Vandal se ajeitava. Massacre tinha somente os olhos meio perdidos.

Dirigiu-se a Paul para examiná-lo.

— Não é nada. O curativo é quase inútil, porque não há nenhuma grande artéria afetada.

Breffort tinha sido atingido mais gravemente. Tinha uma grande brecha na cabeça e estava inconsciente.

— Precisa com urgência de um curativo — disse o cirurgião. — Tenho tudo que é necessário na casa do seu tio.

Observei a casa. Havia resistido bastante bem. Faltava uma parte do telhado, haviam rebentado alguns postigos e janelas, porém o resto parecia intacto. Entramos, levando Breffort e meu irmão. No interior, os móveis tombados vomitavam seu conteúdo sobre o solo. A duras penas, endireitamos a mesa grande para colocar Breffort.

Vandal ajudou Massacre.

Foi então que me dei conta que até aquele momento não me havia preocupado com meu tio. A porta do observatório esta aberta, porém nada se movia.

— Vou ver, — eu disse — e marchei coxeando.

Ao dar a volta à casa, apareceu o jardineiro, o velho Anselme, a quem havíamos esquecido totalmente. Seu rosto sangrava em abundância. Mandei que fizessem curativo nele. Subi a escadaria do Observatório. A cúpula estava deserta e o grande telescópio abandonado. No escritório, Menard reajustava, com ar surpreso, suas lentes.

— Onde está meu tio — perguntei.

Enquanto esfregava seus óculos com um lenço, contestou: — Quando aquilo ocorreu, quiseram sair e não sei onde estão.

Corri para fora chamando: — Tio! Michel! Martina!

Um «olá» me respondeu. Detrás de umas pedras afundadas encontrei meu tio sentado, apoiado em um bloco.

— Torceu um tornozelo. — esclareceu Martina.

— E Michel?

Apesar das circunstâncias, fiquei admirando a forma do seu ombro, sob a roupa destroçada.

— Foi buscar água na fonte.

— E então, tio, como explica você tudo isto?

— Que queres que te diga? Não sei nem uma palavra. Como estão os outros?

O pus ao corrente.

— Vai ser necessário descer para o povoado, para ver o que ocorreu ali — observou.

— Por azar nosso, o sol está se pondo.

— Se pondo? Ele está justamente se levantando.

— Está se pondo, tio. Há um momento atrás estava mais alto.

— Ah! Estás falando deste miserável luzeiro de couro? Olha para trás.

Me voltei e pude contemplar um radiante sol azulado detrás das montanhas segmentadas.

Era preciso render-se à evidência: Estávamos em um mundo que possuía dois sois.

Meu relógio marcava 0h:10m.

SEGUNDA PARTE

OS ROBINSONS DO ESPAÇO

I — OS ESCOMBROS

Não posso descrever a avalanche de sentimentos que se abateu sobe mim. Inconscientemente, apesar de toda sua novidade, eu havia assimilado catástrofe segundo as normas terrestres: grandes ondas, sismos, erupções, etc, e subitamente me encontrei diante desse acontecimento impossível, enlouquecedor, mas real.

Encontrava-me em um mundo iluminado por dois astros solares!

Não, não saberia explicar a turvação que se apoderou de mim. Tentava negar a evidência.

— Mas… apesar de tudo, estamos na Terra, aqui está a montanha e o Observatório, e ali, abaixo, o povoado.

— Estou realmente sentado em um pedaço de Terra — disse meu tio. — Porém, a menos que eu seja tão ignorante para desconhecer um fato desta importância, nosso sistema terrestre não admite mais que um Sol, e aqui existem dois.

— Então onde estamos?

— Repito que não sei. Estávamos no Observatório. Quando ele tremeu, pensei que se tratava de um tremor de terra e saímos, Martina e eu. Encontramos Michel na escadaria e fomos projetados para fora. Perdemos a consciência e não vimos nada mais.

— Eu sei — disse com um calafrio. — Vi como as montanhas desapareciam com o Observatório em meio a um esplendor lívido. Depois me encontrei fora também, e o Observatório estava lá novamente.

— E pensar que com quatro astrônomos, nenhum foi testemunha disto — lamentouse.

— Michel viu como começou. Porém onde ele esta? Está demorando demais…

— É mesmo — disse Martina — Vou ver.

— Não, compete a mim ir procurá-lo. Tio, por piedade, onde acha voce que fomos parar?

— Repito que não sei. Porém, com certeza não é na Terra. Talvez — murmurou — não seja nem mesmo nosso Universo.

— Então a Terra acabou para nós?

— É o que eu temo! Enfim, agora te ocupa em procurar Michel.

Encontrei-o a uns poucos passos mais além. Dois homens o acompanhavam, um deles moreno, de uns trinta anos, e o outro aproximadamente com dez anos a mais.

Michel nos apresentou, o que me pareceu cômico, levando-se em conta as circunstâncias.

Tratava-se de Simon Beauvin, engenheiro eletricista e de Jaime Estranges, engenheiro metalúrgico, diretor da fábrica.

Vinhamos ver o que havia ocorrido — disse Estranges. — Antes de tudo descemos ao povoado, onde as equipes de socorro se organizaram imediatamente. Mandamos nossos empregados como reforço. A igreja caiu. O prefeito foi sepultado, junto com sua família, sob o prédio da prefeitura. Os primeiros cálculos foram de uns cinquenta feridos, alguns deles graves, e onze mortos, além do prefeito e sua família. Fora isto, a maioria das casas resistiram bem.

— E vocês? — inquiriu meu tio.

— Poucos estragos. Você sabe que essas casas pré-fabricadas são leves e feitas de blocos. Na fábrica, algumas máquinas arrancadas. Minha mulher tem uns cortes pouco profundos. É nosso único ferido — contestou Beauvin.

— Temos um cirurgião conosco. Vamos mandá-lo ao povoado.

Depois, voltando-se para Michel e para mim: — Ajuda-me. Vou para casa. Martina, leva Menard. Senhores venham conosco.

Quando chegamos à casa, vimos que Vandal e Massacre haviam trabalhado com eficácia. Tudo estava em ordem novamente. Meu irmão e Breffort repousavam em camas de campanha. Massacre preparava sua maleta.

— Vou descer. — disse — Deve haver trabalho para mim.

— Com efeito. — corroborou meu tio — Estes senhores vêm de lá; há muitos feridos.

Sentei-me perto de Paul.

— Como estás, garoto?

— Bem, apenas uma ligeira dor na perna.

— E Breffort?

— Também está melhor. Já voltou a si. Não é tão grave como se temia.

— Neste caso, vou descer para o povoado — disse.

— Certo. — disse meu tio — Michel, Martina e Vandal, vão também com ele. Menard e eu cuidaremos de tudo daqui.

Partimos. No caminho perguntei aos engenheiros.

— Sabe a extensão da catástrofe?

— Não. Temos que aguardar. Primeiramente ocupemo-nos do povoado e algumas granjas vizinhas. Depois, se for o caso, poderemos ir mais longe.

A rua principal estava intransitável, por causa das casas derrubadas. As outras ruas, perpendiculares, ao contrário, se conservavam praticamente intactas. Os maiores danos culminavam na Praça Maior, onde a prefeitura e a igreja não eram mais que um monte de escombros. Quando chegamos estavam liberando o corpo do prefeito.

Entre os que prestavam auxílio observei um grupo, cuja ação era de coordenar.

Num momento um homem se separou deles e veio até nós.

— Reforços, por fim! — disse alegremente — Como nos fazia falta!

Era jovem, vestido com um macacão azul, mais baixo que eu, de compleição robusta; devia possuir uma força pouco comum. Sob seus cabelos negros, uns olhos cinzas, agudos, brilhavam em um rosto decidido. A simpatia que então senti por ele deveria transformar-se, mais tarde, em amizade.

— Onde estão os feridos? — perguntou Massacre.

— No salão de festas. Você é médico? Seu colega não vai se ofender se você nos der uma mão!

— Sou cirurgião.

— Que sorte!. Ei, Jean Pierre, acompanha o doutor à enfermaria — Vou com você. — disse Martina — Eu o ajudarei.

Michel e eu nos juntamos aos que limpavam o terreno. O jovem, a que antes me referi, falava com animação aos engenheiros. Depois voltou para junto de nós.

— Foi difícil convencê-los de que seu primeiro trabalho deveria consistir em afornecer, se possível, água e eletricidade. Queriam trabalhar nos escombros! Se agora não utilizarem seus conhecimentos, quando o farão? Ah sim, qual é vossa profissão?

— Geólogo.

— Astrônomo.

— Perfeito, isto pode nos ser útil mais tarde. No momento há coisas mais urgentes.

Ao trabalho!

— Mais tarde, porque?

— Imagino que sabem que já não estamos na Terra. Não é necessários ser doutor para se dar conta disto! Não deixa de ser divertido. Ontem eram eles que davam as ordens; hoje, ao contrário, sou eu quem determina as tarefas dos engenheiros.

— Como te chamas?

— Louis Mauriere, contramestre da fábrica. E vocês?

— Este é Michel Sauvage; eu sou Jean Bournat.

— Então é da família do velho. É um bom sujeito!

— Atenção. — disse Michel — Ouço algo.

Sob o monte de ruínas se percebiam chamados débeis.

— Diz-me, Pierre. — Perguntou Louis a um dos obreiros — Quem ocupava esta casa?

— Mãe Ferrier e sua filha, uma bonita pintinha de dezesseis anos. Espera, um dia fui à sua casa. Aqui havia a cozinha. Eles devem estar nesta outra sala!

Indicava-nos uma parede meio destruída.

Michel inclinou-se, gritando através dos interstícios.

— Ânimo! Viemos buscá-las Todos nós escutávamos com ansiedade.

— Rápido! Rápido. — respondeu uma voz jovem e angustiada.

Rapidamente, porém metodicamente, escavamos um túnel entre os destroços, utilizando objetos os mais inverossímeis: uma escova, uma caixa de ferramentas e um receptor de radio. Meia hora mais tarde as chamadas cessaram. Continuamos, redobrando nossos esforços, aceitando o risco, e pudemos enfim salvar, a tempo, Rose Ferrier. Sua mãe estava morta.

Falo com detalhes deste salvamento, entre tantos outros realizados naquele dia, com êxito ou sem ele, porque Rose, embora involuntariamente, deveria personificar mais tarde o papel de Helena de Esparta e oferecer o pretexto da primeira guerra em Tellus.

Levamo-a à enfermaria e depois nos sentamos para comer um pouco, porque estávamos famintos. O Sol azul alcançava seu zênite quando meu relógio marcava 7h.

17m. Havia se erguido às 00:0h. O dia azul tinha, portanto, aproximadamente 14h 30m.

Trabalhamos toda a tarde sem parar. À noite, quando o Sol azul se escondeu detrás do horizonte, e o Sol avermelhado, minúsculo, nasceu no leste, não restava ferido algum sob as ruínas O número total ascendia a 81. Entre eles contavam-se 21 mortos.

Ao redor do poço, seco, claro, levantou-se um pitoresco acampamento. Trapos estendidos sobre estacas fizeram as vezes de tendas de campanha para aqueles que haviam ficado sem teto. Louis mandou montar uma para os operários que haviam participado no salvamento.

Sentamo-nos diante de uma tenda e tomamos uma ceia fria à base de carne e pão, regada a vinho tinto, que me pareceu o melhor da minha vida. Depois fui à enfermaria na vã esperança de ver Martina: Ela dormia. Massacre estava satisfeito; poucos casos graves. Havia ordenado que Breffort e meu irmão se deitassem. Os dois estavam bem.

— Desculpa-me, estou caindo de sono, — disse o cirurgião — e amanhã tenho uma operação que, nas presentes condições, será delicada.

Voltei à tenda e não demorei também a cochilar em cima de uma grossa cama de palha. Despertei por causa do ruido de um motor. Era «noite» ainda, ou seja, este semi-dia púrpura que conheceis pelo nome de «noite vermelha». O carro se deteve detrás de uma casa silenciosa. Dei a volta e vi meu tio. Havia descido com Vandal para saber das novidades.

— E então? — perguntei.

— Nada. A cúpula está imobilizada por falta de eletricidade. Passei pela fábrica. Estranges me disse que por algum tempo não poderemos dispor de corrente. A represa não nos acompanhou. Mudando de assunto, posso dizer-te que nos encontramos em um planeta que gira sobre si mesmo em 29 horas, e cujo eixo está pouco ou nada inclinado com relação ao plano de sua órbita.

— Como sabe disto?

— Muito simples: o dia azul durou 14h 30min. O Sol vermelho levou 7h 15min. para alcançar o zênite. Portanto, a duração total do dia bi-solar é de 29 horas. Por outro lado, os dias e as «noites» são iguais, e com certeza estamos no equador; mais exatamente em torno do grau 45 de latitude Norte. Por conseguinte, eu deduzo que o eixo do planeta está muito pouco inclinado, a menos que tenhamos caído justamente no equinócio. O Sol vermelho é exterior à nossa órbita e gira provavelmente conosco ao redor do Sol azul. Este é um momento em que os dois sois e nós mesmos estamos em situações opostas. Passado o tempo necessário, não deveremos estranhar se formos iluminados simultaneamente, algumas vezes, pelos dois ou por nenhum.

Então haverão noites negras ou, melhor dito, com luas.

— Com luas?

— Olha para o céu — Levantei a vista. Pálidas, em um céu rosa, havia duas: uma um pouco maior que nossa velha Lua terrestre, a outra aproximadamente igual.

— Faz pouco tempo, havia mais outra. — continuou meu tio — É a menor das três e já está escondida.

— Quanto nos resta de «noite»?

— Apenas uma hora. Na fábrica vimos alguns granjeiros dos arredores. Há poucas vítimas. Porém mais distante…

— É necessário ir vê-los. — disse — Vou no seu carro com Michel e Louis Mauriere.

Temos que saber a extensão do nosso território.

— Vou com vocês.

— Não tio. Tens um pé torcido, podemos ter avarias e ver-nos obrigados a andar.

Daremos uma volta ultra rápida.

— Está bem; ajuda-me a descer e leva-me à enfermaria. Você vem comigo Vandal?

— Eu gostaria de participar desta excursão. — disse o biólogo — Imagino que a parte terrestre não será muito extensa e vocês têm a intenção de seguir seus contornos.

— Enquanto encontrarmos caminhos praticáveis. Bem, venha conosco. Pode ser que tropecemos com alguma fauna inédita. Esta saída corre o risco, por outro lado, de ser demasiado calma, nesse caso sua experiência na Nova Guiné pode ser-nos muito útil. Despertei Michel e Louis.

— Certo, — disse ele. — porém antes queria falar com seu tio. Senhor Bournat. Poderia você, durante nossa ausência, fazer um censo da população e dos recursos existentes em víveres, armas, utensílios, et cétera? Depois da morte do prefeito, você é aqui o único a quem todos escutarão. Você está em boas relações tanto com o Senhor cura, como com o Senhor mestre. Não vejo ninguém mais que Juillet, o dono do bar, que talvez no goste muito de você. Embora, claro está, que estaremos de volta antes que termine tudo aqui.

Subimos no carro, um velho modelo sem capota, muito sólido. Eu havia sentado ao volante quando meu tio chamou: — Pega o que tenho na bolsa.

Abri-a e tirei uma pistola regulamentar, calibre 45.

— Esta é minha arma de oficial de artilharia. Toma. Quem sabe o que vais encontrar.

Na bolsa do carro há dois carregadores.

— É uma boa ideia. — disse Louis — Não teria você outra arma?

— Não, porém me parece que deve haver escopetas de caça no povoado.

— Certo. Pararemos na casa de Boru. É um ajudante aposentado da «Colonial» e um caçador empedernido Despertamos o velho e, apesar dos seus protestos, pegamos boa parte do seu arsenal: um «Winchester» e duas escopetas de caça, com as respectivas munições.

Partimos com a alvorada, para o Leste. Enquanto foi possível, seguimos a estrada que de vez em quando aparecia ligeiramente seccionada, mas mesmo assim conseguíamos seguir em frente. Um afundamento nos deteve durante uma hora. Três horas depois da nossa partida caímos em uma zona caótica: não se viam mais que montanhas derrubadas, montes de terra, pedras, árvores e, por desgraça, escombros de casas.

— Devemos estar perto do limite. — disse Michel — Vamos a pé.

Deixando o carro sem vigilância, talvez um pouco imprudentemente, pegamos nossas armas, algumas provisões e alcançamos a zona devastada. Avançamos penosamente durante mais de uma hora. Para um geólogo, o espetáculo era fantástico; um espesso caldo de rochas sedimentares, um magma das eras primária, secundária e terciária em tal estado de agitação que eu recolhi, em poucos metros, um trilobita, um amonita cenomaniano e numilitas.

Louis e Vandal, que seguiam na frente, tropeçaram com uma inclinação enquanto eu me atrasava recolhendo fósseis. Chegaram em cima e pudemos escutar suas exclamações.

Em poucos instantes, Michel e eu nos juntamos a eles. Tão distante quanto alcançava nossa vista, estendia-se um pântano de águas oleosas, povoadas de uma vegetação de ervas rígidas, acinzentadas, com se cobertas de pó. A paisagem era sinistra e grandiosa.

Vandal pegou seu binóculo e deu uma olhada para o horizonte.

— Montanhas. — disse.

Emprestou-me o binóculo. Longe, a Sudoeste, uma linha azulada se destacava no céu.

Ao redor do promontório que formava a zona terrestre, o limo havia deslizado, amontoando-se com cólera, sepultando e destruindo a vegetação. Com precaução, descemos até a borda das águas. De perto era quase transparente; o pântano parecia profundo e era salobro.

— Isto é um deserto. — observou Vandal — Nem peixes nem pássaros.

— Olha ali. Disse Michel.

Ele nos indicava em um banco de lama um ser esverdeado, de pouco mais de um metro. Em uma extremidade tinha a boca rodeada de uma coroa de seis tentáculos moles; na base de cada tentáculo se fixava um olho glauco. No outro extremo do corpo uma potente cauda se espalhava em forma de aleta. Não pudemos examiná-lo de mais perto por causa da sua situação inacessível. Enquanto subíamos novamente a elevação, um animal idêntico correu pela margem a grande velocidade, com os tentáculos ao longo do corpo. Apenas entrevisto, lançou-se nas águas.

Antes de voltar ao carro, fizemos uma última observação. Foi então que, pela primeira vez desde que chegamos a este mundo, divisamos uma nuvem. Era de um tom esverdeado e flutuava muito alto. Dias depois conheceríamos seu terrível significado.

Encontramos o carro com os faróis acesos.

— Mas, — disse — estou absolutamente certo de tê-los apagado. Algum curioso deve ter feito isto Entretanto, ao seu redor, no pó da estrada, não havia mais pegadas que as nossas.

Apaguei os faróis, lançando uma exclamação: o mostrador estava banhado de uma substância viscosa e fria, como a baba dos caracóis.

Seguimos até um ramal que se dirigia ao Norte e, imediatamente, fomos detidos pelas montanhas desmoronadas.

— O mais prático — disse Louis — será voltar ao povoado e tomar o caminho da estrada.

Aqui estamos muito próximos da zona morta.

Encontramos meu tio sentado em uma cadeira, com uma atadura no pé, conversando com o cura e com o mestre. Informamos que não deviam nos aguardar até o dia seguinte e partimos na direção Norte.

A estrada subia primeiro um pequeno desnível e então descia até um vale paralelo.

Achamos algumas granjas que não haviam sido muito danificadas; os camponeses cuidavam dos seus animais e dos seus labores, como se nada houvesse acontecido.

Alguns quilômetros mais distante nos vimos obrigados novamente a deter-nos.

Aqui a zona destruída era mais estreita e na sua metade se levantava, intacto, um montículo. Subimos nele e pudemos dar-nos conta do aspecto geral daqueles lugares.

Ali também, um pântano bordeava a «terra».

Como estava chegando a noite vermelha, nos deitamos em uma fazenda, esgotados por nossas escaladas.

Depois de seis horas de sono, marchamos para o Oeste. Nesta ocasião não foi uma pântano que nos deteve, e sim um mar desolado. Depois seguimos para o Sul. A «terra» alcançava uns doze quilômetros antes da zona morta. Por um milagre, a estrada se conservava quase intacta no meia do destruição, o que facilitou enormemente nossa exploração. Contudo, nos vimos obrigados a rodar a pouca velocidade, porque de vez em quando os penhascos obstruíam nosso caminho.

De súbito, depois de uma curva, desembocamos em lugar resguardado. Estava rodeado de bosques e pastos, em um vale menor, no qual havia se formado um lago por causa dos desprendimentos que haviam detido a torrente. A meia subida se alçava um pequeno castelo. Uma avenida de árvores conduzia à entrada.

Penetrei com o carro, embora tenha observado uma placa: «Estrada proibida, propriedade privada»

— Creio — disse Michel — que dadas as circunstâncias…

Apenas chegados em frente ao castelo, na entrada apareceram um jovem e duas moças. A fisionomia do primeiro expressava uma surpresa encolerizada. Era bastante alto e bem parecido, moreno e robusto. Uma das jovens, de aspecto agradável, era evidentemente sua irmã. A outra, mais velha, apresentava um cabelo excessivamente ruivo para ser natural. O jovem desceu as escadas com rapidez.

— Não sabem ler?

— Pensei — começou Vandal — que nestas circunstâncias…

— Aqui não há circunstâncias que justifiquem! Esta é uma propriedade privada e não quero ninguém que não tenha sido convidado.

Naquele tempo eu era jovem, vivaz e não muito cortês.

— Vamos ver, jovem impetuoso, nós viemos ver se, por azar, este glorioso castelo, que não é provavelmente de seus antepassados, não havia caído sobre isto que te serve de cabeça. Parece-lhe bem receber-nos desta forma?

— Saia da minha casa! — vociferou — ou mando que os expulsem, a ti e a teu comparsa.

— Ia avançar, quando Vandal interveio; — É inútil que briguemos. De qualquer forma vamos embora. Porém permita adverti— lo que nos encontramos em outro planeta e que vosso dinheiro corre o perigo de ficar sem curso legal.

— Que está acontecendo?

Um homem na plenitude da idade, de notável envergadura, acabava de aparecer, seguido de uma duzia de indivíduos de aspecto pouco tranquilizador.

— O que ocorre, pai, é que esta gente entrou sem permissão de ninguém e que…

— Cala-te Charles!

Dirigiu-se a Vandal: — Você falava de outro mundo, que há de verdade nisto tudo?

Vandou informou-o.

— Então não estamos na Terra? Isto é muito interessante. Em um pais virgem?

— Até o momento, a esse respeito nada vimos mais que um pântano que fecha-nos em duas direções e um mar por outra. Falta-nos explorar o último lado, o de vocês, sempre e quando seu filhe nos autorize.

— Charles é jovem e ignorava estes acontecimentos. Não havíamos compreendido absolutamente nada. Primeiramente acreditei que se tratava de um tremor de terra.

Porém, quando vi os dois sois e as três luas… Enfim, obrigado por haver-nos explicado a situação. Tomarão alguma bebida conosco…

— Obrigado, porém não temos tempo.

— Claro que sim! Ida, manda preparar…

— Sinceramente, não temos tempo. — disse — É essencial que cheguemos até o limite e estejamos no povoado à noite.

— Neste caso não insisto mais. Virei amanhã para conhecer o resultado de suas explorações.

Partimos.

— Não é muito simpática essa gente. Disse Michel.

— Ora! — disse Louis — Não sabem quem eles são? Os Honneger, suíços, assim afirmam, milionários, que se hão enriquecido com o tráfico de armas. O filho é pior que o pai. Está certo de que todas as garotas vão cair em seus braços por causa do seu dinheiro. Não existe sorte! Eles é que deveriam ter ficado sob as ruínas, e não o prefeito.

— E a ruiva?

É Magda Ducher. — disse Michel — Uma atriz de cinema, mas ela é mais célebre por suas aventuras escandalosas que por seu trabalho artístico. Sua foto estava em todos os jornais.

— E a duzia de indivíduos macabros?

— Provavelmente guarda-costas para seu negócio sujo. — disse Louis.

— Temo que essa gente nos dará o que fazer. — manifestou-se Vandal pensativo.

Adentramos na outra zona morta, o que nos levou quatro horas de marcha para atravessá-la, porém nesta ocasião tivemos o prazer de vê-la terminar em terra firme.

Eu estava emocionado. De pé, sobre um bloco calcário, meio enterrado em uma vegetação desconhecida, hesitei um momento antes de pisar no solo de outro mundo.

Louis e Michel, menos impressionáveis, me haviam antecedido.

Recolhemos algumas amostras de plantas. Eram umas ervas esverdeadas, duras e cortantes, sem inflorescências, arbustos de talo muito rijo, de casca cinza metálico.

Pudemos examinar também um representante da fauna. Foi Louis quem o descobriu.

Tinha a forma de uma serpente chata, de uns três metros de comprimento, cego e invertebrado. A «cabeça» armada de duas grandes mandíbulas fortes e tubulares, análogas a uma larga de dítico, como nos disse Vandal. Não tinha semelhança alguma com a fauna terrestre. Parecia dissecado. Observei com interesse que seu tegumento tinha uma abertura desmesurada, ao redor da qual havia se solidificado uma baba brilhante. Vandal teria querido levar este exemplar. Porém, examinandolhe mais de perto, vimos, e sobretudo percebemos, que somente o tegumento era seco e que o interior estava em plena decomposição. Contentamo-nos em fotografálo.

Como as altas ervas poderiam ocultar outros espécimes, estes vivos e perigosos, batemos em retirada, voltando à estrada do povoado.

A planície se perdia ao longe e no céu flutuava uma nuvem verde.

II — SOLIDÃO

Antes de pretender explorar o planeta, necessitávamos de um estabelecimento sólido sobre o pedaço da terra que nos havia seguido, e tínhamos que organizar ali uma sociedade.

Uma boa notícia nos aguardava no povoado: o poço tinha água de novo, que se revelou potável, apenas um pouco salobra, segundo análise que fez Vandal. O censo estava em marcha. Havia sido fácil para os homens, mas difícil para o gado, e andava muito mal com referência às reservas materiais. Pois, como disse meu tio: todos me conhecem, porem eu não sou ninguém, nem prefeito, nem sequer um vereador municipal.

Da recontagem, se depreendia que a população da vila ascendia a 843 homens, 1.007 mulheres e 897 meninos menores de dezesseis anos; um total de 2.847 almas.

O gado parecia abundante, em especial o bovino.

Louis disse então: — Amanhã, pela manhã, precisamos fazer uma reunião geral.

Mandou chamar o pregoeiro e passou a ele um pedaço de papel com um texto escrito a lápis Eis aqui exatamente seu conteúdo Ainda tenho em meu poder este papel, frágil e amarelado: «Cidadãs e cidadãos: amanhã pela manhã, na praça do poço, assembleia geral. O Senhor Bournat, astrônomo, lhes explicará sobre a catástrofe. Louis Mauriere e seus companheiros lhes comunicarão o resultado das suas explorações. A reunião terá lugar duas horas após a saída do Sol azul. Temos que tomar decisões para o futuro. É indispensável o comparecimento de todos.» Tenho uma clara recordação dessa assembleia Primeiramente, Louis tomou a palavra: «Antes que o Senhor Bournat explique, dentro do possível, o que ocorreu, vou dizer algumas coisas. Vocês sabem que não estamos na Terra. Concluído o salvamento dos feridos, vamos enfrentar tarefas difíceis. Antes de mais nada, temos que nos organizar.

Nenhuma comunidade humana pode subsistir sem leis. Uma parte da Terra nos acompanhou: mede aproximadamente 30 quilômetros de comprimento por 17 de largura, e tem mais ou menos a forma de um romboide, com uma superfície total de 300 quilômetros quadrados. Porém não se pode ter ilusões: somente uma quarta parte está apta para o cultivo; o resto não são mais que montanhas de cabeça pra baixo. Eu acredito que esta superfície será suficiente para alimentar-nos, ainda que nossa população aumente com relação ao censo atual.

O verdadeiro problema não é o de terras, que serão mais que suficiente para que todo mundo possua milhares de hectares, já que um planeta inteiro nos aguarda. O problema real é o da mão de obra. A partir deste momento, todo mundo é indispensável e todo mundo deve trabalhar. Temos a sorte de ter conosco sábios e técnicos.

Porém todos devemos nos considerar como pioneiros e adotar esta mentalidade.

Aquele que em lugar de ajudar o seu vizinho, o prejudique, é um criminoso, e assim deve ser considerado. Queiramos ou não, esta é, no futuro, nossa lei, e devemos respeitá-la ou perecer! Agora mesmo, com a ajuda de voluntários, vou organizar um comitê de inscrição por profissões. Os que estão aqui nos informarão sobre os ausentes.

Amanhá se reunirá a assembleia que vai eleger os deputados mandatários pra a constituição do nosso governo, continuando a jurisdição do conselho municipal sobre os assuntos ordinários. E agora cedo a palavra ao Senhor Bournat».

Meu tio levantou-se, apoiado em seu bastão.

«Meus amigos: como sabeis, uma catástrofe sem precedentes nos arrancou, temo que para sempre, da nossa velha Terra, e nos projetou neste mundo desconhecido.

Qual é este planeta? Não saberia dizê-lo. Haveis podido comprovar que existem dois sois e três luas. Nos vos assusteis por eles. O Senhor cura e o Senhor mestre, que têm vindo ver-me com frequência no observatório, os dirá que isto aconteceu „Por um azar providencial“ — aqui o pároco maneou a cabeça com ar de aprovação — caímos sobre um planeta que possui um ar respirável para nós, que em verdade difere apenas um pouco do da Terra. Segundo meus cálculos iniciais, este planeta deve ser ligeiramente maior que a Terra. Louis Mauriere, há pouco estabeleceu um esquema excelente da próxima tarefa a realizar. Tão logo saiba de alguma novidade deste mundo, que agora é nosso, os comunicarei».

A reação dos ouvintes foi, no geral, boa. Os camponeses haviam, evidentemente, aceitado o cataclismo. Rotineiros e apegados à terra, a maioria deles havia conservado suas famílias. Entre o pessoal do povoado a incredulidade foi maior: — Caramba! Que história a do velho e seu novo mundo! Não esperávamos isto nem depois de mortos.

— Mas… e os dois sóis?

— O mundo é muito pequeno. E depois temos que ver as coisas que se passam com sua ciência. Se queres minha opinião, trata-se de um novo experimento do mesmo gênero que o da bomba atômica.

Os dramas familiares foram também muito frequentes. Um rapaz estava aterrado ante a ideia de que nunca mais voltaria a ver sua noiva, que estava viajando, na casa de uma prima. Queria a toda custa mandar-lhe um telegrama. Outros tinham familiares soterrados sob as montanhas e sob as ruínas das suas casas.

O dia seguinte era domingo. Pela manhã fomos despertados por um carrilhão. O pároco, ajudado por seus fieis, havia recuperado os sinos que estavam nas ruínas da igreja, e agora os tocava em pleno ar, suspensos no ramo central de um carvalho.

Quando chegamos, havia terminado de celebrar uma missa de campanha. Era um homem excelente este sacerdote, e demonstrou mais tarde que sob sua rechonchuda pessoa ocultava vastas possibilidade de heroísmo Cheguei perto dele.

— Muito bem, Monsenhor, felicito-o. Seus sinos nos recordaram agradavelmente da Terra.

— Monsenhor? — perguntou.

— Claro, sois o Senhor Bispo agora. Diria ainda mais: o Santo Padre.

— Meu Deus! Não havia pensado nisto. É uma terrível responsabilidade — disse empalidecendo.

— Estou certo de que tudo seguirá perfeitamente.

Abandonei-o, muito assustado, e alcancei Louis instalado na escola. Estava sendo assistido pelo mestre e pela sua mulher, ambos jovens.

— Tua pesquisa avançou?

— Mais ou menos. O que uns omitem, os demais dizem em seu lugar. Tenho aqui uma recontagem provisória: 2 mestres, 2 carreteiros, 3 pedreiros, 1 carpinteiro, 1 aprendiz de carpinteiro, 1 garagista, 1 pároco e 1 clérigo, 1 sacristão, 3 cafeteiros, 1 padeiro, 2 camareiros, 2 camiseiros, 3 merceeiros de importados. 1 ferreiro e 2 ajudantes, 6 quebradores de pedra, 2 policiais, 5 contramestres, 350 operários, 5 engenheiros, 4 astrônomos, 1 geólogo, tu 1 cirurgião, 1 médico, 1 farmacêutico, 1 biólogo, 1 historiador, teu irmão, 1 antropólogo, 1 veterinário, 1 relojoeiro e especialista em radio, 1 alfaiate e 2 aprendizes, 2 modistas, 1 guarda oficial. Os demais são camponeses. Quanto ao velho Boru, quer ser classificado como «caçador furtivo». Ah! Ia esquecendo: o dono do castelo, seu filho, suas filhas, seu amante e ao menos doze capangas. Estes só nos causarão complicações!

— E quanto aos recursos materiais?

— Onze carros, sem contar o do teu tio e o 20Hp de Michel, que consome muito; 3 tratores, um deles com correntes; 18 caminhões, dos quais 15 são da fábrica; 10 motos e uma centena de bicicletas. Por desgraça, só dispomos de 12.000 litros de gasolina e 13.600 de óleo dieses. Poucos pneus de reserva.

— Não te preocupes pela gasolina, nós os faremos andar com gasogênio.

— E como produzirás o gasogênio?

— Na fábrica.

— Mas não há eletricidade. Temos geradores movidos a vapor, porém há pouco carvão e não muita madeira.

— Haverá hulha, não muito longe daqui, nas montanhas. Deve servir. Difícil de explorar, certamente, porém não temos escolha.

— Encontra-o. É teu ofício. Quanto aos víveres, estamos abastecidos, porém será necessário cuidar deles até a próxima colheita. Provavelmente serão necessários talões de racionamento. Me pergunto como os faremos aceitar isto!

As primeiras eleições em Tellus tiveram lugar no dia seguinte. Realizaram-se sem programa definido: os eleitores foram advertidos que iam eleger um comitê de Saúde Pública. Deveria compor-se de nove membros, eleitos por maioria relativa, votando, cada eleitor, em favor de uma lista de nove nomes.

O resultado foi uma surpresa: O primeiro eleito, com 987 votos sobre um total de 1.302 votantes, foi o primeiro prefeito adjunto, Alfred Charnier, um rico camponês. O segundo foi o mestre, seu primo distante, com 802 votos; o terceiro o Senhor cura com 890 votos. Depois vinham Louis Mauriere, com 802 votos; Marie Presle, camponesa ilustrada, ex conselheira municipal, com 801 votos; meu tio, 798 votos; Estranges, 780 votos, e, para nossa surpresa, Michel com 706 votos, — ele era muito popular entre a ala feminina! — e eu, com 700 votos. Soube depois que Louis havia feito campanha em meu favor, alegando que eu saberia encontrar ferro e carvão, necessários.

O dono do Café Principal, com grande despeito seu, só obteve 346!

O que mais nos surpreendeu foi a insignificante proporção de camponeses eleitos.

Talvez, naquelas estranhas circunstâncias, os eleitores se fixaram nos que, por seus conhecimentos, seriam mais capazes de tirar partido de tudo; pode ser também que desconfiassem uns dos outros, e optaram por eleger a homens alheios às querelas do povoado.

Como foi imposto, oferecemos a presidência a Charnier. Este recusou, e, finalmente, se designou por turno ao mestre e ao pároco.

À noite, Louis, que compartilhava uma casa com Michel e comigo, nos disse: — É necessário formar bloco. Vosso tio virá conosco. Creio que podemos contar com o mestre. Seremos cinco, ou seja, a maioria. Será preciso impor nossos pontos de vista, o que não será sempre fácil. Teremos o apoio dos operários, talvez dos engenheiros, e ainda de uma parte do pessoal do povoado. Não falo dessa forma por ambição pessoal, porém creio sinceramente que somos os únicos que sabemos claramente o que falta para dirigir este fragmento de terra.

— Na realidade, — disse Michel — tu nos propões uma ditadura.

— Uma ditadura? Não, apenas um governo forte.

— Não vejo, muito claramente, a diferença, — disse eu — mas creio que com efeito é necessário. Teremos oposição…

— O Senhor cura… — aventurou Michel.

— Não é certo. — cortou Louis — É inteligente, e como nós não vamos, de modo algum, meter-nos em questões religiosas, podemos tê-lo do nosso lado. Os camponeses?

Terão tanta terra quanto possam cultivar. Não há nada no coletivismo moderado que estou projetando, exclusivamente para a indústria, que possa inquietá-los. Não, as dificuldades virão do espírito de rotina. Ao menos num futuro próximo. Mais tarde, dentro de algumas gerações, o problema poderá ser outro. Hoje se trata da subsistência.

E se começamos a brigar ou a permitir que reine a desordem…

— Tudo bem, estou de acordo.

— Eu também. — disse Michel — Nunca pensei que faria parte de um Diretório!!

A primeira reunião do Conselho dedicou-se à distribuição das «pastas».

— Comecemos pela Educação Nacional. — disse Michel — Proponho que o Senhor Bournat seja nosso Ministro das Ciências. Não podemos, sob propósito algum, deixar que nossa herança seja perdida. Cada um de nós, «os cientistas», deverá escolher, entre os alunos da escola, aqueles que nos pareçam mais aptos. Lhes ensinaremos primeiramente o aspecto prático de nossas respectivas especialidades. A teoria será ensinada aos mais capazes, se houver. Será mister, também, escrever os livros necessários para completar a biblioteca do observatório, que é, afortunadamente, vasta e eclética, e a da escola também.

