/ Language: Portugal / Genre:sf

A Máquina do Tempo

Herbert Wells

Um cientista constrói a primeira máquina de viajar no Tempo e com ela percorre as diversas etapas da civilização humana, até chegar ao longínquo futuro, que ele supõe ser a Idade de Ouro da humanidade. O homem venceu a Natureza e o mundo inteiro é um jardim. O trabalho, as doenças, a guerra, a competição econômica e social parecem ter desaparecido. A nova raça vive exclusivamente para o amor e a diversão, ninguém envelhece. Mas como funciona essa sociedade? Quem a sustenta? De onde vêm os belos tecidos com que todos se vestem? E que são, ou quem são, esses animais noturnos que os habitantes do Mundo Superior tanto temem? Pouco a pouco, o Viajante do Tempo toma contato com a verdadeira realidade desse mundo do futuro, que de risonho e bucólico se converte num cenário de pesadelo. O encontro com a bela e frágil Weena vai transformar completamente sua visão do ano 802.701 da era cristã, e as duas flores que traz na volta provarão que essa espantosa viagem não foi apenas um sonho. A Máquina do Tempo, que consagrou H. G. Wells e lhe deu renome mundial, é considerado, juntamente com A Guerra dos Mundos, uma das pedras angulares da literatura de antecipação e da ficção científica. Obra ao mesmo tempo lírica e polêmica, inspirou numerosos livros nas mais diversas línguas. A tradução que apresentamos, de Fausto Cunha, sobre o texto integral e definitivo, foi feita especialmente para a Coleção Mundos da Ficção Científica.

Herbert George Wells

A Máquina do Tempo

CAPÍTULO 1

O Viajante do Tempo (como o chamaremos por uma questão de conveniência) expunha-nos um intrigante problema. Seus olhos cinzentos e brilhantes faiscavam e seu rosto, habitualmente pálido, se inflamava de animação. Na lareira as brasas ardiam vivamente e a luz suave das lâmpadas incandescentes no candelabro de lírios de prata refletia-se nas bolhazinhas que se formavam e desmanchavam dentro de nossos copos. As poltronas, cujo desenho era de nosso próprio anfitrião, envolviam-nos num abraço acariciante, em vez de apenas servirem de assento. Estávamos imersos nessa deliciosa atmosfera de depois do jantar, quando os pensamentos vagueiam preguiçosamente, libertos do rigor da precisão. O Viajante do Tempo, pontuando suas palavras com o dedo magro em riste, explicava-nos o caso, enquanto nós, recostados às nossas poltronas, admirávamos sua maneira apaixonada e engenhosa de desenvolver o que, então, nos parecia mais um de seus paradoxos.

— Prestem bem atenção. Vou contestar uma ou duas idéias que são universalmente aceitas. Assim, por exemplo, a geometria que nos ensinaram na escola e que é baseada numa concepção errônea.

— Não estaremos começando num nível muito alto? — perguntou Filby, um ruivo que gostava de discutir.

— Não me proponho a pedir-lhes que aceitem seja o que for sem um fundamento racional. Logo vocês estarão concordando comigo. Sabem, naturalmente, que uma linha matemática, uma linha de espessura zero, não tem existência real. Não lhes ensinaram isso? Da mesma forma, um plano matemático. Essas coisas são meras abstrações.

— Perfeitamente — disse o Psicólogo.

— Também um cubo, tendo apenas comprimento, largura e altura, não pode ter existência real.

— A isso oponho uma objeção — disse Filby. — Por certo que um corpo sólido pode existir. Todas as coisas reais. .

— É o que pensa a maioria das pessoas. Mas, espere um momento. Pode existir um cubo instantâneo?

— Não percebo — disse Filby.

— Pode ter existência real um cubo que não dure por nenhum espaço de tempo?

Filby ficou pensativo.

— Não há dúvida — continuou o Viajante do Tempo — que todo corpo real deve estender-se por quatro dimensões: deve ter Comprimento, Largura, Altura e… Duração. Mas, por uma natural imperfeição da carne, que logo lhes explicarei, somos inclinados a desprezar esse fato. Há realmente quatro dimensões, três das quais são chamadas os três planos do Espaço, e uma quarta, o Tempo. Existe, no entanto, uma tendência a estabelecer uma distinção irreal entre aquelas três dimensões e a última, porque acontece que nossa consciência se move descontinuamente numa só direção ao longo do Tempo, do princípio ao fim de nossas vidas.

— Isso — falou um rapaz que fazia enormes esforços para reacender seu charuto à chama de uma lâmpada — isso… de fato. . muito claro.

— Mas é surpreendente que uma coisa assim tão clara seja constantemente esquecida — continuou o Viajante do Tempo, com um laivo de bom humor na voz. — Realmente é isso o que significa a Quarta Dimensão, embora algumas pessoas quando falam na Quarta Dimensão não saibam o que estão dizendo. É apenas outra maneira de encarar o Tempo. Não existe diferença entre o Tempo e qualquer das três dimensões do Espaço, exceto que nossa consciência se move ao longo dele. Alguns tolos, porém, pegaram essa idéia pelo lado errado. Todos vocês, decerto, já escutaram o que eles vivem a dizer a respeito da Quarta Dimensão, não?

— Eu não — confessou o Prefeito Provincial.

— É muito simples. Esse Espaço, tal como o entendem os nossos matemáticos, é considerado como tendo três dimensões, que podemos chamar Comprimento, Largura e Altura, e é sempre definível em referência a três planos, cada um em ângulo reto com os outros. Mas alguns espíritos filosóficos têm indagado por que hão de ser necessariamente três dimensões — por que não mais uma direção em ângulo reto com as três outras — e experimentaram construir uma Geometria Quadridimensional. Faz pouco mais de um mês, o Professor Simon Newcomb fez uma exposição nesse sentido perante a Sociedade Matemática de Nova York. Sabemos como, sobre uma superfície plana, que tem apenas duas dimensões, podemos representar a figura de um sólido tridimensional. De igual forma, esses pensadores acham que, por meio de modelos de três dimensões, eles poderiam representar um de quatro — se conseguissem dominar a perspectiva da coisa. Compreenderam?

— Penso que sim — murmurou o Prefeito Provincial e, carregando o cenho, mergulhou num estado de meditação, movendo os lábios como se repetisse palavras místicas. — Sim, penso que agora compreendo — falou após algum tempo, e seu rosto se iluminou momentaneamente.

— Não vejo por que não lhes dizer que, de um certo tempo para cá, tenho trabalhado nessa geometria de Quatro Dimensões. Alguns de meus resultados são curiosos. Por exemplo: eis aqui o retrato de um homem aos oito anos, outro retrato aos quinze, outro aos dezessete, outro aos vinte e três, e assim por diante. Todos são evidentemente seções, vale dizer, representações tridimensionais dessa criatura quadridimensional, que é fixa e inalterável.

O Viajante do Tempo fez uma pausa, a fim de que os circunstantes pudessem assimilar o que ele dissera. Depois prosseguiu:

— Os homens de ciência sabem perfeitamente que o Tempo é apenas uma forma de Espaço. Eis aqui um diagrama que vocês todos conhecem, um registro meteorológico. Esta linha que eu sigo com o meu dedo mostra o movimento do barômetro. Ontem ele subiu até aqui, à noite baixou, hoje pela manhã voltou a subir, chegando aos poucos até aqui. Por certo que o mercúrio não traçou esta linha em nenhuma das dimensões do Espaço geralmente conhecidas, não é mesmo? Mas não resta dúvida de que traçou uma linha e essa linha, não há como deixar de concluir, foi traçada ao longo da Dimensão-Tempo.

— Mas — disse o Médico, olhando fixamente para uma brasa na lareira — se o Tempo é apenas uma quarta dimensão do Espaço, por que tem sido sempre e continua sendo considerado algo diferente? E por que não podemos deslocar-nos no Tempo como nos deslocamos nas outras dimensões do Espaço?

O Viajante do Tempo sorriu.

— Tem certeza de que nos podemos deslocar livremente no Espaço? Podemos andar com bastante liberdade da direita para a esquerda, para frente e para trás, e os homens sempre o fizeram. Admito que nos movemos livremente em duas dimensões. Mas, e para cima e para baixo? Aí a gravidade já nos impõe limites.

— Não exatamente — objetou o Médico. — Há os balões.

— Mas antes dos balões, e excetuados os curtos saltos em altura ou os pulos e quedas em conseqüência das desigualdades do terreno, nunca tivemos liberdade de movimento vertical.

— No entanto, podemos mover-nos um pouco para cima e para baixo — insistiu o Médico.

— Mais facilmente, muito mais facilmente para baixo do que para cima.

— E não podemos deslocar-nos de forma alguma no Tempo. Estamos confinados ao momento presente.

— Meu caro amigo, é justamente aí que você está errado. É justamente aí que o mundo inteiro tem estado errado. Estamos saindo a cada instante do momento presente. Nossa existência mental, que é imaterial e não tem dimensões, desloca-se ao longo da Dimensão-Tempo com uma velocidade uniforme, do berço ao túmulo. Da mesma forma que viajaríamos para baixo se começássemos nossa existência cinqüenta milhas acima da superfície da terra.

— Mas a grande dificuldade é a seguinte — interrompeu o Psicólogo. — Podemos mover-nos em todas as direções do Espaço, mas não podemos fazer o mesmo no Tempo.

— Esse é justamente o germe de minha grande descoberta. Mas você está equivocado ao dizer que não podemos deslocar-nos livremente no Tempo. Por exemplo, ao me lembrar vivida-mente de um incidente, volto ao momento em que ele ocorreu. Estou com o espírito ausente, como se costuma dizer. Dou um salto ao passado. Naturalmente, não temos condição alguma de permanecer no passado por qualquer extensão de Tempo, assim como um selvagem ou um quadrúpede não pode permanecer no ar dois metros acima do solo. Mas o homem civilizado dispõe de muito mais recursos que o selvagem, e pode desafiar as leis da gravitação num balão. E por que não pode ele esperar que um dia, finalmente, consiga parar ou acelerar seu curso ao longo da Dimensão-Tempo, ou mesmo virar-se e viajar na outra direção?

— Oh, não — começou Filby. — Isso é…

— Por quê?

— É contrário à razão.

— Que razão? — quis saber o Viajante do Tempo.

— Você pode encontrar argumentos para demonstrar que o branco é preto, mas não conseguirá convencer-me — disse Filby.

— Talvez não — disse o Viajante do Tempo. — Mas agora vocês começam a perceber o objetivo de minhas pesquisas utilizando a Geometria Quadridimensional. Desde longa data que tenho tido uma vaga idéia a respeito de uma máquina…

— … Para viajar através do Tempo! — exclamou o Rapaz.

— Que viajasse em qualquer direção do Espaço e do Tempo, como o seu operador determinasse.

Filby limitou-se a rir.

— Fiz uma experiência — disse o Viajante do Tempo.

— Uma máquina desse tipo seria excelente para um historiador — sugeriu o Psicólogo. — Poderia voltar ao passado e verificar se os relatos sobre a Batalha de Hastings são autênticos!

— Não acha que chamaria a atenção? — falou o Médico.

— Nossos antepassados não eram muito tolerantes com relação aos anacronismos.

— Poderíamos aprender o grego dos próprios lábios de Homero ou Platão — disse o Rapaz, sonhadoramente.

— Você certamente seria reprovado por eles logo de saída. Os helenistas alemães têm de tal modo aperfeiçoado o grego. .

— E que dizer do futuro? — devaneou o Rapaz. — Imaginem só! Coloca-se todo o dinheiro num investimento, deixa-se acumular os juros — e é só dar um salto à frente!

— Para encontrar uma sociedade — disse eu — erigida sobre princípios estritamente comunistas.

— Tudo teorias extravagantes e fantasiosas! — começou o Psicólogo.

— Era o que também me parecia, por isso nunca falei sobre o assunto, até que..

— Fez a experiência! — gritei. — Vai demonstrar isso?

— A experiência! — exclamou Filby, que já se mostrava fatigado.

— De qualquer forma, vamos a essa experiência — disse o Psicólogo —, embora todos saibamos que não passa de um truque.

O Viajante do Tempo correu os olhos em volta, sorrindo. Depois, sempre com um leve sorriso e as mãos enfiadas profundamente nos bolsos das calças, saiu da sala em passos vagarosos; ouvimos o ruído de suas chinelas ao longo do extenso corredor que levava ao laboratório.

O Psicólogo olhou para nós.

— Que será que ele vai fazer?

— Algum truque de prestidigitação ou algo no gênero — disse o Médico.

E Filby aproveitou para nos falar sobre um conjurado que ele vira em Burslem. Mas antes que acabasse o preâmbulo, o Viajante do Tempo voltou e a história de Filby ficou nesse ponto.

O objeto que o Viajante do Tempo trazia nas mãos era um reluzente mecanismo de metal, pouco maior do que um pequeno relógio de parede, e de delicada construção. Tinha partes de marfim e de alguma substância cristalina transparente.

Agora devo ser perfeitamente claro, pois o que se segue — a menos que se aceite a explicação do Viajante do Tempo — é algo absolutamente incrível. Ele apanhou uma das pequenas mesas octogonais espalhadas pela sala e colocou-a em frente da lareira, com dois pés sobre o pequeno tapete à beira desta. Sobre a mesinha pôs o mecanismo. Depois puxou uma poltrona e sentou-se.

Como único objeto sobre a mesa, além do modelo, e iluminando-o em cheio, havia uma lâmpada provida de abajur. Havia em torno cerca de uma dúzia de velas, duas em castiçais de bronze sobre o consolo da lareira e várias em candelabros de parede, de modo que toda a sala estava brilhantemente iluminada. Sentei-me numa poltrona baixa perto da lareira e puxei-a mais para a frente, de modo quase a ficar entre a lareira e o Viajante do Tempo. Filby sentou-se atrás dele, observando-o por cima do ombro. O Médico e o Prefeito Provincial o observavam de perfil pela direita, o Psicólogo pela esquerda. O Rapaz sentou-se atrás do Psicólogo. Estávamos todos bem alertas. Parece-me inadmissível que, nessas condições, pudéssemos ter sido vítimas de qualquer logro, por mais sutil e habilidoso que fosse.

O Viajante do Tempo fitou cada um de nós e depois se voltou para a máquina.

— E então? — perguntou o Psicólogo.

— Este pequeno objeto — começou o Viajante do Tempo, colocando os cotovelos sobre a mesa e juntando as mãos por cima do aparelho — é apenas um modelo. É o projeto de minha máquina de viajar pelo Tempo. Poderão notar que ela tem uma aparência muito singular e que esta barra aqui tem um brilho estranho, como se fosse algo irreal. — Enquanto falava, ia apontando com o dedo. — Vêem aqui uma pequena alavanca de cor branca, e outra aqui.

O Médico levantou-se e foi olhar o objeto de perto.

— É admiravelmente bem feito — disse.

— Foram necessários dois anos para construí-lo — disse o Viajante do Tempo. E, depois que nós todos, imitando o Médico, nos levantamos e fomos examinar o objeto detidamente, continuou: — Quero agora que os senhores compreendam claramente o seguinte: pressionando-se esta alavanca, a máquina é projetada no futuro; esta outra alavanca inverte o movimento. Esta pequena sela representa o assento do viajante do tempo. Vou pressionar a alavanca, e a máquina irá funcionar. Será projetada no futuro, e desaparecerá. Olhem bem para ela. Examinem também a mesa e certifiquem-se de que não há nenhum embuste. Não desejo desperdiçar este precioso modelo e depois ser chamado de impostor.

Houve um minuto de silêncio. O Psicólogo pareceu que ia falar, mas mudou de idéia. Então o Viajante do Tempo esticou os dedos em direção à alavanca.

— Não — disse de repente. — Dê-me sua mão.

E, voltando-se para o Psicólogo, tomou-lhe a mão e pediu-lhe que estendesse o indicador. De maneira que foi o próprio Psicólogo que pôs em marcha, para sua viagem interminável, o modelo da Máquina do Tempo. Todos nós vimos a alavanca se mover. Tenho absoluta certeza de que não houve trapaça. Ouviu-se um sopro, a chama da lâmpada sobre a mesinha pôs-se a dançar vivamente, uma das velas sobre a lareira apagou-se. De repente, a pequena máquina entrou a girar sobre si mesma, tornou-se indistinta, por um segundo talvez não foi mais que uma fantasmagoria, um brilhozinho turbilhonante de metal e marfim; e desapareceu. Sobre a mesinha restava apenas a lâmpada.

Todos ficaram em silêncio por um minuto. Então Filby soltou uma imprecação.

O Psicólogo voltou a si da estupefação e, de chofre, foi olhar debaixo da mesa. Diante disso o Viajante do Tempo não conteve uma breve gargalhada.

— E então? — perguntou no mesmo tom interrogativo que o Psicólogo usara pouco antes. Levantou-se, apanhou o pote de fumo sobre a lareira e, de costas para nós, começou a encher o cachimbo.

Nós nos entreolhamos, perplexos.

— Diga-me uma coisa — o Médico foi o primeiro a falar —, você está falando sério? Acha, com toda a sinceridade, que essa máquina está realmente viajando no Tempo?

— Sem dúvida! — disse o Viajante do Tempo, abaixando-se para apanhar um tição na lareira. Enquanto acendia o cachimbo, voltou-se e fitou o Psicólogo. (Este, para demonstrar que não estava perturbado, tirou um charuto e tentou acendê-lo sem cortar a ponta.) — E não é só isso — continuou, indicando o laboratório. — Tenho ali dentro uma grande máquina quase terminada. Quando estiver pronta, tenciono viajar eu próprio.

— Quer dizer que essa máquina se encontra agora no futuro? — perguntou Filby.

— No futuro ou no passado, não posso dizer ao certo.

— Se foi a algum lugar, deve ter ido para o passado — disse o Psicólogo, após uma pequena pausa, como se tivesse tido uma inspiração.

— Por quê? — indagou o Viajante do Tempo.

— Porque presumo que ela não se moveu no espaço e, se estivesse viajando para o futuro, ainda estaria aqui neste momento, porque necessariamente teria de cumprir o trajeto de agora.

— Mas — intervim — se estivesse viajando no passado, nós a teríamos visto quando entramos nesta sala. E na última quinta-feira, quando estivemos também aqui. E na quinta-feira anterior, e assim por diante.

— Objeções sérias — falou o Prefeito Provincial, com um ar de imparcialidade, voltando-se para o Viajante do Tempo.

— Nem um pouco — respondeu ele. E, voltando-se para o Psicólogo: — Você, que é um estudioso da mente, pode explicar muito bem. É uma percepção subliminar, uma percepção diluída.

— Naturalmente — concordou o Psicólogo, tranqüilizando-nos. — Trata-se de um ponto muito simples da psicologia. Eu devia ter pensado nisso. É bastante óbvio e explica satisfatoriamente o paradoxo. Não podemos ver nem apreciar essa máquina, da mesma forma que não distinguimos os raios de uma roda girando a toda velocidade ou uma bala no ar. Se ela estiver percorrendo o tempo cinqüenta ou cem vezes mais rápido do que nós, se ela cobrir um minuto enquanto nós cobrimos apenas um segundo, a impressão produzida será de 1/50 ou de 1/100 do que seria se ela estivesse aqui imóvel. É muito claro. — E passou a mão no lugar onde a máquina tinha estado. — Estão vendo? — perguntou, risonho.

Permanecemos sentados e, por alguns minutos, ficamos olhando para a mesa vazia. Então o Viajante do Tempo quis saber o que pensávamos de tudo aquilo.

— Agora à noite parece bastante plausível — disse o Médico. — Mas esperemos até amanhã. Pelo bom-senso que volta quando acordamos.

— Vocês querem ver a própria Máquina do Tempo?

E, sem mais, tomando uma lâmpada, ele nos conduziu pelo comprido corredor, cheio de correntes de ar, que ia ter ao laboratório. Lembro-me como se fosse agora da luz vacilante da lâmpada, de sua cabeça grande e estranha em silhueta, da dança das sombras, nós todos a segui-lo, intrigados mas incrédulos. No laboratório vimos uma versão muito maior do pequeno mecanismo que havia desaparecido diante de nossos olhos. Algumas peças eram de níquel, outras de marfim; uma parte devia ter sido trabalhada diretamente sobre cristal de rocha. A máquina parecia quase pronta, exceto as barras de cristal torcido que estavam por terminar sobre a bancada, ao lado de algumas folhas com desenhos. Apanhei uma das barras para examiná-la melhor. Pareceu-me ser feita de quartzo.

— Ouça aqui — perguntou o Médico. — Isto é mesmo sério, ou você quer fazer uma brincadeira conosco, igual àquela do fantasma que nos mostrou no Natal do ano passado?

— Com esta máquina — disse o Viajante do Tempo, erguendo a lâmpada para que víssemos melhor — pretendo explorar o Tempo. Não está claro? Nunca falei tão sério em minha vida.

Nenhum de nós sabia o que dizer.

Por cima do ombro do Médico captei o olhar de Filby, que piscou para mim com a maior gravidade.

CAPÍTULO 2

Penso que, nessa ocasião, nenhum de nós acreditou realmente na Máquina do Tempo. A verdade é que o Viajante do Tempo era uma dessas pessoas que são hábeis demais para merecer credibilidade. Nunca estávamos muito seguros a respeito dele. Sempre suspeitávamos de alguma sutil reserva, de alguma engenhosa burla, por trás de sua límpida franqueza. Se fosse Filby quem nos tivesse mostrado o modelo e explicado seu funcionamento com as mesmas palavras do Viajante do Tempo, teríamos demonstrado muito menos cepticismo. Porque teríamos percebido logo suas intenções: um açougueiro podia entender Filby. Tal não se dava com o Viajante do Tempo: havia mais do que um toque de fantasia no seu temperamento, e desconfiávamos dele. Coisas que teriam proporcionado fama a um indivíduo bem menos habilidoso, pareciam truques nas mãos dele. É um erro fazer as coisas muito facilmente. As pessoas circunspectas, ainda que o respeitassem, nunca se sentiam inteiramente seguras quanto à sua personalidade; de algum modo lhes parecia que confiar nele para estabelecer seus critérios de reputação seria o mesmo que colocar porcelana fina em mãos de crianças numa creche.

Acho ter sido por isso que, no intervalo entre essa quinta-feira e a que se seguiu, nenhum de nós fez maiores comentários sobre a questão das viagens no Tempo, embora mentalmente analisássemos todas as suas estranhas potencialidades, sua plausibilidade, isto é, tudo aquilo que na prática era difícil de crer, e ainda as curiosas possibilidades de anacronismo e de extrema confusão que elas comportavam.

Quanto a mim, não conseguia esquecer o truque do modelo da máquina. Lembro-me de haver discutido o assunto com o Médico, com quem me encontrei na sexta-feira na Linnean Society, (Associação científica britânica para o estudo da botânica, fundada em homenagem a Linneus.). Falou-me que havia visto algo em Tübingen e dava muita importância à vela apagada. Mas não sabia explicar como se fazia o truque.

Na quinta-feira seguinte voltei a Richmond — suponho que era então um dos convidados mais assíduos do Viajante do Tempo — e, tendo chegado tarde, já encontrei quatro ou cinco pessoas reunidas no salão. O Médico se encontrava diante da lareira com uma folha de papel na mão e seu relógio na outra. Corri os olhos em volta procurando o Viajante do Tempo.

— São sete e meia — disse o Médico. — Creio que seria melhor jantarmos,

— Onde se encontra. .? — indaguei, pronunciando o nome de nosso anfitrião.

— Você acaba de chegar, não? É bastante estranho. Algo deve tê-lo retido. Ele deixou-me este bilhete dizendo que, se não estivesse de volta até às sete horas, eu mandasse servir o jantar. Disse que explicará tudo quando chegar.

— É uma pena deixar-se estragar o jantar — disse o Redator-Chefe de um conhecido jornal.

O Doutor tocou a campainha.

Além dele e de mim, o Psicólogo era a única pessoa que havia estado presente ao jantar da semana anterior. Os demais eram Blank, o Redator-Chefe a que me referi, um certo jornalista e um senhor de barba, tímido e silencioso, a quem eu não conhecia e que, até onde pude observar, não pronunciou uma única palavra durante toda a noite.

A mesa de jantar, trocamos conjecturas sobre a ausência de nosso anfitrião e eu, meio em tom de brincadeira, aventei que ele devia estar viajando pelo tempo. O Redator-Chefe quis saber maiores detalhes e o Psicólogo se prontificou a fazê-lo, relatando de forma algo insípida o «engenhoso paradoxo e o espetáculo de ilusionismo» que havíamos presenciado. Estava ele era meio de sua exposição quando a porta que dava para o corredor se abriu devagar e sem ruído. Eu estava sentado bem em frente dela e fui o primeiro a vê-lo.

— Viva! — gritei. — Até que enfim!

A porta abriu-se de todo e o Viajante do Tempo surgiu diante de nós. Não pude conter um grito de surpresa.

— Deus do céu! Homem, o que foi que aconteceu? — Era a voz espantada do Médico, o segundo a avistá-lo.

Todos na mesa se voltaram para a porta.

Seu aspecto era constrangedor. O casaco estava empoeirado e sujo, com manchas esverdeadas nas mangas. O cabelo em desalinho parecia-me mais grisalho — ou por causa da poeira ou porque realmente sua cor tivesse mudado. Seu rosto era de uma palidez cadavérica, no queixo havia um corte já meio cicatrizado. Tinha um ar desvairado, os traços repuxados pareciam trair um grande sofrimento. Hesitou por um momento no vão da porta, como se estivesse ofuscado pela claridade reinante na sala. Depois entrou coxeando, como esses mendigos que têm os pés em petição de miséria. Nós o fitávamos em silêncio, esperando que ele falasse.

Sem dizer uma palavra, aproximou-se penosamente da mesa e fez um gesto para alcançar a garrafa de vinho. O Redator-Chefe encheu uma taça de champanha e lhe ofereceu. Ele a esvaziou de um trago. A bebida pareceu fazer-lhe bem, porque ele circunvagou o olhar pela mesa e a sombra de seu costumeiro sorriso bailou-lhe no rosto.

— Mas por onde é que andou você, homem de Deus? — gritou de novo o Médico.

O Viajante do Tempo não pareceu tê-lo ouvido.

— Fiquem à vontade, não quero perturbá-los — falou, articulando com dificuldade as palavras. — Estou bem.

Deteve-se e estendeu a taça para que a enchessem de novo, e esvaziou-a de uma só vez.

— Isso faz bem — disse.

Seus olhos se tornaram mais brilhantes e um leve rubor subiu-lhe às faces. Relanceou os olhos sobre nós numa espécie de muda aprovação e em seguida se pôs a andar pela sala quente e confortável. Depois voltou a falar, ainda como se tivesse dificuldade cm encontrar as palavras.

— Vou lavar-me e mudar de roupa, depois descerei para lhes dar as explicações.. Deixem para mim um pouco desse carneiro. Estou quase a morrer de fome.

Deu-se conta da presença do Redator-Chefe, que era um conviva muito raro, e cumprimentou-o. O Redator-Chefe esboçou uma pergunta.

— Daqui a pouco eu lhe responderei — disse o Viajante do Tempo. — Sinto-me um pouco. . esquisito. Mas estarei bem num minuto.

Depositou a taça na mesa e encaminhou-se para a porta da escada. Notei mais uma vez que ele coxeava e que, ao andar, fazia um ruído abafado. Do lugar onde me encontrava pude ver os seus pés: estavam descalços, não tinham senão as meias rasgadas e sujas de sangue. A porta se fechou por trás dele. Por um instante pensei em segui-lo, mas logo me lembrei de que ele detestava ingerências na sua vida privada. Meu espírito se pôs a vaguear. «Estranho Comportamento de um Cientista Famoso» — ouvi a voz do Redator-Chefe, pronunciando as palavras como se ditasse um título de matéria em caixa alta. E isso fez voltar minha atenção para a brilhante mesa de jantar.

— Que brincadeira é esta? — perguntou o Jornalista. — Será que lhe deu na veneta bancar o vendedor ambulante? Não entendo.

O olhar do Psicólogo cruzou-se com o meu e no seu rosto li minha própria interpretação. Pensei no Viajante do Tempo a subir penosamente a escada com os pés descalços e machucados. Penso que ninguém mais tinha percebido que ele estava mancando.

O primeiro a se refazer totalmente da surpresa foi o Médico, que tocou a campainha para que trouxessem os pratos quentes (pois o dono da casa não tolerava a presença dos criados durante o jantar). Com um resmungo, o Redator-Chefe voltou ao garfo e à faca, e o Homem Silencioso imitou-o. Recomeçamos a jantar. Durante algum tempo a conversação limitou-se a uma troca de exclamações entremeadas de arquejos de satisfação gustativa, mas logo o Redator-Chefe mostrou que ardia de curiosidade.

— Acaso o nosso amigo incrementa sua modesta receita como lixeiro? Ou sofre transformações como Nabucodonosor? — perguntou.

— Estou certo de que se trata dessa história da Máquina do Tempo — disse eu, retomando o relato de nossa reunião anterior, do ponto onde o Psicólogo o deixara. Os novos convivas mostravam-se francamente incrédulos. O Redator-Chefe opunha objeções. Afinal, que viagem no Tempo era essa? Pode uma pessoa ficar coberta de poeira simplesmente ao dar voltas dentro de um paradoxo? E mal lhe ocorreu a idéia, enveredou pela caricatura. Não haveria escovas de roupa no Futuro? Também o Jornalista não acreditava de forma alguma e juntou-se ao Redator-Chefe na fácil tarefa de ridicularizar o caso. Ambos pertenciam à nova geração de jornalistas, rapazes alegres e irreverentes.

— «Nosso Correspondente Especial no Dia Depois de Amanhã» — estava o Jornalista dizendo ou, melhor, gritando, quando o Viajante do Tempo reapareceu. Envergava agora um traje de noite completo, e nada mais, salvo o olhar ainda esgazeado, lembrava o homem cujo aspecto, poucos momentos antes, tanto me assustara.

— Nossos amigos aqui — falou o Redator-Chefe, rindo — me disseram que você esteve viajando em meio da semana que vem!! Vai contar-nos o que descobriu? Quanto quer pelo artigo?

O Viajante do Tempo foi sentar-se, sem dizer uma palavra, no lugar que lhe era reservado. Sorria mansamente, à sua maneira habitual.

— Onde está o meu carneiro? Que prazer, poder enterrar de novo o garfo num pedaço de carne!

— História! — gritou o Redator-Chefe.

— Que se dane! — retrucou o Viajante do Tempo. — Agora quero comer alguma coisa. E não direi uma palavra enquanto não introduzir um pouco de peptona em minhas artérias. Obrigado. O sal, por favor.

— Uma palavra só — pedi. — Esteve viajando no Tempo?

— Sim — respondeu ele, com a boca cheia, sacudindo a cabeça.

— Pago um shilling por linha pela transcrição literal — disse o Redator-Chefe.

O Viajante do Tempo empurrou seu copo na direção do Homem Silencioso e tamborilou com a unha no cristal. O Homem Silencioso, que o olhava fixamente, despertou num sobressalto e serviu-lhe o vinho.

O resto do jantar transcorreu num ambiente de mal-estar geral. De minha parte, sucessivas perguntas me afloravam aos lábios e estou certo de que o mesmo acontecia com os demais. O Jornalista tentou aliviar a tensão contando anedotas. O Viajante do Tempo concentrava toda a sua atenção no jantar e parecia estar com uma fome insaciável. O Médico fumava um cigarro e observava o Viajante do Tempo com os olhos semicerrados. O Homem Silencioso parecia mais desajeitado do que nunca, e bebia champanha com a regularidade e determinação do puro nervosismo. Finalmente, o Viajante do Tempo empurrou o prato da sua frente e nos abarcou com o seu olhar.

— Acho que lhes devo um pedido de desculpas — falou.

— Mas a verdade é que eu estava simplesmente à beira da inanição. Passei por uns maus bocados. — Apanhou um charuto e cortou a ponta. — Mas venham para a sala de fumar. É uma história muito longa para ser contada por cima destes pratos.

E, tocando a campainha de passagem, levou-nos ao outro aposento.

— Você falou a Blanck, Dash e Chose sobre a máquina?

— perguntou, dirigindo-se a mim e recostando-se confortavelmente em sua poltrona. Esses eram os nomes dos três novos convidados.

— Mas tudo é um simples paradoxo! — argüiu o Redator-Chefe.

— Não estou em condições de discutir esta noite. Posso contar-lhes a história, mas discutir, não. Caso vocês queiram, conto-lhes o que me aconteceu, mas com a condição de não me interromperem. Preciso contar. Desesperadamente. Uma grande parte vai parecer mentira. Pouco importa! Tudo é pura verdade, nos menores detalhes. Estava eu no meu laboratório às quatro horas e desde então… vivi oito dias… dias como nenhum ser humano viveu antes! Estou morto de cansaço, mas não dormirei enquanto não tiver contado tudo a vocês. Depois irei repousar. Porém, nada de interrupções! Combinado?

— Combinado — disse o Redator-Chefe, e nós lhe fizemos coro.

Então o Viajante do Tempo começou a contar sua história, tal como buscarei reproduzir. De início ele afundou em sua poltrona e pôs-se a falar como um homem fatigado. Depois, foi-se animando.

Ao escrever isto, sinto agudamente como a pena e a tinta são insuficientes para exprimir a essência, e dou-me conta, mais ainda, de minhas próprias limitações. Creio que você, leitor, lê com bastante atenção. Mas não pode ver o rosto pálido, cheio de sinceridade, do Viajante do Tempo, iluminado pela pequena lâmpada. Nem ouvir as inflexões de sua voz. Você não pode imaginar como a expressão de seu rosto acompanhava as peripécias da narrativa! Quase todos dentre nós que o escutávamos estávamos na penumbra, pois as velas na sala de fumar não tinham sido acesas; só o rosto do Jornalista e as pernas do Homem Silencioso, dos joelhos para baixo, estavam no círculo de luz. A princípio trocávamos olhares uns com os outros. Mas não tardou que deixássemos de fazê-lo e, totalmente absorvidos, só fitássemos o rosto do Viajante do Tempo.

CAPÍTULO 3

Na última quinta-feira, expus a alguns de vocês os princípios da Máquina do Tempo e mostrei-a, ainda incompleta, na oficina. Lá está ela agora, na verdade um pouco maltratada pela viagem; uma das barras de marfim está rachada, uma travessa de metal entortou, mas o resto se acha em perfeito estado. Esperava terminá-la na sexta-feira, mas nesse dia, quando concluía a montagem, percebi que uma das barras de níquel estava mais curta exatamente uma polegada, e tive de refazê-la, de modo que a máquina só ficou pronta esta manhã. Foi às dez horas da manhã de hoje que a primeira das Máquinas do Tempo iniciou sua carreira.

Dei uma última revisada, apertei mais uma vez todos os parafusos, deitei mais uma gota de óleo na peça de quartzo e instalei-me sobre o assento. Suponho que um suicida, quando encosta a pistola na fronte, deve sentir a mesma sensação de curiosidade que eu experimentei, sobre o que viria logo depois. Segurei a alavanca de partida com uma das mãos e a de parada com a outra, acionei a primeira e, quase imediatamente, a segunda. Senti uma vertigem, uma sensação de queda, como num pesadelo e, olhando em torno, vi o laboratório exatamente como era antes. Teria acontecido alguma coisa? Por um instante suspeitei que meu intelecto me houvesse enganado. Então olhei para o relógio na parede. Um momento antes, segundo me parecera, ele marcava um minuto ou dois depois das dez; agora eram quase três e meia).

Inspirei profundamente, cerrei os dentes, segurei a alavanca de partida com as duas mãos e arranquei de um só golpe. O laboratório ficou nebuloso, depois escureceu. Minha criada, Sra. Watchers, entrou e dirigiu-se, como se não me estivesse vendo, para a porta do jardim. Penso que levou pelo menos um minuto para atravessar a sala, mas a mim pareceu que ela passara como um foguete. Empurrei a alavanca até o fim. A noite baixou com a rapidez com que se apaga uma lâmpada e um instante depois era o dia seguinte. O laboratório foi ficando cada vez mais enevoado e indistinto. Veio a noite do dia seguinte, depois foi de novo dia, de novo noite, de novo dia, numa sucessão cada vez mais célere. Um rumor como de um torvelinho enchia-me os ouvidos e sobre meu cérebro desceu uma estranha confusão.

Receio não me ser possível exprimir em palavras as singulares sensações de uma viagem pelo Tempo. Posso garantir que são extremamente desagradáveis. É como se estivéssemos numa montanha-russa, caindo desamparadamente de cabeça para baixo! Experimentava, também, a mesma horrível sensação antecipada de um choque iminente, esmagador. Quando regulei a marcha, os dias e as noites se sucediam como o bater de uma asa negra. Fui perdendo a noção do laboratório, que acabou sumindo de minha visão. O sol atravessava o céu como de um salto, de minuto a minuto, cada minuto correspondendo a um dia. Acho que o laboratório foi destruído, pois de repente me vi ao ar livre. Tinha a esquisita impressão de estar subindo por andaimes, mas a essa altura minha velocidade era tal que eu perdera a consciência das coisas em movimento. A mais vagarosa das lesmas me parecia um relâmpago. A cintilante sucessão de claro e escuro me doía demais na vista. Nessas trevas intermitentes, vi então a lua passar velozmente por todas as suas fases, da lua cheia à lua nova, e tive um rápido vislumbre das estrelas em volta. Pouco depois, à medida que eu avançava, ganhando cada vez mais velocidade, a palpitação dos dias e das noites fundiu-se num cinza contínuo. O céu tomou um belo azul profundo, uma esplêndida luminosidade como a das primeiras horas da manhã. O sol transformou-se numa risca de fogo, um arco fulgurante no espaço; a lua, uma fita flutuante, mais apagada, fá não distinguia estrela alguma, salvo um círculo mais brilhante a lucilar de vez em quando no azul do firmamento.

A paisagem era brumosa e vaga. Eu me encontrava ainda na encosta do morro sobre a qual se acha construída esta casa, mas o terreno por trás de mim se elevava como uma sombra difusa. Via as árvores crescerem e mudarem como exalações de vapor, ora pardas, ora verdes; cresciam, desenvolviam-se, desmanchavam-se, sumiam. Imensos edifícios, majestosos em suas formas imprecisas, erguiam-se e dissipavam-se, como sonhos. Toda a superfície da terra parecia ter mudado — liquefazia-se e fluía ante meus olhos. Os pequenos ponteiros do painel que registravam minha velocidade giravam cada vez mais depressa. Em breve notei que o sol — sua risca luminosa — passava de um solstício a outro em apenas um minuto; conseqüentemente, eu viajava a mais de um ano por minuto. E de minuto a minuto a neve branca recobria todo o solo e se desvanecia, substituída pelo breve e brilhante verdor da primavera.

As desagradáveis sensações do início eram agora menos agudas. Por fim, acabaram se confundindo com uma espécie de ex-citação histérica. Notei que a máquina oscilava de forma estranha; sem que eu pudesse encontrar uma explicação. Tinha, porém, a mente demasiado confusa para que pudesse dar maior atenção ao problema; tomado de uma espécie de loucura crescente, eu me precipitava como um bólide no futuro.

A princípio, não pensei muito em parar, entregue quase que inteiramente às novas sensações da viagem. Mas logo uma nova série de pensamentos começou a formar-se em meu espírito — uma certa curiosidade, e, portanto, um certo temor — até que por fim, me dominaram completamente. Que extraordinários progressos da humanidade, que maravilhosos avanços sobre nossa civilização rudimentar não iriam surgir diante de meus olhos, quando eu parasse para ver de perto esse mundo difuso e fugitivo que corria e flutuava à minha frente! Via erguerem-se em torno de mim edifícios de uma soberba arquitetura, portentosos como nenhum outro em nossa época, e no entanto parecendo feitos de névoa e lampejo. Pelas encostas do morro subia uma vegetação mais rica e ali permanecia sem as alternâncias do inverno. Mesmo através do véu de minha confusão mental, a terra parecia muito bela. E então comecei a concentrar-me no problema da parada.

O risco principal residia na possibilidade de encontrar alguma coisa sólida no espaço que eu, ou a máquina, ocupávamos. Enquanto eu estivesse viajando através do Tempo a uma alta velocidade, essa hipótese não me preocupava muito. Eu estava, por assim dizer, volatilizado — passava como um vapor através dos interstícios das substâncias interpostas! Mas ao parar eu estaria me projetando, molécula por molécula, dentro do que quer que se encontrasse em meu caminho; significava que meus átomos entrariam em tão estreito contato com os do obstáculo, que poderia seguir-se uma profunda reação química — talvez uma explosão em grande escala — lançando-nos, a mim e a máquina, para fora de todas as dimensões possíveis. . para o Desconhecido. Essa possibilidade me ocorrera freqüentemente quando eu estava construindo a máquina, mas então eu a admitia, com tranqüilidade, como um risco inevitável — um desses riscos que temos de correr! Agora o risco era iminente e eu não mais podia encará-lo com displicência.

O fato é que, insensivelmente, a absoluta estranheza de tudo aquilo, a trepidação e o balanço enjoativo da máquina e, mais que tudo, a sensação de queda prolongada haviam acabado com os meus nervos. Dizia para mim mesmo que era impossível parar e, num acesso de irritação, resolvi dar uma parada instantânea. Com a impaciência de um louco, puxei a alavanca até o fim. Incontinenti, a máquina começou a rodopiar e fui atirado no ar de cabeça para baixo.

Senti nos ouvidos como que o estrondo de um trovão. Penso que por um momento fiquei atordoado. Um granizo impiedoso sibilava em torno de mim. Vi-me sentado na relva macia, diante da máquina caída. Tudo ainda me parecia cinzento, mas a pressão nos ouvidos tinha cessado. Olhei em volta. Estava, ao que tudo indicava, num pequeno relvado dentro de um jardim, cercado de touceiras de rododendros, cujas flores, sob a violência do granizo, se desfaziam numa chuva de pétalas purpúreas. As pedrinhas de gelo saltavam e revoluteavam sobre a máquina como uma nuvem e escorriam para o solo desfeitas em fumaça. Num instante fiquei encharcado até os ossos. «Bela maneira de receber», disse eu, «um homem que atravessou não sei quantos anos para vê-lo».

Logo me dei conta de que não fazia sentido ficar ali exposto às intempéries. Pus-me de pé e olhei em torno. Para além dos rododendros, em meio às brumas do temporal, entrevia-se uma figura gigantesca, talhada de algum tipo de pedra branca. Todo o resto, porém, estava invisível.

Não sei como descrever minhas sensações. Quando a tempestade de granizo amainou, pude ver melhor a figura branca. Era de fato colossal, pois a copa de uma bétula mal lhe chegava aos ombros. Feita de mármore branco, representava algo como uma esfinge alada, porém as asas, em vez de caírem verticalmente dos lados, estavam estendidas, como se ela pairasse no ar. O pedestal parecia de bronze e estava coberto de azinhavre. Por acaso a Esfinge tinha o rosto voltado para mim, e seus olhos cegos pareciam fitar-me. Bailava nos seus lábios um vago sorriso. Estava grandemente danificada pelas intempéries, e daquele estrago vinha a desagradável impressão de que fora corroída por uma doença. Fiquei a contemplá-la por alguns instantes — talvez meio minuto, ou, quem sabe, meia hora. Ela parecia aproximar-se ou recuar, conforme a cortina de granizo diante dela se fazia mais densa ou mais tênue. Por fim, desviei meus olhos da estátua por um momento, e vi que o temporal estava cedendo e o céu principiava a clarear, com promessa de sol.

Volvi de novo os olhos para a Esfinge Branca e, de súbito, apercebi-me da enorme temeridade de minha viagem. Que iria aparecer quando a cortina de névoa se dissipasse por completo? Quem sabe o que teria acontecido aos homens? Que fazer se a crueldade se tivesse tornado uma paixão coletiva? Se, nesse intervalo, nossa raça tivesse perdido sua própria humanidade, transformada em algo não-humano, sem qualquer sentimento e imensamente poderosa? Eu poderia parecer-lhes um animal selvagem do velho mundo, tanto mais hediondo e repugnante quanto maior fosse a nossa semelhança física — uma criatura monstruosa que se devia matar imediatamente.

A essa altura já começava a lobrigar outras construções de grande porte, imensos edifícios com intrincados parapeitos e altas colunas. Pela encosta da colina um denso arvoredo parecia descer sobre mim, com seus contornos ainda imprecisos através da tempestade que serenava.

Um terror pavoroso se apossou de mim. Corri freneticamente para a Máquina do Tempo e tentei revirá-la. Enquanto me entregava a esses esforços, os raios de sol romperam através das nuvens tempestuosas. A chuva de granizo cessou de todo e, como as vestes arrastadas de um fantasma, todos os seus sinais desapareceram. Por sobre mim desdobrava-se agora um imenso céu azul de verão, onde alguns escuros restos de nuvens aos poucos se dissipavam. Os grandes edifícios que me cercavam apareciam agora claros e distintos, brilhando com a umidade deixada pelo aguaceiro e realçados em sua alvura pelos montículos de granizo ainda não derretido que se acumulavam ao longo deles. Senti-me nu em um mundo estranho. Senti talvez o mesmo que sente um pássaro quando voa no espaço aberto e vê um gavião pairando por cima dele, pronto para atacá-lo. Meu medo virou um frenesi. Tomei uma respiração profunda, apertei os dentes, e ataquei a máquina ferozmente com braços e pernas, a fim de recolocá-la em posição. Cedendo aos meus esforços desesperados, ela acabou ficando de pé. Na revirada, atingiu-me violentamente no queixo. Uma das mãos no assento, a outra na alavanca de partida, fiquei ali arquejando pesadamente, pronto a voltar à máquina.