— Muito bem. — disse Louis — Proponho para a Indústria ao Senhor Estranges; O Senhor Charnier, Agricultura; tu, Jean, ficarás com o cargo das Minas, cargo de muita importância. O Senhor cura terá a administração de Justiça e Paz, e o Senhor mestre as Finanças, já que ele estudou economia política, era seu passatempo. Seria necessário estabelecer uma moeda o qualquer meio de câmbio.

— E eu? — perguntou Michel.

— Tu podes dirigir a polícia.

— Eu? Policial?

— Sim, um cargo difícil: o censo e padronização, requerimentos, Ordem Pública, etc. Tu és popular, isto te ajudará.

— Não vou durar muito tempo! E tu, que cargo terás?

— Um momento. Marie Presle se ocupará da Saúde Pública, assistida pelo Doutor Massacre e pelo Doutor Juillet. Para mim, se concordarem, o Exército.

— O Exército? E porque não a Frota?

— Quem sabe o que este planeta nos reserva? Não me surpreenderia muito se nosso habitante do castelo não faça alguma das suas muito em breve.

Louis não podia estar tão certo. No dia seguinte, numerosos exemplares de um cartaz «impresso» apareceu por nossas ruas. Seu texto era o seguinte: «Cidadãos e camponeses: um pretenso comitê de Saúde Pública empunhou o poder sob a aparência de democracia. Quem compõe este Conselho? Cinco estrangeiros entre nove membros! Um operário, três intelectuais, um engenheiro e um mestre.

Total de seis votos contra três votos camponeses e o do Senhor cura, arrastado nesta aventura. Que pode saber esta Junta de vossas legítimas aspirações? Quem, ao contrário, melhor que eu, grande proprietário rural, poderia compartilhá-las? Vinde comigo e poremos para correr toda essa quadrilha! Podeis encontrar-me no castelo Assinado: JOAQUIN HONNEGER.

Louis cantou vitória.

— Eu lhes disse, temos que tomar medidas.

A primeira delas foi a de requisitar todas as armas e distribuí-las entre uma guarda selecionada entre os elementos de confiança. Organizou-se com cinquenta homens sob o comando de Simon Beauvin, tenente da reserva. Este embrião de exército era, apesar de tudo, uma força apreciável.

Por aqueles dias, tivemos a confirmação da nossa solidão. Os engenheiros, ajudados por Michel e por meu tio, conseguiram montar um aparelho emissor de bastante potência, Radio Tellus. Havíamos designado o nome Tellus, designação latina de Terra, em homenagem ao nosso antigo mundo. A lua maior foi Febo, a segunda, Selene e a terceira Ártemis. O sol azul foi Helios, o sol vermelho, Sol; sob estes nomes vós os conheceis.

Com emoção, Simon Beauvin lançou as ondas ao espaço. Por quinze dias seguidos repetimos a experiência em uma gama muito variada de longitude de onda. Não chegou resposta alguma. Visto que o carvão escasseava, fomos espaçando nossas chamadas até somente uma por semana. Tivemos que nos resignar: ao nosso redor não havia nada mais que solidão. Ou talvez alguns pequenos grupos sem radio.

III — AS HIDRAS

Além de outros pasquins do mesmo estilo, rapidamente destruídos, Honneger não voltou a manifestar-se. Não pudemos pegar com a mão na massa os que pregavam os cartazes, porém o dono do castelo deveria, muito em breve, recordar-nos da sua existência de uma maneira trágica.

Recordam de Rose Ferrier, a moça que salvamos, no primeiro dia, das ruínas da sua casa? Embora muito jovem, — ela tinha então dezesseis anos — era a mais bonita do povoado. O mestre havia nos advertido que antes do cataclismo Charles Honneger lhe fazia a corte muitas vezes.

Uma noite vermelha, fomos despertados por uns disparos. Michel e eu saltamos da cama, precedidos, apesar de tudo, por Louis. Ao sair de casa topamos com pessoas excitadas, correndo na semi-noite púrpura. Pistola na mão, marchamos a toda pressa na direção dos disparos. O piquete da guarda já estava lá, e pudemos ouvir os fuzis de caça, misturados ao «craques» da «Winchester» do velho Boru, o qual fora designado como sargento, na guarda.

Produziu-se um resplendor, que foi aumentando: uma casa estava ardendo. A batalha parecia confusa. Quando chegamos à praça do poço, as balas silvavam ao nosso redor, seguidas pelos estalos de uma arma automática: os assaltantes tinham metralhadoras Subindo, nos juntamos a Boru.

— Peguei um. — nos disse ele satisfeito — Novo. Como fazia com as camurças, nos outros tempos — Quem? — inquiriu Michel.

— Não sei. Um desses porcos que nos atacam.

— Soaram entretanto alguns disparos, seguidos por um grito de mulher: — Socorro, me ajudem!

— Rose Ferrier! — disse Louis — Este canalha do Honneger a levou!

Uma rajada de fuzil metralhadora nos obrigou a baixar a cabeça. Os gritos decresciam na distância. Um carro se pôs em marcha.

— Espera um pouco, porco. — gritou Michel.

Uma risada de mofa lhe respondeu.

Perto do incêndio vimos alguns mortos e um ferido que se arrastava. Ante nossa estupefação reconhecemos o alfaiate. Ele havia sido atingido na coxa, e encontramos um carregados de metralhadora nos seu bolso.

Levou-se a cabo um rápido interrogatório. Pensando em salvar a pele, ele contou ou planos de Honneger, ou menos o que ele sabia: Ao amparo das armas automáticas e apoiado por um bando de uns cinquenta bandidos, tinha a intenção de apoderar— se do povoado e ditar sua lei a este mundo.

Afortunadamente para nós, seu filho, que há muito tempo desejava Rose, não tinha tido a paciência de aguardar e havia vindo raptá-la com um cortejo de doze bandidos.

O alfaiate era o seu espião e deveria ter seguido com eles. Ajudado pelo dono do Bar Principal, Juillet Maudru, era ele que pregava os cartazes. Ele foi enforcado naquela mesma noite, junto com seu cúmplice, no ramo de um carvalho.

Este episódio nos custou três mortos e seis feridos. Três moças, Rose, Micheline Audry e Paquita Presle, sobrinha de Marie, haviam desaparecido. Em compensação, esse ataque alinhou conosco todo os povoado e os camponeses.

Os bandidos tiveram dois mortos, além dos cúmplices justiçados.

No lugar da agressão recuperamos duas metralhadoras, uma pistola e uma boa quantidade de munição.

Antes do amanhecer azul, o Conselho, por unanimidade, decretou como fora da lei a Charles e Joachin Honneger e seus cúmplices e a mobilização de um pequeno exército. Porém graves acontecimentos iam atrasar o ataque ao castelo.

Pela manhã, enquanto o exército se reunia, apareceu, enlouquecido, um homem em uma moto. Três dias antes, este mesmo camponês que morava com sua mulher e seus dois filhos em uma granja isolada, a uns cinquenta quilômetros do povoado, nos havia comunicado que uma de suas vacas havia morrido em circunstâncias estranhas.

Pela manhã estava perfeitamente bem e à noite apareceu morta na pastagem, sem sangue e quase sem carne. Sobre sua pele apareciam uns buracos espalhados.

O homem desceu da moto com tanta precipitação que rodou rolou no pó. Estava lívido.

— Animais que matam! São polvos voadores e matam de um golpe só!

Depois de tê-lo confortado com um copo de aguardente, pudemos obter dados mais precisos.

— Esta manhã, ao amanhecer, fiz as vacas saírem. Queria limpar o estábulo. Meu filho Pierre as levou para pastar. Juro! eu havia visto perfeitamente uma nuvem verde, muito alta, porém não lhe dei importância. Senhor meu, em um mundo que tem dois sois e três luas, as nuvens bem podem ser verdes, pensei. Pois sim! Que asco!

Ela desceu, e vi cerca de uma centena de polvos verdes, com tentáculos que se agitavam. Se lançaram sobre as vacas e os pobres animais rolaram pelo solo, mortos.

Em seguida eu gritei para que Pierre se escondesse. Porém o desgraçado não teve tempo!

Um dos polvos nadou no ar e, a três metros de distância, lançou uma espécie de língua que alcançou meu filho pelas costas e o matou. Então encerrei minha mulher e meu caçula, a chave, mandei que não se movessem e peguei a moto. Aqueles asquerosos me perseguiram, porém eu pude escapar. Por piedade, venham comigo! Tenho medo que eles possam entrar na casa!

Pela descrição dos agricultor reconhecemos no mesmo instante o animal que vimos no pântano. O que nos surpreendeu foi que voasse. De qualquer forma, era um perigo terrível. Com Michel, subimos num veículo levando as duas metralhadoras e Vandal se instalou de vigia no assento traseiro. Beauvin formou um destacamento da guarda com um caminhão coberto e partimos.

Dois quilômetros mais adiante, encontramos a primeira Hidra. É o nome com que as designou Michel e que permaneceu. Estava sobrevoando uma ovelha. Um tiro de fuzil a abateu. Apesar das súplicas do lavrador, que não queria deter-se, mandamos a caravana parar.

— É preciso conhecer os inimigos antes de combatê-lo. — explicou-lhe Vandal.

O animal alcançava quatro metros de comprimento e tinha a forma de uma bota pelo avesso, com uma cauda potente e achatada. Na parte anterior, seis braços côncavos tinham nas suas extremidades uma abertura coroada de dentes afiados que segregavam uma baba viscosa. Tinha seis olhos na base dos tentáculos, e no centro uma protuberância cônica dotada de um longo filamento, rematada por um tubo em forma de chifre, seccionado obliquamente, com uma agulha de injeção.

— Uma cápsula de veneno. — disse Vandal — Aconselho combatermos dentro do caminhão, cujo toldo de lona grossa seguramente nos protegerá. É realmente o mesmo animal que vimos outro dia, porém maior e aéreo. Como são capazes de voar?

Na parte superior do corpo, a hidra possuía dois grandes sacos murchos, perfurados pelo chumbo. Atras da coroa de tentáculos, o grosso da carga havia provocado uma exposição considerável da carne esverdeada.

Partimos de novo. Baixei um pouco um vidro do meu lado, a fim de dar passagem ao cano da metralhadora. Michel dirigia. Vandal havia pegado a outra arma e vigiava o lado esquerdo. O caminhão nos seguia.

Após uma curva na estrada, descobrimos outra hidra. Flutuava no ar, imóvel, os tentáculos caídos e ondulando ligeiramente.

Por causa da surpresa, minha primeira rajada foi mal dirigida e a hidra, com uma rápida reação escapou em zig-zag, tomando altura a grande velocidade: ia pelo menos a sessenta por hora! Não pudemos alcançá-la.

A seiscentos metros dali estava a casa. Uma espiral de fumaça saia aprazivelmente da chaminé.

Ultrapassamos a casa e tomamos um caminho de areia. Seus profundos sulcos nos fizeram resvalar. Por trás dos vidros de uma janela entrevimos o rosto assustado da granjeira e do seu filho menor, um garoto de onze ou doze anos. Seguindo o campo e atravessando, chegamos aos pastos. Mais de sessenta hidras estavam atarefadas entre os cadáveres das vacas. Cada uma delas fincava um ou dois tentáculos em suas carnes.

— Havia mais, um momento atrás. — gritou o camponês — Cuidado!

Até a primeira carga, as hidras nem se preocuparam conosco. Algumas, de tão fartas, abandonavam os cadáveres para ir beber; ao menos foi assim como interpretamos seu comportamento. Voavam até uma balsa e afundavam na água um tentáculo, maior que os demais, parecido com um tronco. Depois de um instante, pareciam inchar— se e seu voo era claramente mais rápido.

Cada um escolheu seu alvo. Eu visei, cuidadosamente, o grupo mais próximo, composto por seis daqueles animais, entretidos com a mesma vaca.

— Fogo! — gritou Beauvin.

Produziu-se uma salva, como o som de seda rasgada. As cápsulas vazias da minha metralhadora crepitavam contra o parabrisas. Uma delas, encandecida, caiu pela abertura da camisa de Michel, que deu um grito. Entre as hidras formou-se o pânico.

Um bom número delas, feridas de morte, cairam ao solo desinfladas. Minhas rajadas acertaram no alvo. Vandal, mais afortunado ainda, o mais certeiro, matou duas delas com um só carregador. Os tiros das escopetas as despedaçavam.

As que ficaram vivas, tomaram altura a uma velocidade admirável. Segundos depois, somente se divisava uma mancha verde no alto.

Com as armas carregadas de novo, desci do carro com Michel e Vandal. Os demais permaneceram no caminhão, atentos e cobrindo-nos com seu fogo. A pele das vacas mortas aparecia perfurada por múltiplas aberturas quase circulares, produzidas, evidentemente, pelos dentes pontiagudos situados no extremo dos tentáculos. A carne havia se transformado em uma espécie de barro escurecido.

— Digestão externa, — explicou Vandal — com na larva de dítico. A hidra mata com seu mecanismo venenoso e depois injeta no corpo da sua vítima, através dos tentáculos, os sucos digestivos que transformam esta carna em uma sopa nutritiva, depois do que a absorve.

Desejoso de examinar o monstro mais de perto, Vandal aproximou-se de cócoras.

Ao roçar com a mão a carne verde, lançou um grito de dor: — Cuidado! Não as toquem.

Isto queima. Sua mão esquerda cobriu-se de pústulas esbranquiçadas.

— Como um celentério! Já conhecem o poder urticante das medusas. O mesmo resultado, talvez com idêntico procedimento. Se as toca é picado.

Sua mão inchou rapidamente, com dor sensível, porém o efeito não durou mais que dois dias.

Entretanto, a nuvem verde das hidras permanecia imóvel. Estávamos por ali, inquietos, temendo seguir, com medo que nos atacassem novamente, e também pelo fato de que talvez Honneger não tentasse um golpe de força sobre o povoado.

As próprias hidras deviam tirar-nos da indecisão.

— Em retirada! — gritou Michel, que as observava. Saltamos para o carro. Vandal entrou primeiro, após ele Michel e finalmente eu mesmo. Estava fechando a portinhola, quando uma hidra se precipitou sobre o carro, achatando-se contra o teto que, afortunadamente, resistiu ao embate. As demais, em uma roda infernal, rodeavam o caminhão a toda velocidade. Era um fantástico carrossel.

Apressadamente levantei o vidro, observando o espetáculo, disposto a intervir.

Produziu-se um nutrido fogo das escopetas. Certamente os da guarda não economizavam pólvora. As hidras feridas caíam ao solo, enquanto as demais continuavam sua enlouquecedora brincadeira de roda. De repente, como se obedecendo a um sinal, passaram ao ataque com o dardo distendido. Do caminhão ouviu-se um grito: uma hidra devia ter passado seu aparelho venenoso por uma fenda no toldo, picando um homem. O caminhão se pôs em marcha. Abrimos fogo. Em pouco tempo realizamos um bom trabalho. Era difícil, do modo como estavam pregadas no caminhão, alcançá— las sem ferir aos nossos camaradas, porém, como nenhuma delas se ocupava de nós, as acertávamos como em uma prova de tiro ao alvo. Derrubamos mais de trinta que, somadas às vitimas do primeiro assalto, aumentava o total das suas perdas em torno de setenta.

Desta vez aceitaram a lição e se elevaram definitivamente.

Uma delas, morta porém ainda inflada, derivava no ar a uns dois metros. Habilmente, um de nossos homens caçou-a com um laço e a levamos ao povoado, rebocada como um balão cativo.

Levamos também o granjeiro, sua mulher, seu filho menor e o cadáver maio digerido do maior. As doze vacas mortas ficaram ali, bem como as hidras, exceto uma delas, que Vandal mandou carregar com cordas, para dissecá-la mais tarde.

Contrariamente aos nossos temores, ninguém havia sido picado. O grito que havia ouvido foi devido ao medo. Porem, em resumo, agora já conhecíamos a gravidade da ameaça que a fauna selvagem de Tellus representava para nós.

Regressamos ao povoado como triunfadores. Os guardas, operários em sua maioria, cantavam estribilhos revolucionários. Michel e eu atroávamos o ar com as trompas de Aída, da maneira mais cursi possível.

Porém as notícias que Louis nos comunicou esfriaram um pouco nosso entusiasmo.

IV — VIOLÊNCIAS

Um reconhecimento efetuado no setor do castelo, por doze guardas, foi acolhido por uma rajada de metralhadora de 20mm. Uma prova disto foi um projétil que não detonou.

— Eis aqui os fatos. — disse Louis — Estes canalhas têm um armamento bastante mais poderoso que o nosso. Contra isto — mostrou o projétil — nossas escopetas para coelhos são como uma zarabatana… Realmente, só temos uma arma: o Winchester do velho Boru.

— E as metralhadoras. — disse eu.

— Perfeitas para o combate a trinta metros! E o que nos resta de munição apropriada?

Por outro lado, não podemos deixar-lhes o campo livre. Com certeza, Michel, tua irmã não está segura no observatório.

— Se esses canalhas se atreverem…!

— Se atreverão, rapaz. Dispomos de cinquenta homens, sem bom armamento e com pouca munição Eles são mais de sessenta e bem armados. E essas carniças de polpas verdes no meio! Se Constantino estivesse aqui!

— Quem é Constantino?

— Constantino é o engenheiro encarregado dos detonadores. Ah claro, não estás ao corrente. A fábrica tinha que fabricar, entre outras coisas, detonadores de explosivos para aviões. Temos um lote completo, porém somente as cápsulas metálicas, não as cargas. Claro que no laboratório de química deve haver o necessário para carregálas, porém nos falta o pessoal capaz de realizar isto.

Peguei suas mãos e sacudi.

— Luiz, rapaz, estamos salvos! Sabias que meu tio é comandante da reserva da artilharia?

— Bom, porém não temos canhões.

— Ele efetuou seu último período em antiaéreos. Estará ao corrente da questão.

Tudo se resolverá, se realmente encontrarmos os produtos químicos necessários. Ele e Beauvin se encarregarão disto. Em caso necessário poderão funcionar, para o que nós precisamos, com pólvora negra.

— Porém tudo isto nos levará dez ou quinze dias, e enquanto isto….

— Sim, enquanto isto teremos que mantê-los ocupados. Espera.

Corri ao hospital, onde estava meu irmão convalescente, acompanhado de Breffort.

— Diz, Paul. Poderias construir uma catapulta romana?

— Sim, é fácil. Porque?

— Para atacar o castelo. Que distância podemos alcançar?

— Isto depende do peso que se deseje lançar. Entre trinta a cem metros com facilidade.

— Certo, traça os planos.

Voltei para Louis e Michel e lhes expus meu plano.

— Não está mal, — observou Louis — porém cem metros são cem metros e uma metralhadora de 20 milímetros alcança mais longe.

— Perto do castelo há uma concavidade à qual se chega por um desfiladeiro, se bem me recordo. Trata-se de instalar a catapulta neste espaço.

— Ou seja, — disse Michel — queres lançar-lhes cargas de explosivos e metais. Onde obterás o explosivo?

— Temos trezentos quilos de dinamite no canteiro. A provisão foi renovada antes de ocorrer o cataclismo.

— Mesmo assim não tomaremos o castelo. — disse Michel balançando a cabeça.

— Mas não se trata disto, e sim de ganhar tempo, de fazê-los crer que desperdiçamos munição em ataques fúteis. Até que as granadas entejam prontas.

Por ordem do conselho, Beauvin mandou umas patrulhas sondar as defesas do inimigo.

Igualmente, se fosse o caso, deveriam também assinalar a presença das hidras.

Foram equipadas com um pequeno emissor de radio, fruto das horas de ócio de Estranges.

Depois, iniciamos a construção da catapulta. Sacrificou-se um freixo novo que foi transformado em pranchas. Terminamos a construção e ensaiamos com blocos de rocha.

Seu alcance se revelou satisfatório.

Nosso pequeno exército, sob o comando de Beauvin, encaminhou-se ao castelo, com três caminhões e três tratores rebocando a catapulta.

Durante oito dias não houve mais que escaramuças. Na fábrica se trabalhava febrilmente.

Ao nono dia fui ao fronte com Michel.

— E então, — perguntou Beauvin — está pronto?

— As primeiras granadas chegarão hoje ou talvez amanhã — respondi.

— Ufa! Devo confessar que não estava tranquilo. Se eles chegarem a fazer um ataque….

Fomos aos postos de vigilância.

— Para além desta crista, — disse-nos o velho Boru, que em sua qualidade de ex-sargento veterano da guerra de 1939-45 comandava os pelotões de vanguarda — ficamos sob o fogo das metralhadoras. Que eu saiba há quatro: duas de 20mm e duas mais de 7,5mm. Provavelmente têm também fuzis-metralhadora.

— Fora do raio das catapultas?

— Não tentamos alcançá-las. Temos nos resguardado cuidadosamente de revelar as possibilidade de nossas armas. — disse Beauvin.

— E do outro lado do castelo?

— Fortificaram o lugar com troncos de árvores. Além disse, a estrada está sob fogo.

Impossível levar o material pesado para lá.

— Aguardemos.

Trepando, chegamos até a crista. Uma metralhadora pesada a vigiava.

— Poderíamos tentar alcançá-la. — disse Michel — Sim, porém não atacaremos até que tenham chegado as granadas. Imagino que na próxima madrugada azul estarão aqui.

Naquele momento chegou um caminhão do povoado, com meu tio, Estranges e Breffort. Descarregaram várias caixas.

— Eis aqui as granadas. — Disse Estranges.

Eram formadas por um tubo fundido, armado de um detonador.

— E as espoletas. — disse meu tio — Testamos. Alcance: 3,5Km. Precisão bastante boa. Sua cabeça contém um quilo de resíduos de fundição e a correspondente carga de TNT. Chegará um outro caminhão com os cavaletes de lançamento e mais caixas.

Há 50 espoletas deste modelo. Fabricamos outras mais potentes.

— Nossa artilharia foi lançada! — disse Beauvin.

Naquele momento um homem desceu pela encosta.

— Agitam uma bandeira branca. — disse.

— Estão se rendendo? — perguntei, incrédulo.

— Não. Querem parlamentar.

— Responda. — ordenou Beauvin.

Do bando inimigo se destacou um homem que avançou agitando um lenço. Boru lhe indicou um lugar à meia distância, na «no man's land», e o escoltou. Era Charles Honneger, em pessoa.

— Que quereis? — perguntou Beauvin.

— Falar com vossos chefes.

— Aqui há quatro.

— Para evitar derramamento de sangue inutilmente, propomos o seguinte: vocês dissolverão o Conselho e entregarão as armas, nós tomamos o poder. Nada lhes ocorrerá.

— Exato, quereis reduzi-nos à escravidão. — disse eu — Eis aqui nossa contra-proposta: Devolvereis as jovens que raptastes e deporeis as armas. Vossos homens serão postos sob vigilância, e tu e teu pai será aprisionados para serem julgados.

— Não te falta cinismo! Já vens outra vez com tuas histórias.

— Eu os advirto — disse então Michel — que se os vencermos e houver morte entre nós, sereis enforcados.

— Me lembrarei disto.

— Neste caso, já que não quereis se entregar, — disse — proponho por as moças em segurança, o mesmo quanto à tua irmã e à Senhorita Ducher, sob aquela laje, por exemplo.

— Nem pensar! Minha irmão não tem medo, tampouco Magdalena. Se as demais morrerem, eu vou rir. Haverão outras, depois da vitória; tua irmã, por exemplo…

Imediatamente caiu no solo, com a cara inchada. Michel havia sido mais rápido que eu.

— Atacaste um parlamentar. — disse lívido.

— Tu não és um parlamentear, e sim um porco. Vem, anda!

Foi conduzido «manu militari». Mal havia cruzado o morro, quando chegou o segundo caminhão. Os cavaletes de lançamento foram montados rapidamente.

— Dentro de dez minutos abriremos fogo. — disse Beauvin — Pena não termos um observatório!

— Este montículo, — observei eu — designando, a cem metros atrás, um desnível de uns cinquenta metros de altitude.

— Está sob fogo inimigo.

— Sim, porém dali pode-se ver o castelo. Tenho uma vista excepcional. Vou levar este telefone comigo. O fio parece ser longo o bastante.

— Vou contigo. — disse Michel.

Partimos, desenrolando o fio. A meia altura, chispas de pedras saltando por todos os lados nos indicaram que havíamos sido descobertos. Nos agachamos e, contornando o cerro, chegamos à vertente abrigada.

Dali de cima víamos perfeitamente as linhas inimigas. O pequeno fortim da metralhadora pesada situava-se por trás de uma trincheira e estava franqueado de ninhos de fuzis metralhadoras. De tempos em tempos viam-se os homens movendo-se, através das pequenas aberturas.

— Quando estavam com o alfaiate, deveriam ser cinquenta ou sessenta. Porém agora, com seu sistema de fortificações, serão mais numerosos. — observou Michel.

A um quilômetro, visto de cima, a meia encosta, erguia-se o castelo. Pequenas formas negras entravam e saiam.

— É uma pena que Vandal tenha quebrado seus binóculos!

— Agora não temos mais que lunetas. São potentes, porém pouco manejáveis!

— Se pudesse desmontar um pequeno postigo.

— Terás tempo para fazer isto. Estranharia se não nos apoderássemos hoje do castelo.

— Atenção! Atenção! — ouviu-se pelo telefone — Dentro de um minuto abriremos fogo contra o castelo. Observem.

Dei uma olhada sobre nosso campo. A metade dos homens se plantou justo por trás do monte. Outros estavam atarefados ao redor das catapultas. Estranges e meu tio ultimavam cuidadosamente as plataformas de lançamento. Os caminhões haviam voltado.

Às 8h 30m, exatamente, seis riscas de fogo saíram de nosso entrincheiramento.

Tomaram altura, deixando um rastro de fumaça, que desapareceu. As espoletas consumiram sua carga explosiva Seis pequenos relâmpagos no pátio do castelo, transformando— se em seis pequenas nuvens de fumo. Segundos mais tarde, o som de secas detonações chegaram até nós.

— 30 metros, curto. — assinalei.

Lá em cima, quatro figuras negras fizeram sua aparição nas brancas ameias.

Novamente, outras seis cargas se elevaram. Uma delas explodiu na meio do portal do castelo, e as quatro pessoas caíram. Três se levantaram vacilantes, e arrastaram a outra para o interior da casa. Um dos explosivos desapareceu por uma janela. Os restantes explodiram nos muros, sem produzir danos graves, aparentemente.

— Isso! — gritei.

Uma após outra se dispararam dezesseis granadas; uma acertou o carro de Honneger, à direita da casa, e o incendiou.

— Basta de granadas. — telefonou Beauvin — Usem as catapultas.

Subiram três cargas. Erraram o fortim por pouco.

— Um pouco alto. — assinalou Michel.

— Empurrei-o ao solo. Não podendo alcançar nossos homens, escondidos atrás do monte, a metralhadora atirava acima de nós. Durante alguns minutos não ousamos mover-nos. As balas sibilavam por cima das nossas cabeças. Obuses de 20mm rolavam por terra, um pouco abaixo de nós.

— Afortunadamente não têm morteiros.

— Temos que mudar este posto de observação. Desçamos um pouco A metralhadora e os fuzis-metralhadora emudeceram.

— Tiro de fustigamento sobre território inimigo. Observe.

Os projéteis caíram ao azar ou desapareceram entre os abetos, sem outro resultado visível que o incêndio de um palheiro.

Os disparos recomeçaram, porém nesta ocasião apontavam à crista. Um dos nossos homens, ferido, se deixou cair pela elevação. Havia chegado outro caminhão, trazendo cargas de maior calibre.

Massacre abaixou-se.

— Atenção! Fogo de catapultas.

Desta vez, uma carga caiu em cheio sobre o fortim inimigo. Houve gritos de dor, porém a metralhadora continuava a atirar.

— Superioridade das armas de tiro curvo sobre as de tiro rasante, é a guerra de trincheiras. — fez notar Michel — Cedo ou tarde destruiremos sua guarida e eles, em troca, não nos podem atingir.

— Me pergunto porque não ocuparam a crista.

— Demasiado fácil de rodear. Olha o que te dizia! Atenção à esquerda. — telefonou — Seis homens sobem por lá.

Quatro guardas acudiram ao lugar ameaçado. O cimo da crista, batida pelas armas automáticas era insustentável para nós, e o velho Boru havia recuado com seus homens.

Das trincheiras inimigas surgiram uns trinta homens. Correram e se agacharam.

— Ataque de frente!

Na esquerda crepitavam as detonações. Beauvin deixou o inimigo se aproximar até quinze metros, depois mandou lançar as granadas. Os tubos de fundição, cheios de explosivos, cumpriram bem sua missão. Onze mortos e feridos ficaram sobre o campo.

Antes que o inimigo se refizesse, o Winchester de Boru causou duas baixas. Na esquerda, quatro mortos e três feridos, um dos quais foi capturado. Tinha o braço direito ligeiramente destroçado pelos cartuchos de caça e morreu enquanto Massacre tentava fechar o ferimento com uma venda.

Durante um quarto de hora, as catapultas não descansaram. Na décima segunda tentativa, uma carga acertou o ninho da metralhadora, reduzindo-a a um silêncio definitivo.

Dos fuzis-metralhadora, três foram neutralizados, o último deve ter travado, pois parou de atirar.

Nossos homens atacaram e, à custa de dois feridos, alcançaram as linhas inimigas, capturando três prisioneiros. Os demais conseguiram escapar.

Enquanto nosso pelotões de reconhecimento avançavam com prudência, saturamos o castelo com granadas. Houve uma dezena de tiros acertados. Com curiosidade segui a trajetória das seis primeiras do modelo superior. Desta vez os muros cederam e uma ala do castelo desabou.

Um rápido interrogatório dos prisioneiros nos informou sobre a força inimiga. Suas perdas eram de 17 mortos e 20 feridos. Restavam como defensores do castelo uns 50 homens. Nossa primeira vitória nos proveu de dois fuzis-metralhadora, uma metralhadora de 20mm, intacta, e munições em abundância. Nosso pequeno exército deixou de ser, num instante, uma piada.

Aguardando a volta dos exploradores, continuamos a saturação de fogo no castelo, quando se declarou um incêndio Finalmente, os exploradores regressaram. A segunda linha inimiga, a 200m do castelo, estava composta de trincheiras, com três metralhadoras e um certo número de fuzis-metralhadora. O belho Boru, depois do seu informe, acrescentou: — Eu me pergunto o que eles queriam com todas estas armas. Não podiam prever o que ia ocorrer. Será necessário informar a polícia.

— Mas homem, agora a polícia somos nós!

— Ah, isso é verdade! Isto simplifica as coisas.

Beauvin nos acompanhou até a colina, estudou minunciosamente a paisagem e pediu a Michel, excelente desenhista em seus momentos de folga, um croqui dos arredores.

— Vocês permanecerão aqui, com dois homens e a artilharia. Eu levo os demais, com as catapultas e a metralhadora. Levo também três projéteis de sinalização.

Quando os virem, cessem fogo. A linha inimiga está situada em pequena altura, bordeando o jardim. Atirem com precisão.

— Vais levar Massacre?

— Não, ele fica aqui. É o único cirurgião deste mundo.

— Certo. Porém recorde-se de que você é engenheiro.

Arrastando a metralhadora e as catapultas, a tropa partiu. Eu ordenei à artilharia que iniciasse o fogo sobre as trincheiras. Durante três quartos de hora, à cadência de duas granadas por minuto, — era mister economizar as munições, não tínhamos mais que 210 granadas, e a fábrica havia feito prodígios para isto! — estivemos fustigando o inimigo. Do nosso observatório, por falta de binóculos, não pudemos apreciar os danos com precisão. Em geral o tiro era centrado sobre a metade das duas extremidades, onde nos havia assinalado a presença de metralhadoras. Estávamos na salva 33, quando nossa metralhadora começou a atirar. A granada 45 acabara de explodir justamente em cima da colina, quando vi subir uma coluna de fumo de uma granada de sinalização.

— Alto ao fogo!

No outro lado do castelo produziu-se um tiroteio. Os nosso atacavam também aquele setor. Notei com alivio a ausência de armas automáticas. Durante vinte minutos a batalha se manteve ao vermelho rubro, acentuada pela explosão das granadas e o rumor surdo das cargas de catapulta.

Ao fim se fez silêncio. Nos perguntávamos, com ansiedade, em muda interrogação, sobre o êxito do ataque e quais seriam nossas perdas Saindo do bosque, apareceu um guarda, esgrimindo uma nota. Desceu a elevação e chegou perto de nós.

— Estamos progredindo — disse-nos ofegante.

Entregou-nos uma mensagem. Febrilmente, Michel a abriu e leu em voz alta.: «Forçamos as linhas, 5 mortos e 12 feridos. Fortes perdas inimigas. Uns vinte homens se entrincheiraram no castelo. Toma um caminhão e leva cavaletes lança-granadas e leva o doutor também. Detenham-se na casa da guarda. Tenham cuidado, pode haver elementos inimigos emboscados.

Encontramos Beauvin na casa da guarda.

— A coisa foi breve, mas interessante. Suas granadas deram um excelente resultado.

— disse ao meu tio — Sem elas… e sem suas catapultas… — acrescentou, voltandose para mim.

— Quem morreu dos nossos?

— Três operários: Salavin, Freux e Robert. Dois camponeses, cujo nome entretanto desconheço. Temos três feridos graves na casa ao lado.

Massacre foi para lá imediatamente.

— Nove feridos sem gravidade, entre os quais eu mesmo: — mostrou sua mão enfaixada — uma explosão na base do polegar.

— E entre eles?

— Muitos mortos e feridos. As três últimas salvas caíram em cheio sobres as trincheiras.

Venham ver.

Realmente, havia sido um «bom trabalho». A artilharia não o teria feito melhor (ou pior).

Ao levantar a cabeça, uma rajada de balas nos recordou a prudência.

— Conseguiram levar uma metralhadora ligeira e um fuzil-metralhadora. Senhor Bournat, ensine a estes homens o manejo dos seus cavaletes de lançamento.

— Não é necessário, vou eu mesmo.

— Não vou consentir que se exponha!

— Fiz toda a campanha da Itália no ano de 43. Eles eram piores que os «Fritz» de Hitler. Em segundo lugar, há excesso de astrônomos, E terceiro, sou comandante da reserva, e voce não é mais que um tenente. Vamos, pode retirar-se!. — concluiu, brincando — Está bem. Mas seja prudente.

Os lança-granadas foram dispostos em bateria, a uns escassos 200m do castelo. A temível residência estava muito depauperada Toda a ala direita fora incendiada. Portas e janelas haviam sido protegidas com barricadas. Sobre o gramado, um entulho decrépito e enegrecido era o que restava do luxuoso carro do Honneger.

— Que aconteceu com as moças? — perguntou Michel.

— Um dos prisioneiros afirmou que haviam sido encerradas em um porão resistente desde o começo do combate. A senhorita Honneger não parece compartilhar das ideias da sua família. Segundo parece, foi encerrada também por tentar advertir-nos do que tramavam seu pai e seu irmão. Aponte sobre a porta e as janelas. — disse, dirigindo— se ao meu tio.

Saudados por uma rajada, cada vez que levantava-mos a cabeça, apontamos os cavaletes.

Meu tio fez o contacto elétrico. Um suave deslizamento, uma explosão violenta.

— Isso!

Uma segunda salva entrou pelas aberturas assim criadas; as granadas estalavam no interior. A metralhadora se calou. Três salvas se seguiram. Atrás de nós, as metralhadoras cuspiram rajadas através das janelas destruídas Um braço passou através de uma escotilha sob o teto, agitando um pano branco.

— Rendem-se!

No interior do castelo houve uma série de disparos. Aparentemente, os partidários da luta até a morte e dos da rendição brigavam. A bandeira branca desapareceu, depois voltou a aparecer. Os fuzis se calaram. Receosos, abandonamos a trincheiras, porem cessamos o fogo. Através da porta destruída apareceu um homem exibindo um lenço.

— Acerca-te. — ordenou Beauvin.

Ele obedeceu. Era ruivo, muito jovem, porém tinha traços salientes e olhos encovados.

— Se nos rendermos, salvaremos nossa vida?

— Serão julgados. Se não vos renderes, todos estarão mortos antes de uma hora.

Entreguem-me os Honneger, e saiam ao jardim, com os braços para cima.

— Charles Honneger está morto. Seu pai, tivemos que manietar, porém está vivo.

Disparou contra nós quando içávamos a bandeira branca — E as moças?

— Estão na casa, com Ida, a Senhorita Honneger e madalena Ducher.

— Sãs e salvas?

Ele sacudiu os ombros.

TERCEIRA PARTE

A CONQUISTA

I — O JULGAMENTO

Sem mais implicações, os doze sobreviventes se alinharam sobre o gramado, com as mãos atrás da nuca e as armas no chão. Os últimos haviam levado Honneger, ainda inconsciente, que foi cuidadosamente vigiado.

Com uma metralhadora na mão, penetrei com Michel no castelo, guiado por um dos prisioneiros. O interior estava em um estado lastimável. Nas paredes do salão, telas de grandes mestres, suntuosamente emolduradas, haviam sido destroçadas pelas balas. Dois extintores de gás carbônico vazios testemunhavam que havia sido sufocado um início de incêndio. No vestíbulo, com a lona e paredes cheias de metralha, encontramos, quase partido em dois, o cadáver de Charles Honneger. Por uma escadaria de pedra em caracol descemos ao porão, cuja porta de ferro tremia por golpes dados no seu interior.

Apenas entreaberta, saiu Ida Honneger. Michel a agarrou pelos pulsos.

— Aonde vais?

— E meu pai? e meu irmão?

— Teu irmão está morto. Teu pai… ainda vive.

— Não vai matá-lo, vai?

— Senhorita, — disse eu — dez dos nossos homens morreram por sua causa, sem contar os vossos.

— Oh, é espantoso! Porque fizeram isto? Porque? — disse, começando a chorar.

— É também um mistério para nós. — respondeu Michel — Onde estão as moças que eles levaram? E a Senhorita… Enfim, a estrela!