Mas, com a certeza de que a retirada estava garantida, minha coragem retornou. Pus-me a olhar com mais curiosidade e menos temor para esse mundo do futuro remoto. Numa janela circular no alto do prédio mais próximo se encontrava um grupo de figuras vestidas ricamente. Tinham-me visto, pois seus rostos estavam voltados na minha direção.

Então ouvi vozes se aproximando. Por entre as touceiras de arbustos que cercavam a Esfinge Branca apareceram as cabeças e os ombros de homens correndo. Um deles emergiu no atalho que conduzia diretamente ao local onde eu me encontrava com a máquina. Era uma criatura franzina — devia ter um metro e vinte de altura — e vestia uma túnica de cor púrpura presa à cintura por um cinto de couro. Usava sandálias ou borzeguins (não pude distinguir claramente). As pernas estavam nuas dos joelhos para baixo e tinha a cabeça descoberta. Ao observá-lo, notei pela primeira vez como a temperatura estava quente.

O aspecto dessa criatura impressionou-me: era muito bela e graciosa, mas extraordinariamente frágil. Suas faces coradas me fizeram lembrar a beleza dos tísicos, de que tanto se ouve falar. Ao vê-lo, subitamente recuperei a confiança e tirei as mãos da máquina.

CAPÍTULO 4

Um momento depois estávamos frente a frente, eu e esse delicado ser egresso do futuro. Ele dirigiu-se a mim sem hesitação e pôs-se a rir, fitando-me nos olhos. Sua ausência de qualquer temor me chamou logo a atenção. Ele depois se voltou para dois outros que o seguiam e falou para eles numa língua estranha, suave e melodiosa.

Outros foram chegando e em breve me vi cercado de um pequeno grupo de oito ou dez dessas criaturas singulares. Uma delas me dirigiu a palavra. Coisa bastante estranha: ocorreu-me naquele momento que minha voz devia soar muito áspera e profunda para eles. Então sacudi a cabeça e, apontando para os meus ouvidos, repeti o gesto. O que me falara deu um passo a frente, hesitou e em seguida tocou na minha mão. Logo comecei a sentir leves apalpadelas nas costas e nos ombros. Queriam certificar-se de que eu era real. Não achei nada de alarmante em tudo isso. Na verdade, havia algo nas maneiras dessas criaturinhas graciosas que inspirava confiança — uma delicadeza natural, uma espontaneidade infantil. E, além disso, eles pareciam tão frágeis que não duvidava ser capaz de derrubá-los a todos com um único movimento, como no jogo de boliche. Mas eu tive de me mexer rapidamente, para adverti-los, quando os vi alisarem, com suas mãozinhas róseas, a Máquina do Tempo. Felizmente percebi ainda cedo um perigo que até então havia esquecido; fui até o aparelho, desaparafusei as pequenas alavancas que o punham em movimento e guardei-as no bolso. Depois voltei para ver o que podia fazer a fim de comunicar-me com aqueles seres.

Examinando-lhes os rostos de mais perto, descobri novas particularidades naquela sua beleza de porcelana de Saxe. Seus cabelos, uniformemente cacheados, iam só até o pescoço. Os rostos eram glabros, sem o mínimo vestígio de pêlo. As orelhas eram singularmente miúdas, as bocas pequenas e vermelhas, de lábios finos, os queixos estreitos terminados em ponta. Tinham olhos grandes e doces; e — o que pode parecer egoísmo de minha parte —, pareceu-me que lhes faltava aquela centelha de interesse que eu esperava encontrar neles.

Como não faziam nenhum esforço para se comunicarem comigo e se limitavam a me rodear, sorrindo e falando entre si numa voz cantante, procurei iniciar a conversação. Apontei para a Máquina do Tempo e para mim. Depois, hesitando por um momento sobre como lhes transmitir a noção de tempo, apontei para o sol. Imediatamente, uma figurinha graciosa, com um vestido de xadrez branco e púrpura, repetiu o meu gesto e, para meu assombro, imitou o ruído do trovão.

Fiquei estupefato, embora o sentido daquele gesto fosse bem claro. Abruptamente, uma dúvida se me formou no espírito: seriam loucas essas criaturas? Vocês não podem imaginar como essa idéia me abalou. Sempre acreditei que no século 800 e pouco a humanidade estaria infinitamente à nossa frente em conhecimentos científicos, artes e tudo o mais. De repente, uma criatura dessa época me fazia uma pergunta que a colocava no nível de uma criança nossa de cinco anos. Na verdade, ela me perguntara se eu tinha vindo do sol numa trovoada! Isso punha por terra o juízo que eu fizera a respeito deles, baseando-me nos seus trajes, na sua compleição franzina e nas suas feições delicadas. Fui invadido por uma onda de desapontamento. Por um momento pensei que havia construído a Máquina do Tempo em vão.

Fiz que sim com a cabeça, apontei de novo para o sol e imitei o ribombar do trovão com tal força que eles se assustaram. Recuaram alguns passos e fizeram-me uma reverência. Um deles se aproximou com uma guirlanda de flores magníficas e inteiramente desconhecidas para mim, e passou-a em volta de meu pescoço. O gesto foi recebido com melodiosos aplausos. Logo puseram-se a correr para aqui e para lá em busca de flores, que atiravam, rindo, sobre mim, de modo que em pouco fiquei literalmente sepultado. Vocês que não estavam lá para ver, dificilmente podem imaginar as flores delicadas e maravilhosas que séculos e séculos de cultivo haviam produzido.

Um deles propôs que a brincadeira fosse apresentada no edifício mais próximo, e conduziram-me em direção a um enorme prédio cinzento de pedra lavrada, por trás da Esfinge de mármore branco, que durante todo aquele tempo parecera estar a observar-me, com um sorriso irônico diante de minha perplexidade. Enquanto os acompanhava, divertia-me interiormente com a lembrança de minhas confiantes previsões sobre a posteridade, que a meu ver seria profundamente austera e intelectualizada.

O edifício tinha uma entrada imensa e era, todo ele, de proporções colossais. Eu estava, naturalmente, muito ocupado em observar a crescente multidão daqueles pequenos seres e os enormes portais que se escancaravam diante de mim, escuros e misteriosos. Minha impressão geral daquele mundo que me cercava era de uma profusão de arbustos e flores admiráveis, um jardim de há muito abandonado mas não invadido pelo mato. Esparsas aqui e ali, em meio aos arbustos, como se fossem plantas silvestres, brotava um certo número de estranhas flores brancas, de largas pétalas de cera, dispostas em compridos cachos. Não pude examiná-las melhor. A Máquina do Tempo ficou abandonada sobre a relva, entre os rododendros.

O arco da entrada era ricamente trabalhado, mas, é lógico, não pude examinar os relevos de mais perto; pareceram-me no estilo dos antigos ornamentos fenícios e fiquei impressionado com o seu mau estado de conservação. À entrada, várias outras pessoas, também vestidas esplendidamente, vieram ao meu encontro. E assim fui entrando, em meus trajes pesados do século 19, que deviam parecer bastante grotescos, um garrido festão em torno do pescoço, e cercado por aquela multidão torvelinhante de vestes coloridas, de braços e pernas alvos, numa algazarra de risos e vozes pipilantes.

O grande portal abria-se para um imenso salão cujas paredes eram forradas de um tecido escuro. Não havia luzes no teto, e as janelas, em parte com vidraças coloridas, em parte sem vidraças, deixavam coar uma luz suave. O piso era feito de enormes blocos de um metal branco e duro; sim, de blocos, e não de chapas ou de placas, e estava tão gasto pelos passos de inúmeras gerações que os trechos mais pisados pareciam pequenas valas. Transversalmente ao comprimento da sala, viam-se inúmeras mesas talhadas em blocos de pedra polida, de uns trinta centímetros de altura, sobre as quais se encontravam montes de frutas. Algumas eu reconheci como sendo framboesas e laranjas hipertrofiadas, mas na sua maior parte me eram desconhecidas. Espalhado entre as mesas havia um grande número de almofadas. Sobre elas se sentaram meus guias, fazendo-me sinais para que eu os imitasse. Com uma deliciosa ausência de cerimônia, começaram a comer as frutas com as mãos, jogando as cascas, os caroços e o bagaço pelas aberturas redondas nos lados das mesas. Não me fiz de rogado para seguir-lhes o exemplo, pois estava com muita fome e sede. Enquanto comia, pude contemplar o salão mais detidamente.

Talvez o que mais me impressionou foi o seu aspecto de abandono e destruição. As janelas de vidraças coloridas, com desenhos geométricos, estavam quebradas em vários lugares. As cortinas que pendiam no fundo do salão achavam-se cobertas de pó. A própria mesa de mármore em que eu estava, apresentava as bordas partidas. Nada obstante, o efeito geral era de opulência e pitoresco. Havia cerca de duzentas pessoas comendo ali, e a maioria, sentada tão perto de mim quanto o espaço permitia, observa-me com interesse, os olhinhos brilhando por cima das frutas que devoravam. Todos estavam vestidos com o mesmo tecido de seda, leve mas resistente.

Sua alimentação constituía-se unicamente de frutas. Essa gente do futuro remoto era rigorosamente vegetariana e eu próprio, enquanto estive com eles, apesar de sentir falta de carne, fui obrigado a ser também frutívoro. Mais tarde descobri que os cavalos, o gado, os carneiros e os cães estavam tão extintos quanto o Ichthyosaurus. Mas as frutas eram deliciosas, particularmente uma delas, que parecia estar na época — uma espécie de pinha farinhenta que acabei transformando em meu alimento predileto. A princípio fiquei intrigado com todas essas frutas e flores diferentes, mas depois descobri o que significavam.

Acho que lhes estou falando demais sobre o meu jantar de frutas nesse futuro distante. Tão logo satisfiz um pouco o meu apetite, decidi-me a tentar aprender a língua dos meus novos companheiros. Era decerto a primeira coisa a fazer. As frutas me pareciam bem adequadas para iniciar a tentativa de comunicação. Mostrando-lhes uma delas, fiz uma série de ruídos e gestos interrogativos. Não foi fácil dar-lhes a entender a minha intenção. Os primeiros resultados foram olhares de surpresa ou cascatas intermináveis de risos, mas ao fim de algum tempo uma criaturinha de lindos cabelos percebeu meu intuito e pronunciou um nome. Tanto bastou para que eles se pusessem a tagarelar uns com os outros por longo espaço de tempo, es minhas primeiras tentativas para imitar os delicados sons de sua linguagem provocaram novos acessos de risos. Eu me sentia como um mestre-escola entre crianças. Continuei insistindo e em pouco estava sabendo umas quinze ou vinte palavras. Dos substantivos passei aos pronomes demonstrativos e ao verbo «comer». Era um trabalho lento. Ficaram logo cansados e procuraram subtrair-se às minhas perguntas. Achei que era melhor aprender em pequenas doses e quando eles estivessem dispostos a isso. E foram doses realmente diminutas, pois jamais encontrei um povo tão indolente e que se fatigasse tão depressa.

CAPÍTULO 5

Logo descobri uma coisa esquisita a respeito dos meus pequenos hospedeiros: sua falta de interesse por tudo. Corriam para mim sofregamente, entre gritos de surpresa, como crianças, e, como crianças, logo paravam de me examinar e se afastavam, à cata de outro divertimento. Quando o jantar e minhas tentativas de conversação terminaram, notei pela primeira vez que quase todos os que me haviam rodeado de início tinham ido embora. E foi igualmente estranha a rapidez com que me tornei indiferente à presença deles.

Tendo satisfeito minha fome, saí para o ar livre e a luz do sol. Encontrava incessantemente novos grupos desses viventes do futuro, que me seguiam a pequena distância, tagarelavam e riam à minha custa, me sorriam e me faziam sinais amistosos, depois me deixavam em paz, entregue às minhas reflexões.

Quando saí do grande edifício, a calma da tarde estendia-se pela terra e a paisagem era iluminada pelos raios cálidos do sol poente. A princípio as coisas me pareciam muito confusas. Tudo era tão diferente do mundo que eu havia deixado — até mesmo as flores. O edifício estava situado no declive do vale de um rio largo, mas o Tâmisa se deslocara talvez uma milha do seu leito atual. Resolvi subir ao cume de uma colina aproximadamente a milha e meia de distância, e dali deitar um olhar mais extenso por sobre este nosso planeta do Ano da Graça de Oitocentos e Dois Mil Setecentos e Um. Pois essa, como jâ devia ter informado, era a data marcada pelos mostradores de minha máquina.

Enquanto caminhava, permanecia atento a toda e qualquer impressão que pudesse ajudar-me a explicar por que aquele mundo de esplendor tombava em ruínas. Pois só encontrava ruínas.

A meio da encosta da colina, por exemplo, divisei um grande amontoado de granito, conservado unido por destroços de alumínio, um vasto labirinto de paredes desabadas e montes de entulhos, no meio dos quais se erguiam espessas touceiras de uma planta muito bonita, que pela disposição das folhas lembrava um pagode chinês — talvez urtiga, mas de um colorido mais vivo e sem os pêlos urticantes. Eram certamente os escombros abandonados de uma vasta construção, cuja finalidade eu não conseguia imaginar. Esse lugar me reservaria mais tarde uma experiência muito estranha — primeiro sinal de uma descoberta ainda mais estranha, porém, disso, falarei no momento oportuno.

Com um pensamento súbito, do terraço onde eu parará a fim de repousar um pouco, corri os olhos em torno e não avistei nenhuma espécie de habitação particular. Ao que tudo indicava, a casa de família e talvez mesmo a família não existiam mais. Aqui e ali, em meio à vegetação, viam-se edifícios apalacetados, mas a habitação isolada e a casa de campo, que dão uma feição tão característica à nossa paisagem inglesa, haviam desaparecido.

«Comunismo», falei para mim mesmo.

Atrás desse pensamento veio outro. Olhei a meia dúzia de figurinhas que ainda me seguiam. Então, num lampejo, percebi que todas se vestiam da mesma forma, tinham o mesmo rosto imberbe e delicado, as mesmas formas redondas de meninas. Pode parecer inconcebível que eu não tivesse notado isso antes. Mas tudo era tão diferente! Agora eu percebia as coisas com a maior clareza. No trajar, e em todas as características e maneiras que hoje distinguem os dois sexos, essas criaturas do futuro eram exatamente iguais. As crianças, por sua vez, pareciam-me simples miniaturas de seus pais. Disso concluí que as crianças dessa época futura eram extremamente precoces, pelo menos fisicamente, e mais tarde encontrei provas abundantes dessa opinião.

O bem-estar e a segurança em que vivia essa gente faziam certamente esperar, pensei, que os dois sexos acabassem se parecendo tanto; pois a robustez do homem e a delicadeza da mulher, a instituição da família e a diferenciação de ocupações são meras exigências de uma era de força física. Quando a população é numerosa e equilibrada, um elevado índice de nascimentos é antes um mal do que uma bênção para o Estado; quando a violência é rara e a prole está segura, há menos necessidade — na verdade, não há necessidade alguma — de uma família organizada como tal, e a especialização dos sexos com referência às necessidades dos filhos termina por desaparecer. Disso já encontramos alguns indícios em nossa própria época, e no futuro esse quadro social estará completo. Devo lembrar a vocês que essa era a especulação que eu fazia naquela hora. Porque mais tarde iria descobrir como estava longe da realidade.

Enquanto meditava sobre essas coisas, minha atenção foi despertada por uma pequena e graciosa construção, que me pareceu um poço sob uma cúpula. Pensei, um pouco distraidamente, como era esquisito ainda existirem poços, e retomei o fio de minhas especulações. Não havia grandes construções na parte superior da colina. Seguia andando aceleradamente, como se tivesse milagrosos poderes locomotores, e não tardei a verme sozinho pela primeira vez. Tomado de uma estranha sensação de liberdade e aventura, subi correndo ao topo da colina.

Ali encontrei um assento feito de um metal amarelo que eu não identifiquei, corroído por uma espécie de ferrugem cor-de-rosa, e já meio coberto por uma camada de musgo; os descansos dos braços lembravam cabeças de grifos. Sentei-me e pus-me a contemplar o nosso velho mundo sob o crepúsculo desse longo dia. Foi um dos mais belos e doces espetáculos que eu vi. O sol já havia transposto a linha do horizonte, o ocidente era ouro flamejante, com algumas barras horizontais de púrpura e carmesim. Lá embaixo estava o vale do Tâmisa, pelo qual o rio se estirava como uma lâmina de aço polido. Já me referi aos grandes palácios que pontilhavam a vegetação variegada, alguns completamente em ruínas, outros ainda ocupados. Aqui e ali elevava-se um vulto branco ou prateado no abandonado jardim da terra, aqui e ali a cortante linha vertical de algum mirante ou obelisco. Não se viam cercas nem quaisquer sinais de propriedade, ou de cultivo de cereais. Toda a terra se tornara um único jardim.

Olhando tudo isso, comecei a basear minha interpretação nas coisas que havia visto. Mais tarde percebi que só havia encontrado metade da verdade ou, menos até, o vislumbre de uma de suas facetas. Mas, naquele dia foi assim que as coisas foram por mim interpretadas.

Pareceu-me que eu me deparava com a humanidade em uma época de declínio. O crepúsculo avermelhado fez-me pensar no crepúsculo da raça humana. Pela primeira vez comecei a compreender uma estranha conseqüência dos esforços sociais em que hoje estamos empenhados. E, nada obstante, era uma conseqüência bastante lógica. O vigor é o produto da necessidade; a segurança é um convite ao enfraquecimento. A obra de melhoria das condições de vida — o verdadeiro processo civilizatório que torna a existência cada vez mais segura — havia prosseguido firmemente e atingido o seu clímax. A humanidade unida havia acumulado uma sucessão de triunfos sobre a Natureza. Coisas que hoje não passam de sonhos haviam-se transformado em projetos palpáveis e executados na sua plenitude. E o resultado era o que eu estava vendo!

Afinal de contas, as condições sanitárias e a agricultura de hoje estão ainda numa fase rudimentar. A ciência de nosso tempo atacou apenas uma faixa insignificante no campo das doenças humanas, mas ainda assim ela continua a desenvolver-se com firmeza e obstinação. A agricultura e a horticultura destroem uma erva daninha aqui e ali, e cultivam tão-só uma vintena de plantas úteis, deixando que a grande maioria dos vegetais lute como puder para encontrar o equilíbrio natural. Aperfeiçoamos nossas plantas e animais favoritos — e como são poucos! — gradativamente, praticando a criação e o cultivo seletivos: hoje um pêssego melhor, uma uva sem caroço, amanhã uma variedade de flor mais bela e mais perfumada, ou uma espécie de gado mais produtivo. Esse aperfeiçoamento é desenvolvido aos poucos, porque nossos conhecimentos são limitados e não sabemos ao certo o que desejamos. Por sua vez, a Natureza mostra-se tímida e lenta em nossas mãos inábeis. Algum dia, tudo isso estará mais bem organizado; e cada vez mais. Essa é a direção da corrente, apesar dos redemoinhos. O mundo inteiro será instruído, inteligente e cooperativo. A Natureza será subjugada numa progressão cada vez mais veloz. Por fim. reajustaremos o equilíbrio da vida animal e vegetal para que se adapte às necessidades humanas.

Esse equilíbrio deve ter sido atingido e de maneira perfeita, no espaço de tempo coberto por minha máquina. O ar estava livre de mosquitos; a terra, de ervas daninhas e de fungos; por toda a parte, árvores frutíferas e flores maravilhosas; borboletas de asas brilhantes adejavam. A medicina preventiva havia chegado ao seu estágio ideal. As doenças haviam sido erradicadas. Durante minha estada, não vi qualquer indício de moléstias contagiosas. E mais tarde lhes mostrarei que mesmo os processos de putrefação e decomposição haviam sido profundamente afetados por essas mudanças.

Tinham-se obtido, também, triunfos sociais. Eu via a humanidade alojada em magníficos prédios, luxuosamente vestida, e não havia encontrado ninguém entregue ao duro trabalho braçal. Não havia sinal de luta, nem social nem econômica. As lojas, os anúncios, o tráfego, todo esse comércio que constitui a estrutura de nosso mundo, não existiam mais. Era natural que, nessa tarde dourada, eu admitisse facilmente a idéia de que me encontrava num paraíso social. O próprio crescimento da população, julgava eu, tinha sido estabilizado.

Mas, com a mudança, vem inevitavelmente a adaptação à mudança. A menos que a ciência biológica seja um amontoado de erros, qual é a razão da inteligência e do vigor humanos? A luta pela vida e a liberdade: condições sob as quais os ativos, os fortes e os astutos sobrevivem, enquanto os fracos sucumbem; condições que estimulam a aliança leal dos capazes, o autodomínio, a paciência, a determinação. E a instituição da família, e as emoções que dela resultam, o ciúme desvairado, a ternura para com a prole, a dedicação dos pais, tudo isso encontra sua justificativa e sustentáculo nos perigos que ameaçam os filhos. Mas, e quando não existem esses perigos? Surge e cresce um novo sentimento, oposto ao ciúme conjugai, oposto à maternidade feroz, oposto às paixões de qualquer natureza, Essas coisas se tornam desnecessárias, pois só serviriam para complicar a vida, resquícios bárbaros e incômodos numa existência agradável e refinada.

Pensei na delicadeza física das pessoas, na sua falta de inteligência, naquelas imensas ruínas por toda parte, e isso fortaleceu minha crença de que a Natureza havia sido inteiramente conquistada. Pois depois da batalha vem o repouso. A humanidade havia sido forte, enérgica, inteligente, e havia usado toda a sua transbordante vitalidade em alterar as condições do meio em que vivia. E agora vinha a reação que essa alteração provocara.

Sob as novas condições de absoluto conforto e segurança, essa energia incansável, que hoje é nossa força, ficou debilitada. Mesmo na época de hoje, certas tendências e desejos, que outrora foram indispensáveis à sobrevivência, são uma fonte constante de frustrações. A coragem física e o gosto dos combates, por exemplo, de nada servem para o homem civilizado — muito pelo contrário, podem ser um estorvo. Num estado de equilíbrio físico e de segurança, o poder, tanto intelectual como físico, estaria deslocado. E imaginei que essa gente do futuro tinha conhecido um incontável número de anos sem perigo de guerra ou de violência individual, nem ameaças de animais ferozes ou de epidemias, que exigissem robustez física e trabalhos pesados. Para tal gênero de vida, aqueles que chamamos de fracos se acham tão bem aparelhados como os fortes — na verdade, deixam de ser fracos. Estão, diria eu, até mais preparados, pois os fortes seriam vítimas de seu próprio excesso de energia desaproveitada. Sem dúvida que a requintada beleza dos edifícios que eu vira havia sido uma das últimas canalizações da energia da humanidade, antes que esta entrasse em perfeita harmonia com as condições ambientes. O esplendor desse triunfo, que foi o princípio da última e grande paz. Esse tem sido sempre o destino da energia em segurança: volta-se para a arte e o erotismo, e depois vêm a apatia e a decadência.