— Magda Ducher? Aqui no porão. As demais estão encerradas em outra cave, à esquerda, parece.

Penetramos no subterrâneo. Uma lâmpada a petróleo iluminava vagamente. Magdalena Ducher estava sentada em um canto, muito pálida.

— Não deve ter a consciência muito tranquila: — disse Michel — Levante-se e saia.

Libertamos as três camponesas.

De novo no térreo, encontrei Louis, que havia chegado com o resto do Conselho.

— O velho Honneger já se reanimou. Vem, vamos interrogá-lo.

Estava sentado sobre o gramado, com sua filha ao lado. Quando nos viu chegar, se levantou.

— Eu os menosprezei, senhores. Devia ter pensado em ter técnicos comigo. Haveríamos dominado esse mundo.

— Para que? — disse.

— Para que? Você não vê que era uma ocasião única para dirigir a evolução humana?

Dentro de algumas gerações teríamos produzido super-homens — Com seu material Humano? — disse sarcástico.

— Ao meu material humano não faltavam qualidades: valor, obstinação, desprezo pela vida. Porém vocês jogaram um grande papel em meus projetos. Meu erro foi ter acreditado que podia tomar o poder contra vocês. Devia tê-lo feito com vocês…

Inclinou-se para sua filha, que chorava.

— Não sejam duros com ela. Ignorava todos meus projetos e até tentou fazê-los fracassar. E agora, adeus, Senhores.

Com um gesto rápido levou algo à boca.

— Cianureto. — disse, caindo.

— Bem, um homem a menos par julgar. — disse Michel à guisa de oração fúnebre.

Nossos homens já estavam carregando os despojos nos caminhões: 4 metralhadoras, 6 fuzis-metralhadora, 150 fuzis, 50 pistolas e munição em abundância. Esta casa era um verdadeira arsenal. Fizemos um achado precioso: encontramos uma pequena impressora,intacta.

— Eu me pergunto que queria fazer na Terra, com todo este material.

— Segundo um dos prisioneiros, Honneger liderava uma liga fascista. — disse Louis.

— Em resumo, tanto melhor para nós. Assim poderemos lutar contra as hidras.

— A propósito, elas não voltaram a ser vistas. Vandal está dissecando, com a ajuda de Breffort, a pequena hidra conservada em um tonel de álcool. É formidável, este rapaz. Já ensinou, a uns quantos garotos, a arte da cerâmica, à maneira dos índios sul-americanos Voltamos ao povoado. Eram quatro da tarde. A batalha havia durado menos de um dia! Esgotado, adormeci.

Sonhei com meu velho laboratório em Bordeaux, a cara do «patrão» desejando-me boas férias. («Estou certo de que haverá algumas pequenas coisas para estudar no lugar em que você for» Oh, ironia! Tenho todo um planeta!). A compleição robusta do meu primo Bernard na entrada da porta, depois, umas centenas de metros mais abaixo, a montanha cortada a pico.

Às seis da tarde, meu irmão me despertou e fui ver Vandal. Estava em uma sala da escola; sobre uma mesa, diante dele, a hidra empesteando o ar com álcool, meio dissecada. Desenhava esquemas na ardósia e, sobre o papel, Breffort e Massacre o ajudavam.

— Ah, já estás aqui, Jean. — disse-me — Daria dez anos da minha vida para poder apresentar este espécime na Academia. Seria uma sessão extraordinária!

Me conduziu ante seus esquemas.

— Iniciei, não mais que primariamente, o estudo da anatomia destes animais, porém já se deduzem algumas coisas importantes. Sob certos aspectos, não posso deixar de compará-los a animais muito inferiores. Têm algo de nossos celentérios, embora não seja mais do que pelo grande número de nematocistos, de células urticantes, contidas em seu tegumento. Sistema circulatório muito simples: coração de duas grandes válvulas, sangue azulado. Uma só artéria se ramifica, e o resto da circulação é lagunar. Possui unicamente uma grande artéria aferente ao coração. As lagunas têm uma grande importância. Mesmo desinfladas, a densidade destas hidras é notavelmente débil. Aparelho digestivo de digestão externa, mediante a injeção de sucos digestivos na presa, e aspiração por um estômago-faringe. Intestino muito simples.

Porém existem duas coisas curiosas: 1ª A dimensão e complexidade dos centros nervosos.

Têm um autêntico cérebro, situado em uma cápsula quitinosa, detrás da coroa de tentáculos, estes completamente inervados. Têm também um curioso órgão, situado sob o cérebro, que se parece um pouco com o aparelho elétrico de um peixetorpedo.

Os olhos são tão perfeitos como os dos nossos mamíferos. Não estranharia, portanto, que este animal fosse, em um certo grau, inteligente. 2ª Os sacos de hidrogênio, que ocupam o setor superior do corpo, e ocupam as quatro quintas partes do seu volume. E este hidrogênio provem da decomposição catalítica da água a baixa temperatura. A água é conduzida por um tupo hidróforo, de um tentáculo especial, onde deve realizar-se a decomposição. Imagino que o oxigênio passa para o sangue, pois este órgão está rodeado de múltiplas arteríolas capilares. Se um dia dominássemos o segredo desta catálise da água!

«Uma vez inchados os sacos de hidrogênio, a densidade do animal é inferior à do ar e flutua na atmosfera. A poderosa cauda plana serve de leme, porém especialmente de timão. O principal sistema de propulsão reside em um dos sacos contráteis, que projetam para trás ar misturado com água, com uma violência inusitada, através de verdadeiros encanamentos. No espécime que conservamos, excitei eletricamente os músculos contráteis; coloquei no interior um anel de ferro. Olha como ficou!

Me estendeu um grande anel, dobrado em forma de um oito.

— A potência destas fibras musculares é prodigiosa!

No dia seguinte, pela manhã, fui despertado por pancadas na porta. Era Louis, para me avisar que o julgamento dos prisioneiros ia começar e que, como membro do Conselho, eu formava parte do Tribunal. O Sol azul se levantava.

O tribunal foi constituído em um grande hangar transformado em sala de justiça.

Compreendia o Conselho, reforçado por algumas representações. Entre eles, Valdez, Breffort, meu irmão Paul, Massacre, cinco camponeses, Beauvin, Estranges e seis operários. Nós ocupamos um estrado ante uma mesa e as representações sentaramse em ambos os lados. Adiante, um espaço vazio para os acusados e depois um lugar com bancos reservado ao público. Todas as saídas estavam guardadas por homens armados.

Antes de introduzir aos acusados, meu tio, que por sua idade e ascendência moral havia sido designado presidente, levantou-se e disse: Nenhum de nós teve antes que julgar a seus semelhantes. Formamos um tribunal marcial extraordinário. Os acusados não terão advogados, pois não temos tempo a perder em discussões intermináveis. Por outro lado, temos o dever de ser tão justos e imparciais, como seja possível. Os dois principais criminosos estão mortos. E eu devo recordar-lhes que os homens são preciosos neste planeta. Porém não esqueçamos tampouco que doze dos nossos foram mortos por culpa dos acusados, e que três de nossas jovens foram odiosamente maltratadas. Introduzam os acusados.

Eu sussurrei-lhe: — Onde está Menard?

— Está trabalhando com Martina em uma teoria sobre o cataclismo. É muito interessante.

Já voltaremos a falar disto.

Um a um, entre guardas armados, entraram os trinta e um sobreviventes. Ida Honneger e Magdalena Ducher foram os últimos.

Meu tio tomou novamente a palavra: — Sois coletivamente acusados de assassinatos, raptos e ataques a mão armada.

Subsidiariamente, de atentado contra a segurança do Estado. Existe um chefe entre vós?

Titubearam um momento, depois, empurrado pelos demais, um homem ruivo, enorme, avançou.

— Eu mandava, na ausência dos «patrões».

— Teu nome, idade e profissão?

— Biron, Jean. Trinta e dois anos. Antes eu era mecânico.

— Reconheces os fatos dos quais sois acusados?

— Que os reconheça ou não, dá no mesmo, vão fuzilar-nos do mesmo jeito.

— Não é certo. Poderiam ter sido enganos. Façam avançar os demais! Como pode atuar desta forma?

— Bem, depois da hecatombe, o patrão nos fez um discurso, dizendo que o povoado estava em mãos (desculpe-me) de uma chusma, que era necessário defender a civilização, e — ele titubeou um momento — que se tudo seguisse bem, nós seríamos como os senhores de outros tempos.

— Participaste do ataque ao povoado?

— Não. Podem perguntar aos demais. Todos os que tomaram parte foram mortos.

Eram os guarda-costas do filho do patrão. Claro que o patrão ficou furioso. Charles Honneger afirmou ter capturado uns reféns. Na realidade, fazia muito tempo que ele queria esta moça. O patrão não estava de acordo. Eu tampouco. Foi Levrain quem o incentivou.

E quais eram os objetivos do vosso patrão?

— Já lhe disse. Queria ser dono deste mundo. Tinha um monte de armas no castelo (na Terra ele fazia contrabando de armas) e também nos tinha presos a ele. Tentou o golpe. Estávamos presos a ele. Em outros tempos havíamos feito muitas coisas erradas.

Ele sabia que vocês não tinha armamento. Não imaginava que fabricariam tão depressa!

— Bem. Retire-se! O seguinte.

O seguinte foi o rapaz ruivo que havia agitado a bandeira branca.

— Teu nome, idade e profissão?

— Beltaire, Enrique. Vinte e três anos. Estudante de ciências.

— Que diabos fazias nesse antro?

— Eu conhecia Charles Honneger. Uma noite havia perdido todo meu salário do mês no poker. Ele pagou minhas dívidas. Me convidou para o castelo e durante uma excursão pela montanha me salvou a vida. Depois ocorreu o cataclismo. Eu não aprovei nunca os projetos do seu pai, nem sua conduta. Porém não podia abandoná-lo.

Devo-lhe a vida. Não disparei uma só vez contra vocês!

— Isto comprovaremos. Outro. Ah! Uma pergunta mais. Quais eram teus projetos?

— Queria ser técnico em aeromodelismo.

— Isto poderia servia mais adiante. Quem sabe?

— Queria dizer também… que Ida Honneger… fez todo o possível para preveni-los.

— Já sabemos e levaremos isto em conta.

O desfile continuou. Estavam mescladas todas as profissões. A grande maioria dos acusados haviam pertencido mais ou menos a uma liga fascista.

Eu não sei o que os outros pensavam naquele momento, porém eu estava confuso.

Muitos daqueles homens tinham um aspecto sincero e, inclusive alguns, honesto. Era evidente que os principais culpados haviam morrido. Beltaire teve minha simpatia pela fidelidade ao seu amigo. Nenhum dos outros acusados o imputou de falta alguma.

Ao contrário, haviam confirmado, em sua maioria, que ele não havia tomado parte no combate. O acusado número vinte e nove entrou. Declarou chamar-se Juillet Levrain, jornalista, de 47 anos de idade. Era um homem de compleição reduzida, delgado, traços duros.

Louis consultou seus papeis.

— Pela declaração das testemunhas, se depreende que voce não fazia parte dos homens de Honneger. Você era um convidado, e alguns supõem que era, inclusive, o grande chefe. Você não pode negar haver disparado contra nós. Ademais, as testemunhas se lamentam de… emfim, digamos, violências da sua parte.

— Isto é falso. Nos os via jamais. E eu era alheio a toda esta questão. Não era mais que um simples convidado.

— Que falta de vergonha! — exclamou o guarda da porta — Eu o vi na metralhadora do centro, a que matou Salavin e Robert. Apontei-lhe três vezes sem conseguir liquidá— lo. Este canalha!

Na sala, muitos dos guardas, reunidos como espectadores, aprovaram suas palavras.

Apesar dos protestos, foi conduzido para fora da sala.

— Introduzam a Senhora Ducher.

Entrou com ar abatido, apesar da maquilagem. Parecia inquieta, desorientada.

— Magdalena Ducher, vinte e oito anos, atriz. Mas eu não fiz nada!

— Você era a amante de Honneger pai, não é correto?

— Sim, — exclamou uma voz na sala, que desencadeou uma tempestade de risos — dos dois.

— É mentira. — exclamou ela — Oh, é odioso! Permitir que me insultem desta forma.

— Está bem, está bem! Silêncio na sala! Isto veremos depois. A seguinte.

— Ida Honneger, dezenove anos, estudante.

Seus olhos avermelhados não a impediam de eclipsar completamente à atriz.

— Estudante de que?

— De direito.

— Temo que isto não vai ser-lhe útil aqui. Sabemos que fez todo o possível para evitar o drama. Por desgraça não conseguiu. Ao menos pôde suavizar o cativeiro de nossas três jovens. Pode voce informar-nos sobre os que vamos julgar?

— À maioria não conheço. Biron não era má pessoa. E Enrique Beltaire merece vossa indulgência. Me disse que não havia disparado. E eu acredito. Era amigo do meu irmão… Reprimiu um soluço. «Meu pai e meu irmão não eram maus, no fundo. Eram violentos e ambiciosos. Quando eu nasci éramos muito pobres. A riqueza veio de uma vez e foi o que os fez se perderem. Oh! Este homem, este Levrain, ele foi a causa de tudo! Foi ele quem fez meu pai ler Nietzsche, e isto o fez acreditar no superhomem.

Foi ele também o culpado dos antecedentes desse projeto insensato de conquistar um mundo! É capaz de tudo! Eu o odeio!

Desfez-se em lágrimas.

— Sente-se senhorita, — disse gravemente meu tio — Vamos deliberar. Não tema.

Nós a consideramos mais como uma testemunha.

Nos retiramos, detrás de uma tela, assistidos pelo corpo de representantes.

A discussão foi prolongada. Louis e os camponeses eram partidários de penas severas.

Michel, meu tio, o pároco e eu mesmo defendíamos a moderação. Os homens eram tão escassos. Não compreendendo o que lhes havia ocorrido, os acusados haviam, como é lógico, acompanhados a seus chefes. Finalmente chegamos a um acordo.

Meu tio levou o veredito aos acusados reunidos.

— Juillet Levrain: nós o consideramos culpado de assassinato, rapto e violências com premeditação. Foste condenado à morte pela forca. A sentença será executada na próxima hora.

O bandido manteve sua postura, porém empalideceu horrivelmente. Um murmúrio percorreu a fila dos acusados.

— Enrique Beltaire: te consideramos inocente de toda atividade nefasta para com a comunidade. Porém como nada fizeste para prevenir-nos…

— Eu não podia de maneira alguma.

— Silêncio! Repito: como não nos preveniste, serás classificado como cidadão inferior, sem direito a voto, até que, por tua conduta, te achemos reabilitado.

— Aparte isto, sou livre?

— Sim, como todos nós. Porém se quiseres permanecer no povoado, terás que trabalhar.

— Eu não peço nada mais que isto!

— Ida Honneger: te consideramos inocente. Porém será inelegível durante dez anos.

— Magdalena Ducher: nada existe contra você, excetuando uma duvidosa moralidade e relações, digamos… sentimentais, — risos entre o público — com os principais criminosos.

Silêncio! Fica privada de todos os direitos políticos e restrita ao serviço de cozinha.

— Quanto aos demais: sois condenados a trabalhos forçados por um período de tempo que não poderá exceder a cinco anos terrestres, que podereis reduzir por vossa conduta. Ficais privados, à perpetuidade, de todo direito político, salvo destacada atuação em benefício da comunidade.

Produziu-se uma onda de alegria no grupo dos acusados, os quais temiam ser castigados com maior dureza.

— Vós sois pessoas extraordinárias. — gritou-nos Biron.

— Está encerrada a seção. Conduzi aos condenados.

O Senhor cura foi ao encontro de Levrain, por petição deste. Os espectadores, uns aprobatórios, outros furiosos, se dispersaram. Eu desci do estrado, dirigindo-me para Beltaire. Quando o encontrei, ele estava consolando Ida.

— Bem. — disse meu tio — agora compreendo porque se defendiam tanto, mutuamente.

— Onde vais alojá-la? A Ducher irá para a cozinha, queira ou não. Para voce é diferente.

Não pode nem sonhar em voltar ao castelo, que será destruído à mercê das hidras. Por aqui a habitação é escassa, com todas estas casas destruídas. Será necessário também procurar-lhe um trabalho. A lei agora proíbe a preguiça.

— Onde está esta lei? — perguntou Ida — Queremos ser bons cidadãos. E para isto devemos conhecê-la.

— Ah Senhorita! Não está redigida ainda. Há um monte de textos nos procedimentos verbais e sessões do Conselho. A propósito, não é jurista?

— Acabava de terminar meu segundo ano.

— Há aqui um trabalho feito na medida para você. Redigirá nosso Código. Falarei disto com o Conselho. E quanto a ti, — disse a Beltaire — ficarás comigo. Me ajudarás no trabalho de ministro das Minas. Com tua formação científica será muito em breve um excelente perito. Veja bem, alimentação na cantina e um teto como o meu sobre tua cabeça.

Michel se uniu a nós.

— Se queres contratar Beltaire, — disse-lhe — chegaste tarde, acabo de fazê-lo — Tanto pior. Ficarei com minha irmã. A astronomia terá que aguardar. Com certeza ela desceu com Menard. Vai-nos explicar suas teorias esta noite.

Observei Helios no alto.

— Tem tempo ainda. Ouve Michel, tua irmã se incomodaria em compartilhar seu alojamento com esta jovem enquanto encontramos outro lugar?

— Ela está aqui. Podes perguntar a ela.

— Faz isso por mim. Me intimida o astrônomo que há em tua irmã!

— Estás errado. É uma garota estupenda, e que te tem muita simpatia!

— Como tu sabes disto?

— Ela me disse muitas vezes. (E partiu rindo.)

II — A ORGANIZAÇÃO

À tarde, a Academia de Ciências de Tellus se reuniu na sala da escola. Menard ia fazer sua comunicação. Estavam presentes Michel e Martina, Massacre, Vandal, Breffort, meu tio, os engenheiros, o Senhor cura, o mestre, Enrique e Ida, Louis, meu irmão, eu mesmo, e alguns curiosos.

Menard subiu na tribuna.

— Vou explicar-lhes o resultado de minhas observações e cálculos. Nos encontramos, como todos sabem, em outro mundo. Chamemo-lo Tellus, já que este nomeprevaleceu.

Seu equador deve aproximar-se dos 50.000km. A intensidade da gravidade na superfície é de uns 0,9g terrestres;Tellus possui três satélites a distâncias que anda não conheço com precisão. A uns 100.000 quilômetros, o menor deles Febo, que aparenta ser o maior, devido à menor distância. A 530.000 quilômetros, Selenio, maior que nossa antiga Lua e a uns 780.000 quilômetros, e Ártemis, na que é três vezes maior. Eu acreditava a princípio que nos encontrávamos em um sistema de duplo astro solar. Nada disto. Na realidade, Sol, o pequeno sol vermelho, não é nada mais que um grande planeta exterior, todavia em estado estelar. Porém, mais distantes, situam-se ainda outros planetas que giram ao redor de Helios e não de Sol. Por outro lado, este possui pelo menos onze satélites. Atualmente nos achamos em um regime de oposição: quando Helios se põe, Sol se levanta. Porém, dentro de algum tempo, talvez em um quarto de ano de Tellus, nos encontraremos no quadrante. Teremos então dois sois, simultaneamente, ou somente um, ou nenhum, o que será mais cômodo para as observações. — terminou com satisfação.

«Os dias e as noites são, e permanecem, iguais. Estamos pois em um planeta cujo eixo tem muito pouca inclinação em relação ao plano da sua órbita. Como por outra parte, a temperatura é moderada, creio que devemos estar situados a cerca de 45º de latitude Norte. Admitindo-se a hipótese de uma obliquidade nula, a latitude do observatório seria de 45º 12'.

«Vou comunicar-lhes a única hipótese, não demasiado absurda, a que consegui chegar. A ideia, juntamente com outra, tive nas horas que se seguiram à nossa chegada.

«Sabeis sem dúvida que certos astrônomos consideram o Universo como uma hiperesfera (ou melhor, um hiper-esferoide) de quatro dimensões, curvo e espesso segundo a última delas, com o volume de uma molécula, flutuando em um hiperespaço que só podemos conceber muito vagamente e por analogia. A maioria dos técnicos consideram inclusive, que fora da composição tempo-espaço não existe nada, nem mesmo o vazio, pois o vazio pertence ao espaço. Esta concepção sempre me pareceu muito pobre, e agora, no entanto, creio ter a prova contrária. Segundo esta teoria, haveria, no espaço, hiperesferas-universos flutuando, como as balões de festa fariam dentro desta casa. Tomemos dois desses balões. Um é o nosso velho Universo, perdido em sua imensidão, com nossa Galáxia e nosso sistema solar. O outro é o Universo que inclui Tellus, em sua própria galáxia. Por uma razão desconhecida estes universos se chocaram. Houve uma interpenetração parcial das composições, e Tellus e a Terra se encontraram no mesmo lugar, no mesmo tempo, em ambos os universos. Por causas igualmente desconhecidas, um fragmento da Terra foi capturado pelo novo universo: pode ser que Tellus também tenha perdido algumas «penas» no encontro, e talvez nossos colegas na Terra estejam agora caçando hidras nas planícies do Ródano. Existe uma suposição certa: que os universos estavam animados de uma velocidade aproximadamente igual e no mesmo sentido, como também eram aproximadamente iguais as velocidade em suas respectivas órbitas. Sem isto seria pouco provável que houvéssemos sobrevivido. É o que explica também porque a missão interplanetária na qual figurava o primo de Jean Bournat, aqui presente, pôde suspeitar do cataclisma no lado de Netuno, e superá-lo em velocidade no seu regresso para terra. É possível que os planetas exteriores do nosso antigo sistema solar tenham sido «aspirados» para este universo e, neste caso, eu me divirto imaginando a cara que estão fazendo meus colegas na Terra. Porém não creio que isto seja provável.

«Restam muitas coisas misteriosas. Como não houve, devem vocês se perguntarem, interpenetração dos espaços ao nível do átomo, o que teria originado provavelmente uma grande explosão? Como o cataclisma se limitou à transferência de um fragmento da Terra a este novo universo? Não sabemos. Saberemos algum dia? É também uma circunstância perturbadora que, por uma sorte inconcebível, tenha caído em um planeta onde a vida protoplasmática á possível. O Senhor cura vê nisto a mão da Providência. Quem sabe?…

«Eu lhes disse que por um momento concebera outra hipótese ainda mais fantástica.

Pensei que talvez houvéssemos realizado uma viagem através do tempo e que houvéssemos caído no próprio passado do nosso planeta, no pré-cambriano, por exemplo. Que houvesse acontecido uma espécie de nó no tempo, e Sol fosse Júpiter Porém, além do fato desta hipótese levantar múltiplas dificuldades físicas e metafísicas, as características de Tellus e dos outros planetas desmentem-na categoricamente.

«Pode ser também, como imaginaram Michel e Martina Sauvage, que tenha topado com nosso velho universo, com uma dobra da quarta dimensão. Neste caso, poderíamos nos encontrar no sistema de uma estrela da nebulosa de Andrômeda, por exemplo, ou simplesmente no outro extremo da nossa antiga galáxia. Talvez as observações futuras nos confirmem.

«Para terminar, e render homenagem ao espírito profético de alguns novelistas, recordarei o que J. H. Rosny, pai, havia previsto em sua «Força Misteriosa» um cataclismo análogo a este. Porém travava-se de um universo de uma matéria diferente da nossa. Aqueles a quem interessam as implicações matemáticas, podem vir falar comigo.

Menard desceu da tribuna e, no mesmo instante, travou-se uma viva discussão com meu tio, Michel e Martina. Fui para perto deles, mas ao ouvi-los falar de tensores, de campos de gravitação, et cétera, bati rapidamente em retirada.

Louis me arrastou para um canto.

— A teoria do Senhor Menard é totalmente apaixonante, porém, do ponto de vista prático, não resolve nada. É evidente que devemos viver e morrer neste planeta. Trata— se de nos organizarmos. Muitas coisas estão ainda por fazer. Me dizias outro dia que poderia haver hulha não distante daqui. É correto isto?

— É possível. Me surpreenderia muito se a subversão não tivesse trazido á superfície hulha estefaniana ou westfaliana; não te assustes, trata-se simplesmente de estratos carboníferos que podemos encontrar em nossa região. De toda forma, não vai ser coisa do outro mundo! Alguns veios de cinco centímetros, ou talvez até de trinta, de hulha inferior ou antracita — Sempre é alguma coisa. É primordial para nós que a fábrica possa fornecer eletricidade.

Já sabes que a fabricação das granada devorou quase toda nossa reserva de carvão. Afortunadamente, temos alguns lingotes de alumínio e duralumínio. Na falta do aço…

Os dias seguintes foram para mim um período de intensa atividade. No Conselho tomamos uma série de medida de proteção. A alguns quilômetros do povoado foram instalados seis postos de vigilância, cobertos por proteção hermética. Foram aprovisionados como se para uma assédio, com comunicação com o posto central através de um telefone rudimentar, encarregados de dar o alarma à menor tropa de hidras.

Os habitantes das quatro granjas excessivamente isoladas foram evacuados para o povoado, juntamente com seu gado. Os trabalhos do campo se efetuaram sob a proteção de caminhões armados com metralhadoras. Para economizar combustível, eram arrastados ao local do trabalho pelos próprios animais a que deveriam proteger.

Aperfeiçoamos nossas granadas e tivemos, assim, uma artilharia anti-aérea que fez seus ensaios por motivo de uma incursão de umas cinquenta hidras, das quais trinta foram abatidas.

Uma manhã, fui com Beltaire e dois guardas armados à busca de carvão. Como havia imaginado, o campo carbonífero estava perto. Uma parte na zona intacta e o resto na zona morta, aflorando carvão em algum lugar.

— Aqui será melhor de começar. — disse Beltaire.

— Sim, mas os veios serão impossíveis de seguir neste caos. Vejamos no setor não deslocado.

Como já havia previsto, poucos veios passavam dos 15cm de espessura. Entretanto, uma delas alcançava os 55cm.

— Trabalho difícil em perspectiva para os mineiros. — disse.

Graças ao meu cargo de Ministro das Minas, consegui trinta homens e mandei-os limpar a via férrea que conduzia, em outros tempos, à próxima estação, assim como também o canteiro de argila que fornecia oa matéria prima para o alumínio. Apesar da descoberta de Moissac e Wilson, em 1964, se extraia o alumínio da argila e não só da bauxita, como anteriormente. Agora voltamos a este velho processo, cômodo para nós que possuíamos em Tellus depósitos enormes de bauxita, de uma pureza admirável. Tudo isto não foi feito sem que Estranges protestasse.

— Como levarei o mineral à fábrica?

— Primeiro: eu lhe cedo uma das duas vias. Segundo: no momento não temos necessidade de uma grande quantidade de alumínio. Terceiro: como a fábrica vai funcionar sem carvão? E quarto: fundimos ferro, quando encontrarmos o mineral. Entretanto, temos um monte ferro velho que voce pode transformar em trilhos. É este o seu ofício.

Requisitei igualmente duas pequenas locomotivas, das seis que a fábrica dispunha, e vagões em número suficiente. Nos canteiros de argila peguei três perfuradoras e um compressor.

Dias depois a mina estava em pleno funcionamento e o povoado dispunha de eletricidade.

Empregava dezessete «forçados» com guardas, cuja missão era não tanto a vigiá-los e sim protegê-los contra as hidras. Eles deixaram muito em breve de ser considerados como prisioneiros, e deixamos de considerá-los como tal. Converteramse nos «mineiros» e, sob a direção de um antigo capataz de minas, foram capazes em pouco tempo de cavar as galerias.

Desta forma se passaram sessenta dias, ocupados em trabalhos de organização.

Michel e meu tio, ajudados pelo relojoeiro, fabricaram uns pêndulos telurianos. Estávamos irritados com o fato de dia bisolar compreender 29 horas. Cada vez que consultávamos nossos relógios, tínhamos que fazer complicados cálculos. Fabricaram-se dois tipos de relógio, uns divididos em 24 «horas grandes» e os outros em 29 horas terrestres. Finalmente, anos mais tarde, adotamos o sistema ainda em uso hoje em dia, o único que nos é familiar: divisão do dia em 10 horas de 100 minutos, cada minuto, por sua vez, dividido em 100 segundos de dez décimos cada um. Estes segundos diferem muito pouco dos antigos. (um dos primeiros resultados do cataclisma foi o de desregular os relógios de pêndulo, ante o pasmo dos camponeses, por causa da diminuição do valor de «g».) Nossa reserva de provisões, somando às encontradas nos porões do castelo, nos permitiriam sustentar-nos durante uns dez meses terrestres. Encontrávamo-nos na zona temperada de Tellus, a zona da primavera eterna, e podíamos contar com várias colheitas por ano, se o trigo se aclimatasse. A superfície do vale que permaneceu cultivável bastaria enquanto a população não aumentasse demasiado. O solo de Tellus parecia fértil.

Havíamos consertado um grande número de casas e já não estávamos mais amontoados.

A escola havia aberto suas portas e o grande Conselho havia se estabelecido em um hangar metálico. Ida reinava na sala dos arquivos e eu estava certo de contar com Beltaire ali, quando tinha necessidade dele. Havíamos iniciado a redação de um embrião de Código, alterado o menos possível o direito usual na Terra, porém simplificando— o e adaptando-o. Este Código tem estado sempre em vigor. Havia também ali uma sala comum e uma biblioteca.

A estrada de ferro da mina de carvão estava funcionando, assim como também a do canteiro de argila, a fábrica funcionava à medida dos nosso desejos. Estávamos todos ocupados, pois a mão de obra não era abundante. O povoado era ativo e alguem poderia imaginar que se encontrava em uma animada vila terrestre e não na superfície de um mundo perdido no espaço infinito. Ou talvez seria melhor dizer: nos espaços?

Tivemos nossas primeiras chuvas em forma de tempestades, o que tornou o tempo confuso por uma dúzia de dias. Tivemos também as primeiras noites totais, embora breves. Não posso descrever a impressão que em mim produziram as constelações que iam ser as nossas para sempre.

Nós, os membros do Conselho, havíamos tomado como costume nos reunirmos em sessções privadas na casa do meu tio, ou na do povoado, ou, mais frenquentemente, na do observatório, novamente restaurado. Ali encontrávamos Vandal e Massacre, absorvidos no estudo das hidras, com Breffort de ajudante, Martina, Beauvin, sua mulher, meu irmão e Menard, quando conseguíamos arrancá-lo da sua máquina de calcular. Se nos Conselhos oficiais Louis usava a batuta nas coisas práticas, aqui, onde se falava muito mais de ciência ou de filosofia, meu tio, com sua ampla erudição, era o chefe indiscutível do grupo. Menard, de vez em quando, falava tambem, e todos ficávamos assombrados pela amplitude das concepções que desenvolvia esse homenzinho com barba de criança. Guardo excelentes recordações dessas reuniões, pois foi ali onde realmente conheci Martina.

Uma tarde, eu regressava muito satisfeito, pois a uns quilômetros da zona morta, em solo teluriano, havia encontrado excelente minério de ferro no fundo de um barranco.

Para dizer a verdade, não fui eu mesmo que descobri. Um dos homens da minha escolta me trouxe um pedaço, perguntando-me o que era.

Em uma curva do caminho encontrei Martina.

— Eu vinha precisamente te buscar.

— Estou voltando atrasado?

— Não, os outros estão no Observatório, onde Menard lhes explica uma descoberta.

— E tu vieste buscar-me? — perguntei lisonjeado — Ah! Não tem graça. É que aquilo não me interessa, fui eu quem descobriu.

— De que se trata?

— Trata-se de…

Naquele dia não devia me inteirar do assunto. Enquanto falava, Martina havia levantado a vista. Ficou de boca aberta e com um indizível horror no seu rosto. Me voltei: uma hidra gigantesca lançava-se sobre nós!

No último instante recobrei o controle próprio, joguei Martina no solo, jogando-me ao seu lado. A hidra roçou por nós, mas falhou o golpe. Levada por sua velocidade, voou ainda mais cem metros antes de poder voltar-se. Me pus em pé de um salto.

— Corre para o povoado! Há árvores ao lado da estrada!

— E tu?

— Vou distraí-la. Eu a acertarei, com certeza, com minha pistola.

— Não, eu fico também!

— Santo Deus, corre!

Era muito tarde para fugir. Eu sabia que com minha pistola tinhas poucas probabilidades de matar o monstro. Em uma rocha se abria uma cavidade. Empurrei Martina com força para lá e me pus diante dela. Antes que a hidra tivesse tempo de projetar seu dardo, disparei cinco balas: devem ter surtido efeito, pois o animal ondulou com um silvo e afastou-se. Me restavam três balas e minha faca, uma longa faca sueca, que eu conservava afiada como uma navalha. A hidra se colocou na nossa frente: seus tentáculos se moviam como os de um polvo, seus seis olhos glaucos e fixos nos observavam. A uma ligeira contração do cone central, tive a sensação de que o dardo ia partir. Fiz uso de minhas três últimas balas e, depois, faca na mão, cabeça abaixada, ataquei entre os tentáculos. Da parte inferior do monstro, agarrei um dos braços e puxei com força. Apesar da atroz queimadura em uma mão, eu segurei-a. Desequilibrado, o animal lançou seu dardo, que não alcançou Martina, e sua extremidade córnea bateu contra a rocha. No mesmo instante, agarrado ao flanco do monstro, eu o salpicava de golpes de faca. Depois disso minhas recordações são confusas. Só me recordo da raiva crescente, dos pedaços de carne ignóbeis contra meu rosto, a sensação de desequilíbrio, uma queda lenta, um choque. Isto é tudo.

Despertei em uma cama, na casa do meu tio. Massacre e meu irmão cuidavam de mim. Minhas mãos estavam vermelhas e inchadas e o lado esquerdo do meu rosto coçava.

— E Martina? — perguntei.

— Não sofreu nada. Uma ligeira comoção nervosa. — respondeu Massacre — Administrei— lhe um soporífero.

— E eu?

— Queimaduras, o ombro esquerdo deslocado, não tem grandes contusões. Um arbusto amortizou o choque. Recoloquei seu ombro durante o desmaio do qual agora se acordou. Na melhor das hipóteses voce tem duas semanas para recuperar-se.

— Quinze dias! Com tantas coisas para fazer! Acabo de encontrar minério de ferro.

Uma violenta dor me atravessou as mãos.

— Ouça doutor, não tem nada contra este veneno? Isto está queimando muito.

A porta abriu-se com violência. Michel precipitou-se dentro do quarto. Vinha em minha direção com as mãos estendidas. Quando viu minhas mãos vendadas, se deteve de chofre.

— Doutor?

— Não será nada.

— Querido amigo! Sem ti eu teria perdido minha irmã!

— Não querias que nos deixássemos comer por aquela espécie de polvo que se equivocou de ambiente, não é verdade? — disse eu tentando brincar — A propósito, ela está morta?

— Morta? Eu creio que sim. A transformaste em lama. Realmente, não sei com te agradecer.

— Não se preocupe. Neste mundo terás certamente ocasiões para corresponder.

— E agora, — disse Massacre — Deve dormir. Provavelmente terás um pouco de febre.

Saíram silenciosamente.

Quanto Michel estava abrindo a porta, pedi-lhe: — Amanhã pela manhã, chama-me Beltaire.

Caí em um sono agitado, do qual só saí umas horas mais tarde, esgotado porém sem febre. Voltei a dormir aprazivelmente e despertei muito tarde na manhã seguinte.

A dor das minhas mãos e do meu rosto haviam diminuído muito. Na cadeira, Michel dormia, dobrado em dois.

— Te velei a noite toda, — disse a voz do meu irmão, da porta. — Como estás?

— Melhor, muito melhor. Quando achas que poderei me levantar?

— Massacre disse que dentro de dois ou três dias, se a febre não voltar.

Por trás de Paul, apareceu de súbito Martina, trazendo um bule onde o café fumegava.

— Isto é para Hércules! O doutor disse que já podias comer!

— Deixou o bule, ajudou-me a sentar e, acomodando-me as costas com uns almofadões, me deu um beijo rápido na testa.

— Eis aqui uma insignificante prova de agradecimento. E pensar que sem voce eu seria um cadáver informe! Brrr!

Sacudi Michel.

— Querido irmão, de pé. Louis está te esperando.

— Michel se levantou, bocejou e, depois de haver-se informado da minha saúde, seguiu com Paul.

— Louis virá à tarde. E agora, Senhor Hércules, vou fazê-lo comer.

— Porque Hércules?

— Senhor! Quando alguem combate as hidras corpo a corpo…

— E eu que pensei que falava do meu físico. — disse com um tom comicamente dolorido.

— Muito bem, brinca, estarás bom muito em breve.

Me fez comer como a uma criança e depois tomamos uma xícara de café.

— É excelente. — disse.

— Muito cortês, porque eu mesma preparei. Acreditaria se te dissesse que tive que me dirigir ao Conselho para obter uma insignificante ração de café? Está classificado como medicamento! Temo que será necessários nos acostumarmos a prescindir dele.

A existência de plantas de café em Tellus é improvável. E, o que é ainda mais grave, do açúcar também.

— Ah! Com certeza encontraremos uma planta açucarada. Se não… temos colmeias.

Utilizaremos mel.

— Sim, porém embora tenhamos flores em nosso rincão de terra, a vegetação teluriana me parece, até o momento, completamente desprovida delas.

— Isso veremos depois. Por minha parte sou otimista. Tínhamos uma única possibilidade de sair com vida e aqui estamos.

Umas batidas na porta a interromperam. Eram os dois inseparáveis Ida e Enrique.

— Viemos ver o herói — disse ela.

— Oh! Herói! Quando alguem se encontra entra a espada e a parede, o heroísmo é inevitável.

— Não creio. Imagino que eu teria me deixado comer. — disse Enrique.

— E se estivesse com Ida?

— Como?

Me ruborizei.

— Não, não quis dizer isto. Suponhamos que estivesses com Martina ou outra moça.

— Francamente, não sei.

— Estás mentindo! Porém não foi para isto que te mandei chamar. Va, com os dois homens que me escoltavam, reconhecer com detalhes o depósito de ferro. E me trarás diversas amostrar. Como quando o encontramos já era tarde, não fiz mais que dar uma olhada. De qualquer forma, se o depósito valer a pena, levanta um traçado para uma via férrea. E desconfia das hidras: Elas não voam sempre em bandos! Aqui tens a prova! Duas ou três podem cair-te em cima. Leva, inclusive, dez homens de escolta e um caminhão. E tu Ida, como vai teu trabalho?

— Comecei a codificar seus decretos. É curioso estudar o direito no nascimento. Seu Conselho se arrogou com poderes ditatoriais. Espero que será provisório.

— Há alguma novidade?

— Louis está furioso com os observadores que deixaram passar tua hidra sem assinalá— la, sob pretexto de que era isolada. São os do posto 3.

— Que sem-vergonhas!

— Louis fala em fuzilar-los — Isto é excessivo. E não temos sobra de homens.

De fato, a primeira vez que saí, cinco dias depois, apoiando-me em Michel e Martina, me inteirei de que eles haviam sido simplesmente expulsos da guarda e condenados a dois anos de trabalho nas minas.

Pouco a pouco me reincorporei à vida normal.

Construímos uma via férrea até o depósito de ferro e um alto-forno rudimentar. O mineral — de óxido de ferro — era rico, porém pouco abundante, embora fosse suficiente para nossas reduzidas necessidades. Apesar dos conhecimentos de Estranges, a primeira fornada se produziu com dificuldade. A fundição de má qualidade, sem carvão suscetível de ser transformado em coque, foi refinado com aço. Para dizer a verdade, foi com o fim de medir nossas possibilidades que começamos aquela primeira fornada, já que para o futuro imediato não estávamos com falta de ferro.

Fundimos trilhos e rodas de vagão. Perto da mina, construímos guaritas de obra, para os trabalhadores, para o caso de ataque de hidras. Foram modificadas as cabines da locomotivas, com o fim de que pudessem ser fechadas hermeticamente, à vontade.

A temperatura era sempre a mesma, um doce clima de primavera quente. As «noites negras» aumentavam singularmente de duração.

No Observatório, meu tio e Menard já haviam descoberto cinco planetas exteriores, dos quais, o mais próximo aparecia com um atmosfera jaspeada de nuvens.

Através das aberturas nas nuvens podiam-se contemplar mares e continentes. O espectroscópio indicava a presença de oxigênio e vapor de água. Tinha dimensões substancialmente iguais à da Terra e possuía satélites. O desejo de estender os domínios está ancorado tão profundamente no coração humano, que nós, pobre fragmento de humanidade, ainda incerto da sua sobrevivência, nos alegramos de ter como vizinho um planeta habitável.

Perto da mina, sob a proteção da guarnição, aproximadamente um hectare de solo telúrico havia sido arroteado para experimentação. Era uma terra leve, rica em húmus formado pela decomposição das plantas acinzentadas. Imediatamente, mandei semear trigo de diferentes variedades, apesar da desaprovação dos camponeses que argumentavam que «não era a época». Michel teve que empregar toda sua eloquência para convencê-los de que em Tellus não havia épocas no sentido terrestre da palavra, e que produziria tanto agora quanto mais tarde.

Durante o trabalho de limpeza, tivemos que lutar contra as serpentes chatas, das quais havíamos encontrado um cadáver quando da nossa primeira exploração. Os camponeses as chamaram «víboras» e por este nome ficaram conhecidas, mesmo não tendo nenhum ponto de contato com as víboras terrestres Seu comprimento oscilava entre 50cm e 3m, e embora não fossem venenosas, falando com propriedade, sim eram muito perigosas. Suas poderosas mandíbulas côncavas injetavam na presa um líquido digestivo muito ativo, que causava, se o socorro não era imediato, uma espécie de gangrena, com liquefação dos tecidos o que produzia a morte ou pelo menos a perda do membro atacado. Afortunadamente, esses animais muito agressivos e ágeis eram raros. Um boi foi picado e morreu, um homem deveu sua salvação à presença de Massacre e Vandal que praticaram imediatamente a amputação do pé atacado. Foram as únicas vítimas.

Os primeiros animais que emigraram à superfície de Tellus foram as formigas.

Vandal descobriu um ninho de grandes formigas marrons de cujo nome esqueci, perto da mina de ferro. Eram apaixonadas por uma goma que exsudavam as plantas cinzentas. As colônias se multiplicaram rapidamente e nosso trigo, apenas aparecia sua cabeça verde e já as encontrávamos por toda parte. Na luta que se fez aos pequenos «insetos tellusianos», ganharam com facilidade.

Foi uma temporada aprazível, depois do nosso áspero começo. O trabalho absorvia nossos dias. Passaram-se vários meses. Tivemos nossa colheita de trigo, magnífica, no hectare arroteado em Tellus, boa nos campos terrestres. O trigo pareceu aclimatar— se muito bem. Nosso gado aumentava e ainda não havia problema de pastos. As plantas terrestres pareciam ganhar a partida contra as autóctones. Já existiam pradarias mistas, e era algo muito curioso ver nossas plantas rodearem um arbusto empoeirado com folhas de zinco.

Tive então ocasião de refletir sobre meu novo destino. Imediatamente após o cataclismo fiquei mergulhado na mais absoluta confusão, tive a impressão de ter sido exilado para sempre, separado dos meus amigos por uma distância ao lado da qual as terrestres não eram absolutamente nada. Depois o horror de haver caído em um mundo desconhecido e povoado de monstros. A urgência da ação, a guerra civil, a organização necessária, o papel de dirigente que havia sido forçado a assumir, haviam ocupado inteiramente meu ânimo. E agora, me apercebia disto com espanto: o que dominava dentro de mim era a alegria da aventura, um desejo frenético de ir olhar além do horizonte.

Explicava tudo isto a Martina, um dia em que estava indo ao Observatório. Michel e ela já não trabalhavam muito ali. Distribuíam seu tempo entre os «trabalhos sociais»

e o ensino de ciências a um pequeno pastor, Jaime Vidal, que se havia revelado de uma inteligência muito acima do normal. Por minha parte, eu lhe ensinava geologia, Vandal biologia e meu irmão a história da Terra. Depois, ele chegou a ser um grande sábio. E, como sabeis, vice-presidente da República. Porem não nos antecipemos.

— E pensar, — disse — que meu primo Bernard queria levar-me em seu projétil interplanetário e que eu recusei sempre, alegando que queria antes terminar meus estudos.

Na realidade eu tinha medo! Eu, que teria ido até o final do mundo para procurar um fóssil, experimentava um verdadeiro horror ante a ideia de sair da Terra. E eis-me aqui em Tellus, tão contente. É curioso.

— Quanto a mim é ainda mais curioso. Já estava tentando refutar, em minha tese, a teoria do espaço curvo. E foi aqui que sofri uma prova esmagadora da sua veracidade.

Estávamos na metade do caminho, quando soou a sirene.

— Cuidado! Ainda esses animais imundos. Ao refugio!

Havíamos construído refúgios, um pouco por toda parte. Nesta ocasião eu tinha, além da minha pistola e da minha faca, uma metralhadora. O refúgio mais próximo estava a uns trinta metros. Corremos até lá sem falsa vergonha. Obriguei Martina a entrar, permanecendo eu junto à porta, disposto a atirar. Rolaram umas pedras e uma silhueta curva, vestida de negro, apareceu: o Senhor cura.

— Ah! É voce Senhor Bournat? De onde vêm as hidras?

— Creio que do norte. A sirene soou somente uma vez. Entre voce.

— Meu Deus… quando vamos desembaraçar-nos destes animais infernais?

— Temo que não seja logo. Ah! Elas já estão aqui. Passe. Você não está armado.

Sobre nós, a grande altura, uma nuvem verde se movimentava. Perto, porém ligeiramente baixo, uns pequenos flocos negros apareceram no céu: as granadas.

— Muito curto! Ah, agora está melhor!

A salva seguinte havia acertado em cheio. Segundo mais tarde uns pedaços de carne verde caíram como uma chuva ao redor do refúgio. Deixando a porta entreaberta, voltei a entrar. Mesmo quando estavam mortas, o contato com as hidras era urticante. No interior, Martina, observando pela vigia de vidro grosso, falava com o Senhor cura. Compreendendo o perigo que corriam se permanecessem agrupadas, as hidras se deixavam cair em grupos de duas ou três Da minha porta, as vi circulando ao redor de uma locomotiva cerrada hermeticamente. Soltei uma gargalhada: o mecânico havia deixado escapar um jato de vapor ante o espanto das hidras.

Ainda estava rindo, enquanto olhava ao redor. Ao sul do povoado, os disparos crepitavam e na praça do poço algumas hidras mortas jaziam por terra. Subitamente, pareceu que o céu escurecia: saltei para o interior, fechando a porta. Uma hidra passou roçando no teto. Antes que tivesse tempo de introduzir o cano da minha escopeta no disparador, o monstro já estava longe. Um grito de Martina me sobressaltou.

— Jean! Aqui, depressa!

Saltei para a janela. Fora, a cento e cinquenta metros, um garotinho de uns doze anos corria com toda suas forças para o refugio. Uma hidra o perseguia. O garoto, apesar do perigo de morte, não estava assustado, e utilizava com inteligência as árvores, que atrapalhavam a seu perseguidor. Vi a cena e me precipitei para fora, ao seu encontro. A hidra havia tomado altura e mergulhava.

— Abaixe-se!

O garoto compreendeu e se jogou contra o solo e a hidra falhou. Eu lancei uma rajada de uma dez balas a cinquenta metros. O animal se sobressaltou, virando, e voltou à carga. Eu apontei de novo, a trinta metros desta vez. Na terceira bala a arma travou. O tempo que levaria em trocar o cano pelo de recambio que tinha guardado e o garoto estaria morto. Joguei minha arma e preparei a pistola. A hidra chegava.

Então, resfolegando, sublime e ridículo, passou o Senhor cura com a sotaina levantada.

E quando a hidra atacou ele estava ali, braços em cruz, fazendo do seu corpo uma proteção para o garoto. Ele foi atingido. Com minha arma, afinal destravada, atirei no monstro numa distância de dez metros, que caiu sobre o corpo da sua vítima.

Não havia mais hidras à vista. Os disparos haviam cessado no povoado. Algumas manchas verde flutuavam altas no céu. Afastei o cadáver do Senhor cura, — um centímetro cúbico do veneno da hidra matava um boi, e o animal injetava dez vezes mais.

— Martina levantou o garoto em seus braços robustos, desmaiado, e descemos ao povoado.

Os habitantes limpavam suas portas. Quando estávamos chegando, o garoto se reanimou. E quando Martina o devolveu à sua mãe já podia andar.

Encontrei Louis, sombrio, na praça do poço.

— Mau dia. Dois mortos: Pierre Evreus e Jean Claude Chart. Não quiseram esconder— se, para poder atirar melhor.

— Três mortos. — eu disse.

— Quem foi o terceiro?

O pus ao corrente.

— Bem, não gosto muito dos curas. Porém esse foi morto como um homem! Proponho que os três homens que caíram tenham funerais solenes.

— Como queiras.

— É preciso levantar o moral, Há demasiados homens que têm medo! Embora tenhamos derrubado trinta e duas hidras!

Da sala do Conselho, telefonei ao meu tio para dizer-lhe que estávamos a salvo.

No dia seguinte teve lugar o enterro. Louis pronunciou um breve discurso sobre as hidras, exaltando o sacrifício dos três homens.

Eu regressei do cemitério com Michel e Martina. Tomamos um atalho, através do campo, e encontramos o cadáver de uma hidra que obstruía o caminho. O animal era enorme, de uns seis metros de comprimento, sem os tentáculos. O contornamos.

Martina estava muito pálida.

— Que está acontecendo, pequena? — perguntou-lhe Michel — Já não há perigo!

— Michel, tenho medo! Este mundo é desapiedado, demasiado selvagem para nós.

Esses monstros verdes matarão a todos nós.

— Não creio. — disse — Nosso armamento cada dia se aperfeiçoa. Ontem, com um pouco mais de prudência, não teria havido vitimas. No fundo, não corremos mais perigo que os indus com os tigres e as serpentes…

— Para as serpentes existem os soros. Os tigres, bem, são tigres, animas não muito diferentes de nós. Porém ser digerido dentro da própria pele por estes pólipos verdes…

Oh! Que horror! — muito baixo repetiu — Tenho medo!

Nós a confortamos como melhor pudemos. Porém ao chegar ao povoado vimos que não era a única. O trem de minério de ferro estava parado, o maquinista falava com um granjeiro: — Tu, — dizia este último — tu ris, Com tua cabine bem fechada, assunto resolvido.

Porém nós, antes que algum haja soltado os bois e entrado num refugio, tem tempo de morrer dez vezes. A sirene pode tocar, toca sempre muito tarde. Te asseguro que cada vez que vou ao campo faço minhas orações. Não estou mais tranquilo que em casa. E ainda assim!

Ouvimos não poucas conversas neste estilo, aquele dia. Alguns elementos da fábrica, não obstante trabalharem cobertos, fraquejavam. Se as hidras chegassem a atacar todo dia, não sei como haveríamos terminado. Afortunadamente, antes da grande batalha, não fizeram mais incursões e pouco a pouco a tensão dos espíritos se relaxou, até o ponto em que tivemos que castigar algum observador negligente.

III — A EXPLORAÇÃO

Naqueles dias ultimei meu projeto de exploração, uma vez que me dei conta que gostava de Martina. Cada noite subíamos juntos para a casa do meu tio para a ceia.

Michel nos acompanhava, porém na maioria das vezes ele ia adiante. Eu confiava a Martina meus projetos, e ela se manifestava como uma excelente conselheira. Desta forma, trocávamos nossos pontos de vista sobre os respectivos trabalhos e, pouco a pouco, chegamos à troca de recordações pessoais.

Me inteirei então de que ela era órfã desde os três anos, e que Michel a havia educado.

Como era astrônomo, e como ela também era muito bem dotada para as ciências exatas, ele a havia incentivado neste sentido. Por minha parte, eu havia tido a sorte, como primo irmão de Bernard Verillae, de conhecer os membros da primeira expedição Terra-Marte, e pude fornecer muitos detalhes inéditos sobre eles. Havia sido, inclusive, fotografado por um jornalista entusiasta, entre Bernard e Sigmund Olsson, como o «membro mais jovem da expedição», o que me valeu muitas brincadeiras na Faculdade. Em troca, quando se tratou de incluir-me a bordo, para o segundo «raid», eu recusei, em parte com o fim de não afligir minha mãe, ainda viva naquele tempo, o que era honorável, e em parte por simples medo, o que era o de menor importância. Encontrei os jornais da época na biblioteca do meu tio e expliquei a Martina a famosa fotografia. Ela me mostrou outro clichê, que reproduzia os assistentes em uma conferência do chefe da missão Paul Bernadac. Com um traço de lápis, enquadrou a um jovem e uma moça na quinta fila.

— Michel e eu. Tivemos, em sua qualidade de astrônomo, um bom lugar. Para mim foi uma jornada gloriosa!

— Talvez eu tenha me encontrado contigo naquele dia. — disse — Eu ajudava Bernard a passava os clichês no aparelho de projeção.

Com o auxilio de uma lupa, pude reconhecer o rosto de Martina, um pouco acriançado.

Assim conversamos, noite após noite.

Um dia em que Michel nos aguardava na porta, chegamos de mãos dadas. Cômicamente ele colocou as suas sobre as nossas cabeças.

— Meus queridos filhos, como chefe de família, dou-lhes minha bênção.

Nos olhamos, incomodados.

— Então, terei eu me equivocado?

Respondemos ao mesmo tempo: — Pergunta a Martina.

— Pergunta a Jean.

Os três rompemos numa gargalhada.

No dia seguinte, tendo meditado conscienciosamente sobre meus projetos, expus ao Conselho meu plano de exploração.

— Você poderia — perguntei a Estranges — transformar um caminhão em uma espécie de tanque ligeiro, blindado com duralumínio e armado de uma metralhadora?

Servirá para explorar uma parte da superfície de Tellus.

— Isto é necessário? — perguntou Louis.

— Certamente. Não ignora que nossos recursos são bastante precários e o resto de minério de ferro da mina é suficiente apenas para dois anos, se não o utilizarmos em demasia. A planície e os pântanos que nos rodeiam são muito pouco propícios para a descoberta de depósitos de minérios. Seria necessário ir até as montanhas. Talvez ali encontremos também árvores suficientes, para fornecer-nos madeira de construção sem que tenhamos que destruir os bosques que nos restam, os que não estão sobrando.

Talvez ali descubramos animais úteis, carvão. Quem sabe? Talvez também um local sem hidras. É pouco provável que se afastem dos pântanos.

— Quanto diesel pensas em gastar?

— Quanto consome o menor caminhão?

— Vinte e dois litros a cada cem Km. Carregado e em terreno desigual, pode chegar a gastar trinta.

— Suponhamos que eu leve 1.200 litros. Isto me proporcionará um raio de ação de 2.000 quilômetros. Não me distanciarei tanto, porém tenho que contar com os desvios.

— De quantos homens precisas?

— Sete, contando comigo. Penso em levar Beltaire, a quem ensinei a reconhecer os principais minerais. Michel, se quiser ir.

— Com certeza! Sou voluntário. Afinal farei astronomia «sobre o terreno».

— Tu me serás útil, especialmente para marcar o lugar com os dados topográficos.

No que respeita aos outros membros, verei depois.

O projeto foi aceito por unanimidade, exceto por um voto, o de Charnier.

No dia seguinte, Estranges pôs os operários a trabalhar para transformar o caminhão convenientemente. Escolhemos um caminhão de plexiglas, provenientes da reserva do observatório. O sistema de fechamento das portas foi reforçado com placas de duralumínio, podendo-se, em caso necessário, obstruir as janelas. Uniu-se a plataforma com a cabine, sendo aquela alargada e transformada em moradia. Os arcos de aço foram recobertos de espessas placas de duralumínio Uma cúpula superior albergou uma metralhadora de 20mm, cuja abertura era feita com um sistema de pedais.

Devíamos levar, além disso: 30 foguetes de 1.10m, de longo alcance, dois fuzismetralhadora e quatro fuzis de repetição. A metralhadora foi aprovisionada com 800 cartuchos, os fuzis_metralhadora com 600 e os fuzis de repetição com 400. Seis tambores de 200 litros continham nosso diesel. Seis catres subrepostos em séries de três, uma pequena mesa dobrável, umas caixas cheias de víveres, utilizadas também como assentos; instrumentos explosivos, ferramentas,um tambor de água potável, um pequeno aparelho de radio emissor-receptor, acabaram de obstruir o reduzido espaço, no interior, até o teto.

O habitáculo estava iluminado por duas lâmpadas e três janelas obturáveis. Uns disparadores permitiam atirar deste o interior. No teto, ao redor da cúpula, colocaram seis pneus novos. O motor foi totalmente revisado, e assim tive à minha disposição um veículo temível, bem armado, capaz de desafiar às hidras, possuindo, em combustível, uma autonomia de 4.000 quilômetros, e em víveres, de vinte e cinco dias.

No teste na estrada, obtivemos facilmente uma média de 60km/h. Em terreno desigual não se podia contar com mais de 30.

Também me ocupei da composição da equipe. Deveria compreender:

Chefe da missão e geólogo: Jean Bournat.

Chefe de campo: Breffort.

Zoólogo e botânico: Vandal.

Navegador: Michel Sauvage.

Exame de terrenos e minerais: Beltaire.

Mecânico e radio: Paul Schoeffer.

Este último, antigo mecânico aviador, era um amigo de Louis.

Não sabia como escolher o último expedicionário. Havia pensado em Massacre, mas sua presença era igualmente indispensável no povoado. Deixei minha lista incompleta em cima da mesa. Quando regressei encontrei-a concluída com a atrevida letra de Martina: Cozinheiro e enfermeiro: Martina Sauvage.

Apesar de todos meus pedidos e os do seu irmão, foi impossível dissuadi-la. Como era robusta, valente e excelente atiradora, não fiquei muito preocupado em ceder.

Por outro lado, eu estava convencido de que nosso «tanque» nos oferecia o máximo de segurança.

Realizamos nosso últimos preparativos. Cada um colocou como pôde alguns livros ou objetos pessoais que queria levar. Tomamos posse dos nossos catres. Havia mais de 60cm de separação entre eles. Martina ficou no mais alto à direita, eu no mais alto à esquerda. Abaixo de mim, Vandal e Breffort e abaixo dela, Michel e Beltaire.

Schoeffer teria que deitar no banco do condutor, sendo a cabine suficientemente larga para seus 1,60m. Instalamos também um ventilador, por causa da temperatura, que prometia ser incomodativa. Um tampa se abria em um dos lados da cúpula, o que nos permitia subir ao teto. Porém, ao menor perigo, todo mundo deveria entrar imediatamente.

Cada um tomou seu lugar, numa madrugada azul. Eu empunhei o volante, com Michel e Martina ao meu lado. Vandal, Breffort e Schoeffer subiram ao teto. Beltaire estava no posto da metralhadora, na torre, em comunicação comigo por telefone. Eu me havia assegurado de que cada um de nós, inclusive Martina, era capaz de dirigir, atirar com a metralhadora e reparar as avarias mais frequentes.

Depois de haver estreitado a mão de nossos amigos e abraçado ao meu tio e ao meu irmão, pus o motor em marcha. Rodamos em direção ao castelo. Na torre, Beltaire agitou a mão por longo tempo, em resposta ao lenço de Ida. Eu estava exultante e feliz, cantando a plena voz. Passamos sobre as ruínas, bordejamos a via férrea e, por uma nova estrada que havíamos construído, — uma pista melhor — chegamos à mina de ferro. Tive a satisfação de encontrar os observadores nos seus postos. Alguns operários iam e vinham antes de começar o trabalho, outros comiam algo. Trocamos sinais amistosos. Depois começamos a rodar na planície, entre as ervas telurianas.

A princípio, espaçadamente, vimos algumas plantas terrestres. Desapareceram logo. Uma hora mais tarde passamos sobre os últimos vestígios dos meus reconhecimentos.

E adentramos o desconhecido.

Um ligeiro vento do Oeste ondulava a vegetação que passava soba o caminhão, com um suave rumor. O solo era firme e muito plano. A savana cinzenta estendia-se até o infinito. Algumas nuvens brancas — nuvens «normais», falou Michel — flutuavam para o Sul.

— Em que direção vamos? — perguntou Michel, que havia disposto sobre uma pequena prateleira os instrumentos de que precisava para seu papel de navegante inverso, com relação à Terra — a ponta do compasso que na Terra indica o Norte, aqui aponta para o Sul. — O magnetismo de Tellus é constante, e nossas bússolas funcionavam perfeitamente.

— Primeiro em frente, para o Sul depois para o Sudoeste. Com isto rodearemos o pântano. Ao menos assim espero. Depois para as montanhas.

Ao meio-dia fizemos alto. Tomamos nossa primeira refeição «à sombra do caminhão», como disse Paul, sombra é coisa inexistente. Afortunadamente soprava um vento suave. Enquanto bebíamos alegremente uma garrafa de bom vinho, as ervas ondularam, e uma enorme víbora apareceu. Sem duvidar um momento, seguiu reta e afundou suas mandíbulas no pneu esquerdo dianteiro, que emitiu um chiado característico.

— Santo Deus! — exclamou Paul, que saltou para o caminhão, saindo com um machado.

Incentivado pelo «Esquarteja-a» de Vandal, assestou na besta um golpe tão furioso que a partiu em duas e o metal do machado afundou no solo até a empunhadura.

Nós morríamos de rir.

— Acho que esta víbora não achou esta presa suculenta, — disse Michel, esforçandose em abrir-lhe as mandíbulas.

Foi necessário empregar uma pinça. Desmontado o pneu, verificamos que os sucos digestivos do animal eram tão poderosos que a câmara de ar esta dissolvida e a borracha corroída — Minhas desculpas, — disse Michel, voltando-se para os restos do animal. — Acho que ela poderia comer a borracha!

Novamente em marcha, rodamos a 25 ou 30km em média.

Quando entardeceu, eu ainda estava ao volante, havíamos feitos 300km e uns picos situados à esquerda nos haviam convencido de que o pântano continuava.

Foi somente ao cabo de três horas do dia seguinte, depois de uma boa noite, que pudemos mudar de direção, sem haver encontrado outra coisa mais que ervas cinzentas, raras árvores pequenas e algum barranco que tivemos que evitar. Ao longe se perfilavam as montanhas para as quais seguíamos Pouco antes das dez, o tempo mudou e ao meio-dia a chuva tamborilava sobre as chapas de duralumínio. Comemos, apertados no interior. A chuva era tão violenta que dificultava a visão, e decidi deter-nos até que parasse. Entreabrimos as janelas para deixar entrar ar fresco e, uns estirados nos catres e os demais sentados na mesa, ficamos discutindo. Eu estava em um lugar intermediário na banqueta dianteira, com Michel e sua irmã ao meu lado, sentados na soleira da porta de comunicação.

Michel e eu fumávamos nossos cachimbos e os demais fumavam cigarros. Graças a Deus ou ao azar, havia plantas de tabaco no povoado, além de uma abundante provisão, e havíamos podido plantá-las. Ao abrigo das incursões dos inspetores da Tabacaria!

A chuva durou dezessete horas. Quando despertamos ainda persistia, embora mais fraca, e os turnos de guarda afirmaram que não havia cessado um instante. Toda a planície estava coberta por uma película de água, absorvida lentamente pelo húmus Quando Michel o pôs em marcha, o caminhão derrapou antes de avançar.

Ao final do terceiro dia, havíamos percorrido 650 quilômetros, chegamos perto das montanhas. As colinas, orientadas no sentido SO-NO, reduziam o horizonte, e entre duas delas eu faria um achado capital.

Era noite. Nós havíamos nos detido ao pé de um montículo avermelhado, onde a vegetação permitia ver uma terra desnuda, argilosa. Levando minha arma, havia me distanciado um pouco. Vagando, vigiando o céu de vez em quando, eu refletia. Me perguntava se as leis da geologia terrestre eram aplicáveis a Tellus. Acabara de decidir— me pela afirmativa, quando notei que há algum tempo experimentava uma sensação indefinível, porém conhecida. Me detive. Estava diante de um pequeno pântano oleoso, onde a vegetação era muito pobre, apenas umas manchas amareladas rodeados de reflexos iridescentes. Tive um sobressalto: aquilo cheirava a petróleo!

Aproximei-me. Umas bolhas negras subiam à superfície, por uma pequena fenda.

Inflamaram-se sem dificuldade, o que não significava nada, pois podia tratar-se de simples gás Porém, e as iridescências? Aparentemente, ali havia um depósito petrolífero, provavelmente a pouca profundidade. Estudei o local detidamente. A capa argilosa que cobria a colina era substituída aqui por uma rocha escura, ardósia. A uns cem metros, esta terminava em uma beirada de calcário branco. Todas as aparências de uma fissura. O petróleo podia ser rastreado através dessa fissura, caso em que era provável que se perdesse. Ou talvez permanecesse próximo à superfície. De toda forma, havia petróleo em Tellus, e encontraríamos uma maneira de explorá-lo.

Anotamos cuidadosamente aquele lugar no nosso itinerário e rodeamos uma cadeia de montanhas pelo sul. — seria melhor chamá-las colinas altas, pois não ultrapassavam os 800 metros de altura. — Eram elevações calcárias, pouco erodidas, provavelmente geologicamente jovens. Em um bloco desmoronado descobri uma concha fóssil, muito parecida a um braquípodo terrestre. Isso provava que nem todos os seres de Tellus estavam — ou não haviam estado — tão absolutamente desprovidos de armação, como as hidras. A vegetação continuava igualmente monótona: ervas cinzas e «árvores» cinzas. Durante as paradas, Vandal transformava a mesa em laboratório, e o micrótomo não deixava de funcionar. Porém até o momento não havia conseguido nenhum descobrimento sensacional. As células das plantas eram análogas às dos vegetais terrestres, embora frenquentemente polinucleadas. Estas plantas não tinham inflorescências, e sim uns grãos semelhantes ao dos pteridospermos da era Primaria da Terra.

Assim que rodeamos as colinas vimos ao longe uma poderosa cadeia de montanhas coroadas de picos nevados. A mais alta era particularmente bela. Chocava-nos por sua enorme altitude. Levantava-se negra como a noite sob seu chapéu de neve, cônico, regular, caindo reto sobre a planície. Era provavelmente vulcânica. Batizamos de «Monte Tenebroso».

Dirigimos direto para ela. Michel tomou alguns dados e, com um simples cálculo, deduziu sua altura. Sussurrou: — Aproximadamente 12.700m!

— Doze quilômetros! Superior ao Everest…

— Mais de 3.000 metros.

— Porque conseguimos distinguir claramente o pico? Não deveria estar acima das nuvens?

— Acontece que não há nuvens. São bastante raras em Tellus. Porém quando chove!…

Lembra de anteontem!

— Entretanto, deve chover mais frequentemente do que pensas. Esta vegetação não vive sem água!

Antes de chegarmos ao pé do pico, topamos com um difícil obstáculo. O solo começou a descer. E no fundo de um amplo vale avistamos um rio. Estava rodeado de uma vegetação dendriforme, que mostrou-se mais próxima das árvores terrestre que todas as que conhecíamos até o momento. Existiam inclusive inflorescências, que Vandal comparou com os cones de determinados gimnospermos Como atravessar o rio? Não era muito largo, — uns 200 metros — mas era rápido e profundo. As águas eram negras. Como recordação do meu país natal, o batizei de «Dordogne». Parecia pouco provável que umas águas tão rápidas pudessem agradar às hidras, porém tomamos nossas precauções. Seguimos o fluxo da corrente, na esperança de encontrar um vau fácil. À noite, nos pareceu que chegáramos à nascente.

O rio parecia saltar de um penhasco. Não foi fácil passar com o caminhão pela espécie de ponte que formava essa paragem rochosa: estava obstruída pela vegetação e por blocos de pedra e cortado pelas torrentes. Rio abaixo, pela outra margem, seguimos até o «Monte Tenebroso». Por uma ilusão de ótica, parecia formar parte da cadeia de montanhas. Na realidade, erguia-se muito antes, como uma gigantesca mesa recoberta de lava negra, basalto e outras rochas. Ele nos pareceu a prova de uma mudança recente na origem profunda do magma expelido pelo vulcão, pois as lavas, fluidas, não formam um relevo escarpado. Grande quantidade de obsidiana pontilhavam a base.

Perto de uma delas fiz um surpreendente achado: em um monte de lascas encontrei uma ponta finamente cinzelada, em forma de folha de louro, totalmente análoga às que nossos antepassados fabricaram na Terra ao longo do período solutrense.

IV — OS SSWIS

Mostrei meu achado, em particular, a Michel e Breffort.

— Estás certo — perguntou Michel — que não pode ser uma forma natural?

— De modo algum. Considera a forma geral, os retoques. É exatamente a réplica de uma ponta solutrense.

— Ou de algumas peças, igualmente em obsidiana, provenientes da América, que terias podido contemplar no museu do Homem, se o houvesse frequentado. — acrescentou Breffort.

— Portanto, — repôs Michel — é forçoso admitirmos que existem homens em Tellus.

— Não necessariamente. — disse Vandal — A inteligência pode florescer sob formas distintas da nossa. Até o momento, a fauna teluriana não tem nada de terrestre.

— Certo. O fato de meu primo e seus companheiros terem encontrado humanoides em Marte, não é razão para que devam existir aqui também.

— Não poderia tratar-se — respondeu Michel — de terrestres como nós que, não tendo à sua disposição nossos meios, tenham retrocedido à Idade da Pedra?

— Não creio. Na Terra eu conhecia muitos poucos homens capazes de cortar a pedra à maneira pré-histórica. E podes acreditar, a fabricação de semelhante peça supõe uma habilidade que não se adquire senão por uma treinamento de muitos anos.

De qualquer forma, abramos os olhos e ponhamos os outros ao corrente.

Assim foi feito. Mandei revisar os faróis e o refletor conectado na cúpula móvel.

Para fazer frente a qualquer eventualidade, foi dobrada a guarda noturna e eu assumi o primeiro turno com Michel. Subi a torre e eu me coloquei na frente, na banqueta, e passei o cano de uma fuzil-metralhadora por um disparador. Com os carregadores prontos, aguardei. Ao cabo de um momento chamei Michel por telefone.

— É melhor que nos comuniquemos de vez em quando; isto nos impedirá de dormir.

Se quiseres fumar teu cachimbo, tem cuidado para que a luz do teu isqueiro não se filtre para fora.

— De acordo. Se eu observar alguma coisa, te advirto logo, e…

Fora, muito perto, retumbou um estranho e poderoso grito. Parecia um berro gutural, que terminou em um sibilo horrível que crispava os nervos. Tive uma estranha impressão de rigidez. Os sáurios gigantes do secundário deviam ter umas vozes deste tipo. Estaríamos em uma região povoada de tiranossauros?

Michel me sussurrou pelo microfone: — Ouviste?

— Claro que sim.

— Que diabo pode ser? Ilumino?

— Não, por Deus! Cala-te.

O estranho grito foi ouvido novamente, mais perto ainda. Atras de uma barreira de árvores vi, à pálida lus de Selenio, uma coisa enorme que se movia. Suspendendo a respiração, pus o carregador na metralhadora. O ruido me pareceu ensurdecedor.

Com um ligeiro chiado a torre moveu-se. Sem dúvida Michel o havia visto também e apontava sua arma.

No silêncio que se seguiu, pude ouvir os roncos de Vandal. Deviam estar todos muito fatigados para não haver despertado com esses gritos!

Quando me perguntava se era preciso tocar a campainha de combate, a forma se moveu e saiu de trás das árvores. Com tão pouca luz, só entrevi um dorso denteado, umas patas gordas e grossas, uma cabeça chifruda, chata, muito larga. Devia medir uns 25 ou 30 metros de comprimento e 5 ou 6 de altura. Com o dedo eu tateava a segurança da arma, comprovando que esta estivesse pronta para atirar, mas não me atrevi a colocar o indicador no gatilho, temendo lançar uma rajada por nervosismo.

— Atenção. Preparado, porém não dispares — disse — Mas o que é essa porcaria?

— Não sei! Atenção!

O monstro se movia. Estava avançando para nós. Sua cabeça tinha uns chifres enramados como os de um cervo, e reluziam soba a lua. A pouca velocidade, meio deslizando, meio trepando, foi para a sombra da barreira de árvores e o perdi de vista.

Foram uns minutos terríveis. Quando reapareceu, estava mais distante e se fundiu gradualmente na noite. Um Ufa! Me chegou pelo telefone. Eu respondi da mesma maneira.

— Dá uma olhada — disse.

Pelo chiado dos pedais, compreendi que Michel obedecia. De repente escutei um Ah! apagado.

— Vem cá!

Subi pela escada até perto de Michel, no outro lado da metralhadora — Na tua frente, distante.

Ao entardecer havíamos visto, naquela direção um penhasco. Agora piscavam uns pontos luminosos que às vezes, ante algum obstáculo, desapareciam.

— Fogo nas grutas! É ali que vivem os talhadores da obsidiana!

Permanecemos ali hipnotizados, observando de vez em quando.

Quando, algumas horas mais tarde, levantou-se o sol vermelho, ainda estávamos ali.

— Porque não nos despertaram? — lamentou-se Vandal — E pensar que não pude ver este animal!

— Não foi muito amável da vossa parte. — acrescentou Martina.

— Pensei nisto. — disse — Porém, enquanto o animal esteve ali não quis produzir confusão com um despertar sobressaltado, e ele foi logo embora. Agora Michel e eu vamos dormir um pouco. Vandal e Breffort ficam encarregados da guarda. É desnecessário recomendar que estejam alertas. Só disparem em caso de absoluta necessidade.

Tu Charles, — disse a Breffort — pega outro fuzil-metralhadora e sobe á torre.

Só usem a metralhadora como último recurso. As munições são relativamente escassas.

Porém, se for necessário, não te detenhas. Proibição absoluta de sair. Despertem— me quando Helios sair.

Não dormimos mais que uma hora! Uns disparos e a brusca partida do caminhão me despertaram. Em um abrir e fechar de olhos eu estava fora da cama, recebendo Michel ainda meio desnudo, acima da minha cabeça. Através da porta de comunicação vi Paul ao volante e as costas de Vandal inclinada sobre um fuzil-metralhadora Atrás, Beltaire, com outro fuzil-metralhadora, observava, os olhos fixos no disparador A torre girava em todas direções e a metralhadora pesada disparava rajadas de quatro ou cinco balas.

— Michel, aprovisiona a metralhadora!

Passei para a parte dianteira.

— Que está acontecendo? Porque estamos estamos nos movendo?

— Tocaram fogo na erva.

— Sobre quem disparam?

— Sobre os que a incendiaram. Olha, ali estão!

— Através de umas ervas altas entrevi uma silhueta vagamente humana que corria a toda velocidade.

— Estão montados a cavalo?

— Não! São «Centauros»!

Como que para confirmar a expressão que Vandal havia usado, uma daquelas criaturas apareceu a uns cem metros, sobre um monte liso. À primeira vista evocava claramente a lenda: Media aproximadamente dois metros de altura, um corpo quadrúpede, com umas pernas finas e compridas. Perpendicularmente ao corpo, crescia um torso quase humano, com dois longos braços. A cabeça era calva. Um tegumento moreno reluzia como uma castanha da índia recém descascada. Aquele ser tinha na mão um feixe de varas. Pegou um com sua mão direita, correu até nós e lançou.