Mesmo esse impulso artístico acaba por morrer — e estava quase morto no Tempo que eu visitei. Enfeitar-se de flores, cantar, dançar ao sol, era tudo quanto restava das manifestações artísticas. Mesmo isso haveria de ceder um dia a uma inatividade satisfeita. A mó do sofrimento e da necessidade nos obriga a permanecer ativos — e me parecia que, naquele futuro distante, essa odiosa mó havia sido finalmente despedaçada! Sentado ali em meio às trevas que baixavam, eu pensava ter, com essa simples explicação, desvendado o enigma do mundo, esclarecendo todo o mistério daquela gente deliciosa. Era possível que os meios por eles usados para evitar o aumento da população tivessem sido eficientes demais, e seu número diminuíra em vez de permanecer apenas estacionado. Isso explicaria as ruínas abandonadas. Era uma explicação muito simples, e bastante plausível — como afinal o são quase todas as teorias erradas!

CAPÍTULO 6

Enquanto eu me entregava a essas reflexões sobre o triunfo demasiado perfeito do homem, a lua cheia, amarela e encurvada, apontava ao nordeste em meio a um lago de luz prateada. Lá embaixo, os pequeninos seres deixaram de agitar-se, uma coruja voejou silenciosamente, e eu comecei a tremer com o frio da noite. Resolvi descer e procurar um lugar onde pudesse dormir.

Procurei com os olhos o edifício que eu já conhecia. Depois o meu olhar passeou pelas cercanias até a estátua da Esfinge Branca sobre seu pedestal de bronze, que se destacava cada vez mais à medida que a luz do luar se tomava mais brilhante. Podia ver também a bétula branca ao seu lado. E o emaranhado de rododendros, escuros sob a luz pálida, e o pequeno relvado. Olhei para este mais uma vez. Um frio me desceu pela espinha, pondo fim à minha serenidade.

«Não», disse comigo mesmo, obstinadamente, «o relvado não era esse».

Mas era esse. Pois a face branca e leprosa da Esfinge estava voltada para ele. Podem vocês calcular o que senti quando adquiri plena convicção do que sucedera? Não, não podem.

A Máquina do Tempo havia sumido!

Instantaneamente, como se tivesse recebido uma chicotada no rosto, ocorreu-me a possibilidade de perder minha própria época, de ficar abandonado nesse novo mundo. Este simples pensamento me acutilou como uma verdadeira dor física. Senti um aperto na garganta e a respiração sufocada. Um momento depois vi-me presa do terror e corri desabaladamente, descendo a colina aos saltos. Levei um tombo violento, caindo ao comprido, c fiz este ferimento no rosto. Não parei para estancar o sangue. Continuei a correr e a saltar, sentindo na face e no queixo um fio quente a escorrer do corte.

Durante todo esse tempo, eu ia falando para mim mesmo: «Eles a afastaram um pouco do lugar e a esconderam sob os arbustos». Mas continuava a correr com todas as minhas forças. Porque durante esse tempo todo, com a certeza que às vezes acompanha um terror excessivo, eu sabia que essa afirmação era uma loucura, sabia instintivamente que a máquina havia sido carregada para fora de meu alcance. Minha respiração era difícil. Penso que cobri a distância entre o topo da colina e o pequeno relvado — duas milhas, talvez — em dez minutos. E não sou mais nenhum jovem. Aos berros eu amaldiçoava minha irrefletida confiança ao largar a máquina, e com isso perdia ainda mais o fôlego; gritava e ninguém me respondia. Ninguém parecia mover-se naquele mundo iluminado pela luz da lua.

Quando cheguei ao relvado, meus piores receios se confirmaram. Não havia o menor vestígio da máquina. Senti-me gelado por dentro, como se fosse desfalecer, ao ver aquele espaço vazio. Pus-me a correr furiosamente em volta, como se a máquina pudesse estar escondida em algum canto, e de repente parei, apertando a cabeça com as mãos. Por sobre mim, em seu pedestal de bronze, branca, o rosto escalavrado brilhando ao luar, alteava-se a Esfinge. Parecia zombar de meu desespero.

Poderia consolar-me imaginando que as pequenas criaturas haviam guardado a máquina em algum abrigo, não estivesse eu convencido de que eram física e intelectualmente incapazes disso. E era isso o que me aterrava: a suspeita de algum poder até então desconhecido, sob cuja intervenção meu invento havia desaparecido. No entanto, de uma coisa eu estava certo: a menos que em outra época qualquer se tivesse produzido uma exata duplicata, a máquina não podia ser posta em movimento no tempo. O sistema de alavancas — eu lhes mostrarei mais tarde como funciona — evitava que, quando retiradas, alguém pudesse acioná-la. A máquina tinha sido carregada, e estava escondida, somente no espaço. Mas então, onde estaria?

Penso que fui tomado de um acesso de loucura. Lembro-me de ter corrido alucinadamente por entre os arbustos que rodeavam a Esfinge, assustando um pequeno animal branco que, à claridade do luar, me pareceu um veadozinho. Lembro-me também de ter ficado até altas horas da noite rebentando os arbustos com os punhos fechados, até sentir os dedos machucados e sangrando. Depois, soluçando e perdido de angústia, desci até o grande edifício de pedra. A grande sala estava às escuras, silenciosa e deserta. Escorreguei no piso desigual, e caí sobre uma das mesas de malaquita, quase quebrando uma perna. Acendi um fósforo e dirigi-me para o interior, atrás das cortinas poeirentas de que antes lhes falei.

Havia ali uma segunda grande sala coberta de almofadas, sobre as quais dormiam creio que umas vinte daquelas criaturinhas. Não resta dúvida de que devem ter achado meu segundo aparecimento muito esquisito, porquanto irrompi em meio à quietude das trevas com gritos inarticulados e erguendo a chama de um fósforo. Pois nem mais deviam saber o que eram fósforos.

— Onde está minha Máquina do Tempo? — pus-me a vociferar, como uma criança zangada, agarrando-os e sacudindo-os um depois do outro. Alguns riram, mas quase todos ficaram realmente assustados. Quando os vi de pé em torno de mim, dei-me conta de que estava cometendo o maior desatino possível naquelas circunstâncias, procurando reavivar neles a sensação de medo. Porque, raciocinando com base no seu comportamento durante o dia, era de supor que, para eles, o medo era uma coisa esquecida.

Bruscamente, jogando fora o fósforo, e tropeçando em um eloi que estava em meu caminho, precipitei-me pelo salão de jantar e saí para a noite banhada pelo clarão da lua. Ouvi gritos de terror e o ruído dos passos desencontrados dos pequeninos pés correndo de um lado para o outro. Não me recordo de tudo que fiz, enquanto a lua vagueava pelo céu. Acredito que foi a natureza imprevista de minha perda que me pôs como louco. Senti-me irremediavelmente separado de todos de minha espécie — um animal estranho num mundo desconhecido. Devo ter perambulado sem destino, gritando imprecações contra Deus e a sorte. Guardo a lembrança de um terrível cansaço, enquanto essa noite de pesadelo ia passando; de ter procurado em lugares impossíveis; de haver tateado por entre as ruínas iluminadas pelo luar, tocando em estranhas criaturas escondidas na escuridão; e, por fim, de me ter deitado no chão perto da Esfinge e chorado desesperadamente. Pois só me restava a minha própria desgraça. Então, adormeci, e quando despertei era já dia claro e um casal de pardais saltitava na relva perto de mim.

Sentei-me, no frescor da manhã, e procurei lembrar-me de como fora parar ali e porque estava possuído de tamanha sensação de abandono c desespero. Então as coisas se aclararam no meu espírito. À luz crua do dia, que me devolvia a razão, pude raciocinar com objetividade. Compreendi que meu comportamento da noite anterior fora uma rematada estupidez e pude colocar as idéias no lugar. «Suponhamos o pior», disse eu. «Suponhamos que a máquina esteja perdida — esteja mesmo destruída. Cumpre-me ser calmo e paciente, aprender a maneira de ser desse povo, formar uma idéia clara de como se deu a perda da máquina, e o que devo fazer para arranjar material e ferramentas. Talvez, quem sabe, eu consiga construir uma nova.» Essa era minha única esperança, uma pobre esperança, decerto, porém melhor que o desespero. Afinal de contas, era belo e curioso esse novo mundo.

Mas, provavelmente a máquina tinha sido apenas carregada. Também aqui devia eu ser calmo e paciente, descobrir o' esconderijo e procurar recuperá-la pela força ou pela astúcia. Levantei-me com grande esforço e, com os olhos, procurei um lugar onde pudesse fazer a ablução matinal. Sentia-me cansado, entorpecido e sujo da viagem. O frescor da manhã fazia-me desejar ficar também limpo e bem disposto. Minhas emoções tinham-se esgotado. Na verdade, enquanto tratava das coisas, fiquei analisando com surpresa a minha excessiva comoção da véspera. Examinei cuidadosamente o terreno em torno do relvado onde estivera a máquina. Perdi algum tempo fazendo perguntas inúteis, da melhor forma que podia, às criaturinhas que se aproximavam. Nenhuma delas entendia meus gestos. Algumas simplesmente me olhavam com um ar estúpido, outras julgavam que era uma brincadeira e punham-se a rir. Tive de fazer o maior esforço de minha vida para não bater nesses delicados rostos sorridentes. Era um impulso irracional, mas o demônio engendrado pelo medo e pela raiva cega não tinha sido dominado e ainda procurava tirar vantagem de minha perplexidade.

A relva me foi mais útil. Havia um sulco a meio caminho entre o pedestal da Esfinge e as marcas de meus sapatos no lugar onde eu tinha feito movimentos para levantar a máquina virada. Havia na grama outros sinais da retirada do meu aparelho, juntamente com estranhas pegadas muito estreitas, que pareciam deixadas por um animal como a preguiça. Minha atenção se voltou mais diretamente para o pedestal. Como já lhes disse, era de bronze. Não era um bloco liso; em cada um dos quatro lados se viam artísticos painéis em baixo-relevo. Bati no bronze. O pedestal era oco. Examinando os painéis com cuidado, descobri que não eram inteiriços, e sim montados em partes dentro de caixilhos. Não vi puxadores nem fechaduras, mas se os painéis eram portas, como eu supunha, deviam abrir-se de dentro para fora. Uma coisa me parecia bastante clara: não foi preciso nenhum grande esforço mental para concluir que a Máquina do Tempo estava lá dentro. Como fora levada para ali era outro problema.

Vi duas criaturas vestidas de amarelo-laranja que vinham na minha direção através dos arbustos e passando sob algumas macieiras em flor. Sorri para elas e fiz-lhes sinais para que se aproximassem. Chegaram perto de mim. Apontando para o pedestal de bronze, tentei dar-lhes a entender que desejava abri-lo. Mas ao primeiro gesto meu nesse sentido, elas se comportaram da maneira mais estranha. Não saberia descrever para vocês a expressão de seus rostos. Para usar uma comparação, era como se eu tivesse feito gestos obscenos a uma senhora de respeito. Elas se afastaram como se eu lhes tivesse dirigido o pior dos insultos. Não tive melhor sorte com outro, vestido de branco, e de aspecto muito gentil. De algum modo fiquei envergonhado com a sua reação. Mas, vocês sabem, eu queria recuperar a Máquina do Tempo e tentei mais uma vez. Quando vi esse último dar-me as costas e afastar-se, como os outros, perdi as estribeiras. Em três saltos o alcancei, segurei-o pela parte superior do manto e vim arrastando-o na direção da Esfinge. Então li no seu rosto uma tal expressão de horror e repugnância, que o larguei imediatamente.

Todavia, não me dei por vencido. Bati com os punhos nos painéis de bronze. Pareceu-me ouvir ruídos no interior — para ser mais exato, sons de risos abafados — mas devia ser engano. Então desci até a margem do rio, recolhi uma pedra de bom tamanho e com ela bati nos painéis até que um deles ficou amassado, e o azinhavre começou a cair em flocos. As minhas batidas violentas no pedestal deviam ter sido ouvidas pelo menos a uma milha em torno, mas ninguém apareceu. Vi grupos deles nas encostas, deitando-me olhares furtivos. Por fim, cansado e cheio de calor, sentei-me na grama para ficar observando o local. Mas estava muito inquieto para ficar ali sentado à espreita. Sou demasiado ocidental para agüentar uma longa vigília. Posso ficar anos inteiros trabalhando num problema, mas não consigo ficar inativo por vinte e quatro horas.

Passado algum tempo, levantei-me e comecei a andar sem destino pelo matagal, na direção da colina. «Paciência», dizia comigo mesmo. «Se você quer recuperar sua máquina, deixe a Esfinge em paz. Se eles querem ficar com a sua máquina, não adianta destruir-lhes os painéis de bronze; e se não querem, você a terá de volta quando pedir. É inútil ficar sentado em meio a todas essas coisas desconhecidas, tentando resolver um enigma. Você acabará monomaníaco. Encare este mundo. Aprenda-lhe os costumes, observe-o, não tire conclusões apressadas. No fim você acabará encontrando todas as respostas.»

De súbito percebi o cômico de minha situação: durante anos havia estudado e trabalhado para poder visitar o futuro e agora estava numa ansiedade louca para sair dele. Eu próprio havia construído a armadilha mais complicada e mais desesperadora que alguém já imaginara. E não podia fazer nada por mim mesmo. Ri às gargalhadas.

Ao atravessar o grande palácio, pareceu-me que as criaturas me evitavam. Podia ser apenas impressão minha, ou podia ter algo a ver com as minhas marteladas nas portas de bronze do pedestal. Fosse qual fosse o motivo, não havia dúvida de que fugiam de mim. Tive, no entanto, o cuidado de não me mostrar preocupado e abstive-me de qualquer perseguição a elas.

Ao fim de um ou dois dias, as coisas voltaram ao que eram antes. Fiz os progressos que pude para aprender a língua e aproveitei para estender o âmbito de minhas explorações. A menos que me tivesse escapado alguma particularidade sutil, a língua daquelas criaturinhas era excessivamente simples — compunha-se, quase que só, de substantivos concretos e de verbos. Havia poucos termos abstratos, se 6 que os havia, e empregavam muito pouco a linguagem figurada. Suas frases eram habitualmente muito reduzidas, de duas palavras, e eu não conseguia transmitir nem compreender a não ser as proposições mais elementares. Decidi relegar a um canto da memória a minha preocupação com a Máquina do Tempo e o mistério das portas de bronze sob a Esfinge, até que pudesse reunir conhecimentos suficientes para voltar ao problema de uma forma natural. Mas, como vocês podem compreender, um certo sentimento me retinha num círculo de poucas milhas em torno do ponto de minha chegada.

CAPÍTULO 7

Até onde a vista alcançava, toda a terra apresentava a mesma exuberante riqueza do vale do Tâmisa. Do alto de todas as colinas que subi, vi a mesma abundância de belos edifícios, infinitamente variados em material e estilo, as mesmas formações de coníferas, as mesmas árvores cobertas de flores. Aqui e ali, a água brilhava como prata e, mais ao longe, a terra elevava-se em ondulações de colinas azuladas, até fundir-se na serenidade do céu. Um aspecto singular, que logo me atraiu a atenção, foi a presença de certos poços circulares, alguns deles, ao que me pareceu, de grande profundidade. Um desses poços se encontrava na vereda para a colina que eu havia seguido quando de minha primeira caminhada. Como os demais, tinha na borda uma cercadura de bronze curiosamente trabalhada e era protegido da chuva por uma pequena cúpula. Sentava-me à beira desses poços e perscrutava a profunda escuridão, sem ver o menor reflexo de água, nem mesmo acendendo um fósforo. Mas em todos eles ouvia um ruído, um ronco surdo e ritmado como o de uma grande máquina. E descobri, também, pela chama dos fósforos, que havia uma permanente corrente de ar nos poços. Joguei um pedaço de papel num deles e, em vez de flutuar e cair lentamente, foi aspirado de uma vez só e desapareceu de minha vista.

Não tardei a estabelecer uma relação entre esses poços e as torres altas que havia aqui e ali nos declives, pois sobre elas se via com freqüência essa mesma vibração do ar que se nota, num dia quente, sobre as praias ensolaradas. Juntando as coisas, formulei a hipótese de um extenso sistema de ventilação subterrâneo, cuja verdadeira utilidade eu não conseguia discernir. A princípio, inclinei-me a associá-lo aos serviços sanitários daquela gente. Era uma conclusão evidente, mas absolutamente errada.

Devo admitir que fiquei sabendo muito pouco sobre o sistema de esgotos, os meios de transporte e outros serviços públicos, durante minha permanência nesse futuro real. Em algumas dessas concepções de Utopias e tempos futuros que tenho lido, há uma profusão de detalhes urbanísticos, sociológicos e que tais. Esses detalhes são muito fáceis de obter quando o mundo inteiro está contido dentro de nossa imaginação, mas são de todo inacessíveis ao viajante verdadeiro que, como eu, se vê jogado dentro da realidade. Imaginem o que um nativo da África Central, recém-chegado a Londres, poderia depois contar à sua tribo. Que saberia ele das estradas de ferro, dos movimentos sociais, do telégrafo e do telefone, da Companhia de Colis Postaux e coisas análogas? E, no entanto, qualquer um de nós se prontificaria a explicar-lhe tudo. Mesmo aquilo que ele soubesse, como faria para que seu amigo na África Central, que nunca esteve aqui, compreendesse ou acreditasse? Agora, imaginem a pequena distância que há entre um negro africano e um homem branco de nossa época, e o tremendo hiato a separar-me dessas criaturas da Idade de Ouro! Eu tinha consciência do muito que não via e que contribuía para meu conforto, mas, salvo quanto à impressão de uma organização automática, receio não ser capaz de lhes fazer sentir as diferenças.

No tocante aos mortos, por exemplo: não encontrava nada que parecesse forno de cremação ou túmulo. Mas isso não impedia que, para além do meu campo de exploração, houvesse áreas reservadas a cemitérios ou fomos crematórios. Foi essa uma das perguntas que me propus a responder, porém minha curiosidade a princípio ficou inteiramente insatisfeita. O fato me intrigava e levou-me a fazer outra observação, que me deixou ainda mais perplexo: entre essa gente não havia ninguém que fosse velho ou enfermo.

Devo confessar que minha satisfação com as teorias que formulei de início, sobre uma civilização automatizada e uma humanidade decadente, não durou muito. Contudo, eu não conseguia encontrar outra. Vou expor as minhas dúvidas. Os vários palácios que eu explorara eram simples residências, grandes salas de jantar e dormitórios. Neles não havia máquinas nem instalações de qualquer tipo. Apesar disso, essa gente se vestia de belos tecidos, que de tempos em tempos precisariam ser renovados; suas sandálias, embora sem maiores enfeites, exigiam para seu fabrico apetrechos de metal bastante complexos. Forçosamente essas coisas tinham de ser produzidas em algum lugar. E as pequenas criaturas não revelavam nenhum indício de pendores criativos. Não havia lojas, nem oficinas, nem sinal de atividades de importação. Passavam o tempo todo brincando despreocupadamente, tomando banho no rio, fazendo amor meio na brincadeira, comendo frutas e dormindo. Eu não conseguia descobrir a maneira como a engrenagem era mantida em funcionamento.

E, mais uma vez, a Máquina do Tempo: algo, eu não sabia o quê, a havia levado para dentro do pedestal oco da Esfinge Branca. Por quê? Quisera eu adivinhar. E aqueles poços sem água, aquelas colunas de ventilação. Sentia que me faltava uma pista. Sentia.. como explicar? Vamos supor que vocês encontram uma inscrição gravada em excelente inglês, mas com as frases entremeadas de palavras, e mesmo de letras, totalmente desconhecidas. Bem, no terceiro dia de minha visita, era exatamente assim que se apresentava o mundo de Oitocentos e Dois Mil Setecentos e Um!

Também nesse dia arranjei uma amiga — vamos dizer assim. Aconteceu que, enquanto eu observava algumas dessas criaturas que tomavam banho no rio, uma delas foi tomada de cãibras e começou a ser arrastada pela correnteza. Esta era rápida, mas não forte demais, mesmo para um nadador modesto. Vocês poderão formar uma idéia da estranha alienação dessas criaturas quando eu lhes disser que nenhuma delas fez a mais leve tentativa para salvar a companheira que gritava e estava se afogando diante de seus olhos. Quando o percebi, mais que depressa tirei a roupa e, entrando na água um pouco abaixo, recolhi a infeliz e trouxe-a a salvo para a margem do rio. Com algumas fricções logo voltou a si, e eu tive a satisfação de ver que ela já estava boa quando a deixei. Eu já formara uma opinião tão negativa sobre os de sua espécie que não esperei nenhuma gratidão por parte dela. Desta vez, no entanto, eu me enganei.

Isso aconteceu pela manhã. À tarde, quando voltava de uma exploração, reencontrei minha pequenina mulher, como acredito que era, e ela me recebeu com gritos de alegria e ofereceu-me uma bela guirlanda — feita visivelmente para mim e para mim unicamente. O episódio me empolgou a imaginação. É bem possível que eu estivesse me sentindo muito abandonado. O certo é que fiz todo o possível para demonstrar-lhe como eu gostara do seu presente. Logo nos vimos sentados num banquinho de pedra sob um caramanchão, travando uma conversa feita sobretudo de sorrisos. Os gestos de afeto daquela criatura me tocavam exatamente como o teriam feito os de uma criança. Trocávamos flores, e ela me beijava as mãos. Eu beijava as mãos dela. Depois tentei um diálogo. Soube que se chamava Weena, nome que me pareceu bastante adequado, embora eu ignorasse o que significava. Esse foi o começo de uma curiosa amizade, que durou uma semana e terminou como depois lhes contarei!

Ela era tal qual uma criança. Queria estar comigo o tempo todo. Procurava seguir-me por toda parte. Em minhas caminhadas exploratórias, partia-me o coração vê-la ficar para trás, exausta, a chamar-me chorosamente. Mas eu tinha de deixá-la, porque os problemas desse mundo precisavam ser aclarados. Eu não viera ao futuro, dizia a mim mesmo, para me entregar a um namoro em miniatura. Sua tristeza quando eu a deixava era muito grande, suas recriminações chegavam a ser frenéticas, e penso que, todas as contas feitas, seu devotamento me trouxe tanto de aborrecimentos quanto de satisfação. Mas ela não deixava de me servir de grande conforto moral. Eu julgava que ela se agarrava a mim por mera afeição infantil. Até quando já era tarde demais, eu não me dei conta, claramente, do mal que lhe fazia quando a deixava. E também só quando já era tarde demais é que compreendi claramente o que ela significava para mim. Porque, pelo simples fato de parecer apaixonada por mim e demonstrar, à sua maneira tão frágil e frívola, que se preocupava comigo, aquele pedacinho de gente acabou dando ao meu retorno às proximidades da Esfinge Branca, todos os dias, quase a impressão de um regresso ao lar. E do alto da colina eu já procurava com os olhos a sua pequenina figura pálida e loura.

Foi também através dela que descobri que o medo ainda não havia desaparecido da terra. Durante o dia mostrava-se tranqüila e tinha em mim a mais irrestrita confiança; pois certa vez, num momento de irritação, eu lhe fiz caretas ameaçadoras, e ela simplesmente se pôs a rir. Mas ela temia o escuro, temia as sombras, temia tudo que fosse preto. As trevas eram para ela a única coisa apavorante. Era um sentimento profundamente arraigado, o que me fez pensar e observar. Descobri, então, entre outras coisas, que esses pequenos seres, assim que anoitecia, juntavam-se no interior dos edifícios e ali dormiam em grandes grupos. Entrar no meio deles sem uma luz na mão era lançá-los no maior pânico. Jamais encontrei algum do lado de fora, ou dormindo sozinho, durante a noite. No entanto, minha estupidez não me deixou aprender a lição desse medo e, a despeito da aflição de Weena, eu insistia em dormir afastado daquelas multidões.

Ela ficava muito angustiada, mas sua estranha afeição por mim acabou triunfando e, em cinco das noites que durou a nossa ligação, incluindo a última, ela dormiu com a cabeça repousando no meu braço. Mas, falando dela, eu me desvio de minha história.

Deve ter sido na noite anterior ao salvamento de Weena. Acordei de madrugada. Tinha estado inquieto, e tivera um sonho dos mais desagradáveis, no qual eu me afogava e sentia o rosto apalpado pelos moles tentáculos de anêmonas-do-mar. Acordei sobressaltado e com a, esquisita impressão de que um animal pardacento acabava de fugir do quarto. Tentei dormir novamente, mas me sentia nervoso e indisposto. Era essa hora indecisa em que os objetos começam a tomar corpo nas trevas, em que nada tem cor definida, e tudo está ainda envolto numa aura de irrealidade. Levantei-me, atravessei a grande sala de jantar e detive-me na escadaria do palácio. Como não havia outro remédio, decidi esperar ali pelo nascer do sol,

A lua se punha e sua luz mortiça misturava-se com os primeiros palores da aurora para dar uma semiclaridade espectral. As moitas de arbustos eram pretas como breu, o solo pardo e sombrio, o céu descorado e lúgubre. Olhei para a colina e acreditei ver fantasmas. Virei-me repetidamente naquela direção e, cada vez, distinguia vultos brancos. Duas vezes pareceu-me ver uma criatura branca, simiesca, correndo sozinha pela encosta; e uma vez, perto das ruínas, vi um grupo carregando um volume escuro. Eles se moviam com muita pressa. Não pude segui-los com a vista. Como que desapareceram por entre os arbustos. Era ainda madrugada, como vocês podem compreender, e eu experimentava essa sensação gélida, indefinida, de antes do amanhecer. Duvidava de meus olhos.

Para os lados do levante, o céu começou a clarear, a luz do dia jorrou, e o mundo mais uma vez se cobriu de cores vivas. Examinei meu campo de visão com o maior cuidado. Não lobriguei mais vestígios dos vultos brancos. Eram meras visões do lusco-fusco matinal.

«Devem ser espíritos», falei com os meus botões. «Imagino como devem ser velhos!»

É que me viera ao pensamento, divertidamente, uma teoria de Grant Allen (Grant Allen (1848–1899), escritor canadense radicado na Inglaterra; começou escrevendo trabalhos científicos, depois S9 dedicou à ficção, deixando numerosos livros. No mesmo ano do aparecimento de A Máquina do Tempo (1895), publicou o romance The British Barbarians, em que um viajante do Futuro faz um percurso inverso ao do personagem de Wells, vindo do século 25 para visitar a Inglaterra do século 19. - N. do T.): segundo ele, se cada geração, ao morrer, deixa seus espíritos, o mundo acabará ficando apinhado deles. Em oitocentos mil anos, o seu número seria incalculável e, assim, não haveria nada de assombroso que eu visse quatro de uma só vez. Mas a pilhéria era pouco convincente e eu continuei a pensar nesses vultos durante toda a manhã, até que o quase afogamento de Weena e seu salvamento me fizeram esquecer o fato. Associei-os vagamente ao animal de cor clara que eu tinha assustado quando da procura frenética da Máquina do Tempo. Weena os substituiu agradavelmente no meu espírito. Mas, apesar disso, eles estavam destinados a ocupar, muito breve, o centro dos meus pensamentos e de uma forma infinitamente mais apavorante.

Penso que já mencionei que a temperatura na Idade de Ouro era muito mais alta do que a de hoje. Não sei como explicar. Talvez o sol estivesse mais quente, ou a Terra mais próxima do sol. É comum supor-se que este ficará cada vez mais frio no futuro. Mas as pessoas não familiarizadas com especulações como as de Darwin, o Moço, (Refere-se a Sir George Howard Darwin (1845–1912), segundo filho de Charles Darwin, e astrônomo de grande nomeada no seu tempo. - N. do T), esquecem que os planetas acabarão caindo de volta no corpo de que se formaram. Quando essas catástrofes ocorrerem, o sol brilhará com renovada energia; e é possível que algum planeta interior houvesse tido esse destino. Qualquer que seja o motivo, o fato é que o sol estava muito mais quente do que hoje.

Mas prossigamos. Certa manhã de muito calor — creio que foi a quarta — estava eu procurando abrigo contra a soalheira numa enorme ruína perto daquele edifício onde comia e dormia, quando aconteceu um fato extraordinário: ao escalar os montões de alvenaria, deparei-me com uma galeria estreita cuja extremidade, bem como as aberturas laterais, estavam obstruídas por desmoronamentos. Devido ao contraste com a intensidade da luz lá fora, ela me pareceu a princípio impenetravelmente escura. Entrei às apalpadelas, pois a passagem da claridade para as trevas me fazia ver manchas coloridas dançando diante de mim. De chofre parei, surpreso. Um par de olhos, luminosos devido ao reflexo da luz vinda do exterior, observava-me da escuridão.

O velho medo instintivo que temos dos animais selvagens me assaltou. Cerrei os punhos e fitei firmemente aqueles olhos brilhantes. Tive receio de voltar. Então me veio ao pensamento a absoluta segurança em que parecia viver a humanidade. E me lembrei do estranho terror que a escuridão inspirava àquela gente. Vencendo até certo ponto o meu medo, dei um passo à frente e falei. Admito que minha voz era áspera e não muito segura. Estendi a mão e toquei em alguma coisa macia. Imediatamente os olhos se desviaram e um vulto branco passou correndo por mim. Com o coração na boca, virei-me e vi uma estranha figura que lembrava um macaco, a cabeça abaixada de uma forma peculiar; atravessou, disparado, o espaço por trás de mim, exposto à luz do sol. Tropeçou num bloco de granito, cambaleou e, num ápice, desapareceu na escuridão de outro montão de escombros.

Evidentemente, não pude formar uma imagem muito perfeita. Mas vi o suficiente para notar que sua pele era de uma brancura cadavérica, os olhos grandes e de um cinzento avermelhado; tinha uma cabeleira comprida, cor-de-palha. Mas, como disse, ele correu depressa demais para que eu o visse distintamente. Nem posso mesmo dizer se corria de quatro ou se os membros dianteiros estavam apenas abaixados. Após um momento de pausa, segui-o até o montão de escombros. Não pude encontrá-lo imediatamente, mas depois de habituar-me à profunda escuridão, vislumbrei uma dessas aberturas circulares em forma de poço das quais já lhes falei, meio escondida por uma coluna tombada. Veio-me um pensamento súbito: teria a Coisa desaparecido por esse caminho? Acendi um fósforo e, olhando para baixo, vi mover-se uma pequena criatura branca, que enquanto fugia me fitava fixamente com os seus grandes olhos brilhantes. Estremeci. Parecia uma aranha humana! Ao observá-la, notei pela primeira vez que ao longo das paredes do poço havia uma série de degraus de ferro, como uma escada. O fósforo queimou-me os dedos; deixei-o cair e ele se apagou na queda. Quando risquei outro, o pequeno monstro havia sumido.

Não sei quanto tempo fiquei ali, olhando para o fundo do poço. Foi preciso algum tempo de reflexão para que eu me convencesse de que a Coisa que vira era um ser humano. Porém, pouco a pouco, a luz se fez em meu espírito: o Homem não se tinha conservado em uma única espécie, mas se dividira em dois animais distintos. Aquelas graciosas crianças do Mundo Superior não eram os descendentes exclusivos de nossa geração. Também essa Coisa esbranquiçada, imunda e noturna, que eu vira de relance, era herdeira de todas as épocas anteriores.

Pensei nas colunas por sobre as quais O ar vibrava e na minha hipótese de um sistema subterrâneo de ventilação. Entrei a suspeitar de seu verdadeiro significado. Mas o que vinha fazer esse Lêmure no meu esquema de uma organização perfeitamente equilibrada? Que papel desempenhava com relação à indolente serenidade dos belos habitantes do Mundo Superior? E o que estava escondido lá embaixo, no fundo do poço?

Sentei-me na borda, dizendo a mim que, de qualquer forma, não havia o.que temer e que devia descer até lá embaixo se queria encontrar a solução de meus problemas. Ao mesmo tempo, eu tinha um medo terrível! Enquanto eu hesitava, dois dos belos habitantes do Mundo Superior apareceram correndo, entretidos no jogo amoroso. O macho perseguia a fêmea, atirando-lhe flores.

Ao deixarem a zona de claridade para a de sombra, onde me encontrava, deram comigo e pareceram perturbar-se ao me verem ali, um braço apoiado na coluna caída e olhando para baixo. Visivelmente era falta de educação reparar nessas aberturas. Pois quando apontei para o poço e tentei formular uma pergunta na língua deles, ficaram ainda mais aflitos e me viraram as costas. Mas como vi que tinham ficado interessados em meus fósforos, acendi alguns deles para diverti-los, aproveitando para de novo tentar extrair deles alguma informação sobre os poços, ainda uma vez sem resultado. Assim, logo os deixei de lado, propondo-me ir à procura de Weena, a ver se com ela tinha melhor sorte.

Mas o meu espírito tinha sofrido uma revolução. Hipóteses c impressões se entrechocavam na tentativa de uma nova ordem de idéias. Agora eu tinha uma pista para descobrir a razão de ser daqueles poços, para as colunas de ventilação e para o mistério dos fantasmas matutinos, sem falar nas portas de bronze sob a Esfinge e no desaparecimento da Máquina do Tempo! De maneira muito vaga ocorreu-me o que poderia ser a solução do problema econômico que tanto me havia intrigado.

Eis como eu agora encarava a questão. Manifestamente, essa segunda espécie humana era subterrânea. Três circunstâncias em particular me faziam acreditar que a pouca freqüência de suas vindas à superfície se devia a um prolongado hábito de viver debaixo da terra. Em primeiro lugar, o aspecto esbranquiçado comum à maioria dos animais que vivem grande parte do tempo no escuro — o peixe branco das grutas do Kentucky, por exemplo. Depois, os olhos grandes, com a capacidade de refletir a luz, característicos dos animais noturnos — basta citar a coruja e o gato. E, finalmente, a evidente perturbação que lhe causava a luz do sol, sua fuga precipitada, embora aos tropeções, em busca da proteção das sombras, e a maneira típica de baixar a cabeça — tudo reforçava a teoria de uma extrema sensibilidade da retina.

Debaixo dos meus pés, portanto, a terra devia conter uma infinidade de túneis e esses túneis era o habitai da nova raça. A presença de poços e colunas de ventilação na encosta da colina — na verdade por todos os lados, exceto ao longo do rio, no vale — testemunhava que as ramificações eram infinitas. Que haveria, pois, de mais natural do que supor que era nesse artificial Mundo Subterrâneo que se produziam as coisas necessárias ao conforto do Mundo Superior? A idéia era tão plausível que a adotei de imediato e até encontrei uma explicação para essa bifurcação da espécie humana. Ousaria dizer que vocês já prevêem o desenvolvimento de minha teoria; no entanto, de minha parte, descobri muito cedo como me encontrava longe da verdade.

Primeiro, tomando como ponto de partida os problemas de nossa época, parecia-me claro como a luz do dia que o crescente alargamento da distância social (meramente temporária) que existe hoje entre o Capitalista e o Operário era a chave de toda a questão. Sem dúvida que isso lhes parecerá bastante grotesco — e absolutamente insustentável! — mas em nossos dias mesmo já existem provas que apontam nessa direção. Há uma tendência a utilizar o subsolo para os serviços menos nobres da civilização. Temos, por exemplo, o Metropolitan Railway em Londres, as passagens subterrâneas, escritórios e restaurantes no subsolo, e eles crescem e se multiplicam. Evidentemente, raciocinei eu, a tendência se acentuou de tal forma que a Indústria perdeu o seu direito de existência à luz do sol. Quero dizer com isso que ela foi descendo cada vez mais profundamente e construindo fábricas subterrâneas cada vez maiores, passando uma parte cada vez maior do seu tempo lá embaixo, até que por fim. .! Não é verdade que, já em nossos dias, o operário dos bairros pobres vive em condições tão artificiais que praticamente não tem acesso à superfície natural da terra?

Ainda mais, a tendência exclusivista da classe rica — devida, sem dúvida, ao crescente refinamento de sua educação e ao abismo que se abre cada vez mais entre ela e a rude condição dos pobres — já está levando à interdição, em favor dela, de extensões consideráveis da superfície terrestre. Nos arredores de Londres, por exemplo, cerca de metade das mais bonitas zonas campestres é vedada aos estranhos. E esse mesmo distanciamento social cada vez mais agudo — resultante do extenso e dispendioso processo de educação superior e das crescentes oportunidades e tentações que se oferecem aos ricos para a aquisição de hábitos refinados — fará com que o intercâmbio entre as classes, a realização de casamentos mistos, que hoje retardam a divisão de nossa espécie segundo linhas de estratificação social, se tornem cada vez menos freqüentes. Por fim, um dia teremos na superfície os Ricos, sempre em busca dos prazeres, do conforto e da beleza; e embaixo os Pobres, os Operários, adaptando-se ininterruptamente às condições de seu trabalho.

Uma vez lá embaixo, eles teriam sem dúvida que pagar taxas, e não pequenas, pela ventilação de suas cavernas. Se se recusassem, seriam condenados a morrer de fome ou asfixiados, até o pagamento da dívida em atraso. Os rebeldes e os indigentes acabariam por morrer. No final se estabeleceria um equilíbrio permanente, e os sobreviventes se tornariam tão adaptados às condições da vida subterrânea, e felizes à sua maneira, quanto os habitantes do Mundo Superior às suas. Segundo me parecia, a apurada beleza destes e a lividez estiolada daqueles eram um resultado bastante natural.

O triunfo absoluto da Humanidade, que eu havia sonhado, tomava uma conformação diferente no meu espírito. Não tinha sido, como eu imaginava, uma vitória da educação moral e da cooperação geral. O que eu via, em vez disso, era uma autêntica aristocracia, armada de uma ciência perfeita e agindo para levar a uma solução lógica o sistema industrial de nossos dias. Seu triunfo não tinha sido apenas sobre a Natureza, mas sobre a Natureza e o próximo.

Essa, devo adverti-los, era minha teoria naquela ocasião. Eu não tinha nenhum cicerone providencial, como acontece nos livros de Utopias. Minha explicação pode estar absolutamente errada. Mas acredito que é ainda a mais plausível. Porém, mesmo à luz dessa hipótese, a civilização equilibrada que por fim se tinha atingido devia desde muito ter ultrapassado o seu zênite, c estava agora em plena decadência. A segurança demasiado perfeita dos habitantes do Mundo Superior havia-os envolvido num lento processo de degenerescência, com uma redução geral da estatura, da força física e da inteligência. Isso eu podia constatar de forma suficientemente clara. O que acontecera aos habitantes do Mundo Subterrâneo eu ainda não suspeitava. Mas, pelo que tinha visto dos Morlocks — e este, a propósito, era o nome que se dava a essas criaturas —, podia facilmente imaginar que as modificações do tipo humano entre eles haviam sido muito mais profundas do que entre os «Elois», a bela raça que eu já conhecia.

Então sobrevieram as dúvidas inquietantes. Por que tinham os Morlocks levado minha Máquina do Tempo? Pois estava certo de que tinham sido eles. E por que, se os Elois eram os senhores, não podiam eles devolver-me a máquina? Por que tinham tanto medo da escuridão? Tentei, como disse, inquirir Weena sobre esse mundo subterrâneo, porém também ela me deixou frustrado. A princípio não conseguia entender minhas perguntas; depois, recusou-se a responder. Ela tremia como se o assunto lhe fosse insuportável. E quando a pressionei, talvez um pouco duramente, desfez-se em lágrimas. Foram essas as únicas lágrimas, exceto as minhas próprias, que vi nessa Idade de Ouro. Ao vê-la em prantos, parei imediatamente de atormentá-la com os Morlocks, e só me preocupei em fazer com que ela esquecesse esses testemunhos da herança humana. Em pouco tempo, Weena estava sorrindo e batendo palmas, enquanto eu acendia solenemente um fósforo.

CAPÍTULO 8

Poderá parecer-lhes estranho, porém só dois dias depois é que me dispus a seguir a nova pista do que era, sem dúvida alguma, o verdadeiro caminho. Eu sentia invencível repugnância por aqueles seres pálidos. Tinham exatamente a mesma cor esbranquiçada dos vermes e animais que são preservados em álcool nos museus de zoologia. Eram de uma frialdade repulsiva ao tato. Minha aversão provavelmente se devia em grande parte à minha simpatia pelos Elois, cujo asco pelos Morlocks eu começava a entender.

Naquela noite não dormi bem. Minha saúde por certo se achava um pouco afetada. Oprimiam-me dúvidas e perplexidades. Uma ou duas vezes assaltou-me uma sensação de profundo terror para a qual não encontrava razão definida. Lembro-me de que me esgueirei para dentro do salão onde as pequenas criaturas dormiam à luz do luar — nessa noite Weena estava com eles — e tranqüilizei-me ao vê-los. Nesse momento ocorreu-me que, dentro de poucos dias, seria lua nova, as noites ficariam totalmente escuras, e então seriam mais numerosas as aparições dessas desagradáveis criaturas subterrâneas, desses Lêmures brancacentos, desses novos bichos que haviam substituído os antigos.

Nesses dois dias acompanhou-me sem cessar a impressão de que eu estava procurando furtar-me a um dever inadiável. Estava convencido de que só recuperaria a Máquina do Tempo se penetrasse decididamente naqueles mistérios subterrâneos. No entanto, não me animava a enfrentar esses mistérios. Se pelo menos eu tivesse um companheiro, a coisa seria diferente. Mas eu estava horrivelmente só e a simples idéia de descer pela escuridão do poço me aterrorizava. Não sei se compreendem como eu me sentia, mas era como se houvesse um perigo sempre a ameaçar-me.

Foi essa inquietação, essa insegurança, talvez, que fizeram com que eu me distanciasse cada vez mais nas minhas caminhadas exploratórias. Dirigindo-me para sudoeste, no rumo da região montanhosa que hoje se chama Combe Wood, notei muito ao longe, na direção da atual Banstead, uma grande construção verde, de aspecto diferente de todas as que havia visto até então. Era maior do que os maiores palácios ou ruínas que eu conhecia, e a fachada ostentava um estilo oriental, com um acabamento que lembrava, pelo brilho do esmalte e pela tonalidade verde-pálido, verde-azulado, certo tipo de porcelana chinesa. Essa diferença de aspecto denotava diferença de uso, e eu me senti inclinado a estender até lá minha exploração. Mas já se fazia tarde, e eu chegara a esse lugar após longa e cansativa caminhada. Decidi, portanto, reservar a aventura para o dia seguinte, e voltei para a acolhida jubilosa e os carinhos de Weena. Mas, na manhã seguinte percebi claramente que minha curiosidade com relação ao Palácio de Porcelana Verde não era mais que outro pretexto, uma auto-sugestão para que eu adiasse por mais um dia minha temida incursão. Resolvi fazer a descida sem mais perda de tempo, e bem cedinho me encaminhei em direção a um poço nas proximidades dos escombros de granito e alumínio.

A pequena Weena acompanhou-me, a correr e â dançar, até o poço. Mas quando me viu inclinado por sobre a borda, olhando para baixo, pareceu extraordinariamente perturbada.

— Adeus, pequena Weena — disse-lhe eu, beijando-a; depois, recolocando-a no chão, comecei a procurar às apalpadelas por sobre o parapeito, os primeiros ganchos de descida. Eu tinha pressa, mas devo confessar, era somente porque temia que a coragem me fugisse! A princípio, Weena me olhou estarrecida. Depois, soltando um grito lamentoso, atirou-se sobre mim e procurou deter-me com todas as forças de suas mãozinhas. Acho que essa oposição foi o que me decidiu a prosseguir. Empurrei-a, talvez um pouco rudemente, e um momento depois me encontrava na boca do poço. Vi o rosto angustiado de Weena por sobre o parapeito e sorri-lhe para tranqüilizá-la. Depois me concentrei nos degraus inseguros em que me apoiava, e iniciei a descida.

Eram uns duzentos metros mais ou menos. Tinha de utilizar as barras metálicas fixas nas paredes do poço, e como elas se destinavam a criaturas menores e mais leves do que eu, logo me senti cansado e com cãibras. Mas não apenas cansado! Um dos degraus vergou subitamente sob o meu peso e por um triz não fui atirado nas profundezas da escuridão lá embaixo. Por um momento fiquei suspenso no ar por uma única mão, e depois desse susto não ousei mais parar para descansar. Embora sentisse uma grande dor nos braços e nos rins, continuei a descer o mais rápido que minhas forças permitiam. Olhando para cima, vi a abertura do poço como um pequeno disco azul, através do qual uma estrela ainda era visível, enquanto a cabeça de Weena se projetava redonda e escura. Vinha de baixo, cada vez mais forte e opressivo, o ruído regular de uma máquina. Tudo, exceto o pequeno disco lá em cima, estava em profunda escuridão; quando olhei novamente, Weena havia desaparecido.