— Uma azagaia. — eu disse, surpreendido.

A arma cravou-se no solo, a alguns metros, desaparecendo sob as rodas. Uma exclamação de angústia chegou do fundo do caminhão: — Mais rápido, mais rápido! O fogo está nos alcançando!

— Estamos na velocidade máxima, 55 por hora. — disse — O fogo está longe?

— Somente a 300 metros. O vento o empurra para nós!

Seguimos direto. Os «centauros» haviam desaparecido.

— O que aconteceu? — perguntei a Martina.

— Estávamos falando do animal que viste esta noite, quando Breffort mostrou a Vandal que apareciam uns corpos detrás de nós. Apenas falei isto, quando apareceu uma centena destes seres, que começaram a lançar-nos azagaias. Creio inclusive que alguns teles tinham arcos. Respondemos ao ataque e nos pusemos em marcha. Isto é tudo.

— O fogo progride. — gritou Beltaire — Está a cem metros!

A fumarada obscurecia a paisagem à nossa direita. Algumas chispas superavam o caminhão, acendendo fogos secundários, que tínhamos que evitar.

— Tenta forçar um pouco, Paul.

— Estamos a toda velocidade! Sessenta por hora. E se um pneu rebenta…

— Então nos assaremos. Porém aguentarão!

— À esquerda, Paul, à esquerda, — gritou Breffort — terreno limpo!

Schoeffer virou e, instantes depois, rodávamos através de uma vasta e nua extensão de argila avermelhada. As montanhas estavam perto e Helios se levantava. Consultei meu relógio; do momento em que havia me deitado até aquele instante, haviam passado uma hora e meia.

Nossa posição naquele momento era boa. Nos encontrávamos sobre uma superfície desolada, de vários quilômetros de circunferência, provavelmente. Com nosso armamento intacto, éramos temíveis. No nosso caminhão, não corríamos perigo de ser atingidos, excetuando os pneus, nem por flechas, nem por azagaias.

Pouco a pouco, o fogo rodeou nossa ilhota de salvação e passou pela esquerda.

Adiante do fogo corriam todos tipos de bestas curiosas. Vandal desceu à terra e capturou algumas. De formas e tamanhos variados, — desde o de um musaranho à de um cachorro grande — apresentavam todas elas uma característica pouco comum: a presença de seis patas. O número de olhos variava entre três e seis.

À nossa direita, o fogo, tendo encontrado talvez uma vegetação mais úmida, deteve— se. À esquerda tinha nos empurrado um pouco. Alcançou um grupo de árvores, que crepitaram e se inflamaram com violência, como se estivessem impregnadas degasolina.

Ouviu-se um ruido terrível. Uma forma enorme saiu de entre as árvores abrasadas e correu direto para nós a grande velocidade. Tratava-se do animal que vimos à noite, ou de um irmão da mesma raça, que devia ter seu esconderijo naquele bosque. A uns 500 metros de nós, em terreno limpo, deteve-se. Com os binóculos pude examiná— lo em detalhe. Sua forma geral — excetuadas as seis patas, — era de um dinossauro.

O dorso denteado se prolongava através de uma comprida cauda eriçada. Sua pele verde brilhante era calosa. A cabeça, de uns três ou quatro metros, estava dotada de numerosos chifres, dois deles ramificados; possuía olhos, dois laterais e um frontal. Virou-se para lamber uma ferida e pude ver uns dentes enormes, agudo,s e uma comprida língua roliça em uma boca violácea.

Então apareceram dez «centauros» armados com arcos, que começaram a atirar suas flechas no monstro. O animal lançou-se sobre eles. Com uma maravilhosa presteza, eles o contornaram; seus movimentos eram vivos e precisos e sua velocidade ultrapassava à de um cavalo a galope, o que era absolutamente necessário, uma vez que o monstro exibia uma ágil atividade, muito notável com relação ao seu peso.

Todos nós observávamos aquela apaixonante caça épica, temendo intervir. Teria sido difícil disparar sem alcançar os próprios caçadores, dançando em torno da sua presa. Eu ia ordenar que nos puséssemos a caminho, quando aconteceu um drama.

Um dos «centauros» escorregou. A enorme mandíbula do monstro o agarrou, triturando— o.

— Adiante! Prontos para disparar!

Avançamos, a velocidade moderada, para poder manobrar melhor. Por estranho que possa parecer, não creio que os «centauros» tivessem notado nossa presença antes que estivéssemos a cem metros deles. Então nos viram, e abandonaram imediatamento o ataque ao monstro, reagrupando-se de três em três À medida que avançávamos, eles retrocediam, deixando-nos frente à frente com o animal. Tínhamos que evitar a tudo custo um choque com ele, o que nos teria esmagado.

— Fogo! — gritei.

O monstro nos atacava. Embora crivado pelas balas e pelos obuses perfurantes, não se deteve. Schoeffer, com uma rápida manobra do volante, inclinou à esquerda.

Me pareceu que o animal escorregava para a direita, quando um golpe de cauda amassou a blindagem. A metralhadora continuou disparando. A besta quis voltar-se para nós, tropeçou e se deteve imóvel, morta. À distância, os «centauros» observavam.

O monstro já não se movia. Com a metralhadora em punho, desci do caminhão com Michel e Vandal. Martina quis vir porém a proibi. Com razão. Apenas pusemos os pés em terra, os «centauros» nos atacaram, acompanhados de gritos sibilantes: «Sswis! Sswis! Um fuzil-metralhadora crepitou, calando-se em seguida, talvez travado.

A metralhadora disparou por duas vezes. Mas os assaltantes já estavam sobre nós. Nossa rajadas foram mais eficazes. Três «centauros» mortos, rolaram por terra; mais dois feridos fugiram. Uma chuva de flechas caiu ao nosso redor, enrrando-nos.

Depois, foi corpo a corpo. Com nossas metralhadoras descarregas, empunhamos as pistolas. Apenas peguei a minha, quando me senti preso e içado pelas costas. Havia sido agarrado por uns braços poderosos contra um torso oleoso, do qual se desprendia um acre cheiro de gordura rançosa. Eu tinha os braços apertados contra o corpo e minha pistola na mão esquerda. Pude ouvir uns disparos, mas não podia me virar.

A terra seca ressoava sob os pés do meu atacante.

Me dei conta de que se não me desprendesse rapidamente estaria perdido. Uns trinta «centauros» chegaram como reforço. Com um violento esforço pude afrouxar o abraço do meu inimigo, virar-me e soltar meu braço direito. Fiz passar minha pistola para a mão direita e disparei cinco balas na cabeça do ser que estava me arrastando.

Rolei por terra, maltratado e quase desmaiado. Quando me levantei, os outros não estavam a mais de 300 metros e o caminhão chegava a toda velocidade, com as armas caladas. Me pus a correr para ele sem grandes esperanças de escapar. Estava inundado de um líquido alaranjado e viscoso, o sangre do centauro. Ouvia cada vez mais perto o galope dos meus perseguidores. Minha respiração era entrecortada. Minhas costas doíam Vi Michel fazendo sinais com o braço através da abertura da torre.

— Muito tarde. — pensei — Porque não disparam? — De repente compreendi: não podiam atirar sem risco de me acertar. Brutalmente, me lancei ao solo voltando-me em direção ao inimigo. Ainda tinha três balas na minha arma. Apenas cai ao chão, quando os primeiros obuses sibilaram sobre minha cabeça, alcançado uns10 inimigos. Se assustaram e detiveram-se. Não obstante, dois deles continuavam me perseguindo; derrubei-os a uns cem metros. Com um chiado de freios, o caminhão se deteve muito perto, com a porta aberta. Saltei para o interior. Uma chuva de flechas bateu contra a porta, arranhando o plexiglas da portinhola. Um dos dardos passou através de um disparador, cravando-se, vibrando, em um encosto. Respondemos ao fogo e os sobreviventes fugiram. Éramos dono do campo de batalha.

Michel desceu da torre.

— Certo rapaz, escapaste de uma boa! Porque diabos não de abaixastes antes?

— Foi o que estive pensando. Não houve feridos?

— Vandal recebeu uma flechada no braço, no meio do alvoroço. Não há de ser nada… se não estiver envenenada. Breffort examinou a ponta e afirma que não está.

— Que seres infernais!

— Aonde vamos agora?

— Voltemos para ver o Golias que abatemos.

Michel, Vandal e eu descemos pela segunda vez para examinar o monstro, assim como os cadáveres dos «centauros» que haviam ficado no primeiro campo de batalha.

Segundo Vandal, a couraça do Golias, como chamávamos ao monstro, era um material semelhante à quitina dos insetos terrestres, embora distinta. Em todo caso, era muito dura, e para conseguir arrancar um dos chifre ramificados, que Vandal queria levar, arrumamos uma serra para metais. Fotografamos o animal e os «centauros» mortos. Tínhamos ainda alguns carretéis de filme que usávamos com parcimônia.

São realmente seres estranhos esses «centauros», ou «Sswis» — como também os chamamos por causa do seu grito — Um corpo quase cilíndrico, quatro patas finas, cascos duros e pequenos, uma cauda córnea e curta. Na parte anterior, este corpo acaba bruscamente, e se inicia um torso quase humano, com dois longos braços que terminam em mãos de seis dedos opostos e iguais, por pares. A cabeça esférica, calva, desprovida de aparelho auditivo externo, — que é substituído por uma membrana sobre uma concavidade — possui três olhos de um cinza pálido, o maior dos quais está situado na frente. Uma boca ampla com uns dentes agudos, como de répteis. O nariz comprido, mole, movendo-se como uma tromba, cai sobre a boca.

Vandal dissecou sumariamente a um deles. O cérebro é complexo e volumoso, protegido por uma cápsula quitinoide. A armação óssea é mineralizada, porém flexível.

Embora diferentes, são muito mais próximos a nós que as hidras. Alguns cadáveres ainda estavam quentes. O torso não encerra mais que dois vastos pulmões, análogos aos nossos, embora mais simples, o coração, com quatro concavidades, e o estômago.

As vísceras localizam-se na parte horizontal do corpo. O sangue, espesso, era de uma cor alaranjada.

— São seres que forçosamente temos que chamar humanos. — disse afinal Vandal — Conhecem o fogo, talham a pedra, fabricam arcos. São definitivamente inteligentes.

Que lástima termos entrado em relação com eles desta forma!

Partimos, não sem antes haver observado que além das suas armas — arco, ou as azagaias com pontas de obsidiana finamente talhada — os Sswis levavam ao redor da parte vertical do corpo uma espécie de cinta de vegetais artisticamente trançados, que sustentava umas pequenas bolsas da mesma natureza, cheias de objetos de obsidiana, que lembravam notavelmente as ferramentas no nosso Paleolítico Superior humano.

Escolhemos, para passa a noite, uma extensão de terreno completamente desprovido de vegetação. Esses curiosos espaços nus eram bastante frequentes e me convenci de que se deviam à natureza do solo, uma espécie de laterita completamente estéril. Seja qual fosse a causa, servia aos nossos propósitos. Detivemos o caminhão no alto de uma grande elevação, como precaução, para o caso de uma falha no motor quando tentássemos dar a partida. Todas as precauções foram inúteis. A noite transcorreu sem qualquer alarme, turvada apenas pelo grito distante de um Golias.

Não obstante, pela manhã, Michel me despertou com uma cara preocupada.

— Olha. — disse ele, mostrando-me o barômetro.

Este marcava exatamente 76 centímetros de mercúrio, em lugar dos de 91 que nos são habituais.

— Tenho a impressão de que vamos desfrutar, dentro em pouco, de um tempo divertido.

— Estás certo de que não se deve à altitude?

— Ontem à noite assinalava 90.

Levou-me ao vidro da esquerda.

— Olha as montanhas.

Os «Montes desconhecidos» desapareciam na bruma. A oeste, o céu se cobria de nuvens cinza.

— Não podemos permanecer aqui. — decidi. — Em frente. É necessário encontramos um refugio natural.

Paul tomou o volante. Ao instalar-se, observou o horizonte e deixou escapar um assobio significativo.

— Vejam isso! Não tinha vista nada igual desde aquela tempestade no Atlântico Sul!

O setor oeste tinha um cinza-chumbo sinistro. Produzia um contraste surpreendente, o sol nascente brilhando com todo seu esplendor e com essa cor espantosa que ascendia com rapidez pelo céu — À esquerda. — disse — Há uma maior elevação de terras, ao menos não teremos que temer uma inundação.

Seguimos para Sudoeste, através da planície deserta. As nuvens quase haviam alcançado o zênite. De súbito, caíram as primeiras gotas de chuva, grandes e barulhentas.

O vento, que no alto arrastava as nuvens, era nulo ao nível do solo. Fazia um calor agoniante.

Deixando Michel ao lado do condutor, subi, seguido de Martina, para a torre, de onde esperava divisar um refugio. Com o objetivo de chegarmos mais depressas às montanhas, derivamos completamente para o Sul e depois para Sudeste. O sol ascendia lentamente. A chuva, pouco nutrida, persistia. A tempestade se desencadeava a Oeste, com um rumor surdo. Estávamos chegando a uns penhascos, que sob aquela luz cada vez mais pálida, me parecia coalhada de cavernas. Ainda nos faltavam dois bons quilômetros. De repente se desencadeou a tempestade O vento alcançou o caminhão, desviando-o da rota. Paul soltou uma exclamação, ao mesmo tempo em que, com um golpe de volante, restabelecia nossa direção primitiva. A chuva ficou mais pesada, as flechas liquidas eram varridas pelo vento e o penhasco parecia mais distante ou mais próximo, segundo a direção do vento que separava ou precipitava a cortina da chuva. Retumbou um trovão com um ruido ensurdecedor. A escuridão era quase total, iluminada de vez em quando por brilhantes relâmpagos de um violeta deslumbrante. Tive que recolher a metralhadora para o interior do veículo e fechar a portinhola. Logo tive que fazer-me compreender à força de gritos, por causa do continuo fragor.

O caminhão avançava com dificuldade. O solo, viscoso, não oferecia resistência aos pneus, que derrapavam. O vento não era continuo, soprava em rajadas bruscas, dificultando a condução. Não podíamos ultrapassar os 10 quilômetros por hora, por causa do perigo. Os relâmpagos pareciam palpitar durante longos minutos; depois aquilo se converteu em um espetáculo fantasmal de luz e trevas, de onde emergia e desaparecia, ao meu lado, o rosto pálido e um pouco assustado de Martina.

Quando me abaixava, via sob meus pés o interior do caminhão. Sobre a mesa, Breffort escrevia o diário de bordo e Vandal passava suas anotações a limpo. Não conseguia descobrir Beltaire. Vi, finalmente, uma perna balançando no catre. Quando levantava a cabeça, o universo, contrastando com a calma do interior, parecia ainda mais desencadeado. O vento e a chuva se intensificavam. Os relâmpagos mostravam a capota e o teto gotejando como se tivessem saído do mar. A antena vibrava, dobrava, com perigo de quebrar-se. No intervalo que deixava o trovão, percebi um canto agudo.

— Bem, bem. — gritei — é uma senhora tempestade — É magnífico. — respondeu Martina.

Era realmente um espetáculo magnifico, embora pavoroso. Anteriormente, na Terra, eu havia sido surpreendido por tempestades na montanha, porém jamais havia visto nada que pudesse comparar-se a esta, em violência e beleza. Caiu um raio a 200 escassos metros de nós e eu gritei para Michel: — O que marca o barômetro?

— Ainda baixando.

— Estamos chegando. Vejo vários refúgios Acende os faróis O penhasco estava muito perto. Rodamos durante dois ou três minutos antes de encontrar uma abertura capaz de abrigar o caminhão, e de fácil acesso.

Temendo um novo encontro dom os Sswis, — ou com os Golias — dispus a metralhadora em bateria, e um sopro de ar frio e úmido penetrou com o rumor da chuva.

A caverna estava vazia, e logo o caminhão estava em terreno seco, protegido por mais de trinta metros de rocha. Nós o colocamos de frente para o exterior e descemos.

Beltaire, a quem cabia o turno, permaneceu na metralhadora.

A caverna media uns cinquenta metros de comprimento por vinte de altura e vinte e cinco de profundidade. A água resvalava pela abóbada formando goteiras. Não obstante, o solo estava seco, graças às saliências da rocha, que faziam as vezes de cornijas. Em um local, cinzas, ferramentas de obsidiana e resíduos de ossos, testemunhavam a recente presença dos Sswis. Portanto era prudente manter vigília. Encontramos também, cuidadosamente guardados em uma anfractuosidade, blocos de obsidiana e reservas de madeira seca.

Talvez fosse imprudência, porém acendemos um fogo detrás do caminhão. Almoçamos perto dele ao meio-dia e as latas de conserva vazias aumentaram o monte de lixo deixado pelos Sswis — Me pergunto que cara farão nossos amigos «centauros» quando encontrarem estes curiosos recipientes — disse.

— Principalmente se olharem para as ilustrações das latas. — acrescentou Michel.

— Um pote de salsicha tinha uma efigie policromática da «Tia Irma», representação de uma opulenta cozinheira.

— Vão ter uma pobre impressão da nossa arte — interveio Martina.

Falávamo-nos aos gritos, para dominar o ruido tempestuoso das águas.

Com Beltaire, ajudado por Michel e Breffort, abrimos uma pequena vala para pesquisar o solo da morada. Queria saber se havia sido habitado em outras épocas. Nosso trabalho se viu recompensado pela descoberta, na terra arenosa, de duas camadas de cinzas e resíduos, cada uma delas de uma espessura de vinte centímetros As duas nos mostravam trabalhos idênticos; diferentes, pelo que pudemos observar, dos que realizavam os Sswis atuais. Eram mais primárias; talhadas somente em um lado e não em forma de folhas de louro. Encontramos também o esqueleto de um Sswis bem conservado, porém não pudemos comprovar se havia sido voluntariamente envolto em mortalha. Descobrimos igualmente uma boa quantidade de variados esqueletos, alguns dos quais podiam ter pertencido aos Golias.

Três desses animais, de uma envergadura relativamente pequena — não passavam de uns dez metros de comprimento — vieram fazer-nos uma visita ao entardecer.

Com muito pouca amabilidade nos negamos a recebe-los, mandando-os de volta para a chuva. Insistiram, disparamos e derrubamos um, os demais fugiram.

A chuva, com certas intermitências, durou seis dias. Não podendo fazer mais nada, nos dedicamos às nossas buscas. Aprofundei minha vala. Em vez da areia das capas superiores, encontrei leitos de escombros calcários formados em um clima diferente do atual, bastante mais frio. Tellus deve ter conhecido, como a Terra, um período glacial, e me propus a procurar nas montanhas, antigas peles protetoras. Levamos para o caminhão uma boa quantidade de ossos e pedras talhadas, germen do futuro museu.

No terceiro dia pela manhã, o sol se levantou em um céu limpo. Entretanto era necessário aguardar. A terra baixa estava encharcada, e a chuva a havia convertido em um barreiro. Afortunadamente levantou-se um vento forte, o que acelerou a evaporação.

Aproveitamos este repouso forçado para por-nos em comunicação, por rádio, com o Conselho.

Estabelecemos contato. Foi meu tio quem respondeu. Comuniquei a ele o descobrimento da existência dos Sswis, e os indícios de petróleo. Por sua parte, ele me disse que há alguns dias as hidras voavam com frequência sobre o território, sem atacar. As granadas haviam abatido a mais de cinquenta. Avisei ao Conselho que íamos seguir ainda um pouco mais para o Sudoeste, para depois então voltar.

O caminhão estava em bom estado, restava ainda a metade do combustível e as munições e os víveres ainda eram abundantes. Havíamos percorrido 1.070 quilômetros.

Quando o solo ficou bastante seco, partimos.

Pouco adiante encontramos outro rio, que eu chamei «Vecera». Menos importante que o Dordogne, estreitava-se, em alguns trechos, a cinquenta metros. O problema de atravessá-lo era difícil, porque suas águas, agitadas pelo recente temporal, corriam rápidas e eram profundas. Não obstante teríamos que atravessá-lo, mesmo em condições que produziam calafrios.

Seguindo seu curso, encontramos uma catarata. O Vecera se precipitava de uma altura de mais de trinta metros. O exame dos arredores me fez pensar em uma falha do terreno, o que resultou, além da queda d'água, em um penhasco. Tivemos a sorte de encontrar, uns quilômetros à frente, um declive praticável para nosso veículo e seguimos perpendicularmente ao rio, justamente acima da catarata. Nos perguntávamos que iriamos fazer para franqueá-la. Então uma ideia audaz e horripilante germinou no cérebro de Michel: Indicando-me uma ampla rocha plana que emergia, a dez metros da margem, e outras mais que chegavam quase até à outra borda, espaçadas de cinco a seis metros, me disse: — Aqui temoss os pilares para a ponte. Só falta colocarmos a passarela.

Olhei para ele aturdido.

— Como?

— Por aqui há árvores de dez a vinte metros de altura. Temos machados, pregos e cordas. Alguns arbustos são bastante flexíveis para servir de cipós.

— Não achas um pouco arriscado.?

— E nossa expedição? Não é arriscada?

— Bem, consultemos os outros Breffort opinou que a coisa era factível.

— É preciso coragem, certamente, mas já fizemos coisas mais difíceis!

Sob a proteção do caminhão, com Vandal na metralhadora e Martina ao volante, nos convertemos em lenhadores. Os troncos abatidos, limpos e grosseiramente aplainados, foram arrastados pelo caminhão a uns cinquenta metros além da queda.

Tratava-se de alcançar, com os extremos dos troncos, a primeira rocha. Estava pensando em como fazer isto quando vi Michel tirar a roupa.

— Não estás pensando em ir a nado?

— Sim. Amarra-me com uma corda. Vou lançar-me aqui e vou derivando até a rocha.

— Estás louco! Vais te afogar!

— Não se assuste. Fui campeão universitário dos 100 metros em 58. Rápido, antes que minha irmã me veja. Estou seguro de mim mesmo, porém não é necessário proporcionar— lhe emoções inúteis Já na água, nadou vigorosamente até o centro, cerca de dez metros da margem.

Depois se deixou levar. Breffort e eu sustentávamos o extremo da corda que estava atada na sua cintura. A poucos metros da rocha, lutou energicamente com a corrente que o aspirava para o abismo. Entretanto, e sem grande esforço, conseguiu agarrarse e içou-se com um esforço final.

— Brrr! Está fria! — vociferou — Liguem uma extremidade do tronco, com minha corda, e a outra extremidade com outra corda que vocês segurarão. Isso! Agora lancem— no à agua. — Segurem, não o deixem escapar.

A tábua enorme bateu de ponta contra a rocha. A outra extremidade, que nós segurávamos, roçava na margem. Levantamo-lo com dificuldade. Depois, Paul, Breffort e eu atravessamos; paul e eu a cavalo sobre a madeira com as pernas na água; Breffort em pé, a cinco metros da catarata. Ele tinha, conforme nos disse, «horror de molhar os pés». Fixamos uma extremidade da árvore sobre a rocha, com ganchos de aço. Havíamos colocado a primeira viga da nossa ponte!

Recomeçamos a manobra com a segunda. Ao entardecer havíamos colocado três O crepúsculo interrompeu nossos esforços. Eu estava fatigado, Michel e Paul estavam um lixo; Breffort, ao contrário, se encontrava relativamente descansado. Fiz a primeira guarda com ele até meia-noite. A segunda foi feita por Vandal e Beltaire e a terceira por Martina, sozinha, após o alvorecer.

Pela manhã voltamos ao trabalho. Enfim todas as vigas foram colocadas no lugar e pudemos pisar o solo da outra margem. Levamos quatro dias para colocar a passarela.

Era sumamente pitoresca. Fazia um tempo excelente, fresco. A luz nova e viva, inclusive no crepúsculo. Estávamos contentes. No último dia, enquanto comíamos, abri duas ou três garrafas, o que aumentou o otimismo.

Já estávamos comendo a sobremesa sobre a erva cinza, distante do caminhão, quando caiu em cima de nós uma chuva de flechas. Por sorte ninguém foi ferido, porém, em troca, acertaram um pneu. Eu tinha um fuzil-metralhadora ao meu lado e me deitei no solo. Lancei um fogo do inferno na direção das flechas: uma fileira de árvores a uns quarenta metros de nós. Tive a satisfação de ver que um bom número de Sswis, que saíram dali, estavam feridos. O ataque acabou logo em seguida.

Não mais tão alegres, — pois poderíamos ter sido todos mortos — terminamos rapidamente a passarela, e o caminhão, pilotado prudentemente por Paul, subiu na ponte.

Não houve jamais engenheiros, depois de haverem construído o maior viaduto do mundo, que estivessem tão orgulhosos de si mesmos como nós, ao desembarcar na outra margem… Nem tão aliviados!

A noite chegou sem mais incidentes. Antes do sol se por, escolhi a rota do dia seguinte.

Seguiríamos para o sul, até uma montanha que, embora mais baixa que o Monte Tenebroso, alcançava os 3.000 metros.

À meia-noite, enquanto montava guarda, divisei um ponto luminoso perto do cume. Seria um vulcão? A luz apagou. Ao acender novamente, um pouco mais baixo, compreendi seu significado. Era um sinal de fogo! Me voltei. Atras do Vecera, nas colinas, brilhava outro fogo. Inquieto, comuniquei minhas observações a Michel, que me substituiu.

— É realmente inquietante. Se os Sswis fizerem uma mobilização geral, estaremos em uma má situação, mesmo com nosso armamento superior. Já observaste que eles não temem as armas de fogo? E nossas munições não são inesgotáveis.

— Entretanto, insisto que temos que chegar até esse «Monte-sinal». Somente na montanha, ou perto dela, encontraremos minério. Faremos um «raid» rápido Pela manhã, antes de nos pormos em marcha, tivemos que trocar o pneu, atravessado na véspera por uma flecha, e cuja fenda aumentava. Uma vez já a caminho — o sol subia insensivelmente — o terreno ondulou-se, cortado por pequenos arroios, os quais atravessamos penosamente. Em um pequeno buraco notei alguns veios esverdeados.

Tratava-se de garnierita, um bom minério de níquel. O vale revelou-se de uma riqueza mineral prodigiosa, e à noite eu tinha amostras de níquel, cromo, cobalto, manganês e ferro, e igualmente, coisa inestimável, excelente hulha que aflorava em espessos veios.

— Aqui estabeleceremos nosso centro metalúrgico. — disse.

— E os Sswis? — objetou Paul.

— Faremos como os americanos nos tempos heroicos. O solo parece fértil. Se for preciso, combateremos enquanto cultivamos a terra e exploramos as minas. De qualquer forma, desde o segundo dia da nossa viagem não temos mais visto hidras. Uma coisa compensa a outra.

— Concordo. — disse Michel — Hurra por «Cobalt City». A dificuldade se limitará em transportar todo nosso material para cá.

— Tudo se resolverá. Primeiro, será mister explorar o petróleo, e isto não será fácil.

Viramos para o Norte, e depois para o Oeste. A 60 quilômetros dali descobri um depósito de bauxita.

— Decididamente esta região é o paraíso dos investigadores geológicos. — disse Martina.

— Temos sorte. Esperemos que dure — respondi, pensando em outa coisa.

A manhã toda eu estive me perguntando se não seria possível fazer uma aliança com os Sswis, ou ao menos com alguns deles. Era provável que se existissem várias tribos, elas guerreavam entre si. Poderíamos aproveitar estas rivalidades. Era questão de entrar em contato de outra forma que não fosse à base de escopetas.

— Se tivermos que combater os Sswis, — disse em voz alta — necessitaríamos ao menos de um prisioneiro.

— Porque? — perguntou Paul.

— Para aprender sua língua e ensinar-lhe a nossa. Isto nos poderia ser útil.

— Acreditas que vale a pena arriscar nossas vidas? — perguntou Vandal, que evidentemente não desejava outra coisa.

Expus o meu plano.

A sorte serviu aos nossos desígnios. No dia seguinte tivemos que parar por causa de uma avaria, pouco depois de nossa partida. Enquanto Paul estava reparando, assistimos uma escaramuça entre três Sswis vermelhos e morenos, da especie que já conhecíamos, e outros dez menores, de uma pele negra e reluzente. Apesar de uma defesa heroica que custou a vida a cinco dos atacantes, os vermelhos sucumbiram sob o número. Os vencedores se dispunham a despedaçá-los, ignorando nossa presença.

Com uma rajada do fuzil-metralhadora os pus em fuga, deixando três mortos.

Atravessei a vegetação que dissimulava nossa presença. Um dos Sswis vermelhos, que ainda vivia, tentou fugir. Caiu novamente: tinha cinco flechas cravadas nos membros.

— Tenta salvá-lo, Vandal!

— Farei o possível. Porém meu conhecimento de sua anatomia é muito rudimentar.

Entretanto, — continuou após um exame — as feridas me parecem leves.

O Sswis estava imóvel, com os três olhos fechados. Somente a dilatação rítmica do seu peito nos indicava que ainda vivia. Vandal se dispôs a extrair as flechas com a ajuda de Breffort que, antes de especializar-se em antropologia, havia sido estudante de medicina.

— Não me atrevo a anestesiá-lo. Não sei se resistiria.

Durante a operação o Sswis não se moveu. Somente estremecia de vez em quando.

Breffort limpou as feridas, que se tingiram de amarelo. Depois o transportamos para o caminhão. Não pesa muito — talvez uns 70 quilos, comentou Michel — Preparamos uma espécie de maca com ervas e mantas. Enquanto o transportávamos, permaneceu com os olhos fechados.

Reparada a avaria do caminhão, partimos novamente. Com o ronco do motor o Sswis agitou-se horrorizado e falou pela primeira vez. Eram umas sílabas sonoras, ricas em consoantes e lábio-dentais, curiosamente rítmicas. Quis levantar-se e tivemos que segurá-los, fomos três a fazê-lo, tanta era sua força. Sua carne dava a impressão de dureza e flexibilidade. Pouco a pouco se acalmou e o soltamos, e eu, sentandome perto da porta, tomei algumas notas para meu diário pessoal. Tive sede e me servi de um vaso de água. Me voltei ao ouvir uma apagada exclamação de Vandal; meio levantado, o Sswis me estendeu a mão.

— Quer beber — disse Vandal Estendi-lhe o vaso. Ele observou por um instante com desconfiança. Tentei um experimento.

Verti um pouco mais e disse: — Água Com surpreendente agilidade de espirito, ele me compreendeu e em seguida repetiu: — Água.

Mostrei-lhe um vaso vazio.

— Vaso.

— Vaso — repetiu.

Bebi um gole e disse: — Beber.

— Beber — repetiu ele.

Recostei-me no catre, simulei um sono profundo e disse: — Dormir.

— «Tormir» — disse ele, deformando a palavra.

Apontei para mim mesmo.

— Eu.

— Vzlik — E imitou o gesto.

Fiquei um pouco confuso. Ele estava me dando uma tradução de «eu» ou se trava do seu nome? Me inclinei em favor da segundo hipótese. Penso que ele devia pensar que eu me chamava «eu»

Então, querendo levar a experiência mais longe, disse: — Vzlik dormir.

— Água beber. — repôs ele.

Estávamos estupefatos Este ser mostrava uma inteligência extraordinária. Bebeu um vaso d'água que lhe servi. Eu teria continuado com a lição se Vandal não observasse que o Sswis estava ferido, e provavelmente esgotado. De fato, ele mesmo disse: — Vzlik «tormir» — adormecendo logo em seguida.

Vandal exultava: — Com a capacidade que têm, logo poderemos ensinar-lhes nossas técnicas.

— Sei… — disse — e dentro de cinquenta anos eles estariam em cima de nós a tiros!

Mas realmente nos seriam muito úteis se pudéssemos aliar-nos com eles.

— Afinal de contas — interveio Vandal — Lhe salvamos a vida.

— Depois de termos matado vários indivíduos da sua raça, talvez da sua própria tribo.

— Mas eles nos atacaram!

— Estávamos em seu território. Se querem a guerra nós a teremos, mutatis mutandis na situação de Cortês, se os astecas não tivessem temido as suas armas nem os seus cavalos. Enfim, cuidemos bem dele. Representa uma oportunidade que não podemos desperdiçar.

Passei para a frente do caminhão. Michel dirigia e Martina estava ao seu lado.

— Que pensa disto tudo, Martina?

— Que são terrivelmente inteligentes.

— Esta também a minha opinião. Por outra parte me sinto aliviado: já não somos os únicos seres pensantes deste mundo.

— Para mim tanto faz. — disse Martina — Eles não são humanos.

— Evidentemente. Qual tua opinião, Michel?

— Não sei, Temos que esperar. À esquerda temos outra cortina de árvores. Provavelmente também um rio para atravessar.

— Pela direita também. Se unem. Isto nos permite supor que é uma confluência.

Efetivamente, nos encontrávamos sobre uma língua de terra entre dois rios. O da esquerda, novo para nós, foi denominado o Dron. O da direita era o Vecera ou o Dordogne?

Devido à sua largura, me inclinei pela segunda hipótese: trezentos metros, no mínimo. Parecia profundo. As águas desciam perigosamente, cinzentas e opacas.

A noite se avizinhava.

— Acamparemos aqui. O lugar é fácil de defendermos.

— Pode-se também se considerar como uma armadilha — disse Breffort — Com efeito — acrescentou Vandal — não há saída alguma.

— Uma força capaz de cortar-nos a retirada também o seria para destruir-nos. Aqui não haverá mais que um lado para vigiar, o que, se for o caso, nos permitirá concentrar o fogo de nossas armas. Amanhã estudaremos as possibilidade de atravessar.

Aquela noite ficou nas minhas lembranças como a mais tranquila da nossa expedição, ao menos na sua primeira parte. Ceamos sobre a erva antes do sol se ocultar. O tempo era agradável. Se não tivéssemos as armas do nosso lado, e sem a estranha presença do Sswis, poderíamos acreditar que estávamos na Terra, em um camping.

Como no nosso planeta natal, o Sol, antes de desaparecer, apresentou uma fantasia em ouro, púrpura e âmbar. Algumas nuvens rosas, muito altas, vagavam lentamente no céu Todos, incluindo Vzlik, havíamos comido com excelente apetite. Suas feridas estavam em vias de cura. Pareceu apreciar particularmente os biscoitos e o boi assado; entretanto quis provar o vinho e o devolveu com asco.

— Não parece um aficionado como os nosso selvagens. — observou Vandal.

O sol se ocultou. As três luas, reunidas no céu, davam luz suficiente para podermos ler. Com uma lona da tenda, enrolada como um colchão, me estirei no solo com os olhos perdidos nas constelações que já nos eram familiares. O céu era muito mais rico em estrelas que o da Terra. Com o cachimbo aceso, deixei voar minha imaginação, escutando distraído a lição de francês que Vandal e Breffort davam ao Sswis.

Martina se deitou à minha esquerda e Vandal à minha direita. Beltaire e Schoeffer, que haviam descoberto sua coincidente paixão pelo xadrez, jogavam em um tabuleiro desenhado sobre um cartão e com umas peças que eles mesmos havia talhado.

Um pouco adormecido, puxei a cabeça de Martina sobre meu braço. Ouvia vagamente a voz sibilante do Sswis repetindo as palavras, as jogadas espaçadas dos jogadores de xadrez e também os roncos de Michel.

Ressoaram uns roncos. Me levantei. A vinte metros, um numeroso grupo de animais iam beber. Sem alcançar o tamanho dos Golias, tinham seus bons oito metros de comprimento por quatro de altura. Um focinho muito largo e pendente, a curvatura do seu dorso, a curta cauda e, apesar do seu número, umas patas maciças que lembravam, pelos seus gritos, os elefantes. Alinharam-se na margem e beberam dobrando as patas dianteiras. Vandal apontou com o dedo, adotando uma atitude interrogativa para o Sswis.

— «Assek» — disse este. Depois, abrindo a boca, fez o gesto de mastigar.

— Imagino que ele quer dizer que são bons para comer — disse o biólogo.

Ficamos contemplando enquanto eles bebiam. O espetáculo, sob a luz das luas, era esplêndido. Pensei que o destino me havia oferecido o que sempre sonhara na calma do laboratório, a visão das grandes energias primitivas. Martina observava também, emocionada. Ouvi-a sussurrar: — Uma terra virgem…

Após uns minutos os animais se foram.

— Que é isto? — perguntou de repente Beltaire, abandonando o xadrez pela primeira vez.

Voltei-me para o ponto indicado. Uma curiosa silhueta passeava por uma colina.

Por seu andar poderoso e contido, felino, parecia uma fera. De tamanho pequeno — talvez 1,50m de altura — dava a impressão de uma extraordinária força. Mostrei-o ao Sswis. Este se pôs a falar excitado, presa de uma febril agitação. Ao notar que não o compreendíamos, simulou disparar seu arco, ao mesmo tempo que mostrava nossas armas, dizendo: — Bisir! Bisir!

Da sua mímica tirei a conclusão de que o animal era perigoso. Sem pressa — a fera estava ainda a duzentos metros — coloquei um carregador no meu fuzil-metralhadora.

O que aconteceu então foi de uma rapidez inconcebível. O animal saltou, ou melhor, parecia voar. No primeiro salto diminuiu a distância em trinta e cinco metros, e já se preparava para saltar novamente, sobre nós. Martina gritou. Os demais se levantaram precipitadamente. Disparei uma rajada ao azar, falhando no meu objetivo.

A fera se preparou para um terceiro salto. Perto de mim crepitou outro fuzil-metralhadora.

Disparei novamente sem êxito, esvaziando o carregador. Michel que estava ao meu lado, trocou imediatamente.

— Para o caminhão! — gritei em seguida.

Entrevi Beltaire e Vandal levando o Sswis.

— Cuidado, Michel!