Seguiu-se um momento de angustiante mal-estar. Pensei mesmo em tornar a subir, e deixar de lado o mundo subterrâneo. Porém, mesmo enquanto eu remoia essa idéia no meu espírito, continuava a descer. Por fim, com imenso alívio, distingui a pouca distância, à minha direita, uma exígua abertura na parede. Com um giro do corpo introduzi-me ali e descobri que era a entrada de um estreito túnel horizontal, no qual eu podia deitar-me e descansar. Já não era sem tempo. Os braços me doíam, sentia cãibras nas pernas e dor nas costas, e ainda tremia com o terror prolongado de me despencar no abismo. Ademais disso, a escuridão compacta me deixara os olhos doloridos. Ouvia-se agora perfeitamente o ronrom das máquinas bombeando o ar para dentro do poço.

Não sei quanto tempo fiquei estendido ali. Fui despertado pelo contacto de uma mão muito mole tocando no meu rosto. Pus-me de pé num átimo, procurei por meus fósforos e risquei um, apressadamente: vi diante de mim três criaturas encurvadas, semelhantes àquela que eu havia encontrado junto das ruínas. Fugiram precipitadamente com medo da luz. Vivendo, como viviam, numa escuridão que para mim era impenetrável, seus olhos eram anormalmente grandes e sensíveis, exatamente como as pupilas dos peixes abissais, e refletiam a luz da mesma forma. Não havia dúvida de que eles podiam ver-me naquelas trevas opacas e pareciam não ter medo nenhum de mim, exceto pela luz da chama. E tão logo risquei um fósforo para vê-los, eles fugiram incontinenti, desaparecendo nos escuros canais e túneis, de onde ficaram me olhando com as pupilas acesas, do modo mais estranho.

Experimentei chamá-los para junto de mim, mas a língua deles, ao que tudo indicava, era diferente da falada pelos habitantes do mundo de cima. De maneira que me vi sozinho fazendo inúteis esforços, e a idéia de fugir daquele lugar antes mesmo de iniciar a exploração voltou ao meu espírito. Mas então eu disse comigo mesmo: «Você está aqui para saber o que há» e, caminhando às apalpadelas pelo túnel, notei que o ruído das máquinas se tornava cada vez mais alto. Mais adiante, senti que as paredes haviam acabado e encontrei-me num vasto espaço aberto. Acendendo outro fósforo, descobri que havia entrado em uma enorme caverna abobadada, que se estendia, escuridão adentro, para além do que era alumiado por mim. O que vi foi o quanto se pode ver à chama de um fósforo.

Forçosamente o que me lembra é vago. Grandes vultos, como de enormes máquinas, surgiam da escuridão e projetavam sombras negras e grotescas, nas quais os Morlocks espectrais se escondiam da luz. O lugar, diga-se desde logo, era abafado e opressivo, e havia no ar o cheiro nauseante de sangue recém-derramado. Pouco mais abaixo do centro do círculo iluminado, havia uma pequena mesa de metal, com o que me pareceu uma refeição. Os Morlocks, portanto, eram carnívoros! Mesmo nesse momento, fiquei pensando comigo mesmo que animal de grande porte poderia ter sobrevivido para fornecer aquela peça de carne, ainda sangrenta. Tudo era muito impreciso: o cheiro sufocante, os grandes vultos indefinidos, as figuras abjetas espreitando-me das sombras e só à espera de que voltasse a escuridão para caírem de novo sobre mim! Então o fósforo chegou ao fim, queimando-me os dedos; soltei-o e ele caiu, traçando um risco vermelho no escuro.

Tenho pensado desde então quanto eu me achava extremamente mal equipado para essa experiência. Quando parti com a Máquina do Tempo, foi com a absurda suposição de que os homens do Futuro estariam por certo infinitamente à nossa frente em todos os sentidos. Eu tinha viajado sem armas, sem remédios, sem nada para fumar — de vez em quando o fumo me fazia uma falta terrível — e nem mesmo trazia fósforos em quantidade suficiente. Se ao menos eu tivesse levado uma Kodak! Poderia ter tomado instantâneos desse mundo subterrâneo, para depois examiná-los com mais vagar. Mas o fato é que eu estava ali contando unicamente com as armas e os recursos que a Natureza me dera — mãos, pés e dentes. E mais quatro fósforos de segurança que ainda me restavam.

Receava abrir caminho entre aquelas máquinas mergulhadas nas trevas, e foi só quando a chama se extinguia que descobri que meu estoque de fósforos estava no fim. Até aquele momento nunca me havia ocorrido que eu precisava economizá-los, e havia gasto quase metade da caixa riscando-os para deslumbramento dos habitantes do Mundo Superior, para quem o fogo era uma novidade. Agora, como falei, dispunha apenas de mais quatro. Quando voltou a escuridão, senti uma mão tocando na minha e dedos flácidos apalpando-me o rosto, ao mesmo tempo que me penetrava pelas narinas um odor nauseabundo. Pareceu-me ouvir a respiração de uma pequena multidão desses seres tétricos, aglomerados em torno de mim. Dedos macios tentavam tirar de minha mão a caixa de fósforos, enquanto outras mãos por trás de mim puxavam minhas vestes. A impressão de estar rodeado dessas criaturas que eu não podia ver e que me apalpavam era indescritivelmente desagradável. Eu nada sabia a respeito de seu modo de pensar e agir, e esse súbito pensamento me varou o cérebro. Pus-me a gritar tão alto quanto me era possível. Eles se afastaram assustados, porém logo se reaproximaram. Passaram a me apalpar mais afoitamente, sussurrando sons esquisitos uns para os outros. Estremeci violentamente e voltei a gritar — algo mais inseguro. Dessa vez não ficaram muito alarmados e trocaram entre si um ruído que me pareceu de risadas, voltando a atacar-me. Devo confessar que estava terrivelmente apavorado. Decidi riscar outro fósforo e escapar sob a proteção da chama; o que fiz, aumentando a intensidade da luz com um pedaço de papel que tirei do bolso e acendi. Pude assim bater em retirada na direção do túnel estreito. Porém, mal havia entrado, a luz acabou e, na escuridão, pude ouvir os Morlocks sussurrando como o vento entre as folhas e precipitando-se no meu encalço com passos rápidos e miúdos que me soavam como um ruído de chuva.

Num instante senti-me agarrado por diversas mãos e não havia dúvida de que tentavam arrastar-me de volta. Risquei outro fósforo e balancei-o diante de suas faces ofuscadas. Vocês não podem imaginar que aparência repulsivamente inumana tinham eles — com aqueles rostos lívidos c sem queixo, os olhos grandes e sem pestanas, de um cinza avermelhado! — ali parados diante de mim, cegos e confusos com a claridade. Mas posso lhes garantir que não me demorei na contemplação; prossegui na minha retirada e, quando o segundo fósforo apagou, risquei o terceiro. Este se achava quase no fim quando cheguei à abertura por onde entrara. Deitei-me no chão, porque as batidas da grande bomba no fundo me deixavam atordoado. Tateei em busca dos grampos de metal, mas, nisso, fui agarrado pelos pés e puxado com violência para trás. Risquei meu último fósforo. . que se apagou imediatamente. Mas eu já estava com uma das mãos num degrau de subida, e desvencilhando-me dos Morlocks com violentos pontapés, galguei rapidamente os degraus do poço, enquanto eles ficavam lá embaixo a me verem subir, os olhos piscando. Todos, menos um pequeno demônio que me seguiu por algum tempo e quase me arrancou a bota, para servir-lhe de troféu.

A ascensão pareceu-me interminável. Nos últimos dez metros, fui tomado de náuseas mortais. Era-me necessário um esforço quase sobre-humano para segurar os degraus. Os lances finais foram uma luta terrível contra o desfalecimento. Por várias vezes senti vertigens e tive todas as sensações de uma queda. Não sei como, mas alcancei a borda do poço, saí e, cambaleando para fora das ruínas, vi-me sob a luz cegante do sol. Caí com o rosto por terra — e como era limpa, como era deliciosa essa terra!

Depois só me lembro de Weena me beijando as mãos e as orelhas, e das vozes de outros Elois. Em seguida, perdi os sentidos.

CAPÍTULO 9

Agora, minha situação parecia pior do que antes. Até então, exceto a noite de angústia pela perda de minha Máquina do Tempo, eu mantinha a firme esperança de no final das contas achar um meio de escapar; mas essa esperança fora duramente abalada por minhas últimas descobertas. Até então, eu achava que minha ação era simplesmente retardada pela ingenuidade infantil dos Elois e por algumas forças desconhecidas que eu precisava apenas conhecer para poder superar. Mas, com os Morlocks, se interpusera um elemento inteiramente novo: aquela raça repugnante tinha qualquer coisa de inumano e de maligno. Instintivamente eu os execrava. Antes, eu me sentia como um homem que caiu num fosso: minha única preocupação era o fosso e como sair dele. Agora eu me sentia como um animal apanhado numa armadilha, cujo inimigo está prestes a chegar.

O inimigo que eu temia vai deixá-los surpresos: era a escuridão das noites de lua nova. Weena me incutira isso na cabeça através de suas alusões, a princípio incompreensíveis, sobre Noites Escuras. Agora não era muito difícil adivinhar o que essas noites escuras significavam. A lua estava no quarto minguante e a cada noite era maior a duração do período de escuridão completa. E agora também eu compreendia, pelo menos até um certo ponto, a razão por que os pequenos habitantes do Mundo Superior temiam as trevas. E me perguntava que coisas sinistras perpetravam os Morlocks nas noites de lua nova.

Estava agora quase certo de que minha segunda hipótese era inteiramente falsa. Os habitantes do Mundo Superior podiam ter sido um dia a aristocracia privilegiada, e os Morlocks seus servidores mecânicos. Mas isso tinha acabado desde muito tempo. As duas espécies resultantes da evolução do homem haviam-se dirigido, ou já haviam chegado, a um tipo de relacionamento completamente novo. Os Elois, como os reis carolíngios, tinham-se tornado simples figuras decorativas. Era-lhes consentida a posse da terra, mas isso porque os Morlocks, após inúmeras gerações de existência subterrânea, não podiam mais suportar a luz do dia na superfície. E os Morlocks fabricavam seu vestuário, deduzi eu, e proviam às suas necessidades cotidianas, talvez devido à sobrevivência do velho hábito de servir. Eles agiam como um cavalo empinado que agita as patas dianteiras ou como o homem que se diverte matando animais por esporte: são antigas e extintas necessidades que ficaram impressas no organismo. Mas, indubitavelmente, a antiga ordem tinha sido já em parte invertida. A Nêmesis dos delicados Elois aproximava-se rapidamente. Eras atrás, milhares de gerações atrás, o homem havia negado a seu irmão o direito ao bem-estar e à luz do sol. E agora esse irmão reaparecia — transformado! Os Elois já tinham começado a aprender de novo uma velha lição. Tornavam a travar conhecimento com o Medo. E de repente me veio à lembrança o pedaço de carne que eu havia visto no Mundo Subterrâneo. Flutuou na minha mente de maneira estranha, não como algo surgido no curso de minhas meditações, mas sim quase como uma interrogação de alguém do lado de fora. Tentei lembrar-me da forma daquela peça sangrenta. Parecia-me vagamente familiar, mas naquele momento não consegui definir o que fosse.

No entanto, por mais impotente que fosse aquela gente miúda em presença de seu misterioso Medo, eu era feito de outra cepa. Eu vinha desta nossa época, de pujante maturidade da raça humana, em que o Medo não nos paralisa e o mistério perdeu os seus terrores. Pelo menos, saberia defender-me. Sem detença resolvi armar-me e arranjar um lugar seguro onde pudesse dormir. Tendo esse refúgio como base, poderia enfrentar esse estranho mundo com um pouco da confiança que havia perdido ao verificar a espécie de criaturas a que estava exposto todas as noites. Não poderia mais dormir tranqüilo enquanto não soubesse que me achava em segurança no meu leito. Estremecia de horror só em pensar o quanto eles já me deviam ter examinado.

Durante toda a tarde vaguei pelo vale do Tâmisa, mas não encontrei nada que se me apresentasse como inexpugnável. Todos os edifícios e árvores pareciam facilmente ao alcance dos Morlocks, que a julgar pelas subidas e descidas aos poços eram trepadores hábeis. Então os pináculos do Palácio de Porcelana Verde me vieram à memória, e o brilho de suas paredes polidas. Ao cair da noite, colocando Weena sobre os ombros como se faz com uma criança, iniciei a marcha na direção do sudoeste. Calculara a distância em sete ou oito milhas, mas deviam ser umas dezoito. Eu tinha visto o Palácio pela primeira vez numa tarde úmida, quando as distâncias se nos afiguram enganadoramente menores. Além disso, o tacão de uma das minhas botas estava solto e um prego havia furado a sola — eu usava uma dessas velhas botas confortáveis com que costumo andar dentro de casa —, de modo que coxeava. Foi bastante depois do pôr-do-sol que cheguei à vista do Palácio, cuja silhueta escura se recortava contra o amarelo pálido do céu.

Weena se mostrou imensamente deliciada quando comecei a carregá-la, mas depois de certo tempo quis que eu a recolocasse no chão. Pôs-se a correr ao meu lado, de vez em quando disparando para aqui e ali, a fim de colher flores, que enfiava nos meus bolsos. Devo dizer que meus bolsos constituíam sempre um enigma para Weena, mas afinal ela concluiu que não eram outra coisa senão uma espécie inusitada de vaso para arranjos florais. Pelo menos era para isso que ela os utilizava. E isso me lembra uma coisa! Ao trocar de casaco eu encontrei. .!

O Viajante do Tempo fez uma pausa, meteu a mão no bolso, e sem dizer uma palavra colocou sobre a mesa duas flores murchas, que lembravam malvas brancas, porém bem maiores. Depois, retomou a narratriva.

Quando o silêncio do anoitecer já se estendia por toda a terra e galgávamos o topo da colina em direção a Wimbledon, Weena sentiu-se cansada e quis voltar para o edifício de pedra cinzenta. Mas eu lhe mostrei os pináculos distantes do Palácio de Porcelana Verde e consegui fazê-la entender que esperávamos encontrar ali um refúgio contra o seu Medo. Vocês conhecem a imensa paz que cai sobre as coisas quando a noite se avizinha? Até a brisa deixa de soprar entre as árvores. Para mim, há sempre um ar de expectativa nessa calmaria do anoitecer. O céu estava límpido, profundo e sem nuvens, salvo algumas listras horizontais quase na linha do poente. Nessa noite, a expectativa tomava as cores de meus receios. Em meio ao silêncio do escurecer, meus sentidos pareciam ter adquirido uma acuidade sobrenatural. Tinha a impressão de que podia sentir até a terra oca sob meus pés; era quase como se visse os Morlocks indo e vindo pelos túneis de seu formigueiro, à espera de que a noite chegasse. Em minha excitação, imaginei que eles deviam ter recebido minha invasão de suas tocas como uma declaração de guerra. E por que tinham eles roubado minha Máquina do Tempo?

O crepúsculo se transformou em noite, enquanto o silêncio nos envolvia. O azul desmaiado da distância desapareceu e as estrelas foram aparecendo, uma a uma. O solo tornou-se escuro, as árvores agora eram negras. Os temores e a fadiga de Weena aumentaram. Tomei-a nos braços, falei com ela e fiz-lhe carinhos. Quando a noite fechou, ela pôs os braços em torno de meu pescoço e, cerrando os olhos, afundou o rosto no meu ombro. Assim descemos um longo declive em direção ao vale e quase caí dentro de um riacho. Vadeei-o e subi para o outro lado do vale, passei por diversas casas-dormitório, por uma estátua — um fauno, ou algo parecido, já sem a cabeça. Aqui, também, havia acácias. Até então não tinha visto nenhum Morlock, mas ainda era cedo e as horas mais escuras que precedem o minguante ainda não haviam chegado.

Do alto da colina seguinte, vi um bosque cerrado, estendendo-se vasto e negro diante de mim. Ao vê-lo, fiquei hesitante. Não conseguia divisar seus limites para nenhum dos lados. Sentindo-me cansado — os pés, sobretudo, doíam-me demais —, parei, com muito cuidado tirei Weena de cima do meu ombro e sentei-me no chão. Não enxergava mais o Palácio de Porcelana Verde e estava em dúvida quanto à direção. Tentei devassar com os olhos a espessa mancha do bosque, imaginando o que podia ele esconder. Debaixo daquele denso emaranhado de galhos, uma criatura nem avistaria a luz das estrelas. Mesmo que não houvesse perigo algum a ameaçar — e eu não desejava ocupar a imaginação com essa idéia —, haveria sempre as raízes e os troncos de árvores nos quais havia o risco de tropeçar ou de bater.

Achava-me terrivelmente cansado após as peripécias do dia, e resolvi não enfrentar o desconhecido, considerando preferível passar a noite ao ar livre no alto da colina.

Vi com satisfação que Weena dormia a sono solto. Enrolei-a cuidadosamente no meu casaco e sentei-me a seu lado, aguardando o nascer da lua. A colina estava tranqüila e deserta, porém da escuridão da mata me chegavam de vez em quando ruídos de seres vivos. Por sobre mim cintilavam as estrelas, pois era uma noite muito clara. De certo modo eu sentia um reconforto amigo no seu piscar. Todas as antigas constelações, no entanto, haviam desaparecido do céu: seu lento movimento, que é imperceptível durante centenas de vidas humanas, desde muito que as havia reagrupado diferentemente. Só a Via Láctea me parecia não ter mudado, a mesma faixa esburacada de poeira de estrelas. Para o lado do sul (como julgava) havia uma estrela vermelha muito brilhante e inteiramente nova para mim; tinha mesmo um fulgor mais intenso do que nossa verde Sirius. E, no meio de todos esses cintilantes pontos de luz, um planeta brilhava firme e propício como o rosto de um velho amigo.

Ante o espetáculo das estrelas, de súbito me compenetrei da insignificância de meus problemas e de todos os transes da vida terrestre. Meditei na sua incalculável distância, no seu curso lento mas inexorável do desconhecido passado para o futuro desconhecido. Pensei no grande ciclo precessional que o pólo da Terra descreve. Somente quarenta vezes se tinha produzido essa silenciosa revolução durante todos os milhares de anos que eu atravessara. E durante essas poucas revoluções, todas as atividades, todas as tradições, as complexas organizações, os países, as línguas, as literaturas, as aspirações, até a simples lembrança do Homem tal como eu o conhecia, tinham sido varridas da existência. Em vez de tudo isso, restavam essas criaturas frágeis que haviam esquecido sua nobre origem, e aqueles avantesmas que me enchiam de terror. E pensei no Grande Medo que separava as duas espécies, e pela primeira vez, com um estremecimento súbito, tive a clara noção de qual devia ser a procedência da peça de carne que eu havia visto. Mas seria horrível demais! Contemplei a pequenina Weena dormindo a meu lado, tão alva e pálida sob as estrelas, e logo afastei o pensamento.

Durante essa longa noite procurei esquecer os Morlocks o mais que pude, e passei o tempo tentando encontrar indícios das antigas constelações em meio aos novos e confusos agrupamentos. O céu continuava muito claro, com uns fiapos de nuvem aqui e ali. Devo ter cochilado algumas vezes. Quando minha vigília ia adiantada, o céu começou a empalidecer para os lados do leste, como o reflexo de algum fogo invisível, e a lua minguante apareceu, estreita e macilenta. E quase sem transição, envolvendo-a e diluindo-a, atrás dela veio a aurora, pálida a princípio, depois rósea e quente. Nenhum Morlock se havia aproximado de nós. Na verdade, eu não tinha avistado nenhum deles, essa noite, sobre a colina. Com a reavivada confiança que me trazia o amanhecer de um novo dia, quase acreditei que todos os meus terrores eram imaginários. Pus-me de pé e senti que meu tornozelo estava inchado; o calcanhar doía muito. Tornei a sentar-me, tirei as botas e atirei-as para longe.

Acordei Weena e pusemo-nos a caminho do bosque, agora verde e convidativo, em vez de negro e ominoso. Encontramos alguns frutos com os quais pudemos quebrar o nosso jejum. Pouco adiante surgiram alguns Elois, rindo e dançando ao sol, como se não existisse na natureza essa coisa chamada noite. E então uma vez mais eu fiquei pensando na comida que entrevira na mesa dos Morlocks. Agora não tinha mais dúvida do que era, e do fundo d'alma tive pena desse último e humilde riacho em que se transformara o caudaloso rio da Humanidade.

Ao que tudo indicava, num dado momento do longo passado da decadência humana, o alimento dos Morlocks escasseou. Talvez tivessem, então, passado a comer ratos e insetos. Mesmo em nossos dias, o homem está longe de ser exclusivista e seletivo na escolha de seus alimentos — qualquer macaco o é mais. Seu preconceito contra a carne humana não é um instinto fundamente enraizado. E assim, esses descendentes inumanos do homem. .! Procurei encarar a coisa de um ângulo estritamente científico. Afinal de contas, eles eram menos humanos e mais distantes do que nossos antepassados canibais de há três ou quatro mil anos. E a inteligência, que veria uma tragédia nesse estado de coisas, não existia mais. Por que devia eu incomodar-me? Os Elois eram simples gado de engorda, que os Morlocks preservavam e de cuja criação talvez cuidassem, para depois abatê-los. E ali estava Weena, bailando inocentemente a meu lado!

Busquei resguardar-me do horror que me invadia, pois tudo isso me parecia um castigo rigoroso do egoísmo humano. O homem se dispusera a viver folgada e deleitosamente à custa do trabalho do próximo, tomara a Necessidade como senha e desculpa, e com o passar dos séculos a Necessidade se apresentara também a ele. Ensaiei até, à maneira de Carlyle, uma atitude de escárnio em relação a essa infeliz aristocracia em degenerescência. Mas era uma posição mental insustentável. Por mais intelectualmente degradados que estivessem, os Elois tinham conservado a aparência humana mais do que o bastante para fazerem jus à minha simpatia e me obrigarem a participar de sua degradação e de seus terrores.

Eu não tinha nessa ocasião idéias muito definidas sobre o que deveria fazer. A primeira era encontrar um lugar seguro que me servisse de abrigo e fabricar tantas armas de metal ou de pedra quantas pudesse, para me defender. Essa necessidade era imediata. Em segundo lugar, esperava encontrar meios de produzir fogo, para ter uma tocha na mão, pois sabia que arma nenhuma era mais eficaz contra os Morlocks do que essa.

Depois queria arranjar um objeto com o qual pudesse rebentar as portas de bronze do pedestal da Esfinge Branca. Tinha em mente um aríete. Estava convencido de que, se pudesse abrir essas portas e entrasse ali com uma tocha acesa, eu poderia recuperar a Máquina do Tempo e escapar. Não acreditava que os Morlocks fossem bastante fortes para a terem transportado para muito longe. Tinha decidido trazer Weena comigo para a nossa época. Revolvendo todos esses planos na imaginação, prossegui a caminho do edifício que me parecia o lugar ideal para nossa morada.