Uma rajada rasante de projéteis de 20mm passou por cima de nós, na direção do monstro. Devem tê-lo acertado, pois se deteve. Eu estava só, em terra. Saltei para o caminhão, fechando a porta traseira. Michel pegou o fuzil-metralhadora das minhas mãos e passou o cano pela fenda. As cápsulas vazias tilintavam sobre o solo. Observei o interior do caminhão. Todos estavam ali, exceto Martina.

— Martina!

— Aqui — respondeu, entre rajadas de metralhadora.

Michel retrocedeu precipitadamente.

— Segurem-se! — exclamou Um choque terrível sacudiu o caminhão. As telas racharam-se, curvando-se para o interior. Fui projetado sobre Vandal, recebendo por minha vez, nas costelas, os 85 quilos de Michel. O piso vacilou e pensei que nosso refugio ia virar. A metralhadora havia se calado e as luzes se apagaram.

Michel, penosamente, levantou-se e acendeu uma lanterna portátil.

— Martina! — gritou.

— Estou aqui. Está tudo terminado, vem. A porta traseira está bloqueada.

O cadáver do animal jazia contra o caminhão Havia recebido vinte e um disparos da metralhadora, cinco deles explosivos, e deve ter morrido em pleno salto. A cabeça destroçada oferecia um aspecto horrível, com brechas de trinta centímetros.

— O que ocorreu? Tu foste a única que viu.

— Muito simples. Quando tu entraste por último, o animal havia se detido. Disparei nele várias vezes. Então ele saltou. Estava sob a escadinha. Voltei a subir e o vi, morto, contra o caminhão.

Vzlik se arrastou até a porta.

— Vzlik, — disse — Depois fingiu disparar um arco e mostrou dois dedos.

— O que? Ele pretende ter morto dois desses animais com suas flechas?

— Não é de todo impossível, especialmente se as flechas fossem temperadas com um veneno bastante forte. — replicou Breffort.

— Mas eles não usam veneno! Por sorte, claro, pois senão Vandal talvez não estaria aqui.

— Pode ser que envenenem unicamente as flechas de caça. Existem tribos na Terra que consideram desleal o emprego de veneno na guerra.

— Bem, — disse Beltaire com um pé sobre o monstro caído — me parece que se houverem muitos destes em «Cobalt City», teremos problemas. Queria ver aqui os nossos caçadores de tigres. Que saltos e que vitalidade! Isto sem mencionar os dentes e as garras. — continuou, examinando as patas.

— Não devem brilhar precisamente por sua inteligência. — disse Vandal — Me pergunto como pode caber um cérebro nesse crânio deprimido.

— E tu dizias há pouco: — sussurrei a Martina — uma terra virgem, com seus atrativos…

e seus riscos. A propósito, tenho que felicitar-te por tua pontaria com a metralhadora.

— Transfere o cumprimento para Michel. Foi ele quem me fez praticar sob o pretexto de que sempre é útil, embora não seja mais que para educar os nervos.

— Nunca pude imaginar que tivesse que utilizá-la nestas circunstâncias — disse sorrindo.

V — O REGRESSO

Na manhã do dia seguinte, depois de uma curta e tranquila noite vermelha, decidimos atravessar o rio. Construímos uma grande balsa, o que levou seis dias inteiros, durante os quais vimos numerosos animais, porém nenhuma fera. Provamos pela primeira vez a carne teluriana. Um pequeno animal, uma espécie de miniatura dos «elefantes»

da primeira noite, nos forneceu a carne para o assado. Comemos muito pouco, apreensivos, temendo que talvez a carne fosse tóxica ou inassimilável para nós.

Seu gosto lembrava o da vitela, um pouco mais dura. Vzlik, já quase restabelecido, comeu gulosamente. Não houve transtornos digestivos e, até o regresso à zona das hidras, variamos um pouco nossa minuta, sempre em pequenas quantidades. Porém não nos atrevemos a provar os frutos das árvores que derrubamos para a fabricação da balsa, com os quais o Sswis se deleitava. Seu vocabulário começava a permitirlhe expressar ideias simples.

A travessia foi feita sem dificuldade. Recuperamos as cordas e os cravos que havíamos empregado na balsa, e depois descemos, durante dois dias, ao longo do rio, o qual rapidamente aumentava, formando locais estagnados, quase lacustres, enquanto corria entre as colinas. Observei que permanecia sempre manso e profundo.

Suas margens formigavam de vida. Divisamos sucessivos bandos de «elefantes», de Golias isolados ou em pares, e de outras numerosas formas, gigantes ou minúsculas.

Por duas vezes vimos ao longe os «Tigressauros». Este nome, inventado por Beltaire para a fera que nos havia atacado, foi adotado apesar dos protestos de Vandal, que, muito atinadamente, fez-nos observar que ele não tinha nada do tigre nem do sáurio Porém, como observou Michel, o essencial era se fazer entender, e no fundo pouco importava que o nome vulgar do animal fosse Tigressauros, Leviatã, ou Tartempão…

As águas alojavam numerosas formas aquáticas, das quais nenhuma se aproximou o bastante da margem pra que pudéssemos vê-la com clareza.

Quando se aproximava a noite do segundo dia, choveu. Rodávamos pela planície, com fileiras de árvores ao longo dos rios e riachos. A temperatura, que durante o meio-dia se aproximava do 35º à sombra, refrescava à noite, descendo a 10 graus.

Na madrugada do terceiro dia, depois de uma noite agitada por causa dos rugidos dos Golias, divisamos uma coluna de fumo, distante, ao Sul, noutro lado do Dordogne.

Acampamento Sswis ou fogo na grama? O terreno tornou-se acidentado, umas colinas baixas nos obrigavam a fazer rodeios. Quando passamos a última delas, sentimos o ar penetrado de um perfume acre e violento. Como o do Atlântico.

— O mar está próximo. — disse Beltaire.

Logo o assinalou do alto da torre. Instantes depois todos o vimos, verde e agitado.

O vento soprava do Oeste, as ondas formavam cristas de espuma. A costa era rochosa, porém, a alguns quilômetros ao Sul, o Dordogne terminava em um estuário arenoso.

Detivemo-nos em uma praia pedregosa, a poucos metros das ondas. Vandal saltou em terra e começou a explorar este paraíso dos biólogos que era uma costa marinha.

Nos manguezais havia uma fauna inédita, algumas formas que se pareciam com as terrestres, outras totalmente diferentes. Descobrimos conchas vazias, que pareciam enormes pectens, ou, como diziamos na Terra, conchas de Santiago. Algumas mediam mais de três metros. Outras, bem menores, ainda estavam penduradas nas rochas.

Michel arrancou uma com dificuldade e a levou para Vandal. O animal era mais próximo dos branquiópodos terrestres que dos moluscos lamelibrânquios. Longe, no mar, apareceu um dorso negro entre as ondas, depois mergulhou — Estou com vontade de tomar banho — disse Martina.

— Não. — decidi — Quem sabe que monstros habitam essas águas. É muito arriscado.

Entretanto, detrás de um promontório, Schoeffer descobriu um grande lago de mais de cem pés de comprimento e uns seis de profundidade. Uma água transparente mostrava um fundo de cantos arredondados. Ali viviam unicamente algumas pequenas algas e conchas. Desfrutamos como crianças.

Enquanto Vandal montava guarda com a metralhadora, eu organizei uma competição.

Michel, nadador incomparável, ganhou facilmente, seguido de Martina, Schoeffer e Breffort. Eu fui o penúltimo, ganhando de Beltaire por uma cabeça. Descobri depois uma pedra esférica, de uns cinco quilos, com o qual venci facilmente no levantamento de peso. Vzlik tinha ficado nos observando. Lançou-se por sua vez na água. Ele utilizava apenas seus membros, nadando com ondulações do sol corpo totalmente estendido. Na minha opinião, ele poderia dar uns bons dez metros de vantagem a Michel na travessia do lago.

Dispensei Vandal, que partiu imediatamente para fazer uma ampla provisão de formas animais e vegetais. Depois seguimos nossa rota para o Norte. Seguimos a costa a uns cem metros no interior. O terreno oferecia bastantes dificuldades. Uma série de velhos anticlinais erodidos terminavam em ponta de lança no mar.

Três horas e media depois da nossa partida, voltamos a encontrar os pântanos e as hidras. Eram escuras, pequenas, não ultrapassando os cinquenta centímetros. Não nos atacaram. Continuamos no pântano para o Leste. Ao declinar o dia, alcançamos o final e tomamos novamente o rumo Oeste. A costa agora era arenosa e baixa. Contrariamente ao nosso costume, rodamos à luz das luas sobre um terreno ideal, a cinquenta por hora. Pouco antes da alvorada vermelha, a costa tornou-se caótica novamente e outra vez tivemos que andar pelo interior. Foi assim que descobrimos o lago.

Abordamos pela margem baixa no Sudoeste. No Leste era protegido por uma cadeia de colinas. Uma abundante vegetação o envolvia em um círculo sombrio. Por sua superfície, sob a luz do luar, corriam pequenas ondas fosforescentes. O espetáculo era suave a aprazível, quase irreal. Temendo que houvesse hidras entre suas margens, — só soubemos mais tarde que estes animais necessitam de charcos pantanosos para seu desenvolvimento — não nos aproximamos. Durante cerca de um quilômetro deslizamos sobre um deserto.

Cedi a guarda a Michel e fui dormir. Estava fatigado e lembrei que não havia repousado mais que uns segundos. Não obstante, quando abri os olhos, a alvorada azul penetrava pela janela.

Michel estava inclinado para mim, com um dedos nos lábios. Despertou também sua irmã sem fazer o menor ruido.

Ao sair, escapou-nos um grito de admiração. O lago era de um azul profundo, um azul glacial, enquadrado em uma moldura de ouro e púrpura. As rochas do rio eram de um vermelho magnífico e a vegetação, as árvores e as ervas, de uma cor que oscilava entre o metálico brilhante e o ouro velho. Aqui e ali apontavam folhas pontiagudas Ao Leste, as colinas apareciam ainda tocadas por Helios.

— É formoso — disse.

— É um lago magnífico. — disse Martina — Jamais vi nada semelhante.

— «Lago Magnífico». Seria um bonito nome. — disse Michel.

— Assim será — decidi. — Despertemos os demais.

Seguimos o lago o dia todo. A superfície ondulava docemente sob a brisa marinha.

A pouca distância da sua extremidade norte, porém separado dele por uma poderosa barreira rochosa, encontramos outro pântano que se comunicava com o mar. Enquanto dávamos a volta, decidi entrar em contato com o Conselho. Ao mesmo tempo, Breffort assinalou a presença das hidras. Eram da espécie pequena e reduzida, e muito numerosas. Imediatamente, um verdadeiro enxame rodeou o caminhão, sem tentar atacar, contentando-se em seguir-nos. Depois de havê-las observado um momento, tentei me comunicar com o Conselho pelo rádio. Foi impossível, e não porque o aparelho estivesse mudo. Jamais em toda minha vida havia escutado tal quantidade de assobios e sons. Não sabendo a que atribuir semelhante resultado, renunciei momentaneamente aos meus projetos. Bruscamente, e aparentemente sem razão alguma, o enxame de hidras escuras parou de nos acompanhar.

Rodávamos noite e dia. Na alvorada azul seguinte não estávamos a mais de cinquenta quilômetros da ilhota terrestre. Não tínhamos a intenção de chegar antes da noite, pois eu desejava examinar os arredores imediatos.

De repente, o Conselho nos chamou pelo rádio e nos comunicou umas notícias que mudaram completamente meus projetos.

VI — A BATALHA DAS HIDRAS

Era Louis quem nos chamava. Já estavam a três dias em constante luta com as hidras.

Na véspera haviam sido mortos três homens e dois bois. Deixavam-se cair sem ordem, dispersamente, atacando ao rés do solo onde as granadas não podiam alcançá— las. A situação era crítica.

— Creio que a melhor solução será a evacuação deste rincão de terra. — falei — Fora da zona pantanosa não encontramos traços de hidras.

— Não será fácil, mas, enfim… Um momento, estas estão voltando!

Através do alto-falante, percebi claramente a sirene.

— Aguarda no microfone. — disse Louis — Tentarei deixá-los ao corrente. Talvez fosse melhor…

Uma série de violentas detonações afogaram suas palavras, depois as escopetas crepitaram. Salvo Michel, que estava ao volante, e Breffort na torre, todos estavam ao meu redor, perto do rádio. O Sswis, muito admirado, escutava também. Ao cabo de um momento não pudemos ouvir nada mais que o chiado do receptor. Inquieto, lancei uma chamada. Houve o ruido de uma porta se abrindo; depois Louis falou arquejante: — Forcem a marcha! Se for possível, cheguem aqui antes do anoitecer. Estas porcarias estão entrando pelas aberturas e é muito difícil tirá-las do interior das casas. Sair seria suicídio! Há ao menos três mil! Marchando pela rua poderão caçá-las. Depressa!

Em algum lugares já estão levantando as telhas!

— Ouviste, Michel? Depressa!

— A todo vapor. Sessenta por hora!

— Estaremos no povoado dentro de duas horas. — anunciei — Ânimo!

— Foi uma sorte estarem tão perto. Tenho duas ou três aqui sobre o teto, mas o telhado do celeiro é sólido. O pior é que não posso me comunicar por telefone com todos os grupos.

— Estás sozinho?

— Não, tem seis guardas e Ida, comigo. Diz a Beltaire que não se inquiete.

— E o meu tio?

— Encerrado no Observatório com Menard. Não corre perigo algum. Teu irmão está com os engenheiros no refúgio 7. Têm uma metralhadora leve, e parece que a utilizam bem. Vou te deixar. Preciso entrar em contato com os outros grupos.

— Sobretudo, não saia!

— Não te preocupes…

Breffort apareceu e gritou: — Alerta! Hidras!

— Subi até onde ele estava. Diante de nós, aproximadamente a um quilômetro, e a cinco ou seis metros de altura, uma centena de hidras da espécie verde planavam formando uma nuvem.

— Rápido, as granadas, antes que se dispersem!

Os tubos lança-granadas apontaram. Agachando-me, vi Vandal e Martina por um lado, e Beltaire por outro, que introduziam as granadas nas entradas móveis.

— Desce, Breffort. Ocupa-te do controle das granadas. Eu me encarrego da metralhadora.

— Fogo!

Traçando sua trajetória, nossas granadas se lançaram sobre as hidras, seguidas por seu rastro branco. Afortunadamente explodiram no meio das nuvens. Os pedaços delas caíram, a contraluz, como uma chuva escura. As hidras se projetaram sobre nós. A partir deste momento, tive que atuar sozinho. Derrubei uma duzia. As demais circularam um momento ao nosso redor; depois, dando-se conta da sua impotência, se afastaram rente ao solo.

Sem mais incidentes, chegamos à mina de ferro. Estava deserta. Ao cabo de um momento, a porta de um refugio se abriu e um homem nos fez sinal. Michel aproximou o caminhão e reconheci José Amar, o contramestre.

— Onde estão os outros?

— Foram embora no trem transformado em tanque, levaram todas as armas.

— E você?

— Fiquei aqui para avisá-los. O Conselho telefonou que vocês estavam chegando.

Os rapazes do trem construíram uma bomba de água fervente.

— Muito bem. Suba no caminhão. Faz muito tempo que eles se foram?

— Uma hora.

— Adiante, Michel.

Amar contemplou Vzlik com assombro.

— Quem é este cavalheiro?

— Um nativo. Explicaremos mais tarde.

Dez minutos depois, começamos a ouvir as detonações. Afinal avistamos o povoado.

Todas as portas e janelas estavam fortificadas, e o telhado de algumas casas estava coalhado de hidras. Os monstros revoluteavam a pouca altura. O trem da mina de ferro estava parado na «estação», e sua metralhadora pesada disparava contra qualquer hidra que se separasse das casas.

— Aos postos de combate! Paul ao volante. Michel, Breffort, aos postos das metralhadoras Martina, Vandal, passem-me a munição. Beltaire e Amar, carreguem os fuzis— metralhadoras. Vzlik, fica em um local onde ninguém o moleste. Pronto? Bem, Paul, aproxima-te do trem.

Os mineiros haviam trabalhado bem. Com placas de metal, pranchas e madeiros, haviam transformado o trem em uma fortaleza. Uma centena de hidras, inchadas, jaziam no solo, ao seu redor.

— Como diabo as atingiram? — perguntei ao mecânico, que se encontrava ao lado de Biron.

— Foi uma ideia minha. Nós as fervemos. Olha, outras voltam à carga. Vocês vão ver. Não disparem — gritou aos da metralhadora situada no primeiro vagão.

— Não disparem — repeti aos do caminhão.

Umas trinta hidras se acervavam.

— Quando te avisar, põe a bomba em funcionamento, disse Biron ao condutor Levantou uma espécie de mangueira, em cuja extremidade de couro, com uma manga de madeira, passou através de um buraco.

— Afastem o caminhão!

Os monstros estavam a trinta metros, aproximando-se a toda velocidade. Foram acolhidas por um jorro de água fervendo que derrubou a uma duzia. As demais bateram em retirada. Então, a metralhadora do trem disparou, e eu me uni ao fogo.

— Como vê, é muito simples. — disse Biron — Teríamos derrubado muitas mais, se na primeira vez eu tivesse tido a serenidade de aguardar que elas estivessem mais perto.

Porém não me atrevi, e agora estão desconfiadas.

— Quem teve esta ideia?

— Eu, com já disse. Porém Cipriano, meu chofer, me ajudou a pô-la em prática.

— É uma invenção excelente, que nos permitirá economizar munições. Seria necessário, talvez, aperfeiçoá-la. Falarei dela ao Conselho. Estou certo de que isto servirá de reabilitação aos vossos direitos políticos. Agora, vamos ao povoado. Em que casa está Mauriere?

— Me parece que na emissora.

— Começaremos por lá. Todomundo em seus postos? Adiante, depressa. Mirem bem, e disparem pouco!

Chegamos à praça do poço sem ser atacados. O telhado da casa que albergava a emissora estava coberto de hidras. Todos os disparos acertavam no alvo, porém era necessário mais de um para derrubá-las. Por medo de ferir nossos amigos, não me atrevia a usar as granadas nem a metralhadora. Os monstros permaneciam, estupidamente, imóveis sobre o telhado, removendo as telhas. Sua imobilidade, dadas suas anteriores demonstrações de inteligência, nos surpreendeu um pouco. Pudemos dar tiros precisos, apontando ao cérebro. Ao cabo de um tempo a casa estava desembaraçada da sua cobertura viva.

De vez em quando soava uma detonação no povoado. Duas ou três vezes ouvi o silvo da locomotiva, saudando uma nova vitória da água fervente. Desembaraçada a porta, Louis saiu e saltou no caminhão.

— Como vais?

— Melhor, já que estão aqui. Porém estes porcos desses animais penetraram em três casas. Tivemos uma dezena de baixas.

— Quem?

— Alfred Charnier, sua mulher, e uma de suas filhas. Cinco mais do povoado, cujos nomes ainda não sei. Magdalena Ducher, a atriz, e três operários. A comunicação telefônica está interrompida em algum lugar entre a central e a fábrica. Tenta dar uma olhada, Ignoro como estão por lá. Bem, volto à central.

Seguindo o fio telefônico, encontramos o ponto de rutura. A cinquenta metros, três hidras se acachapavam sobre o telhado. Saltei em terra com um fio de cobre e reparei o fio condutor. Apenas havia terminado, quando a metralhadora disparou. As hidras decolavam. Usando minha tática habitual, me lancei ao solo, depois, tão logo elas passaram, saltei do caminhão. Duas vezes recomecei este pequeno jogo singular, com risco da minha vida.

Depois empreendemos a limpeza dos telhados. Metodicamente, começamos pela praça do poço, que estava limpa uma hora depois. Atacamos então a rua principal.

Apenas fizemos os primeiros disparos, todas as hidras elevaram-se, como se obedecendo a um sinal. Imediatamente, foi como um alude de homens e mulheres saindo das casas, armados de lança-granadas. Nos minutos seguintes, ao menos cento e cinquenta delas se elevaram. O céu estava repleto de manchas verdes — as hidras — e negras — as explosões das granadas. — Reagrupadas como uma nuvem, muito alto, as hidras fugiram.

— Comprovei uma fato curioso. Disse Louis. Desde que as hidras chegaram, ouvia tuas mensagens com muita dificuldade. Uma algaravia formidável.

— É curioso, eu observei algo similar, quando estávamos rodeados pelas pequenas hidras escuras. — disse — Será que esses animais emitem ondas hertzianas? Isto poderia explicar sua extraordinária precisão de movimentos. Temos que falar com Vandal.

O Conselho se reuniu nesta mesma noite. Por causa da morte do Senhor cura e de Charnier, não éramos mais que sete. Prestei contas da nossa missão e apresentei Vzlik, na presença dos outros membros da expedição que estavam ali a título de consultores.

Louis nos pôs ao corrente dos problemas que haviam ocorrido na nossa ausência, dos quais o mais grave era a nova tática das hidras. Chegavam à noite e se emboscavam no matagal, atacando os passantes. Não se podia sair mais sem que fosse em grupos armados.

— Tu nos propuseste por rádio — acrescentou — emigrar até a região do Monte Sinal.

Não desejo nada melhor. Porém, como? Se tivermos que fazer o trajeto em caminhão, nossa reserva de combustível não será suficiente, e se fizermos a pé, lá estão as hidras e os Sswis… E deveríamos, ademais, abandonar nosso material! Mesmo com os caminhões, não sei de que forma poderíamos transportar as locomotivas, as máquinas, utensílios, et cétera.

— Não foi assim que eu havia projetado a coisa.

— Como então? Talvez em avião?

— Não, de barco.

— E de onde vais tirar este barco?

— Penso que Estranges poderia fazer os planos. Não peço um super destroier de 30 nós de velocidade Não, um pequeno cargueiro convém melhor à nossa empresa. Estamos perto do mar. Por outro lado, seguimos o Dordogne a partir de um ponto situado a duzentos quilômetros de Cobalt-City até a sua embocadura. É perfeitamente navegável. Cada vez que pude, verifiquei com uma sonda e encontrei mais de dez metros. O mar parece tranquilo. Afinal de contas, não seria mais que uma viagem de escassos setecentos quilômetros por mar e duzentos pelo rio.

— E como andará este barco? Perguntou meu tio.

— Com um grande Diesel da fábrica, ou com uma máquina a vapor. Se tivéssemos material para sondas, para ver se o petróleo é profundo!

— Isto nós temos. — disse Estranges — Tudo o que é preciso. O material que se empregou na sondagem da segunda represa que devia construir-se ficou depositado na fábrica. Quando aconteceu o cataclismo, eu acabava de receber uma carta advertindo— me que viriam buscá-lo.

— Isto está melhor quena história do Robinson Suiço! Até que profundidade podem chegar as máquinas?

— Chegaram até 600 ou 700 metros.

— Caramba! Isto é muito para uma represa!

— Tenho a impressão de que a companhia que efetuou a sondagem procurava algo mais. Enfim, não podemos queixar-nos. Ademais, tenho entre os operários três homens que, em outros tempos, trabalharam nos poços de petróleo de Aquitânia — Melhor ainda. A partir de amanhã, todos ao trabalho. Todo mundo está de acordo em que abandonemos este lugar?

— Peço uma votação. — disse Marie Presle — Compreendo que é difícil permanecer aqui, porém ir a um lugar com essa gente… — Apontou para o Sswis, que escutava em silêncio.

— Imagino que poderemos entendermo-nos com eles. — interveio Michel — Mas é melhor que votemos.

O resultado do escrutínio foi de dois votos contra — Marie Presles e o mestre — e cinco votos a favor.

— Sabe, tio, não lhe garanto que possamos trasladar o Observatório. — disse — Ao menos imediatamente.

— Eu sei, eu sei. Mas se ficarmos aqui vamos todos perecer.

QUARTA PARTE

AS CIDADES

I — O ÊXODO

Uns dias depois, parti no «tanque», seguido por três caminhões carregados de material.

Outro levava o combustível que tinha que ser adicionado ao motor da perfuratriz Nos pusemos imediatamente ao trabalho. Como havia imaginado, a bolsa de petróleo não era muito profunda; encontramos aos 83 metros. Enchemos, não sem dificuldade, um caminhão cisterna. No povoado se havia instalado uma refinaria rudimentar, que nos proporcionou um combustível de qualidade razoável. Permaneci ausente dois meses e meio. Vzlik, que havia vindo comigo, fazia grandes progressos na língua francesa, e eu falava com ele com se fosse um compatriota. Como explorador, ele me foi muito útil. Sua resistência era extraordinária e, a toda velocidade, ultrapassava os 89km por hora.

Todas as noites entrava em contato com o Conselho, via rádio. Os planos do barco estavam terminados e estava iniciada a etapa de execução das peças. No povoado levavam uma vida infernal. As incursões das hidras eram continuas, difíceis de rechaçar, e perdemos dezessete homens e uma grande quantidade de gado. Também tínhamos noticias e cartas por meio dos condutores dos caminhões-cisterna, os quais se maldiziam todas as vezes que era preciso regressar à zona terrestre.

Ao cabo de um tempo voltei ao povoado com Vzlik, deixando a exploração sob a direção de um contramestre. Muitas coisas haviam mudado na minha ausência. Nos campos de lavoura, como uma orla, haviam sido construídos refúgios sólidos, com o fim de levar a termo os trabalhos da colheita, sem demasiado risco. A fábrica produzia grandes quantidades de trilhos. Eram um pouco grosseiros, porém bastavam para o que precisávamos. Uma nova via conduzia até a costa. Ali se alçava o estaleiro naval.

A quilha do navio já estava no lugar. Tinha 47 metros de comprimento por 8 de largura. Estranges opinava que poderia andar a 7 ou 8 nós. Perto, haviam construído os depósitos de combustível; no momento tínhamos 40.000 litros. No meio de uma atividade febril, passaram-se oito meses.

O lançamento, após terminado o casco do navio, foi feito em boas condições. Tiveram que terminar as instalações interiores e construir um dique de carga. Fizemos os primeiros testes quando chegava a seu término o segundo ano de nossa estadia em Tellus. O navio se portava bem, porem andava com lentidão, pois não passava do seis nós na velocidade de cruzeiro.

Michel e Breffort realizaram uma rápida incursão na região do cobalto, levando sementes de gramíneas terrestres, com a finalidade de que nosso gado, ao chegar, encontrasse pastos convenientes. Levaram também Vzlik, encarregado de negociar com sua tribo. Devia aguardar-nos na confluência do Dron e do Dordogne.

Antes de partir, ele nos fez uma revelação interessante: um rio profundo, embora estreito, que se unia ao Dron, passava a trinta escassos quilômetros do local que havíamos escolhido. Michel comprovou que era navegável até cinquenta quilômetros do mesmo.

Construímos também uma barcaça rebocável.

Vinte e nove meses terrestres, depois da nossa chegada, o primeiro comboio tomou a rota do Sul. O barco transportava setenta e cinco homens, armas, ferramentas, placas de alumínio, aço e trilhos. Eu o dirigia, ajudado por Michel e Martina. A barcaça carregava uma locomotiva, uma grua desmontável e combustível. Navegamos com prudência, a maior parte do tempo usando a sonda. Às vezes tivemos que nos afastarmos da costa. O mar estava calmo.

Eu me colocava de preferência na proa ou sobre-a ponte. A água era muito verde.

Ao redor do barco navegavam formas imprecisas. Eu estava intranquilo, ignorando que classe de monstros podia ocultar este oceano. «O Conquistador» — assim se chamava nosso barco — estava armado com uma metralhadora de 20mm e outra de 7mm. Porém me senti aliviado quando penetramos no estuário do Dordogne.

Entramos no rio a pequena velocidade. Foi bom que procedêssemos assim. Apesar da débil corrente, ficamos estancados por duas vezes no estuário, com maré baixa, por sorte.

Com exceção de Michel, Martina e eu mesmo, nenhum membro da tripulação conhecia outra fauna teluriana além das hidras. Sua admiração não tinha limites. Uma noite, um tigressauro conseguiu saltar da margem sobre a ponte do barco, ferindo dois homens antes de ser derrubado por uma rajada de metralhadora.

Quando chegamos a uns quilômetros da confluência do Dron, das ervas secas da margem saíram dois Sswis a toda velocidade. Minutos mais tarde vimos elevarem-se três colunas de fumo; era o sinal combinado com Vzlik.

Ele nos aguardava sozinho no extremo da língua de terra. Cem metros atrás estavam, formando um grupo triangular, uns cinquenta Sswis de sua raça.

— Salve. — disse com sua voz sibilante — Salve, Vzlik. — respondi.

O Conquistador se imobilizou, porém sem lançar âncoras, pois uma traição era sempre possível.

— Sobe a bordo. — continuei.

Ele lançou-se na água e trepou pela escada de cordas.

Naquele momento, o mecânico deu uma olhada no «olho de boi» da sala de máquinas.

— Então, é com esses cavalheiros que vamos viver? — disse.

Vzlik voltou-se e respondeu: — Verá que não são maus.

Me seria impossível descrever o estupor que se pintou na cara do mecânico.

— Chifres do diabo! Ele fala francês!

Sua admiração me surpreendeu. Depois recordei que a maior parte dos habitantes do povoado somente haviam entrevisto o Sswis, que durante sua estadia esteve quase sempre comigo em expedições.

Michel e Martina vieram ter conosco.

— Então, Vzlik, — disse ela — qual é a resposta à nossa proposta?

— Nós escolhemos a paz. Cedemos a vocês, em plena propriedade, o Monte-Sinal, que nós chamamos Nssa, e o território compreendido entre o Vecera, o Dordogne e o Dron, até os Montes Desconhecidos, a que chamamos Bsser, salvo o direito de passagem permanente para nós. Em contrapartida, vocês se comprometerão a fornecernos ferro, em quantidade suficiente para nossas armas, e a prestar-nos ajuda contra os Sswis negros, — os « Sslwips « — os trigressauros e os Golias. Vocês desfrutarão de direito de passagem sobre nosso território, como também para perfurá-lo; mas a caça será proibida, se não mediar acordo com o Conselho das tribos.

— Aceitamos. Disse — Quanto ao ferro, necessitamos de tempo para fabricá-lo.

— Já sabemos. Expliquei aos Sswis como o exploram. O Conselho dos chefes quer vê-los.

— De acordo. Vamos.

— Pusemos uma piroga na água. Eu desci com Michel e Vzlik. Martina ficou sobre a ponte e, discretamente, aproximou-se da metralhadora.

— Be quiet but careful (fica tranquila, porém alerta) — disse em mau inglês, para que Vzlik não pudesse entender.

Com quatro golpes de remos chegamos à margem. Doze Sswis haviam se adiantado e nos observavam. Para nossos olhos terrestres eles se pareciam extraordinariamente entre si, e se Vzlik se tivesse misturado entre eles teríamos sido incapazes de reconhecê-lo. Depois nos habituamos ao seu aspecto, e agora os distinguimos com facilidade, embora, para dizer a verdade, são muito mais semelhantes entre si que nós.

— Vzlik, em quatro palavras, comunicou-lhes nossa aceitação das suas condições.

Responderam dando-nos boas vindas, em termos concisos, muito diferente da linguagem florida que as novelas de aventuras da minha infância atribuíam aos selvagens terrestres. Então entreguei a cada um, com presente de amizade, uma excelente faca de aço, semelhante à que Vzlik possuía. Suas palavras de agradecimento demonstraram que haviam gostado do presente. Porém seus rostos permaneceram impassíveis.

Voltamos ao barco com Vzlik e lentamente começamos a subir a corrente. Chegamos à grande curva do «Ille», — assim havia sido batizado o novo rio — além do qual a navegação não era possível, pela existência de rápidas correntes. Era uma grande extensão de água, de uma largura superior a duzentos metros. Na margem norte se abria uma pequena baia, como um porto. Decidi efetuar ali o desembarque.

Ao cair da noite lançamos âncora.

Dedicamos o dia seguinte a derrubar árvores, destinadas à construção do embarcadouro.

Terminamos oito dias depois. Instalamos os trilhos e foi iniciada a delicada manobra de colocação de uma grua que, embora estivesse desmontada, era muito pesada. Cerca de meio-dia nos sobreveio um trágico acidente: um jovem operário de vinte e cinco anos, Leon Bellieres, foi esmagado por um andaime. Como tínhamos pressa, o enterramos imediatamente.

Em sua memória, adotamos o nome de «Porto Leon» Montada a grua, o trabalho foi mais fácil. Penosamente, desembarcamos a pequena locomotiva e os três vagões. O resto foi mais simples.

O Conquistador retornou, sobe o comando de Michel. Ficaram ali sessenta pessoas e começamos a edificação de um fortim de madeira para estar ao abrigo dos Tigressauros, como também de uma possível traição dos Sswis. Uma emissora de rádio nos mantinha em contato com o Conselho. Depois edificamos uns armazens, cobertos com placas de duralumínio, então os enchemos com todo o material que havíamos levado. Enquanto isso, uma equipe havia começado os trabalhos da via férrea, de cinquenta quilômetros, que conduzia a Cobalt-City.

Estávamos no quilômetro quatro, e já havíamos utilizado toda a reserva de trilhos, quando chegou o Conquistador com um novo carregamento, vinte e três dias mais tarde. Transportava grandes quantidades de combustível, trilhos, provisões e uma pequena escavadora. Levavaram mais cinquenta homens de reforço.

Na terceira viagem desembarcaram as primeiras mulheres e crianças.

No povoado a situação havia melhorado um pouco, porém as hidras continuavam aparecendo todos os dias.

Nas viagens seguintes nos mandaram gado bovino e caprino, aos quais encerramos em um terreno valado, semeado de ervas terrestres. Todas as noites, os conduzíamos para dentro do fortim, pois os trigressauros enxameavam, e antes que perdesse a fixação de visitar-nos, tive que matar cinco ou seis deles.

Conforme o pessoal ia chegando, novas cabanas iam sendo construídas Cada família dispunha de dois cômodos, sendo que os solteiros — que com certeza estavam diminuindo — dormiam em comum.

Porto Leon ia tomando o aspecto de uma povoação ao estilo do Oeste americano, sem os «saloons» e os revólveres. A moral havia aumentado; todos estavam contentes de terem se livrado da ameaça das hidras.

A via férrea ia se estendendo. Alcançou o quilômetro 20, depois o 30 e o 40. Na final, onde trabalhavam, estabeleceu-se um povoado provisório. Chegou finalmente ao vale, onde deveria ser edificada nossa capital. No povoado «terrestre» não restavam mais que cinquenta homens, encarregados de desmontar a fábrica, sob a direção dos engenheiros. Meu tio e Menard estavam decididos a permanecer até a saída do último barco: no momento não havia forma de desmontar o Observatório. Ficaria fechado com o maior cuidado, à espera de que nossos meios fossem mais potentes.

De toda forma, devia seguir uma lente de 50cm e um telescópio de 1,8m. Transportar o grande refletor de 5,50m estava acima das nossas forças.

Guardo uma recordação deliciosa deste primeiro estabelecimento. Nossas casas, metade obra, metade duralumínio, se esparramavam em desordem pelas ladeiras do vale. Os animais abundavam, porém não havia ali nem Tigressauros nem Golias. As formas que víamos todos os dias eram herbívoros ou pequenas feras, análogas às nossas raposas ou nossos gatos. Os gatos, aliás, se multiplicaram e nos foram muito úteis, destruindo os pequenos roedores que ameaçavam nossas colheitas. Um penhasco calcário nos forneceu cimento.

Em primeiro lugar, construímos a fábrica metalúrgica, a trezentos metros da mina de hulha. À medida que as máquinas iam chegando, iam sendo colocadas em seus lugares.

Na época em que a fábrica começou a funcionar, me casei com Martina. Foi uma cerimônia muito simples. Não tivemos a honra de ser o primeiro casal que se casara em Tellus: Beltaire e Ida haviam se casado em Cobalt dois meses antes de nós. Porém como se tratava, segunda a expressão de Vzlik, de um «matrimônio de chefes», os Sswis mandaram uma delegação carregada de presentes. Como Vzlik lhes havia explicado que eu apreciava as pedras de uma maneira especial, me trouxeram um monte, e entre elas uns cristais variados e muito belos e excelente minério de cobre.

Este último me interessou particularmente, face ao que perguntei o local onde havia sido encontrado. Provinha das colinas situadas ao Sudeste do Monte Tenebroso, onde abundavam.

Fazia tempo que eu desejava visitar a tribo de Vzlik, então aproveitei a ocasião e partimos em «viagem de bodas» no caminhão blindado.

Voltei a passar pela ponte que havíamos estendido sobre o Vecera, e que os Sswis havia respeitado e utilizavam. À noite chagamos às cavernas. Abriam-se sobre um alto penhasco, orientado para o Oeste, sobre o pico de um declive abrupto. Abaixo corria uma pequeno riacho.

Os Sswis, avisados por Vzlik, nos aguardavam. Fomos conduzidos à presença do chefe, um Sswis muito velho, cuja pele descolorida era de um cinza esverdeado. Estava recostado sobre uma grossa liteira de ervas secas, em uma gruta cujas paredes estavam cobertas de notáveis pinturas, que representavam Golias e Tigressauros atravessados por flechas. Pareciam ser utilizadas para rituais mágicos. Tivemos a satisfação de nos ver representados com o caminhão, em forma bastante parecida; porém, neste caso,as flechas rituais haviam sido cuidadosamente apagadas. Fiquei surpreendido com a limpeza dessas residências trogloditas. As aberturas estavam quase inteiramente fechadas por peles esticadas sobre armações de madeira. Lâmpadas de azeite, um azeite vegetal, iluminavam as grutas.

— Sua civilização é notavelmente humana. — disse Martina.

— Sim. Tenho a impressão de que entre sua forma de vida e as de nossos antepassados paleolíticos não deve existir outra diferença além da sua limpeza.

O velho Sliouk — tal era o nome do chefe — levantou-se ao ver-nos. Nos deu boas vindas, por meio de Vzlik, Atrás dele, contra a parede rochosa, estavam suas armas: um grande arco, flechas, lanças. Salvo um grande colar de pedras reluzentes, estava completamente nu. Eu lhe dei uma faca, umas pontas de flecha de aço e um espelho.

Ficou fascinado por este último e, durante o banquete que se seguiu, — então já sabíamos que podíamos comer a carne teluriana — não cessou de manipulá-lo.

Sua filha estava presente. Os Sswis são muito corteses com suas mulheres e, para um povo primitivo, as tratam muito bem. São menores que os machos, gordinhas e de pele mais clara. Tive a impressão de que Vzlik e Ssonai se entendiam muito bem, o que me alegrou, pois se Vzlik, após a morte do seu sogro chegasse a ser chefe da tribo, nossa posição estaria reforçada.

Permanecemos oito dias com eles. Tive longas conversas com Vzlik e lhe perguntei muitas coisas que até aquele momento ignorava. Pude assim fazer uma ideia da sua organização social.

Os Sswis são monógamos, ao contrário dos seus inimigos, os Sswis negros, ou Sslwips. A tribo compreendia quatros clãs, cada um deles governado por um chefe secundário, que não se uniam estreitamente mais que em tempos de guerra ou caça.

A tribo conta com oito mil indivíduos, compreendidas aí as «mulheres» e as crianças.

Em um grau mais elevado, onze destas tribos estavam confederadas, porém sua solidariedade se dava em função de uma grave ameaça. Além da caça, os Sswis têm como recurso alimentar um cereal que «cultivam», se é que podemos empregar esta palavra para designar um trabalho que consiste em semear e colher duas vezes ao ano. Conhecem a arte de defumar a carne, com o que podem fazer provisões.

Os Sswis estão rodeados, exceto pelo Norte, por seus inimigos negros. Outras destas tribos vivem mais distantes lá pelo Sul, onde a lenda situa sua origem.

São ovíparos. As fêmeas põem dois ovos por ano, do tamanho de um ovo de avestruz terrestre. Os filhos aparecem depois de trinta dias de incubação e são capazes de se alimentarem imediatamente Os laços familiares são muito relativos, a partir do segundo grau de parentesco. Os Sswis vivem bastante tempo, entre 90 e 110 anos terrestres, quando não morrem em combate, o que não é frequente. Geralmente são de uma bravura extraordinária e muito agressivos. Respeitam as alianças, matam os inimigos só por o serem. O roubo dentro da tribo é desconhecido. Fora é outro assunto!

Quase todos possuem uma inteligência semelhante à dos homens e estão bem dotados para o progresso.

Me dou conta de que estou divagando ao falar-vos de coisas que todos vós conheceis.

Já que hoje muitos deles se integraram em nossa vida, até o extremo de trabalharem como operários ou matemáticos!

Na volta, em lugar de regressar diretamente, passamos por Porto Leon. O Conquistador acabava de chegar da sua última viagem, carregado de telhas, ladrilhos, e o telescópio de 1,80m. Trazia também meu tio e Menard.

II — O AVIÃO

Passou-se mais um ano, segundo a medida terrestre. Desde nossa chegada a Tellus haviam transcorrido quatro de nossos antigos anos. Segundo os cálculos de Menard, isto correspondia a três anos telurianos.

Cobalt-City tomava forma. Já era uma população animada com mais de 2.000 habitantes, com sua central telefônica, sua fundição, sua fábrica metalúrgica, rodeada de campos de lavoura onde cresciam o trigo e o Skin, o cereal Sswis. Possuía um pequeno hospital, onde Massacre formava seus alunos, uma escola e, inclusive, um embrião de Universidade, na qual eu ensinava por cinco horas semanais. O gado pastava pelas colinas vizinhas, nas quais a vegetação terrestre aumentava dia a dia entre as ervas telurianas. As minas de carvão, de ferro e de outros metais eram exploradas de acordo com nossas necessidades. Uma via férrea nos comunicava com o casario de «Alumina», a 55 quilômetros ao Norte, onde quarenta homens formavam o pessoal da mina de bauxita. Porto Leon abrigava 600 habitantes.

Animado por meus projetos de exploração, mandei construir um estaleiro naval, onde estava sendo terminado um navio mais rápido que o Conquistador. O primeiro esforço dos engenheiros havia sido para fabricar ferramentas com o material básico que possuíamos.

Cada três semanas, partiam dois caminhões cisterna para os poços de petróleo, por uma autopista de 700 quilômetros. O poço se esgotava rapidamente e chegava o momento de fazer regressar os sessenta homens que ali permaneciam. Tínhamos dezenas de milhares de litros de combustível em reserva e já havia encontrado outros pontos petrolíferos apenas a 100 quilômetros.

Em resumo: se de vez em quando não encontrássemos os Sswis, que passeavam por nossas ruas, e sem os dois sois e as três luas, poderíamos afirmar que estávamos de regresso à Terra.

Foi então que aconteceu o feito mais importante da nossa história, depois da nossa projeção sobre Tellus.

Eu havia me deitado tarde, passando a limpo as minhas notas e desenhando planos geológicos rudimentares, em meu gabinete de trabalho, que ocupava o piso inferior da nossa pequena casa. Antes de subir para dormir, fui até o aparelho de radio e chamei o contramestre da guarda dos poços de petróleo pra dar-lhe instruções. Depois esqueci de desligar o receptor.

Ao cabo de meia hora, Martina me despertou.

— Escuta, estão falando lá em baixo!

— Deve ser do lado de fora.

Fui até a janela e abri. Tudo estava escuro e a rua deserta. O povoado dormia e todas as luzes estavam apagada. Somente o farol da torre de guarda varria o espaço, iluminando as casas.

— Você deve ter sonhado! — disse, e me deitei de novo.

— Escuta, falam novamente.

Prestei atenção e, com efeito, pude ouvir vagamente umas vozes. Logo, por um hábito terrestre: — Devo ter deixado o radio ligado. — disse meio dormindo. E imediatamente: — Santo céu! Quem poderia ser a estas horas?

Desci de um salto. O receptor, ligado, estava mudo. Pela janela via a noite cravejada de estrelas. As luzes se haviam ocultado.

De súbito, uma voz saltou do aparelho: — «Here is W.A. Calling New Washington… Here is W.A. Calling New washington…» (Aqui é W.A. Chamando New Washington). Houve um silêncio e… «Here is W.A…»

O som era muito claro. A estação emissora devia estar muito próxima.

— Escuta! — disse Martina de novo.

Eu estava imóvel, quase sem respirar. Ouvia-se um distante ruido de motor.

— Um avião?

Precipitei-me para a janela. Um ponto luminoso se movimentava pelas estrelas.

Voltei ao aparelho de radio, monitorei febrilmente com os controles, procurando a longitude da onda de recepção do avião.

— «W.A. Who are you? — disse em meu pobre inglês Finalmente encontrei a longitude de onda correta.

— «W.A. Who are you? Here New France!» (W.A. Quem é voce? Aqui nova França) Pude ouvir uma exclamação abafada, e uma voz me respondeu em excelente francês — Aqui W.A, avião americano. Onde estão?

— Abaixo de vocês Acenderei uma lâmpada no exterior.

O avião nos sobrevoava.

— Vejo sua luz. É impossível aterrizar à noite. Voltaremos mais tarde. Quantos sois?

— Uns quatro mil. Todos franceses. E vocês?

— No avião, sete. Em New Washington, onze mil: americanos, franco-canadenses e noruegueses. Conserve sua longitude de onda. Voltaremos a chamá-los.

— Quando decolaram?

— Há dez horas. Estamos explorando. Pela manhã voltaremos. Agora vamos para o Sul. Cessem suas chamadas, porém deixem um homem de guarda na escuta. Vamos chamar New Washington Estamos muito contentes de saber que não estamos sós.

Até breve…

Depois repetiu a sintonia: «Here is W.A…. Seguiu-se uma longa conversação que apenas compreendi. Anunciavam nosso descobrimento Não pudemos aguentar. Fomos despertar meu irmão, que morava, com Louis e Breffort, em uma casa a cem metros da nossa, e depois meu tio, Michel, Menard e todos os dirigentes. Finalmente, a efervescência acudiu a todas as partes, e a notícia por telefone chegou a Porto-Leon, com a ordem de ativar a construção do Temerário.

Afinal amanheceu. Fizemos os preparativos para receber dignamente os aviadores.

Balizamos um vasto prado, de solo duro, com uma seta branca que indicava a direção do vento. Depois voltei à emissora. Martina havia cuidado da vigilância.

— Nada?

— Nada.

— Não obstante, não foi um sonho!

Aguardamos durante duas horas, rodeados de uma multidão que se apertava sobre minha mesa de trabalho, meu móvel «tabu», que nem Matina tocava muitas vezes.

Na Câmara Municipal, onde havia outro rádio, o mesmo espetáculo.

De repente: — W.A. Chamando Nova França! W.A. Chamando Nova França!

— Aqui Nova França, na escuta…

— Estamos voando acima de terra equatorial, Dois dos quatro motores falharam.

Não podemos voltar. Impossível comunicarmo-nos com New Washington. Ouvimos muito mal. No caso que perecermos, eis aqui a posição de New Washington com relação à vossa: Latitude 41º 32' Norte. Longitude 62º 12' Oeste.

— Qual vossa posição atual?

— Em relação à vossa, uns 8 graus latitude Norte e 12 graus de longitude.

— Estão armados?

— Sim. Metralhadoras de bordo e fuzis.

— Tentem aterrizar Iremos em vosso socorro. Para chegar até aí, demoraremos — calculei rapidamente — uns vinte ou vinte e cinco dias. Uns animais que se parecem com os rinocerontes são comestíveis. Não comam frutos sem conhecê-los!

— Racionando, temos víveres para trinta dias. Vamos aterrizar, há outro motor falhando.

— Cuidado com as hidras se as virem! Não deixem que se aproximem!

— O que são hidras?

— Uma espécie de polvo voador. Vocês as reconhecerão facilmente. Disparem imediatamente se as virem.

— Entendido. Desceremos na planície, entre umas montanhas muito altas e o mar.

Até breve!…

A voz se calou. Aguardamos angustiados. A muitos quilômetros de distância, sete homens lutavam por sua vida.

Nossa espera durou uma hora; depois a voz continuou.

— Nós conseguimos. O avião ficou parcialmente destruído, porém todos estamos a salvo. Desgraçadamente nos vimos obrigados a esvaziar quase todo o combustível e nosso acumuladores estão quase descarregados. Emitiremos espaçadamente para orientá-los.

— E nós os avisaremos quando partirmos. Irradiaremos a cada vinte e quatro horas terrestres Aqui, agora, são 9:37h. Ânimo e até breve!

Segui imediatamente para Porto Leon.

O Temerário realizou as primeiras provas naquele mesmo dia. Era um barco de pequena dimensão, de 48 metros de comprimento por 5 de largura, que deslocava umas 140 toneladas. Dois motores diesel da antiga fábrica, muito potentes, lhe permitiam uma velocidade máxima de 25 nós. A 12 nós podia percorrer mais de 10.000 milhas. Levando em conta nossos meios limitados, era uma obra de mestre. Estava armado com uma metralhadora de 20mm e, uma vez que as munições eram relativamente escassas, com uma artilharia de lança-granadas. Estas armas haviam sido aperfeiçoadas desde os tempos heroicos da batalha das hidras. À proa e à popa, quatro tubos, aos pares, lançavam a até cinco quilômetros, com uma precisão aceitável, projéteis de 12 quilos. A bombordo e a estibordo, canhões de menor calibre, que alcançavam até sete quilômetros.

Feitos os ensaios com rapidez, — ida e volta até a desembocadura do Dordogne — mandei embarcar víveres e munições. Partimos no dia seguinte. A tripulação se compunha de doze homens. Michel como navegador e Byron como mecânico. Dentre aqueles, cinco haviam pertencido à marinha. Por minha parte, eu havia cruzado o Mediterrâneo três vezes com um pequeno veleiro de um amigo meu, e tinha algumas rudimentares noções de navegação. Levávamos uma camioneta equipada — uma miniatura do nosso caminhão-tanque — e um emissor de radio.

A pequena velocidade, descemos pelo rio. Ao sair do estuário lancei uma chamada.

Responderam brevemente do avião. Naquele momento o Temerário começou a balançar; acabávamos de entrar no oceano.

Ao cabo de uma hora, ordenei por a proa ao Sul. A costa era plana e povoada. Segundo os poucos Sswis que conseguiram regressar do território inimigo, tratava-se de uma imensa planície que se estendia até o interior, até uma elevada cadeia de montanhas, invisíveis a partir do mar.

Eu estava na ponte com Michel. O barco andava a 12 nós, os motores giravam plenamente, o mar estava tranquilo. Como não tinha outra coisa em que ocupar-me, tirei um pouco de água do mar e a analisei em um pequeno laboratório. Era muito rica em cloretos. Reduzindo momentaneamente a marcha, pusemos uma rede de feitio grosseiro a reboque. Capturou toda uma fauna, da qual certos elementos recordavam os peixes terrestres e, em troca, outros eram completamente distintos.

Naquela noite o sol se ocultou com uma demonstração de tons púrpuras. Por causa da maior espessura da atmosfera de Tellus, os pores de sol são mais coloridos que os da Terra, embora Helios seja mais azulado que nosso velho sol.

À noite reduzimos nossa velocidade para seis nós, apesar de uma brilhante lua.

Não me interessava jogar o Temerário contra um escolho desconhecido.

Quando amanheceu, havíamos percorrido 450 quilômetros. A Leste, a costa continuava sendo plana. Cerca de meio-dia, nos encontramos ante um inextrincável dédalo de ilhotas e bancos de areia e, para não nos aventurarmos em passagens incertas, ordenei entrar mar adentro e perdemos a terra de vista. Estabelecemos um turno de comando: eu fiquei com o primeiro, Michel com o segundo e nosso chefe de tripulação, montanhês de origem, porém que havia servido quinze anos na frota, com o terceiro.

Quatro dias depois sem haver desviado a proa para o Sul, avistamos terra, que se não se tratasse de uma ilha, flexionava para o Sudoeste. Nos encontrávamos aos 32º de latitude Norte. A temperatura era morna, porém suportável. Pela noite do mesmo dia vimos à distância uma forma enorme e negra brincando na água. Por precaução mandei carregar as armas e preparei os homens para fazer fogo, porém a forma se distanciou sem inquietar-nos. Entrei em comunicação com Cobalt-City e soube que, apesar de todos seus esforços, não haviam conseguido falar com New-Washington.

Nos distanciamos novamente da costa.

Uma manhã, quando ia dar ordem de virar para o Leste, o vigia sinalizou uma costa à frente. Decidi fazer um reconhecimento. Avançando com a sonda, chegamos a duzentos metros de uma praia desolada. A posição, verificada por Michel, foi de 19º 3' 44'' de latitude Norte e 28º 22' de longitude Oeste, com relação a Cobalt-City. Parecia tratar-se do cabo de uma ilha. Abandonando o anterior projeto de desembarcar, tomamos o rumo Sudeste. Uma mensagem enviada para o avião ficou, a principio, sem resposta. Duas horas depois, nos chamaram e nos disseram que acabavam de rechaçar uma ataque das hidras, que não eram verdes e sim escuras e de um tamanho enorme; de doze a quinze metros de comprimento.

Sem mais incidentes além de um pouco de mar grosso, que o Temerário enfrentou sem dificuldade, chegamos à vista do continente onde havia caído o avião, continente que, segundo disseram os aviadores, estava separado do de Cobalt-City por um estreito. Para encontrar-lo foi mister sondar no rumo Norte. Depois de haver contornado uma enorme península, percorremos a costa abaixo dos 10 graus de latitude. A temperatura era insuportável, e tivemos que usar grandes chapéus e regar com frequência a ponte metálica. As vezes o mar se cobria de uma bruma morna e sufocante, mais penosa ainda que a insolação de Helios.

Finalmente, em uma noite chegamos a um ponto da costa que, segundo nossos cálculos, nos deixava mais perto do avião. Desanimados, examinamos a margem. Era um verdadeiro labirinto. As árvores cresciam até o mar, sobre uma praia lamacenta cheia de vidas indistintas e que desprendia um mau cheiro terrível. Me perguntei com ansiedade como faríamos para desembarcar. Em segundo plano, distante, uma gigantesca cadeia lançava seus picos a mais de 15.000 metros.

Perscrutamos a costa em busca de um lugar mais hospitaleiro. Alguns quilômetros mais adiante encontramos um estuário de um rio e por ele penetramos, apesar da violência da corrente.

Usando a sonda, subimos 90 quilômetros. Aqui, uns bancos de limo nos detiveram.

Todas nossas armas estavam carregadas e a vigilância duplicada. As margens, sempre encharcadas, alimentavam uma vida imunda, quase protozoótica Estranhas massas de uma geleia viva, animada de um movimento ameboide, subiam pelo limo, com coloridos de cinza ou de verde ácido. O ar estava saturado de um odor putrefato, o termômetro marcava 48 graus à sombra. Chegada a noite, toda a margem se iluminou de fosforescências moveis de diversas cores.

Depois de muito procurar, encontramos na margem direita um banco de rochas, que pareciam nuas e desprovidas de seres vivos. Nos acercamos com o Temerário, manobrando com as duas hélices. Os cabos foram amarados com piquetes de ferro, plantados naquela terra macia e esquisita. Foi colocada a ponte de madeira, o que permitiu à camionete ganhar terra.

— Quem vai? — perguntou Michel — Tu, eu e quem mais?

— Tu não. É necessário que fique aqui alguem capaz de conduzir o Temerário.

— Então é a tua vez de ficar. És o único geólogo; em troca, há um monte de astrônomos.

— Eu sou o chefe, e te ordeno que fiques. Irás na segunda viagem. Fala com o avião da ponte. Em que direção se encontra ele e a que distância?

— Uns trinta quilômetros a Sudoeste.

Quando souberam que estávamos tão perto, gritaram de alegria: — Não tínhamos mais que dois litros de água potável e acabaram-se os comprimidos para esterilizar mais.

— Imagino que estaremos ai antes de duas horas. — respondi — Preparem-se. Se têm combustível, acendam um fogo. O fumo nos guiará.

Sentei-me ao volante. Andrés Etienne, um marinheiro, ocupou-se da torre armada com dois lança-granadas. Um pouco emocionado abracei Michel, cumprimentei os outros e partimos.

III — A MORTE VIOLETA

Com o olhar posto na bússola, tomei a direção Sudoeste. O solo rochoso se prolongou durante dois ou três quilômetros; depois o terreno tornou-se macio. Etienne teve que descer para colocar as correntes nos pneus. Apesar da minha proibição, quis colher uma espécie de ameba de quarenta centímetros de diâmetro e ficou com a mão queimada como por um ácido. Os animais pululavam. Alguns deles alcançavam um metro de largura. Travavam uma feroz luta em «ralenti», em que o vencido terminava submetido pelos pseudópodes do vencedor, e digerido.

Avançávamos com dificuldade. Em certos trechos, a água jorrava sob as rodas.

Afortunadamente, os vegetais eram escassos e flexíveis, e se curvavam sob o carro.

Um fedor de ovos podres, proveniente da decomposição destas ervas, e talvez também dos animais gelatinosos, nos incomodava terrivelmente. Afinal, duas horas depois da nossa partida, avistamos à distância uma coluna de fumo.

O sol ascendeu, e os repugnantes seres flutuantes desapareceram. A terra endureceu; aumentamos a velocidade e pudemos tirar as correntes. À distância percebi a silhueta de um avião com as asas destroçadas.

Quando nos viram, os americanos, esquecendo-se de toda prudência, correram para nós. Com a exceção de um deles, vestido de aviador, todos usavam o uniforme da «U.S Navy». Abri a porta traseira e os fiz entrar.

A camionete ficou apertada com nove pessoas. Quase me desmontaram o braço com os agradecimentos. Tirando uma garrafa debaixo do meu assento, ofereci-lhes conhaque com água, talvez não muito fresca, porém foi muito apreciado.

O mais velho, que devia contar uns trinta e cinco anos, o comandante, fez as apresentações.

Começou com uma espécie de gigante ruivo, que me passava por uma cabeça: o capitão Elliot Smith. Depois um homem moreno rechonchudo: capitão Donald Brewster. Um ruivo magricela se chamava Donald O'Hara, e era tenente. O engenheiro Robertt Wilkins, de trinta anos, tinha o cabelo castanho, olhos cor de avelã e um amplo tórax. O sargento John Pardy, gordo, era canadense. Finalmente, indicou o homem vestido de aviador: — Uma surpresa: Andrés Biraben, geógrafo, vosso compatriota.

— Curioso! Ouvi falar muito de voce na Terra. — disse.

— E finalmente, eu mesmo, Arthur Jeans.

Apresentei meu mecânico e acrescentei: — Senhores, temos de tratar de salvar tudo o que for possível do seu avião e seguirmos.

Voltaram a ver as hidras gigantes?

— Não. — respondeu Jeans — Vocês poderão ver os restos das que abatemos no outro lado do avião.

Chegamos ali na camionete. Enormes massas acabavam de apodrecer.

— Esse animais também deram o que fazer a vocês? — perguntou Biraben.

— Sim! Porém as nossas eram verdes e menores, o que não as impedia de serem perigosas. Seu avião é um bom refugio?

— Sim.

— Neste caso, vou levar quatro de vocês comigo. Os outros três ficam aqui com meu marinheiro. Desmontem as armas de bordo. Ainda têm munição?

— Estamos muito bem providos.

— Neste caso, as levaremos em uma terceira viagem.

Jeans designou Smith, Brewster, Biraben e Wilkins. Os demais se encerraram no avião.

Pus Smith ao meu lado. Eu falava mal o inglês, porém falava bem o alemão. Smith falava alemão sofrivelmente, e pudemos nos informar. Soube assim que New-Washington era um fragmento dos Estados unidos caído em pleno oceano teluriano. Houve nove mil sobreviventes e quarenta e cinco mil mortos.

A ilha, assim formada, se estendia sobre trinta e sete quilômetros de comprimento por sete de largura. Havia uma fábrica de aviões quase destruída pelo choque, que haviam reconstruído, campos de lavoura, grandes reservas de víveres e munições, e, coisa estranha, várias naves: o cruzador ligeiro francês, o Surcouf, um destroier americano, o Pope, um torpedeiro canadense e dois barcos mercantes: um cargueiro misto norueguês e um petroleiro argentino. Eu tinha, no Surcouf, um colega de escola e fui informado que ele havia desaparecido na catástrofe. Na ocasião, todos os navios se encontravam em alto-mar, conseguindo, ao cabo de um tempo, chegar a New Washington, com as árvores de mastros destruídas, como após um combate, navegando às vezes à vela, porém basicamente intactos. O cataclismo se lhes apresentou sob a forma de uma gigantesca tromba d'água.

— Porque vocês demoraram tanto a fazer explorações?

— Havia coisas mais urgentes! Enterrar os mortos, limpar as ruínas, reconstruir. O pouco combustível que possuíamos utilizamos para por em funcionamento um dos dezessete aviões, que foram pouco prejudicados; é o que está aqui caído — Receberam nossas mensagens?

— Não, jamais. Apesar de que permanecíamos na escuta há mais de um ano.

— É curioso. Como se mantinham?

— Tínhamos muitas reservas. Cultivamos trigo; pudemos pescar bastante, e algumas formas terrestres sobreviveram e se multiplicaram consideravelmente. Por falta de leite perdemos muitas crianças. — acrescentou com tristeza.

Eu o pus ao corrente do que havíamos feito.

Cerca das três da madrugada chegamos ao Temerário. Deixei ali os que havíamos resgatado e, apesar dos protestos de Michel, voltei imediatamente.

Eu iria presenciar uma espetáculo que me gelou o sangue.

Assim que avistei o avião, observei, um pouco à direita, uma enorme massa gelatinosa de cor violeta claro, que se movimentava a uma considerável velocidade, entre 30 e 40 quilômetros por hora. Media uns dez metros de diâmetro por um metro de altura. Intrigado me detive. O animal não se preocupou comigo e continuou sua rota perto do avião. O canadense abriu a porta e saiu. Viu a camionete parada e veio para perto dela. Após ele, apareceram Etienne, O'Hara e Jeans. Olhei novamente para o monstro: sua rica cor violeta havia desaparecido, convertendo-se em cinza opaco; parecia uma rocha coberta de líquens Prevendo o perigo, me pus em movimento e toquei a buzina. O mecânico agitou a mão outra vez e acelerou o passo.

Corri a toda a velocidade. Cheguei tarde. O monstro, novamente violeta, precipitou— se sobre ele. Pardy viu, titubeou um momento e correu para o avião. Então ocorreu algo estranho: ressoou um ruido seco e uma espécie de chispa alcançou o canadense, que desabou. Desapareceu englobado pelos pseudópodes.

Horrorizado, freei de vez. O animal voltou-se e vinha direto em minha direção. Saltei do meu assento, subindo até a cúpula do lança-granadas. Febrilmente, apontei os tubos, carregados pela manhã. A centelha azul saltou novamente, acertando o radiador.

Senti um solavanco. Não um solavanco de um choque elétrico, e sim um frio glacial que me obrigou a deter-me. Apertei o disparador. As granadas deram em cheio no monstro, a dez metros. Ouviram-se duas explosões surdas, uma série de crepitações violentas acompanhadas de chispas. Saltaram como se fossem tiras de gelatina.

O animal ondulou e ficou imóvel. Pus o motor em marcha e me acerquei com cuidado.

Umas iridescências percorriam ainda a geleia viva que ainda palpitava. Do canadense nem sinal. Lancei duas granadas incendiárias pela portinhola. Com o calor intenso, enrugou-se, encolheu e deixou de palpitar.

Chegaram os outros.

— What an awful thing — disse Jeans. Repetiu em francês: Que coisa mais horrível!

— Temo que não possamos fazer nada por nosso mecânico. A não ser enterrá-lo.

Quando abrimos, a machadadas, a rígida gelatina, que havia se tornada mais densa que madeira, não encontramos mais nada além de um anel de ouro!

Tristes, subimos no carro, carregando as metralhadoras. Etienne voltou ao seu posto do lança-granadas.

No dia seguinte fizemos mais expedições para levar o resto das armas, das munições, os motores elétricos e tudo que pode ser salvo. A última, conduzida por Michel, teve que lutar com a «morte violeta». Destruíram quatro desses ignóbeis animais.

Carregada com rapidez a camionete, partimos, saudando com uma chuva de granadas a uma hidra demasiadamente curiosa, que caiu destroçada. Eu estava mais confiante que na ida, cumprida minha missão e podendo encarregar a direção do navio a homens, os quais, pelo menos dois, sabiam realmente o que era um barco.

IV — DESCUBRI TERRAS DESCONHECIDAS…

Deixei a direção técnica nas mãos de Jeans e seus oficiais, reservando para mim e para Michel o comando geral. Enviei uma mensagem a Cobalt. Depois, aconselhado por Wilkins, tentei comunicar-me com New-Washington. Com grande surpresa minha, consegui. Jeans explicou-lhes sucintamente o que havia ocorrido e retransmitiunos o agradecimento do seu governo e um convite para uma visita.

— Sinto muito, mas não posso aceitar no memento. — respondi — Não temos bastante combustível para percorrer os 10.000 quilômetros que nos separam de New— Washington. Passaremos primeiro por Cobalt-City.

— Porque vocês, franceses, batizaram sua cidade com esse nome? — inquiriu O»Hara.

— Ora, porque é idêntica a uma das cidadezinhas do vosso «Far-West» nos idos de 1880. Ao menos como nós as imaginamos!

Apenas deixamos o rio, nos dirigimos para a direção Nordeste. Soprava um vento forte e o Temerário, com mal estar de alguns estômagos, dançava muito. Estávamos conversando, meio em francês, meio em inglês. Quando nos faltava uma palavra, Biraben fazia a interpretação.

Nosso primeiro dia no mar passou-se sem incidentes. À noite, embora o mar tivesse se acalmado, diminuímos a marcha do barco. Fui dormir, deixando Smith na ponte.

Uma mudança no ritmo de oscilação do Temerário me despertou. Escutei, com a sensação de que ocorria algo anormal. Imediatamente compreendi: os motores estavam parados. Vesti-me a toda pressa e subi para ponto.

Perguntei ao homem em serviço: — Que aconteceu?

— Não sei, senhor, acabamos de parar.

— Onde está o comandante americano?

— Na popa, com o engenheiro.

Michel passou a cabeça por uma claraboia.

— O que aconteceu? Por que paramos?

— Não sei. Vem comigo.

— Certo.

— Ao dizer isto, sentiu-se como uma tromba d'água contra o casco; depois uma sacudida fez o barco oscilar. Ouvi um sonoro «Damn it!» (Maldição!), depois uma exclamação de surpresa e um grito, um grito terrível: — Todo mundo para dentro!

Smith caiu em cima de mim, projetando-se sobre o corredor. Wilkins mergulhou literalmente no interior. Smith botou a cabeça acima da ponte, comprovou que estava deserta e fechou a porta. À luz de uma lâmpada vi seu rosto, lívido, desfigurado. Vi como a coberta do posto da tripulação se fechava com violência. Houve outra sacudida, e o Temerário deu uma guinada para estibordo. Eu tropecei e cai sobre o tabique.

— Pode-se saber o que está acontecendo?

Wilkins afinal respondeu: — Calamares gigantes!

Fiquei horrorizado. Desde a minha infância, quando lia Vinte Mil Léguas Submarinas, ficara atemorizado destes animais.

Consegui articular: — Como with me (Vem comigo!).

Com as pernas tremendo, subimos a escadaria que conduzia à coberta. Dei uma olhada através das claraboias: a ponte estava deserta e reluzia sob as luas. Na extremidade dianteira, uma espécie de cabo grosso oscilava atrás do fuste dos lança-granadas.

A dez metros a babor, emergiu, por um instante, uma massa em um mar de tinta; depois vimos um volutear de braços, iluminados pela luz lunar. Calculei o comprimento daqueles braços em vinte metros. Michel uniu-se ao grupo e, depois dele, os americanos.

Smith explicou o incidente: Quando as duas hélices pararam ao mesmo tempo, estava à popa com Wilkins e viu dois olhos enormes que brilhavam debilmente. O animal lhes lançou um tentáculo. Foi quando ouvimos o grito.

Tentamos pôr novamente o motor em marcha. Assim fizemos, as hélices bateram na água, o Temerário vibrou e avançou uns metros. Depois os motores se calaram após uma série de sacudidas.

— Esperemos pelo dia. — aconselhou Wilkins.

A espera resultou sendo longa. Ao amanhecer pudemos comprovar a extensão do perigo. Estávamos rodeados por no mínimo vinte monstros. Não se tratava de calamares, embora á primeira vista pudessem parecer. Tinham um corpo fusiforme, agudo na parte traseira, sem aletas, com dez ou doze metros de comprimento por dois ou três de diâmetro. Da parte dianteira partiam seis braços enormes, de uns vinte metros de comprimento e cinquenta centímetros de diâmetro. Estavam dotados de garras reluzentes e afiadas, e terminavam em ponta de lança. Os olhos, igualmente em número de seis, encontravam-se na base dos tentáculos.

— Aparentemente são primos irmãos das hidras. — disse.

— No momento, rapaz, não dou a mínima. — replicou Michel — Se eles se jogam sobre o Temerário…

— Sou um idiota! Como não lembrei de por lança-granadas nos torreões!

— Agora é tarde. Mas, e se passássemos uma das metralhadoras do avião por um olho de boi? Será necessário também livrar as hélices. Se sairmos desta!…

Gritei para a tripulação: — Levem uma metralhadora e cintas de munição. Acima de tudo, não passem pela ponte.

— Atenção! Gritou Michel.

Um monstro se aproximava com um grande volteio de tentáculos. Com um deles agarrou a cerca de estibordo e a arrancou.

— Se pudéssemos matar um com a metralhadora, talvez os demais parassem para comê-lo O tubo acústico da casa de máquinas sussurrou: — As hélices estão livres, Senhor.

— Bom. Fiquem atentos. Quando eu ordenar, sigam adiante à toda velocidade.

Os marinheiros subiram uma metralhadora. Baixei o vidro e fiz passar o cano da arma. No momento que ia disparar, Michel bateu nas minas costas.

— Espera. É melhor que um americano faça isto. Estão habituados às suas armas.

Passei a metralhadora a Smith, verdadeiro afuste vivo. Ele mirou cuidadosamente um calamar que estava entre duas ondas e disparou. O animal deu um verdadeiro salto fora d'água, depois mergulhou. No momento que Smith se dispunha a liquidar outro, desencadeou-se uma tempestade. Uma dezena de braços gigantescos despedaçou a ponte, arrancando corrimões, retorcendo a pequena grua e afundando a chapa de proteção da metralhadora pequena. Um tentáculo rompeu um vidro e penetrou pela tolda arrebentando a claraboia.Agitou-se furiosamente. Michel caiu sobre o tabique. Wilkins e eu, horrorizados e imóveis, não pudemos dar um passo.

Jeans jazia por terra, derrubado. O primeiro a reagir foi Smith. Pegou um machado fixado na parece e, com um magnífico golpe de açougueiro, cortou o tentáculo limpamente.

Através da porta entreaberta, saltei para o aparelho de radio e lancei um S.O.S., antes que os mastros fossem arrancados. O temerário inclinou-se sensivelmente enquanto eu ouvia um marinheiro que gritava: — Vamos afundar!

Pelo olho de boi vi o mar agitado de tentáculos. Depois chegou o deus ex machina que nos salvou.

A uns duzentos metros emergiu uma cabeça enorme e chata de mais de dez metros, presidida por uma boca imensa com dentes brancos e agudos. O recém-chegado precipitou-se sobre o primeiro calamar e o seccionou em dois. Depois, ele e dois de seus congêneres, que corriam ao seu lado, e os calamares,travaram um combate feroz. Não tenho certeza se durou uma hora ou um minuto! O mar se acalmou e não restou outra coisa mais que restos de carne flutuando à deriva. Foram necessários mais de dez minutos para nos darmos conta de que estávamos salvos. Então, rumamos para o Norte a toda velocidade.

À noite, avistamos a bombordo um arquipélago de arrecifes ásperos, parecendo silhuetas de ruínas postas contra o sol poente. Nos acercamos com precaução. A escassas amarras de distância, notamos, entre duas rochas denteadas, um movimento suspeito. Instantes depois, reconhecemos um bando de calamares, e, com o timão a estibordo, e a toda velocidade, os deixamos para trás.

A noite, muito clara, nos permitiu avançar bastante rápido. Roçamos um calamar isolado, meio adormecido, que foi fulminado por nossas granadas. Pela manhã estávamos diante de uma ilha.

O'Hara subiu à ponte, levando o mapa que havia desenhado segundo as fotografias de raios infravermelhos, tiradas do avião. Pudemos identificar a ilha que tínhamos diante de nós com uma terra muito abrupta orientada no sentido Leste-Oeste, situada entre o continente equatorial, de onde vínhamos, e o continente boreal. A fotografia, tirada do alto, não precisava os detalhes, porém se podia distinguir uma cadeia de montanhosa e grandes bosques. A Sudeste, além de um estreito, podia-se observa a ponta de outra terra. Decidimos alcançar o extremo Leste da primeira ilha, a Oeste da segunda e a grande península, ao sul do continente boreal.

Percorremos a costa Sul da primeira ilha. Era rochosa, abrupta e inospitaleira. As montanhas não pareciam muito elevadas. Ao entardecer chegamos ao extremo Leste e baixamos âncoras em uma pequena baia.

Na alvorada vermelha, o rio se desenhou plano e monótono, com alguma vegetação.

Quando Helios se levantou, divisamos com clareza uma savana que morria no mar por uma estreita praia de areia branca. Nos aproximamos e fizemos a feliz descoberta de que a praia terminava de súbito, de forma que a costa distava poucos metros com um fundo de dez braças.

Não foi fácil colocar a ponte móvel e desembarcar o carro, no qual havíamos substituído o lança-granadas por uma das metralhadoras do avião, mais manejável. Michel, Wilkins e Jeans se instalaram nele. Não foi sem apreensão que os vi desaparecer no alto de um declive. As ervas amassadas traçavam a pista do carro, o que, se necessário, facilitaria sua busca.

Com a proteção das armas de bordo, desci à terra e visitei os arredores. Entre as ervas, pude recolher uma duzia de espécies distintos de curiosos «insetos» telúricos.

Umas pegadas indicavam a presença de fauna mais volumosa.

Duas horas mais tarde, o ronco de um motor anunciou o retorno da camionete.

Michel desceu.

— Onde estão os outros?

— Ficaram lá.

— Lá onde?

— Vem. Já verás. Fizemos uma descoberta.

— De que se trata, então?

— Já verás…

Intrigado, passei o comando a Smith e ocupei um lugar no carro. A savana era ondulada, entrecortada de bosques. Perto de um deles, errava uma manada de animais parecidos com os Golias, mas sem seus chifres. Depois de aproximadamente uma hora de caminhada, vi um dólmen de vários metros de altura, bem reto, e em cima dele, Jeans. Michel se deteve ao pé do dólmen. Descemos e, pelo outro lado, entramos em um abrigo sob a rocha.

— Que achas disto? — perguntou-me Michel.

Sobre a parede haviam sido gravada uma série de sinais; sinais que se pareciam curiosamente aos caracteres primitivos. Primeiro imaginei que se tratava de uma brincadeira, porém a pátina da pedra me convenceu logo do meu erro. Havia aproximadamente trezentos ou quatrocentos sinais.

— Há mais, Vem ver.

— Espera, vou pegar uma arma.