CAPÍTULO 10

O Palácio de Porcelana Verde, ao qual chegamos por volta do meio-dia, estava deserto e em ruínas. Nas janelas não restavam senão pedaços de vidro, e grandes placas do revestimento verde da fachada se haviam desprendido dos caixilhos metálicos corroídos. Havia sido construído no alto de uma colina coberta de relva. Antes de entrar, olhei na direção nordeste e fiquei surpreso ao avistar um largo estuário, ou mesmo uma enseada, onde eu supunha que, no passado, se encontravam Wandsworth e Battersea. Pensei então — sem me deter muito nesse pensamento — no que devia ter acontecido, ou continuava a acontecer, com os animais marinhos.

Examinando o material do Palácio, verifiquei que era realmente porcelana. No alto do frontispício havia uma inscrição em caracteres desconhecidos. Pensei tolamente que Weena poderia auxiliar-me a decifrá-la, mas foi só até perceber que nem a simples idéia da existência da escrita lhe passara algum dia pela cabeça. Penso que sempre a considerei mais humana do que de fato era, talvez porque seu apego a mim fosse tão humano.

A grande porta estava aberta e caindo aos pedaços. Ao entrar, em vez da sala habitual, encontramos uma comprida galeria iluminada por numerosas janelas laterais. A primeira vista, parecia um museu. O piso estava coberto de espessa camada de poeira e uma imensa quantidade de objetos heterogêneos estava sepultada sob igual camada de pó. No centro do salão, estranho e descarnado, erguia-se o que reconheci como sendo a parte inferior de um esqueleto gigantesco. Pelas patas oblíquas,

era algum animal extinto semelhante ao Megatherium. O crânio e os ossos da parte superior jaziam por terra, cobertos de poeira, e na parte ainda em pé alguns pedaços estavam estragados por uma goteira no teto. Mais adiante, via-se o enorme esqueleto abaulado de um Brontosaurus. Minha hipótese de estar num museu se confirmava. Caminhando para um dos lados, encontrei o que me pareceram prateleiras inclinadas; limpando a poeira grossa, deparei-me com as minhas conhecidas vitrinas dos museus de hoje. Mas aquelas deviam ser hermeticamente seladas, à prova de ar, a julgar pelo excelente estado de conservação de algumas peças no seu interior.

Não havia dúvida de que estávamos entre os destroços de algum derradeiro Museu de História Natural! Ali onde nos achávamos era, evidentemente, a Seção de Paleontologia, e devia ter abrigado uma esplêndida coleção de fósseis, embora o inevitável processo de decomposição — detido por algum tempo e com noventa e nove por cento de sua força perdidos pela destruição das bactérias e dos fungos — houvesse retomado o seu trabalho, extremamente lento mas também extremamente seguro, sobre todos aqueles tesouros. Aqui e ali encontrei marcas da presença dos Elois na forma de delicados fósseis reduzidos a pedaços ou transformados num brinquedo de ossos enfiados num cordel. Algumas vitrinas haviam sido audaciosamente retiradas — pelos Morlocks, pensava eu. Reinava um grande silêncio. A densa camada de pó amortecia o ruído de nossos passos. Weena, que se entretinha a fazer rolar um ouriço-do-mar sobre o vidro inclinado de uma pequena montra, enquanto eu observava tudo em redor, parou de fazê-lo e veio para junto de mim, segurando minha mão, muito calada, e não se afastando mais.

De começo, eu estava tão surpreso com esse antigo monumento de uma era intelectual, que não pensei nas possibilidades que ele apresentava. Até a preocupação com a Máquina do Tempo recuou para um canto de minha mente.

A julgar por sua extensão, esse Palácio de Porcelana Verde devia conter mais do que uma Galeria de Paleontologia; talvez seções de História, e quem sabe até, uma biblioteca! Para mim, pelo menos naquelas circunstâncias, elas seriam muito mais interessantes do que ficar vendo os espécimes em decomposição de uma geologia do passado longínquo. Prosseguindo nas explorações, encontrei um galeria menor, transversal à primeira. Parecia dedicada aos minérios. Ao ver um bloco de enxofre, pensei logo em pólvora. Mas não encontrei salitre; na verdade, nenhuma espécie de nitrato. Sem dúvida se tinham dissolvido com o passar dos anos. O enxofre, porém, não me saiu do pensamento e desencadeou uma série de idéias. Quanto ao resto das exposições naquela sala — a mais bem conservada de todas as que vi — meu interesse era diminuto. Não sou especialista em mineralogia, e por isso me dirigi a outra galeria, paralela à primeira em que havia entrado, e cujo estado era lastimoso. Visivelmente ela se destinava à História Natural, mas tudo estava reduzido a alguns restos irreconhecíveis. Fragmentos enrugados e enegrecidos do que deviam ter sido animais empalhados, múmias exsicadas dentro de frascos que um dia continham álcool, montículos de poeira escura em que as plantas se haviam transformado; e era tudo! Isso me contristou, porque eu gostaria de poder identificar as etapas através das quais a natureza animada fora dominada pelo homem.

Chegamos a uma galeria de proporções simplesmente colossais, mas singularmente mal iluminada. O chão ali apresentava um declive que se acentuava da entrada para os fundos. O local devia ter tido iluminação artificial; do teto, a intervalos, pendiam globos brancos, muitos deles rachados ou semidestruídos. Ali eu me senti mais no meu elemento, pois de cada lado se elevavam massas enormes de máquinas gigantescas, todas já muito corroídas e muitas quebradas, mas algumas ainda quase perfeitas. Vocês bem conhecem o meu fraco pela mecânica, e eu estava propenso a demorar-me entre aquelas máquinas. Tanto mais que, na sua maioria, elas tinham para mim a sedução dos enigmas, pois eu só conseguia tecer conjecturas muito vagas sobre sua utilidade. Pensei, então, que se pudesse descobrir seus segredos, eu me acharia de posse de poderes valiosos para enfrentar os Morlocks.

Repentinamente, Weena se colou a mim. Tão repentinamente que me assustou. Não fora ela, penso que não teria notado que o chão da galeria formava uma rampa. A extremidade aonde eu chegara situava-se acima do solo, e era alumiada por umas poucas janelas estreitas. À proporção que se descia, no sentido do comprimento, o solo se elevava em relação a essas janelas, até que diante de cada uma delas se formava um poço semelhante à «área» de uma casa londrina, tendo apenas uma nesga de luz no alto. Eu caminhava ao longo das máquinas, tentando adivinhar para que serviam, e estava tão absorvido nelas que não notara a gradativa diminuição da luz. Foi a crescente apreensão de Weena que me chamou a atenção. Vi então que a galeria, na parte de baixo, mergulhava em espessas trevas. Hesitei, e ao olhar em torno observei que a poeira ali era menos abundante e sua superfície menos uniforme. Um pouco mais adiante, do lado da escuridão, pareceu-me ver impressas na poeira numerosas pegadas, pequenas e estreitas. Voltou-me a sensação que os Morlocks estavam por perto. Convenci-me de que perdia um tempo precioso no exame acadêmico daquelas máquinas. A tarde já ia avançada, e eu ainda não havia arranjado uma arma, um refúgio, nem meios de fazer fogo. Nesse momento, vindos do fundo escuro da galeria, ouvi as pisadas e os mesmos estranhos ruídos que os Morlocks haviam feito quando eu fugia deles no poço.

Peguei Weena pela mão. Depois, tomado de uma idéia súbita, deixei-a e virei-me para uma máquina da qual se projetava uma alavanca semelhante às de sinalização nas estações das estradas de ferro. Galguei a plataforma, agarrei a alavanca com as duas mãos e coloquei todo o meu peso para arrancá-la de lado. De repente, Weena, parada no meio da galeria, começou a choramingar. Eu tinha calculado com bastante precisão a capacidade de resistência da alavanca: após um minuto de esforço, ela se partiu. Fui ao encontro de Weena com uma maça na mão, mais do que suficiente, pensava eu, para esmigalhar quantos crânios de Morlocks se antepusessem no meu caminho. E já ansiava desde muito por matar alguns Morlocks. Vocês devem estar pensando: «Que desumanidade, desejar matar seus próprios descendentes!» Mas era impossível, lhes digo eu, descobrir qualquer laivo de humanidade naqueles bichos. Somente meu desejo de não abandonar Weena e a certeza de que, se começasse a satisfazer minha fúria exterminadora, a Máquina do Tempo iria pagar por isso, me impediram de descer até o fundo da galeria e massacrar os seres abjetos que ali nos tocaiavam.

E assim, sopesando a maça com uma das mãos e com a outra segurando Weena, saí dessa galeria e entrei noutra, ainda maior, e que ao primeiro relance me lembrou uma capela militar cheia de bandeiras esfarrapadas. Mas logo reconheci o que eram aqueles trapos carbonizados: restos de livros apodrecidos. Tinham desde muito caído em pedaços e não se via neles o menor vestígio de impressão. Mas, aqui e ali, encadernações deterioradas e fechos metálicos partidos falavam por si mesmos. Fosse eu um homem de letras e talvez me tivesse entregue a digressões morais sobre a inutilidade das ambições. Mas o que provocou o maior choque no meu espírito foi a constatação do enorme desperdício de trabalho que essa melancólica floresta de livros podres testemunhava. Devo confessar que nesse momento pensei sobretudo nas Philosophical Transactions (Centenária publicação da Royal Society, de Londres, reunindo principalmente estudos de física, matemática e biologia. - N. do T), e nas minhas próprias dezessete comunicações sobre ótica física.

Subimos depois por uma larga escadaria e fomos dar no que deveria ter sido uma galeria de Química Técnica. Ali eu esperava fazer algumas descobertas úteis. Salvo numa das extremidades, onde o teto havia desabado, estava bem conservada essa seção. Examinei ansiosamente todas as peças ainda intactas. E por fim, numa das montras realmente à prova de ar, encontrei uma caixa de fósforos. Experimentei-os com nervosismo. Estavam perfeitos. Nem sequer umedecidos.

Virei-me para Weena e gritei-lhe em sua língua: «Dance!». Pois agora eu dispunha de uma arma contra as horrendas criaturas que temíamos. E ali, naquele museu abandonado, sobre o espesso e macio tapete de poeira, executei solenemente, para imenso gáudio de Weena, uma espécie de dança compósita, enquanto assobiava The Land of the Leal tão alegremente quanto me era possível. Foi uma mistura de cancan, de sapateado e de dança rodada (tanto quanto as abas do meu casaco o permitiram), mas foi também uma dança original. Pois, como sabem, tenho espírito inventivo.

Ainda penso que haver escapado, graças a essa caixa de fósforos, ao peso destruidor do tempo, através de centenas de milhares de anos, foi a coisa mais estranha e, para mim, mais afortunada. Porem fiz outra descoberta, infinitamente mais surpreendente: cânfora. Achei-a dentro de um vidro lacrado e que, por mero acaso, creio eu, o fora hermeticamente, não deixando penetrar o ar. Pensei de início que se tratava de cera de parafina e por isso quebrei o vidro. Mas o cheiro da cânfora era inconfundível. Em meio à universal decomposição, essa substância volátil conservara-se intacta, por obra do acaso, talvez durante milhares de séculos. Isso me fez lembrar uma pintura a sépia que eu tinha visto executar com a tinta extraída de um belemnite, que devia ter morrido e virado fóssil milhões de anos atrás.

Ia jogar fora a cânfora quando me lembrei de que ela era inflamável e ardia com uma bela chama brilhante — era, na verdade, uma ótima vela e guardei-a no bolso. Não encontrei, no entanto, nenhum explosivo nem nada que servisse para rebentar as portas de bronze. Até ali, minha alavanca de ferro era o objeto mais útil sobre o qual tinha deitado a mão. Nada obstante, deixei essa galeria muito eufórico.

Não posso contar os pormenores de toda essa longa tarde. Isso exigiria um grande esforço da memória, mais ainda relatar minhas explorações na ordem em que as fiz. Lembro-me de uma comprida galeria com estandes de armas enferrujadas. Como hesitei entre minha alavanca e uma espada ou uma machadinha! Não podia, no entanto, levar as duas, e a barra de ferro prometia ser mais eficiente contra as portas de bronze. Havia numerosas pistolas e carabinas. A maioria estava reduzida a blocos de ferrugem, mas algumas eram feitas de algum metal novo e estavam em perfeitas condições. Mas os cartuchos ou a pólvora tinham virado poeira. Um dos cantos da galeria estava carbonizado e com as paredes rebentadas; talvez, pensei eu, tivesse ocorrido a explosão de alguma das armas ou de munições. Em outro local via-se uma grande exposição de ídolos — polinésios, mexicanos, gregos, fenícios, de todos os povos da terra, diria eu. Aí, cedendo a um impulso irresistível, escrevi meu nome no nariz de um monstro de esteatita, proveniente da América do Sul, justamente aquele que mais me atiçou esse capricho.

À medida que se aproximava a noite, meu interesse esfriava. Passei de galeria a galeria, todas poeirentas, silenciosas, muitas vezes em ruínas, os objetos expostos não raro transformados em montões de ferrugem e linhita, embora outros se apresentassem em melhor estado. Numa das salas, vi-me subitamente diante de um modelo de mina de estanho e ali, por mero acidente, dentro de um recipiente hermeticamente fechado, descobri dois cartuchos de dinamite! Gritei: «Eureka!», e rebentei o recipiente com entusiasmo. Mas logo fiquei em dúvida. Hesitei. E, escolhendo uma pequena galeria lateral, fiz a experiência. Nunca senti maior desapontamento do que ao esperar cinco, dez, quinze minutos por uma explosão que não se produziu. Naturalmente que os cartuchos eram simples imitações, como eu devia ter adivinhado logo. Acredito realmente que, se fosse mesmo dinamite, eu teria corrido imediatamente para fazer saltar pelos ares a Esfinge, as portas de bronze e (como veria mais tarde) teria também perdido todas as possibilidades de recuperar a Máquina do Tempo.

Creio que foi depois disso que chegamos a um pequeno pátio descoberto no interior do Palácio. Em meio à grama havia três árvores frutíferas. Ali descansamos e nos alimentamos. Ao pôr-do-sol, comecei a estudar nossa posição. A noite estava descendo e meu refúgio inexpugnável ainda não tinha sido encontrado. Mas isso agora me incomodava muito pouco. Eu estava de posse de uma coisa que era talvez a melhor das defesas contra os Morlocks — eu tinha fósforos! E tinha também cânfora no bolso, caso necessitasse de uma luz mais forte. Pareceu-me que a melhor coisa a fazer era passar a noite ali ao ar livre, protegidos por uma fogueira. Na manhã seguinte iria reaver a Máquina do Tempo. Para isso eu dispunha, por enquanto, somente de minha maça de ferro. Mas agora, com os novos conhecimentos que adquirira, eu encarava de outra forma o obstáculo das portas de bronze. Até então eu me abstivera de forçá-las, em grande parte devido ao mistério que elas ocultavam. Elas nunca me tinham dado a impressão de ser muito sólidas, e eu contava que minha barra de ferro seria suficiente para o trabalho a fazer.

CAPÍTULO 11

Saímos do Palácio quando o sol ainda se encontrava acima do horizonte. Eu tinha decidido chegar à Esfinge Branca na manhã do dia seguinte, e antes do anoitecer queria atravessar a mata que me detivera na vinda. Meu plano era avançar o mais possível nessa noite e depois acender uma fogueira para dormirmos protegidos pelo seu clarão. Assim pensando, fui apanhando pelo caminho gravetos e mato seco, e em pouco estava com os braços cheios. Com essa carga, nosso avanço era mais lento do que havia previsto e, além disso, Weena mostrava-se muito fatigada. E eu também começava a sentir-me invadido pela sonolência; de modo que, quando chegamos à orla da mata, já era noite fechada. Temendo a escuridão, Weena teria preferido parar numa colina coberta de arbustos, onde estávamos; eu, porém, com uma sensação de perigo iminente, que na verdade me deveria ter detido, lancei-me para diante. Estava sem dormir havia dois dias e uma noite, e achava-me febril e irritado. Sentia que o sono me vencia e com ele os Morlocks.

Enquanto hesitávamos, distingui entre as moitas atrás de nós, quase se confundindo com elas na escuridão, três vultos agachados. A vegetação que nos cercava era alta e espessa, de maneira que eu não me sentia protegido contra a insidiosa aproximação dessas criaturas. Calculei que a floresta devia ter pouco menos de uma milha de largura. Se conseguíssemos atravessá-la e chegar à encosta da colina do outro lado, onde só havia vegetação rasteira, teríamos um lugar de repouso absolutamente seguro. Pensava que com os fósforos e a cânfora conseguiria iluminar o meu caminho através da mata. Todavia, era óbvio que, se quisesse andar com fósforos acesos nas mãos, teria de abandonar a lenha para a fogueira; assim, muito a contragosto, joguei-a ao chão. Então me ocorreu a idéia de assombrar e pôr em fuga os pérfidos amiguinhos que nos seguiam, ateando fogo a essa lenha. Eu devia descobrir logo depois a enorme estupidez desse ato, mas no primeiro momento ele se me afigurou uma tática engenhosa, destinada a cobrir nossa retirada.

Não sei se alguma vez já pensaram que coisa extraordinária deve ser a chama sem a presença do homem e num clima temperado. O calor do sol raramente é bastante forte para incendiar a vegetação, mesmo quando a luz se refrata nas gotas de orvalho, que atuam como um espelho, como acontece por vezes nas regiões tropicais. Um raio pode abater e carbonizar, mas é raro que dê origem a uma queimada. Os vegetais em decomposição podem acumular, pela fermentação, grande quantidade de calor e arder, mas quase sempre sem chama. Naquela época de decadência, a arte de fazer fogo havia sido esquecida sobre a terra. As línguas rubras que saltavam, lambendo o monte de lenha, eram algo inteiramente novo e estranho para Weena.

Ela queria correr para o fogo e brincar com ele. Penso que, se eu não a segurasse, ela se atiraria dentro da fogueira. Ergui-a nos braços e, apesar de seus esperneios, segui afoitamente pela mata adentro. Até certa distância, a fogueira alumiou-nos o caminho, Quando, num dado instante, olhei para trás, pude ver, através do emaranhado de troncos, que as chamas se tinham espalhado por algumas moitas adjacentes e que um rastilho de fogo já subia pela colina. Ao percebê-lo soltei uma gargalhada e continuei abrindo caminho por entre as árvores negras à minha frente. Estava muito escuro e Weena se agarrava a mim convulsivamente, mas, à medida que meus olhos se acostumavam às trevas, o resto de claridade era suficiente para que eu visse e evitasse os troncos. Por cima de nós a escuridão era cerrada, salvo quando uma nesga de céu aparecia por entre as copas das árvores. Não riscara nenhum dos meus fósforos porque não tinha as mãos livres. No braço direito carregava minha pequena amiga e com o outro brandia a barra de ferro.

Durante algum tempo não ouvi nada senão os estalidos dos galhos secos sob os meus pés, o sussurro da brisa na folhagem, minha própria respiração e o latejar do sangue nos ouvidos. De repente pareceu-me ouvir um ruído de passos miúdos em torno de mim. Continuei andando, com uma determinação inflexível. As pisadas macias se tornaram mais distintas e então percebi as mesmas vozes e os sons esquisitos que já ouvira no mundo subterrâneo. Eram por certo alguns Morlocks que se acercavam de mim. E de fato, um minuto depois, senti que me puxavam o casaco e depois o braço. Weena estremeceu violentamente e se inteiriçou por completo.

Era o momento de acender um fósforo, mas para isso eu tinha de colocar Weena no chão. Foi o que fiz e, enquanto metia a mão no bolso, uma luta começou a travar-se na escuridão, perto de mim — Weena absolutamente silenciosa e os Morlocks rosnando à sua maneira peculiar. Mãos flácidas me apalpavam por todo o corpo, até o pescoço. Acendi o fósforo e ergui o braço; à luz da chama, vi os Morlocks fugindo por entre as árvores. Apressadamente tirei um pedaço da cânfora e preparei-me para inflamá-la assim que o fósforo estivesse se apagando. Em seguida voltei-me para Weena. Estava no chão agarrada aos meus pés, inteiramente imóvel, com o rosto virado para baixo. Alarmado, inclinei-me sobre ela. Mal parecia respirar. Acendi o pedaço de cânfora, coloquei-o no chão, e enquanto ele esguichava a sua luz, afugentando os Morlocks e as sombras, ajoelhei-me e levantei Weena. A mata em torno de nós parecia fervilhar de seres que se agitavam e sussurravam!

Weena parecia estar desmaiada. Aninhei-a cuidadosamente no meu ombro e levantei-me para seguir, quando me dei conta de uma coisa terrível: ao me ocupar com os fósforos e com Weena, eu girara o corpo diversas vezes e agora não tinha a mínima idéia da direção! Era possível que agora estivesse voltado para o Palácio de Porcelana Verde. Um suor frio me cobriu o rosto. Precisava pensar rapidamente e decidir o que fazer. Resolvi acender uma fogueira e acampar onde estávamos. Encostei Weena, ainda inanimada, a um tronco coberto de musgo e, com toda a pressa, antes que o pedaço de cânfora se extinguisse, comecei a juntar gravetos e folhas secas. Aqui e ali, do meio das trevas, os olhos dos Morlocks faiscavam como carbúnculos! A chama da cânfora bruxuleou e apagou-se. Risquei um fósforo e, quando o fiz, dois vultos esbranquiçados, que se tinham aproximado de Weena, fugiram precipitadamente. Um deles ficou tão ofuscado pela luz que veio diretamente sobre mim, e eu senti seus ossos estalarem sob a violência do murro que desferi. Ele soltou um urro de pavor, cambaleou por um instante e foi ao chão. Acendi outro pedaço de cânfora e continuei a arrumar minha fogueira. Notei como estava seca a folhagem das árvores; desde que eu chegara com a Máquina do Tempo, havia uma semana, não tinha chovido. Assim, em vez de ficar apanhando gravetos no chão, comecei a arrancar ou quebrar os galhos nos troncos. Em pouco, tinha uma boa fogueira de lenha verde e ramos secos, que desprendia uma fumaça sufocante mas me permitia economizar a cânfora. Então passei a ocupar-me de Weena, que jazia ao lado de minha maça de ferro. Fiz o que pude para reanimá-la, ela porém parecia morta. Não encontrei meio de saber se ainda respirava ou não.