Seguimos adiante, metralhadora na mão. A duzentos metros, o solo descia. Perto de um vale silencioso, em cujo fundo se encontrava um amontoado de placas de metal e vigas torcidas, todas as quais apresentavam um aspecto geral fusiforme, Wilkins andava entre os destroços.

— Que é isto? Um avião?

— Talvez sim, Mas não é terrestre, estou certo!

Me aproximei e entrei no meio da confusão dos restos. A chapa descansava sobre a fina areia. Era de um metal amarelado, que não reconheci, mas que Wilkins assegurou que era uma liga de alumínio O engenheiro me deixou examinando as placas e dirigiu-se para próximo da ponta daquela confusão. Ouvimos uma exclamação; depois ele nos chamou. O estranho engenho tinha ali menos imperfeições, conservando sua forma de ponta de charuto.

Em um tabique intacto havia uma abertura. Reinava uma semi-obscuridade na cabine transcônica em que penetramos, e a princípio não pude ver nada além das silhuetas imprecisas dos meus companheiros. Depois que meus olhos se habituaram à penumbra eu distingui uma espécie de mesa de bordo, com uns sinais parecidos aos da inscrição, uns sinais metálicos e estreitos, uns cabos de cobre rotos e pendentes e, crispada em uma alavanca de metal branco, uma mão mumificada. Enorme, negra, ainda com músculos apesar do ressecamento, não tinha mais que quatro dedos dotados de garras que deviam ser retráteis. A mão estava cortada.

Por instinto, nos olhamos. Quanto tempo fazia que esta mão estava se mumificando nesta ilha perdida, em uma última manobra? Quem era aquele ser que havia pilotado aquele engenho? Provinha de outro planeta do sistema de Helios, de outra estrela ou, como nós, havia sido desalojado do seu próprio universo? Eram perguntas às quais até muito tempo depois não acharíamos mais que uma resposta incompleta.

Ficamos esquadrinhando até à noite entre os restos do aparelho. Nossos achados foram medíocres. Alguns objetos de metal, caixas vazias, fragmentos de instrumentos, um livro de páginas de alumínio, porém, por desgraça, sem nenhuma ilustração, e um martelo de forma muito terrestre. Atrás, onde deveriam estar os motores, blocos informes e enferrujados e um espesso tubo de chumbo, um fragmento de metal branco que, analisado em New-Washington, descobriu-se ser urânio Tiramos fotos e voltamos. Era esperado que nossos achados fossem escassos: alguns passageiros daquela máquina deviam ter sobrevivido, como provava a inscrição, e devem ter levado tudo que podia ser de utilidade. Não tínhamos tempo de pesquisar a ilha. Depois de havê-la batizado de «Ilha Mistério», partimos para a próxima ilha situada a Nordeste.

Desembarcamos com dificuldade e não pudemos passar o carro para a terra. A pequena parte que visitamos era árida, povoada unicamente de «víboras», salvo alguns «insetos». Entretanto, encontramos algumas ferramentas Sswis, em obsidiana.

Mais movimentada e frutífera resultou a exploração da ponta Sul do continente boreal.

Ao amanhecer chegamos a uma pequena enseada rodeada de altos penhascos, fantasticamente recortados. O desembarque do carro foi trabalhoso e o sol estava alto quando parti com Michel e Smith. Não sem dificuldades, chegamos até uma meseta que se estendia na direção Norte e Leste até perder-se de vista. Ao sul elevavam— se pequenas montanhas. Nos dirigimos para elas, através de uma savana marcada por pequenos bosques.

O lugar estava extremamente povoado de animais variados: Golias, elefantes e pequenos animais, isolados ou em rebanhos. A nossa passagem despertou um casal de Tigressauros que não nos atacou, afortunadamente, pois nossa camionete não teria resistido ao choque.

Às três da tarde, quando terminávamos de comer, apareceu à distância uma enorme manada. Aproximaram-se e reconhecemos os Sswis da raça grande e vermelha, a raça de Vzlik. Recordei que este último me havia dito, em repetidas ocasiões, que sua tribo provinha do Sul, e que poucas gerações antes eles haviam se separado do seu povo por razões que continuei ignorando. Este encontro nos incomodava, pois nos fechava o caminho para as montanhas e, se avançássemos, dado ao seu temperamento belicoso, a batalha seria inevitável. Mas talvez eles não nos tivessem visto, porque dobraram à esquerda e desapareceram no horizonte.

Rapidamente fizemos um conselho de guerra. Eu me inclinei pelo retorno imediato, pois nos havíamos afastado do Temerário e estávamos em um pais desconhecido.

Mas Michel e Smith eram de opinião em seguir adiante, e não regressar até o dia seguinte.

Então continuamos.

Perto das montanhas, às quatro, estávamos ante um penhasco que se levantava diante da cadeia montanhosa. A uns trinta metros de altura, pareceu-me ver umas colmeias. Quando chegamos mais perto, pudemos observar umas fortificações constituídas por torres espaçadas com uns vinte passos entre si, e de uma altura de dez metros. Ao pé do penhasco, numa faixa de cinco ou seis metros, não havia nem árvore nem arbusto. Os Sswis galopavam entre as torres. Pareciam muito agitados, e com os binóculos, vimos que apontavam com o dedo para nós. Duvidando, reduzi a marcha.

De repente, uma coisa comprida e negra saiu do alto de uma torre que estava em nossa frente. Sibilante, uma gigantesca lança, que devia pesar uns bons trinta quilos, cravou-se na terra a poucos passos de nós. Freei, e depois, recuperando meu sangue frio, retornei acelerando.

— Em zig zag! — gritou Michel.

Olhei para trás e pude ver uma duzia de dardos nos ares. Vibrando, cravaram-se no solo ao nosso redor, e eu, com um golpe de volante, tive que evitar uma. Nossa metralhadora funcionou. Smith estava em casa! Havia sido campeão de tiro na aviação americana. Michel me contou depois que em um abrir e fechar de olhos ele havia incendiado seis torreões. Não pude ver nada desta fase do combate. Estava agachado sobre o volante, com o pé no acelerador, incomodado com o piso irregular, a cabeça afundada entre os ombros e temendo a cada instante sentir uma lança cravarse nas minhas costas. Na realidade, faltou pouco para isto! Ao chegar às primeiras árvores que limitavam com a zona devastada, produziu-se às minhas costas um choque violento, um ruido metálico. Eu alterei o rumo com violência.

Quando, minutos depois, passei o volante para Michel, vi que uma lança havia atravessado o teto, passado entre as pernas de Smith e terminando sua corrida com a ponta afundada contra uma lata de boi assado, cravando-se contra o solo. A haste sobrepassava o teto em mais de dois metros. Sem nos determos, nós a serramos e pudemos examinar a ponta: era triangular, dentada, e de aço!

À noite fizemos uma curta parada, e caminhando, discutimos nossa aventura.

— É curioso — disse — que estes Sswis conheçam o metal, e que além disto seja uma aço de boa têmpera. Trata-se certamento do povo de onde provem a tribo de Vzlik, o que significa que poucas gerações atrás ainda estavam na idade da pedra.

Os Sswis são realmente muito inteligentes, porém me surpreende tal rapidez de progresso.

Michel refletia.

— Talvez isto tenha relação com nosso descobrimento da ilha.

— Pode ser, têm catapultas, ou melhor, balestras, que alcançam a mais de quinhentos metros.

— Em todo caso, — disse Smith, em inglês — ao menos destruímos seis torres.

— Sim, mas agora vamos. Este pais não é seguro!

Rodamos a noite toda. Neste planeta eu já tinha vivido outras noites agitadas, porém nenhuma como aquela! As três luas havia se levantado e toda a fauna deste mundo parecia haver-se reunido naquele local. Tivemos que abrir caminho através de manadas de elefantes, atraídos pelos faróis. Depois foi um tigressauro à espreita quem, salvo um positivo pânico que compartilhamos amplamente, escapou do nosso fogo sem danos aparentes. Três Golias nos abrigaram a mudar a rota e nossos pneus sofreram mordidas de víboras. Entretanto, antes do raiar do dia, vimos foguetes sendo lançados do Temerário, e na alvorada já estávamos a bordo.

V — O PERIGO

Uns dias mais tarde, chegamos à embocadura do Dordogne, sem mais contratempo que uma avaria nos motores, o que nos obrigou a navegar um dia inteiro a vela.

Avisados por Cobalt pelo radio, não nos surpreendemos em encontrar na confluência da Ilha, Martina, Louis e Vzlik, em uma barca a motor. Subiram a bordo e sua embarcação foi rebocada até Porto Leon. Fazia mais de um mês que estávamos fora. É inútil que se diga que estive contente de ver Martina novamente. Muitas vezes, no curso da viagem, pensei que não voltaríamos Louis me estendeu o texto da última radio mensagem recebida de New-Washington.

Eu a li com assombro e a passei aos americanos. Biraben a traduziu. Seu conteúdo podia resumir-se assim: New Washington afundava lentamente no mar e, se não se modificasse a regressão, no máximo dentro de seis meses a ilha teria desaparecido totalmente. O governador nos lançava então um S.O.S.

O Conselho reuniu-se na presença dos americanos.

Jeans tomou a palavras, em francês: — Em New Washington temos um cruzador francês, dois torpedeiros, um cargueiro e um pequeno petroleiro. Temos também dezesseis aviões em estado de voar, entre os quais há três helicópteros, mas em troca não nos resta combustível. Vocês poderiam vender-nos?

— Não se trata disto. — respondeu meu tio — Acudir em vosso socorro é um dever elementar. Porém o grande problema é o transporte. Como barco, não temos mais que o Temerário, que é muito pequeno.

— Ainda conservamos o casco do Conquistador, — eu disse — e especialmente as barcaças rebocáveis que poderiam facilmente ser transformadas em petroleiros. Que opinam vocês? — perguntei aos nosso engenheiros.

Estranges refletiu.

— Dez ou doze dias de trabalho para construir os depósitos. Outro tanto, no mínimo, para os dispositivos de segurança. No total, um mês. Dois depósitos de 10x3x2m, com uma capacidade para 122.000 litros. Metade gasolina e metade óleos pesados.

— Preferimos menos gasolina e mais óleos pesados.

— É possível. Qual a cifra exata da nossa reserva?

— Seis milhões de litros. — eu disse — Parei a exploração por falta de lugar para o armazenamento.

— Qual a distância de New-Washington a Porto-Leon?

— Uns 450 quilômetros.

— Sim, — disse — mas em alto mar podem ser mais.

— Se lhe confiarmos o Temerário e alguns dos nossos homens, poderia voce consegui-lo? Perguntou meu tio a Jean.

— Respondo por ele. Vosso pequeno navio é excelente.

— De acordo, então. Tentemos.

Um mês depois, o Temerário partiu com um reboque carregado com 145.000 litros de combustível.

Como Michel me contou mais tarde, a viagem não teve história. Não encontramos calamares, nem monstro algum. New-Washington estava situado sobre uma terra baixa, com duas colinas semeadas de casas.

Foram acolhidos por salvas dos canhões dos navios de guerra. Toda cidade, situada à beira mar, estava adornada. A banda de música do cruzador tocou o hino americano e depois a Marselhesa. Os oficiais observavam com assombro o pequeno Temerário, que deslisava pelo porto. Os óleos pesados passaram diretamente aos paióis do petroleiro argentino, o qual aparelhou no ato. A gasolina foi transportada por caminhão ao campo de aviação.

Michel foi recebido pelo presidente de New-Washington, Lincoln Donaldson, e depois a bordo do Surcouf, cujos oficiais e tripulantes ficaram encantados em poder saudar um pedaço da França.

Os cidadãos de New-Washington entregaram-se a um trabalho encarniçado, desmontando e abarrotando os navios com tudo que podia ser salvo.

Depois que regressou o Porfírio Dias e o cargueiro norueguês, o Surcouf e os torpedeiros partiram, carregados até o topo de material e homens.

Michel me avisou da saída pelo radio. Por minha parte, informei-o que havíamos obtido de Vzlik, grande chefe dos Sswis, desde a morte do seu sogro, a concessão aos americanos de um território que na realidade pertencia aos Sswis negros, mas sobre o qual sua tribo tinha certos direitos, e uma parte de outro que lhes pertencia de fato, compreendido entre o Dron e os Montes Desconhecidos. Para nós, havia obtido uma passagem ao largo do Dordogne até sua embocadura, perto da qual queríamos construir um porto, Porto do Oeste. Não estávamos inativos.

Havíamos construído umas casas para os americanos, perto das montanhas, na parte propriamente Sswis do seu território, justamente no outro lado do Dron, em frente de nossa fábrica de «Cromo»

Pouco tempo depois chegou o primeiro comboio. Foi anunciado pelo vigia da embocadura do Dron. Era o Surcouf e o cargueiro, demasiados grandes, que não puderam ir mais adiante e baixaram âncoras. Os torpedeiros subiram o Ille.

Os emigrantes foram a suas novas terras por meio de pequenas embarcações rebocadas.

No momento, decidiu-se que os americanos se contentariam com o território propriamente Sswis, deixando para mais tarde a conquista — pois uma conquista seria necessária — do setor Sslwip.

Michel regressou de avião pouco antes do sétimo e último comboio. A ilha estava quase totalmente submersa, mas «Nova América» contava já com uma cidade e sete povoados e iam começar as primeiras colheitas.

Nossa população incrementou-se com seiscentos homens do Surcouf, sessenta argentinos, que preferiram viver em um «pais latino», e uns cinquenta franco-canadenses, aos quais, embora a principio desagradasse nosso coletivismo, limitado por outra parte às instalações industriais, aperceberam-se logo que ninguém ou nada lhes impedia da prática da sua religião.

Os noruegueses em número de duzentos e cinquenta — quando houve o cataclismo, haviam recolhido os sobreviventes de um paquete de sua nacionalidade — estabeleceram— se, por petição sua, em um enclave do nosso território, perto da embocadura do Dordogne. Criaram ali um posto de pesca.

Na realidade a segregação nacional não foi absoluta, já que houve matrimônios internacionais.

Afortunadamente, entre os americanos as mulheres eram maioria, e muitos dos marinheiros do Surcouf já haviam se casado na velha New-Washington.

Um ano depois deste êxodo, quando acabava de nascer meu primeiro filho, Bernard, Michel se casou com uma linda norueguesa de dezoito anos, Inga Unset, filha do comandante do cargueiro.

Ajudamos os americanos a estabelecer suas fábricas. Em contrapartida, nos cederam a utilização de quatro aviões. Com um dos colegas americanos, encontrei em seu território, mas em país SSslwip, importantes depósitos de petróleo.

Cinco anos mais tarde teve lugar a fundação dos Estados Unidos de Tellus. Porém antes devo consignar a conquista do território SSslwip. E que nós estivemos a um passo da guerra com os americanos!

Foram os Sslwips que desencadearam a batalha.

Uma noite, uma centena deles surpreendeu um pequeno posto americano, destroçando dez ou doze homens que compunham a guarnição. Os dois homens restantes conseguiram escapar em um carro. Tão logo a notícia foi conhecida, dois aviões decolaram à caça dos assassinos. Foi impossível encontrá-los, pois os bosques cobriam imensas extensões e as planícies estavam desertas. Uma coluna ligeira, em missão de represália, sofreu grandes perdas sem resultados positivos. Então os americanos pediram ajuda a nós, já que tínhamos mais experiência, e aos nossos aliados os Sswis.

Foi a guerra mais estranha que se possa imaginar! Os americanos e nós, utilizando caminhões, com quatro ou cinco aviões voando sobre nossas cabeças,um helicóptero observador, e rodeados por seres de outro mundo, armados com arcos e flechas.

A campanha foi dura e tivemos nossas derrotas. Compreendendo rapidamente que em combate aberto teriam desvantagens, os Sslwips começaram a fustigar nossas fronteiras, a envenenar os poços e as fontes, a fazer incursões sobre a Nova América, em território Sswis e inclusive, através das montanhas, sobre a Nova França.

Foi em vão que os torpedeiros descobriram e bombardearam a dois povoados deles na costa, e os aviões destruíram outros povoados. Quando adentramos em território inimigo, além da futura fronteira da Nova América, os Sslwips acreditaram ser praticável o assalto definitivo. Ao amanhecer, um bando que superava os cinquenta mil Sslwips precipitou-se de todas as partes sobre o nosso campo. Imediatamente, Jeans, chefe da expedição, lançou uma chamada aos aviões, os quais decolaram de New-Washington e de Cobalt. A 1.000 quilômetros por hora, chegariam em pouco tempo. Mas poderíamos nos aguentar enquanto isto? A situação era crítica: éramos 500 americanos e 300 franceses, certamente bem armados, e 5.000 Sswis, contra 50.000 inimigos armados com arcos que alcançavam 400 metros. Era impossível aproveitar-se da mobilidade dos caminhões: o inimigo nos rodeava a trinta de fundo.

Dispusemos nossos veículos em círculo, exceto nosso velho caminhão blindado, e, com as metralhadoras a postos, aguardamos.

A seiscentos metros, abrimos fogo; foi um erro haver aguardado tanto, pois pouco faltou para sermos engolfados. Era em vão que nossas armas automáticas derrubavam os Sslwips como trigo maduro, em vão que os Sswis lançavam flecha após flecha.

Em pouco tempo tínhamos dez mortos e mais de oitenta feridos, e os Sswis tinham cem mortos e o dobro de feridos. A bravura dos Sslwips era maravilhosa, sua vitalidade fenomenal. Vi um que, com o ombro destroçado por um projétil de 20mm, correu até a morte e caiu a dois passos de um americano.

No terceiro assalto, chegaram os aviões. Não puderam intervir porque a confusão havia começado novamente. Nesta fase do combate, Michel recebeu uma flechada no braço direito e eu levei outra na perna esquerda.; entretanto eram feridas sem gravidade. Tão logo o inimigo foi rechaçado, os aviões entraram em combate com as metralhadoras, granadas e bombas. Foi a vitória. Colhidos a descoberto, os Sslwips debandaram. Nossos caminhões os perseguiram, enquanto Vzlik, à cabeça dos Sswis, batia e despedaçava os isolados. Houve ainda algumas ofensivas: à noite, encontramos um dos nossos caminhões com todos os ocupantes mortos, crivados de flechas. Aproveitando a noite, os sobreviventes escaparam. Tivemos então que lutar contra os trigressauros que foram atraídos pela carniça, e que nos causaram seis baixas.

Nossas perdas totais ascenderam a 22 mortos americanos, 12 franceses, 227 Sswis; e a 145 americanos, 87 franceses e 960 Sswis feridos. Os Sslwips deixaram um mínimo de vinte mil dos seus no campo de batalha.

Depois deste extermínio, os americanos construíram uma serie de fortins na sua fronteira, cuja defesa foi facilitada por uma falha escarpada do terreno, de mais de setecentos quilômetros, que ia do mar às montanhas.

Os anos seguintes transcorreram em silencioso trabalho. Vimos, com pena, que os americanos se isolavam cada dia mais dentro do seu território. Somente fazíamos visitas, salvo em casos individuais, — como o da tripulação do avião e nós — pra trocar matérias primas e produtos manufaturados. Os americanos começaram suas explorações minerais, menos ricas que as nossas, mas que bastavam amplamente para suas necessidades.

Muitos poucos de nós falavam inglês, e vice-versa. Os costumes eram distintos.

Nosso coletivismo, embora parcial, era-lhes suspeitoso, e tachavam nosso Conselho de ditatorial. Tinham também tenazes preconceitos contra os «nativos», preconceitos que de modo algum poderíamos compartilhar, já que duzentos pequenos Sswis frequentavam nossas escolas.

Em troca, mantínhamos excelentes relações com os noruegueses. Havíamos fornecido os materiais necessários para a construção de chalupas, e eles nos aprovisionavam em abundância com os produtos do mar. Algumas espécies terrestres haviam sobrevivido e se multiplicaram em proporções surpreendentes. Os peixes telurianos são excelentes.

O «período heroico» havia passado e, para cortar pela raiz a critica dos americanos, reorganizamos nossa constituição, mas ao estilo francês.

Decidiu-se que a Nova França se comporia de: 1) O Estado de Cobalt, de cinco mil habitantes, com Cobalt-City(800 hab.) por capital, e a cidade de Porto-Leon (324 hab.); 2) O território de Porto do Oeste, com uma capital do mesmo nome, de 600 habitantes; 3) O território dos poços de petróleo, onde não restavam mais que 50 homens; 4) O território das minas, sobre o Lago Mágico, com Bealieu (400 hab.) e Porto do Norte (60 hab.) Ou seja, no total, Nova Franca contava com 6.000 habitantes. Porto-Leon, Porto do Oeste e Bealieu tinham Conselhos Municipais O governo se compunha do Parlamento, eleito por sufrágio universal, composto por cinquenta membros, que tinha função legislativa, votava todas as decisões e nomeava aos ministros; e do Conselho inamovível, de sete membros, que a princípio foram: meu tio, Estranges, Beauvin, Louis, o Senhor cura e eu mesmo.

Este conselho tinha veto suspensivo de seis meses, como igualmente a iniciativa das leis. Em caso de urgência, e por uma maioria de dois terços, podia arrogar-se o poder, por um período renovável de seis meses.

Se constituíram três partidos políticos: o partido coletivista, cujo chefe foi Louis, e que teve vinte representantes; o partido camponês conservador, igualmente com vinte representantes; o partido liberal, sob a direção de Estranges com os dez representantes restantes e, de acordo com a boa tradição francesa, que outorga o governo à minoria, indicou os ministros.

Nossa mudança de forma de governo transformou totalmente nossa maneira de viver.

Se as fábricas e as máquinas, como também as minas e a frota, eram propriedades coletivas, a terra pertencia, como sempre, aos camponeses que a cultivavam.

Desenvolvemos nossa rede ferroviária e rodoviária.

Os americanos fizeram outro tanto. Tinham mais máquinas a vapor que nós, que, em troca, conseguimos construir potentes motores elétricos. A via mais extensa ia de Cobalt-City a Porto do Oeste, passando por Porto Leon.

Nossas relações com os americanos esfriaram ainda mais. O primeiro incidente foi com o destroier canadense, servido por uma maioria de franco-canadenses. Estes decidiram vir morar conosco e quiseram, como era lógico, levar o barco. Aquilo foi a origem de numerosas dificuldades. Finalmente, cedemos o armamento aos americanos, transformando o barco em um cargueiro rápido. O segundo ponto de fricção foi nossa negativa em explorar em comum os depósitos petrolíferos situados a pouca profundidade, em território Sswis, ao lado do Monte Tenebroso. Os americanos tinham petróleo, embora mais profundo, e nós sabíamos que os Sswis veriam com muito maus olhos aos americanos em suas terras. Porém em 5 de julho do ano nove da era teluriana, produziu-se o conflito.

Naquele dia, uma duzia de Sswis quiseram, usando a faculdade que era reconhecida pelo tratado, atravessar a ponda do setor Este da Nova América, situada em seu próprio território. Dirigiam-se ao nosso porto dos montes Beaulieu, para trocar produtos de caça por pontas de flecha de aço.

Penetraram, pois na Nova América e, quando já estavam à vista do nosso porto, na outra margem do alto Dron, foram detidos por três americanos armados com metralhadoras que os interpelaram brutalmente, ordenando-lhes que voltassem atrás, coisa perfeitamente absurda, pois estavam a cem metros, em linha reta, de Beaulieu, e a quinze quilômetros da fronteira em sentido inverso. Em francês, o chefe dos Sswis, Awithz, falou isso para eles. Furiosos, dispararam três rajadas, matando dois Sswis e ferindo a ouros dois, um deles Awithz, que foram feitos prisioneiros. Os demais atravessaram o Dron sob uma chuva de balas. Comunicaram o ocorrido ao chefe do nosso posto, Pierre Lefranc, o qual para ficar a par da situação, foi com eles até a margem. Uma rajada desde o outro lado matou outro Sswis e feriu Lefranc.

Fora de si, os homens do povoado responderam com uma dezena de granadas que demoliram e incendiaram uma granja do setor americano.

Quis a sorte que eu passasse por ali acompanhado de Michel instantes mais tarde.

Colocando Lefranc e os Sswis feridos no meu caminhão, corri para Cobalt. Ali me identifiquei rapidamente na residencia do Conselho, que convocou o Parlamento, que votou estado de urgência.

Lefranc, deitado em uma cama, fez sua declaração, corroborada pelos dois Sswis.

Estávamos em dúvida sobre que decisão tomar, quando nos chegou uma radio-mensagem da ponte dos Sswis sobre o Vecera. Do posto se ouviam com clareza os tambores de guerra e se observavam numerosas colunas de fumo em território Sswis.

Por um procedimento desconhecido, Vzlik já estava a par do ocorrido e reunia suas tribos. Não cabia, duvida ante tal circunstância, que as tribos confederadas marchariam com eles.

Conhecendo o caráter vingativo e absolutamente desapiedado de nossos aliados, pensei imediatamente nas granjas americanas existentes ao largo da fronteiras e no que poderia ocorrer dentro de poucas horas. Por helicóptero, mandei um mensageiro a Vzlik, rogando-lhe que esperasse um dia e, rodeado pelo Conselho, foi à emissora de radio entrar em contado com New-Washington.

Os acontecimentos se precipitaram. Quando chegamos, o encarregado da radio estendeu— me uma mensagem: O destroier americano bombardeava Porto do Oeste. O Temerário e o Surcouf respondiam. Para estarmos prontos para qualquer eventualidade, lançou-se uma ordem de mobilização. Os aviões deveriam estra prontos para decolar, com as armas carregadas e os tanques cheios.

Por radio, suplicamos ao governo americano suspender as hostilidades e aguardar a chegada de plenipotenciários. Eles aceitaram e nos inteiramos que o bombardeio do nosso porto havia cessado. Por outro lado o destroier estava fora danificado por uma granada tele-dirigida do Surcouf, que o havia alcançado na proa.

Michel, meu tio e eu partimos imediatamente num avião. Meia hora depois estávamos em New-Washington. A entrevista foi tumultuada a princípio. Os americanos adotaram uma arrogância tal que Michel teve que lembrá-los que sem nós, aquelas horas eles teriam sido presas dos monstros marinhos ou derivariam, mortos de fome, em seus navios sem combustível.

Finalmente foi designada uma comissão de investigação, composta por Jeans, Smith, meu tio, eu e o irmão de Vzlik.

Os americanos jogaram limpo e reconheceram os erros dos seus compatriotas. Os culpados foram condenados a dez anos de prisão. Os Sswis foram indenizados com 10.000 pontas de flecha.

Depois desses incidentes, coisa curiosa, as relações se distenderam.

Ao término do ano 10, eram bastantes boas para que pudéssemos promover a fundação dos Estados Unidos de Tellus.

Em 7 de janeiro do ano 11, uma conferência reuniu os representantes americanos, canadenses, argentinos, noruegueses e franceses. Adotou-se uma constituição federal.

Esta reconhecia ampla autonomia a cada estado, porém estabelecia uma governo federal, situado em uma cidade que foi fundada na confluência do Dron e do Dordogne, no ponto em que havíamos derrubado o primeiro tigressauro.

Foi «União». Duzentos quilômetros quadrados foram declarados terra federal. Foinos difícil fazer os americanos reconheceram e inviolabilidade presente e futura dos territórios Sswis. Finalmente, esta se limitou aos territórios dos nossos aliados atuais, os Sswis, por um prazo de cem anos.

As colônias que se fundariam no futuro seriam terras federais, até que sua população chegasse a 50.000 almas. Então adquiririam o status de estados, com liberdade de escolher suas constituições internas.

Em 25 de agosto do ano 12, o Parlamento Federal se reuniu pela primeira vez, e meu tio foi eleito presidente dos Estados Unidos de Tellus. A bandeira federal flutuou afinal, azul escuro, com cinco estrelas brancas, simbolizando os cinco estados federados: Nova América, Nova França, Argentina, Canadá de Tellus e Noruega.

As duas línguas oficiais foram o inglês e o francês. Não vou entrar em detalhes sobre as leis que foram votadas, pois ainda estão vigentes. O governo federal foi o único autorizado a possuir uma frota, um exército, uma força aérea e uma fábrica de armas.

Prevendo o futuro, reconhecemos sua autoridade, também, sobre a energia atômica que, um dia sem dúvida, chegaremos a possuir em Tellus.

VI — O CAMINHO TRAÇADO

Já transcorreram cinquenta anos! Tellus deu muitas voltas.

A presidência do meu tio durou sete anos e foi consagrada inteiramente à organização.

Ampliamos nossas vias férreas, pensando mais no futuro que no presente, pois nossa população total não chegava a vinte e cinco mil almas, mas que crescia rapidamente. Os recursos abundavam, as colheitas eram magníficas e as famílias foram numerosas.

Eu tive onze filhos, todos vivos. Michel teve oito. A média das famílias da primeira geração foi de seis filhos e de sete na segunda.

Contrariamente aos nosso temores, não houve novas epidemias. Comprovamos uma surpreendente elevação na altura humana. Em nossa velha Terra as estatísticas situavam a altura em uma média de 1,65m. Aproximadamente a média francesa.

Hoje, em Nova França esta alcança 1,78m. Em Nova América é de 1,82m. Na Noruega, 1,86m. Unicamente os argentinos e seus descendentes puros ficaram com o máximo de 1,71m.

Sob os presidentes seguintes, o americano Grawford e o norueguês Jansen, intensificamos especialmente nosso esforço sobre a industria. Tivemos uma fábrica de aviões, não somente capaz de construir os tipos correntes, mas também de estudar novos modelos. O engenheiro americano Stone realizou em Tellus uma ideia que tinha tido na Terra, e seu avião, o «Comet» bateu todos os recordes de altura.

Fomos também exploradores. Passei o resto da minha vida confeccionando mapas geológicos ou topográficos, sozinho ou com meus dois colegas americanos, e logo depois com a ajuda dos três maiores dos meus sete filhos varões: Bernard, Jaime e Martin. Voei sobre todo o planeta, naveguei por muitos oceanos, explorei ilhas e continentes.

As grandes descobertas! Porém com um material com que jamais poderiam sonhar Colombo ou Vasco da Gama. Suportei o calor de 60 graus no equador, gelei nos polos; combati Sswis vermelhos, negros ou amarelos, ou conclui alianças com eles; afrontei os calamares e as hidras, não sem um medo terrível. E Michel sempre me acompanhou e Martina me esperou, às vezes durante meses.

Mas não quero atribuir somente para mim a gloria de todos estes descobrimentos.

Teriam sido impossíveis sem a coragem e a inteligência dos marinheiros e aviadores que vieram comigo. Michel foi incomparavelmente precioso, e sem a dedicação da minha mulher não teria teria podido resistir à terrível febre dos pântanos que me botou de cama no retorno da minha terceira expedição. Martina me acompanhou três vezes, compartilhando sempre as moléstias e os perigos, sem lamentar-se por isto.

E eu não estava sozinho. A paixão pelos descobrimentos se havia apoderado de todos nós. Que dizer da façanha de Paul Bringer e Nataniel Hawthorne, que partiram de carro para o Sul, que deram a volta no velho continente, perdendo seu carro a mais de 7.000 quilômetros de Nova França, e que regressaram a pé, em meio a a Golias, tigressauros e indígenas hostis? E que dizer, igualmente, da aventura do capitão Unset, sogro de Michel, que com seu filho Eric e treze homens deu a volta ao mundo a bordo do Temerário, em sete meses e vinte dias?

Vinte anos depois da nossa primeira visita, voltei novamente, com Michel, à Ilha Mistério. Nada havia mudado. Unicamente a terra havia coberto um pouco a estranha inscrição. Entrando de novo na cabine onde se conservava a mão mumificada, vimos o rastro dos nossos passos, que haviam se mantido ao abrigo da intempérie.

No regresso visitamos a cidade das catapultas. Nesta ocasião levávamos conosco o filho de Vzlik, Ssiou, que pode entrar em contato com os Sswis vermelhos, que já conheciam o aço. O chefe nos mostrou os fornos rudimentares onde o fabricavam.

Consentiu em explicar-nos a lenda. Há mais de trezentos anos teluriano, três estranhos seres haviam chegado em uma barca «que andava sozinha» em uma praia situada ao Sul da cidade atual. Ao serem atacados, haviam se defendido «lançando fogo». Não «flechas pequenas que fazem bum», como as nossas, esclareceu o chefe, e sim longas chamas azuladas. Dias depois foram surpreendidos enquanto dormiam e foram capturados. Por um esquecido motivo, houve, sobre esta questão, uma violenta disputa na tribo e a metade dos Sswis vermelhos haviam partido para o Norte.

Deles descendiam as tribos de Vzlik.

Os estrangeiros haviam aprendido a língua e ensinaram aos Sswis sobre a fundição do metal. Por duas vezes eles haviam salvo a tribo, debilitada pelo ataque dos Sslwips, «lançando fogo». Pareciam aguardar alguma coisa proveniente do céu Depois morreram; não antes de ter escrito um longo livro que se conservava como um objeto sagrado na gruta do templo, com os objetos que lhes haviam pertencido.

Tentei fazer com que me descrevessem os estrangeiros. O chefe não pode fazê-lo, mas nos conduziu ao templo. Ali, um Sswis muito velho nos mostrou umas pinturas rupestres: umas silhuetas pintadas em negro, bípedes, com uma cabeça e um corpo análogo aos nossos, porém com uns braços tão compridos que quase chegavam ao solo, e um só olho muito bem desenhado, situado na metade frontal do rosto. Comparando— os aos Sswis representados ao seu lado, calculei sua altura em dois metros e meio.

Pedi para ver os objetos: guardavam três livros de metal, parecidos ao que havíamos encontrado na Ilha Mistério, algumas ferramentas mais compreensíveis e o resto das armas que «lançavam fogo». Tratava-se de três tubos de 70cm de comprimento, mais largos em uma extremidade, chapados em seu interior de platina. Da outra extremidade saía um filamente que devia conectar com uma parte desaparecida. Provavelmente, aqueles seres não tinham querido deixar nas mãos daqueles selvagens uma arma demasiadamente potente.

Por fim, vimos o livro feito de pergaminho, de uma espessura de umas quinhentas folhas, cobertas dos mesmos sinais que os do livro de metal. Ao lamentar-me de que ninguem jamais saberia o que continha, o velho Sswis afirmou que estava escrito em sua língua, e que ele sabia lê-lo. Depois de muita reticência, pegou o livro e, colocando— o provavelmente ao contrário, começou a recitar: «Tilir! Tilir! Àqueles que venham após, saudamos! Aguardamos até o final. Agora, dois já estão mortos. Nós jamais voltaremos a ver Tilir. Sede bons para com os Sswis, que tão bem não tem tratado…»

O velho calou-se — Eu não sei ler mais. — acrescentou.

Consegui fazê-lo confessar que aquelas linhas, aprendidas de memória, eram transmitidas de sacerdote para sacerdote, e que «Tilir» devia servir de contrassenha, caso outros compatriotas dos estrangeiros desembarcassem novamente em Tellus.

Reconheceu também que o livro era de dupla linguagem, uma parte escrita em linguá Sswis e, a partir da metade, na dos estrangeiros. Seja como for, isso significava uma preciosa chave para a decifração e, cuidadosamente, fiz uma cópia.

Muitas vezes tenho pensado nessas folhas enegrecidas de curiosos caracteres.

Muitas vezes releguei meu trabalho habitual para começar a traduzir com a ajuda de Vzlik. Definitivamente, não tive jamais tempo suficiente. Extraindo o significado, com dificuldade, de frases dispersas, só consegui aumentar minha curiosidade e não satisfazê— la. Trata de Tillir, de monstros, de catástrofes, de gelo e de terror…

Hoje o livro está em União, onde meu neto Enrique e Hol, o neto de Vzlik, um Sswis «humanizado», tentam traduzi-lo. Parece que os seres que o escreveram vieram do primeiro planeta exterior, que é o mais próximo do nosso, ao qual chamamos Ares, homologando-o ao antigo Marte do nosso sistema solar. Talvez eu ainda viva o suficiente para conhecer o enigma. Porém é preciso que se apressem.

Nós traçamos o caminho, porém sois vós que devereis segui-lo. Não resolvemos todos os problemas. Para dois deles, os mais importantes, nem mesmo foram esboçadas soluções.

O primeiro é o da co-habitação, em um mesmo planeta, de duas especies inteligentes.

Para este não há mais que três soluções: nosso extermínio, que evidentemente é o pior para nós; o extermínio dos Sswis — que não queremos a preço algum — ou sua aceitação como nosso iguais, o que implica na sua integração aos Estados Unidos de Tellus, o que os americanos não querem nem saber, no momento. Por mim o problema não existe. São iguais a nós, e talvez superiores, se tomarmos, por exemplo, a obra matemática de Hol, que poucos entre nós compreendem.

O segundo problema é a coexistência de outra espécie inteligente, caso voltem de Ares os desconhecidos da Ilha Mistério. Se regressarem a Tellus antes que tenhamos conseguido dominar o espaço, estaremos mais que satisfeitos em ter os Sswis como aliados!

EPÍLOGO

Isto é tudo. Terminei. Acabo de queimar meus cadernos.

Lá fora Helios brilha. Sol já se escondeu. Da minha casa, situada nas cercanias de Cobalt-City, posso ver os campos onde ondula o trigo ainda verde. Meu bisneto Jean chegou da escola. Um avião passa, tudo está tranquilo. Alguns Sswis passeiam pela rua e conversam, em francês, com nossos concidadãos. Cobalt-City conta com 25.000 habitantes.

Pela janela, vejo sobre o cimo do Monte Paris, o observatório onde meu tio teve a alegria de terminar seus estudos sobre Ares, com o grande telescópio que fomos buscar há mais de quarenta anos. Vejo passar a neta de Michel, Martina, loira, parecida mais que tudo com Martina. Ela e meu neto Claude…

Mas isto já é o futuro.

Vosso futuro, cidadãos dos Estados Unidos de Tellus…