A fumaça vinha diretamente sobre mim, e deve ter-me deixado completamente tonto. Além do mais, o vapor da cânfora estava no ar. A fogueira não precisaria ser realimentada por uma hora ou mais. Eu me sentia exausto após tantos esforços, e sentei-me. A própria mata era toda ela um murmúrio misterioso que convidava ao sono. Pareceu-me que eu fechara os olhos e os abrira imediatamente. Mas estava tudo escuro e os Morlocks se atiravam sobre mim. Libertando-me daquelas mãos pegajosas, procurei nos bolsos, mais do que depressa, a caixa de fósforos. Tinha sumido! Então os Morlocks me agarraram novamente e entramos em luta corporal. Num instante, compreendi o que havia ocorrido. Eu havia adormecido e a fogueira se apagara. Minha alma se encheu de uma amargura mortal. A floresta parecia invadida pelo cheiro de madeira em combustão. Eu fui agarrado pelo pescoço, pelos cabelos, pelos braços e derrubado. Era um horror indescritível sentir na escuridão todas aquelas criaturas flácidas amontoadas sobre mim. Tinha a impressão de estar preso numa monstruosa teia de aranha! Eu estava subjugado e parei de lutar. Senti no pescoço a mordida de dentes pequeninos e afiados. Rolei no chão e, no movimento, minha mão tocou na barra de ferro. Ela me deu forças. Debati-me, sacudindo os ratos humanos de cima de mim e, segurando firmemente a alavanca, comecei a golpear por baixo, na altura em que deviam estar as cabeças dos meus atacantes. Eu podia sentir as massas de carne e ossos esmagadas por meus golpes, e num instante me vi livre.

Fui invadido pela estranha exultação que tantas vezes parece acompanhar um rude combate. Eu sabia que tanto eu como Weena estávamos perdidos, mas me decidi a fazer os Morlocks pagar caro por sua refeição. Permaneci encostado num tronco de árvore, brandindo a alavanca de ferro diante de mim. Toda a mata parecia tomada pelos gritos e correrias dos Morlocks. Um minuto se passou. Suas vozes eram agora mais altas e mais agudas, denotando uma grande excitação; seus movimentos se tornaram mais rápidos. No entanto, nenhum se aproximava de mim. Fiquei olhando inutilmente para dentro das trevas. De repente, a esperança renasceu: e se os Morlocks estivessem assustados? Uma coisa estranha veio logo em seguida. Parecia que as trevas estavam se tornando luminosas! Muito indistintamente, comecei a ver os Morlocks em torno de mim — três deles jaziam a meus pés — e então descobri, com incrédula surpresa, que os outros estavam correndo, num fluxo incessante; surgiam de trás de mim e precipitavam-se para o meio da mata à minha frente. E suas costas não eram mais esbranquiçadas: pareciam vermelhas. Enquanto eu os olhava boquiaberto, vi, por uma abertura do céu estrelado, entre os ramos, uma pequena fagulha que logo desapareceu. E então compreendi o que significavam o cheiro de madeira queimada, o murmúrio embalador que já se ia transformando num bramido de tempestade, o clarão vermelho e a fuga dos Morlocks.

Afastei-me do tronco e, olhando para trás, divisei, por entre as árvores mais próximas, as chamas do incêndio. Era a primeira fogueira que vinha ao meu encontro! Procurei Weena, mas ela havia desaparecido. Os silvos e estalidos atrás de mim, o estrondo de cada nova árvore em chamas, não me deixavam tempo para refletir. Ainda empunhando a barra de ferro, saí em perseguição aos Morlocks. Era uma corrida desabalada. De uma vez, as chamas se propagaram com tal rapidez à minha direita que me bloquearam e me obrigaram a correr para a esquerda. Por fim, emergi numa pequena clareira e, nesse mesmo instante, um Morlock caminhou tropegamente em minha direção, passou por mim, e atirou-se entre as chamas!

Eu ia agora presenciar o mais fantástico e pavoroso espetáculo que me foi dado ver nessa época futura. Com o clarão do incêndio, toda aquela área estava iluminada como se fosse dia. No centro havia um montículo, ou tumulus, coroado por um espinheiro seco. Mais adiante se via outro braço da mata em chamas, com enormes línguas amarelas já saltando, e envolvendo completamente a clareira, num anel de fogo. Sobre o montículo se aglomeravam uns trinta ou quarenta Morlocks, ofuscados pela luz e aterrorizados pelo calor; no seu aturdimento, rodavam para lá e para cá chocando-se uns com os outros. A princípio não compreendi que estavam inteiramente cegos e, cheio de repulsa, atacava-os furiosamente com a barra de ferro, quando eles se aproximavam de mim; matei um e feri vários outros. Mas quando vi um deles tateando miseravelmente embaixo do espinheiro e ouvi os seus gemidos, convenci-me de que estavam absolutamente impotentes e enceguecidos pelo clarão do incêndio, deixei-os em paz.

Entretanto, de vez em quando um vinha na minha direção, provocando em mim um frêmito de horror que me fazia afastar-me rapidamente do seu caminho. Houve um momento em que as chamas baixaram bastante, e eu receei que as horrendas criaturas não tardassem a poder ver-me. Pensei mesmo em passar logo à ofensiva, matando alguns deles, antes que isso acontecesse; mas o incêndio recrudesceu e eu descansei o braço. Caminhei em torno do montículo, evitando tocá-los, à procura de algum sinal de Weena. Mas Weena não estava ali.

Por fim, sentei-me no alto do montículo, e fiquei observando aquele bando estranho e incrível de criaturas cegas, que tateavam para cá e para lá, soltando grunhidos apavorados cada vez que o clarão das chamas incidia sobre elas. Espessos rolos de fumaça cobriam o céu e, através dos raros rasgões naquele dossel vermelho, brilhavam as pequeninas estrelas, distantes como se pertencessem a outro universo. Dois ou três Morlocks, às apalpadelas, vieram esbarrar em mim e eu os enxotei aos murros, cheio de asco.

Durante a maior parte dessa noite, quis acreditar que tudo não passava de um pesadelo. Dei mordidas em mim mesmo e gritei, na ânsia desesperada de acordar. Bati com as mãos no chão, levantei-me, tornei a sentar-me, vagueei de um lado para o outro, e de novo me sentei. Depois esfreguei os olhos e roguei a Deus que me fizesse despertar. Por várias vezes vi um Morlock abaixar a cabeça, numa espécie de agonia, e atirar-se às chamas.

Finalmente, por sobre o vermelho do incêndio que diminuía, sobre os rolos de fumaça negra, sobre os troncos de árvore que iam perdendo o rubro e escureciam aos poucos, e sobre o número agora reduzido daquelas criaturas medonhas, raiou o dia.

Tentei encontrar, ainda uma vez, algum sinal de Weena, mas em vão. Não havia dúvida de que, na fuga, os Morlocks haviam abandonado seu pequenino corpo na floresta em chamas. Não posso descrever como me sentia aliviado pelo pensamento de que, assim, ela escapara ao horrível destino que lhe parecia reservado. Nesse estado de espírito, quase me lancei a um massacre entre aquelas criaturas abomináveis e inermes que me cercavam, mas contive-me. O montículo, como lhes disse, era uma espécie de ilha na floresta. Do alto, pude distinguir, por entre as nuvens de fumaça, o Palácio de Porcelana Verde e, dessa forma, foi-me fácil encontrar a direção para a Esfinge Branca.

Então, mal o dia clareou mais um pouco, abandonando o resto daquelas almas danadas que continuavam a zanzar e a gemer, amarrei alguns punhados de ervas nos pés e saí manquejando por entre as cinzas fumegantes e os troncos negros, que ainda ardiam por dentro, em direção ao esconderijo da Máquina do Tempo. Andava devagar porque estava quase exausto, coxeava, e sentia-me inteiramente arrasado com a morte horrível de Weena. Sua perda me parecia uma tragédia devastadora. Agora que estou aqui sentado nesta velha sala tão familiar, é mais aquela tristeza depois de um sonho do que a dor de uma perda verdadeira. Mas, naquela manhã, a morte de Weena me deixava de novo absolutamente só — terrivelmente só. Comecei a pensar nesta minha casa, nesta lareira, em alguns dentre vocês, e esses pensamentos me trouxeram uma saudade quase dolorosa.

Enquanto caminhava por entre os restos fumegantes, sob o brilhante céu da manhã, fiz uma descoberta. No bolso da calça havia ainda alguns fósforos soltos. A caixa devia ter-se aberto antes de cair.

CAPÍTULO 12

Pelas oito ou nove da manhã, cheguei àquele mesmo assento de metal amarelo no alto da colina, de onde, na tarde de minha chegada, havia eu lançado um grande olhar sobre o mundo. Lembrei-me de minhas conclusões apressadas nessa tarde e não pude deixar de rir amargamente de minha confiança. Era a mesma bela paisagem, a mesma vegetação luxuriante, os mesmos palácios esplêndidos e magníficas ruínas, o mesmo rio prateado deslizando entre as margens férteis. As vestes alegres dos graciosos Elois perpassavam aqui e ali entre as árvores. Alguns estavam tomando banho exatamente no lugar onde eu salvara Weena, e ao recordar senti uma punhalada no coração. Como borrões na paisagem, viam-se as pequenas cúpulas que levavam ao mundo subterrâneo. Eu compreendia agora o que estava escondido por baixo de toda essa beleza do mundo exterior. Muito agradável era o dia dos Elois, tão agradável como o dia do gado na pastagem. Como o gado, não conheciam inimigos e tinham quem lhes provesse a todas as necessidades. E o fim deles era o mesmo.

Doeu-me n'alma pensar quão breve fora o sonho da inteligência humana. Ela se suicidara. Lançara-se resolutamente em busca de conforto e bem-estar, de uma sociedade equilibrada cuja divisa era segurança e estabilidade; havia alcançado suas metas — para chegar a isso. Em determinado momento, a vida e a propriedade deviam ter atingido uma segurança quase absoluta. Os ricos viram-se garantidos em sua riqueza e conforto; os operários tiveram assegurados sua subsistência e seu trabalho. Por certo que, nesse mundo, não tinha havido mais nenhum problema de desemprego, nenhuma questão social não resolvida. E seguira-se uma grande paz.

É uma lei natural, por nós menosprezada, que a versatilidade intelectual é a compensação para as mudanças, os perigos e as dificuldades. Um animal em perfeita harmonia com o seu meio torna-se uma perfeita máquina. A natureza nunca recorre à inteligência, a menos que o hábito e o instinto sejam insuficientes. Não há inteligência onde não há mudanças nem necessidade de mudanças. Só desenvolvem a inteligência aqueles animais que têm de enfrentar uma enorme gama de perigos e necessidades.

Assim, ao que se me afigurava, o homem do Mundo Superior acabara reduzido àquela frágil beleza, e o Mundo Subterrâneo à mera indústria mecânica. Mas a esse estado perfeito faltava ainda uma coisa para atingir a perfeição automática: a estabilidade absoluta. Certamente, com o passar do tempo, os meios de subsistência do Mundo Subterrâneo, quaisquer que tenham sido, entraram em colapso. A Mãe Necessidade, que tinha sido conjurada durante alguns milhares de anos, retornou e fez-se sentir primeiro lá embaixo. Como os habitantes do Mundo Subterrâneo viviam em contacto com a maquinaria, que, por mais perfeita que fosse, sempre necessitava de alguma atenção além da simples rotina, deviam forçosamente ter conservado um pouco mais de espírito de iniciativa, embora menos dos outros caracteres humanos, que os habitantes de cima. Por isso, quando lhes faltou outro alimento, recorreram ao que até então havia sido proibido por um antigo costume. Foi assim que vi as coisas em minha última contemplação do mundo de Oitocentos e Dois Mil Setecentos e Um. Pode ser a explicação mais falsa que ocorreria ao espírito de um mortal. Mas foi desse modo que tudo se me delineou, e é desse modo que lhes apresento.

Após as fadigas, as excitações e os terrores dos dias passados, e não obstante a minha tristeza, aquele recanto, o cenário tranqüilo e o calor do sol eram muito agradáveis. Estava muito cansado e sonolento, e logo passei da meditação à modorra. Percebendo isso, achei melhor fazer o que meu corpo pedia. Estendi-me na relva e dormi um sono longo e reparador.

Acordei um pouco antes do pôr-do-sol. Agora não havia o perigo de ser surpreendido pelos Morlocks enquanto dormisse e, levantando-me, desci a colina em direção à Esfinge Branca. Levava a alavanca de ferro em uma das mãos e com a outra brincava com os fósforos no bolso.

Tive a maior surpresa. Ao me aproximar do pedestal da estátua, vi que as portas de bronze estavam abertas. Tinham sido corridas para baixo ao longo dos trilhos.

Parei, hesitando entrar.

Havia no interior um pequeno compartimento e, a um canto, sobre uma parte mais alta, estava a Máquina do Tempo. As pequenas alavancas se achavam no meu bolso. E eis que, após meus cuidadosos preparativos para o assalto à Esfinge Branca, se me deparava uma humilde capitulação! Joguei fora a barra de ferro, quase com pena de não a ter usado.

Um súbito pensamento me atravessou o espírito, quando me abaixei para entrar. Dessa vez, pelo menos, eu adivinhara as maquinações dos Morlocks. Contendo uma grande vontade de rir, entrei no compartimento e caminhei até a Máquina do Tempo. Fiquei surpreso ao ver que ela tinha sido cuidadosamente limpa e lubrificada. Chegara antes a recear que os Morlocks a houvessem desmontado em parte, a fim de descobrirem, da maneira mais desastrada, para que fim serviria.

Então, enquanto eu a examinava, sentindo o maior prazer só em tocá-la, o que eu esperava aconteceu. Os painéis de bronze subiram repentinamente e fecharam-se com uma batida brusca. Estava no escuro — apanhado na armadilha. Assim pensavam os Morlocks. . Ri baixinho, de puro gozo.

Já podia ouvir-lhes o murmúrio de galhofa, enquanto se aproximavam. Muito calmamente, fui riscando um fósforo. Só me restava fixar as alavancas e desaparecer como um fantasma. Mas eu havia esquecido um pequeno detalhe: os fósforos eram dessa qualidade abominável que só se acendem riscando na própria caixa!

É fácil imaginar como perdi toda a minha calma. As pequenas feras já estavam sobre mim. Um me apalpava. Esmurrando a torto e a direito com as alavancas na mão, abri caminho para me instalar no assento da máquina. Não enxergava nada. Senti uma mão sobre mim, depois outra. Por fim me vi obrigado a defender minhas alavancas contra esses dedos insistentes e, ao mesmo tempo, procurava acertar os pinos em que elas se encaixavam. Houve um momento em que quase as perdi. Quando uma delas escapuliu de minha mão, dei uma violenta cabeçada no escuro, e pude ouvir o som da batida do crânio de um Morlock. Recuperei-a. Essa última escaramuça foi, a meu ver, um corpo-a-corpo mais duro do que a luta na floresta.

Finalmente, consegui fixar a alavanca e acioná-la. As mãos que me agarravam como que escorregaram de meu corpo. As trevas se desfizeram diante de meus olhos. Agora me encontrava cercado da mesma luz baça e do mesmo rumor contínuo da viagem inicial.

CAPÍTULO 13

Já lhes falei do mal-estar e da confusão mental que acompanham uma viagem no Tempo. E desta vez eu não estava sentado como devia e sim de través, e numa posição instável. Por um prolongado período, fiquei agarrado à máquina, enquanto ela jogava e vibrava, pouco preocupado em saber para onde ia e, quando me dispus a olhar para os mostradores, fiquei espantado ao descobrir que enorme distância no tempo havia percorrido. Um dos mostradores marca os dias; o outro, os milhares de dias; um terceiro, os milhões; e um quarto, os milhares de milhões. Aconteceu que, em vez de reverter as alavancas, eu as havia acionado no sentido de avançar; quando olhei para os mostradores, verifiquei que o ponteiro de 1.000 estava girando tão rapidamente como o ponteiro dos segundos de um relógio — e na direção do futuro!

Enquanto eu dirigia, uma transformação especial se produziu no aspecto das coisas. Aquele cinza palpitante se tornou mais escuro; depois — embora eu ainda viajasse a uma prodigiosa velocidade — a ofuscante sucessão dos dias e das noites, que normalmente indicava uma redução da marcha, voltou e se tornou mais e mais pronunciada. A princípio, isso me deixou perplexo. A alternância de dias e noites ficou cada vez mais lenta, bem assim a passagem do sol através do firmamento, até que me pareceram prolongar-se durante séculos. Por fim, um crepúsculo contínuo baixou sobre a terra, um crepúsculo apenas interrompido esporadicamente, quando um cometa cortava com seu brilho o céu escuro. A faixa de luz que indicava o sol havia, desde muito, desaparecido. Pois o sol tinha deixado de se pôr — simplesmente subia e descia no oeste, e seu disco se tornara mais largo e mais vermelho. Não havia mais nenhum vestígio da lua. O movimento circular das estrelas, cada vez mais vagaroso, dera lugar ao aparecimento de furtivos pontos de luz. Finalmente, pouco antes do momento em que parei, o sol, vermelho e enorme, se imobilizara sobre o horizonte — vasta abóbada brilhando com um calor morno e de vez em quando se apagando momentaneamente. Houve uma vez em que ele, por alguns instantes, voltou a luzir mais intensamente, porém logo retornou ao seu vermelho mortiço. Por essa diminuição do tempo entre o nascer e o pôr-do-sol, percebi que o movimento das marés havia deixado de existir. A terra entrara em repouso, com uma das faces voltada constantemente para o sol, como hoje a lua em relação à terra. Muito cautelosamente, pois me lembrava de minha queda de cabeça para baixo na vez anterior, comecei a reverter a marcha. Os giros dos ponteiros foram ficando cada vez mais lentos, até que o de 1.000 pareceu imobilizar-se e o de dias deixou de ser uma simples névoa sobre o mostrador. Os ponteiros continuaram girando cada vez mais devagar, até que se tornaram visíveis os contornos indecisos de uma praia desolada.

Parei muito suavemente e, sentado na Máquina do Tempo, corri os olhos em torno. O céu já não era azul. Para os lados do nordeste, era negro como breu, e em meio às trevas cinti-lavam, viva e ininterruptamente, as brancas estrelas. Por cima de mim, o céu tinha um tom vermelho-escuro e não se via estrela alguma. Para os lados do sudoeste, ia ficando cada vez mais vivo, até atingir um carmesim brilhante no ponto em que, cortado pelo horizonte, permanecia imóvel o imenso disco vermelho do sol. As rochas em volta de mim apresentavam uma dura cor avermelhada e tudo quanto pude distinguir, a princípio, como sinal de vida, foi a vegetação intensamente verde que cobria todas as elevações do lado sudeste. Era o mesmo verde luxuriante que vemos nos líquens e no musgo da floresta: plantas que, como essas, crescem sob um perpétuo crepúsculo.

A máquina havia estacionado sobre uma praia em declive. O mar estendia-se para sudoeste e alteava-se até confundir-se com a brilhante linha do horizonte sob um céu descorado. Nem ondas nem arrebentação, pois não havia o menor sopro de brisa. Só uma leve e viscosa ondulação, como o subir e descer de uma respiração suave, mostrava que o mar eterno ainda se agitava e vivia. E ao longo da praia, onde um dia as ondas tinham vindo quebrar-se, havia uma espessa incrustação de sal — rósea sob o lúrido céu. Senti uma opressão na cabeça e notei que respirava muito depressa. Isso me fez lembrar minha única experiência de alpinismo e por aí deduzi que o ar devia estar mais rarefeito que hoje.

Muito ao longe, no alto da encosta desolada, soou um grito rouco, e avistei algo semelhante a uma descomunal borboleta branca, que se lançou pelo declive e levantou vôo, pairou um pouco no céu e desapareceu por sobre algumas elevações do terreno. O som desse grito me pareceu de tal forma tétrico, que estremeci e me sentei mais firmemente sobre a máquina. Olhando de novo em torno de mim, notei, já muito perto e movendo-se lentamente na minha direção, uma coisa que antes me parecera um bloco de rocha avermelhada. Na realidade, era uma espécie de caranguejo monstruoso. Imaginem um caranguejo do tamanho daquela mesa, com suas numerosas patas, arrastando-se desajeitadamente, a balançar as enormes pinças; e as imensas antenas, que mais pareciam reinos de cocheiro, ondulando e tateando; os olhos pedunculados a me espiarem de cada lado da carantonha metálica. Seu casco era todo enrugado, cheio de mossas de feio aspecto, salpicado aqui e ali de incrustações esverdeadas. Os incontáveis palpos de sua bocarra tremiam, tomando o faro.

Enquanto eu observava com espanto essa sinistra aparição que rastejava em direção a mim, senti no rosto uma cócega, como se tivesse pousado uma mosca. Tentei enxotá-la com a mão, mas logo ela voltou e quase imediatamente outra pousou em minha orelha. Bati nesta última, e senti na mão uma espécie de filamento, que escorregou rapidamente por entre meus dedos. Com um arrepio de horror, virei-me e percebi que havia agarrado a antena de outro monstruoso caranguejo, bem atrás de mim. Seus olhos maus retorciam-se nos pedúnculos, a boca denotava uma voracidade feroz, as enormes pinças cobertas de limo estavam descendo sobre mim. Num segundo minha mão acionou a alavanca, e eu coloquei um mês entre mim e esses monstros. Vi-me, no entanto, ainda na mesma praia e avistei-os de imediato, assim que me detive. Dezenas deles se arrastavam por ali, sob a inalterável luz crepuscular, em meio à vegetação rasteira de um verde intenso.

Não sei como descrever a sensação de desolação aterradora que envolvia o mundo. O céu vermelho no oriente, o negror para os lados do norte, o salgado Mar Morto, a praia rochosa povoada daqueles monstros lerdos e repelentes, o verde uniforme e de aspecto venenoso daquela vegetação liqueniforme, o ar rarefeito que doía nos pulmões — tudo contribuía para um efeito assustador. Avancei uma centena de anos, e deparou-se-me o mesmo sol vermelho, um pouco maior, um pouco menos brilhante; o mesmo oceano moribundo, o mesmo ar glacial; e os mesmos crustáceos a rastejar por entre o verde da vegetação e o vermelho das rochas. No sentido do oeste, vi uma pálida linha curva como se fosse de uma lua imensa.

Assim fui viajando, parando de tempos em tempos, a intervalos de mil anos ou mais, impelido pelo mistério do destino da Terra, vendo com estranha fascinação o sol tornar-se cada vez maior e mais apagado no ocidente, e a vida neste velho planeta a declinar para o fim. Numa fase a mais de trinta milhões de anos da época atual, o largo semidisco rubro do sol terminara por ocultar cerca de um décimo do céu sombrio. Parei uma vez mais, pois a multidão de caranguejos-gigantes havia desaparecido, e a praia vermelha, salvo pelas hepáticas e os líquens de um verde lívido, parecia sem vida. Sobre ela, em muitos pontos, via-se agora uma crosta branca. O frio era cortante. Alvos flocos caíam de vez em quando em turbilhão. Para os lados do nordeste, sob o fulgor das estrelas num céu negro, brilhava o estendal de neve, e sobre os topos das colinas aparecia um branco róseo. Ao longo da praia já existiam franjas de gelo. Bancos de gelo flutuavam no oceano, mas este, em sua maior extensão, ainda não se havia congelado e, à luz daquele eterno crepúsculo, era da cor de sangue.

Circunvaguei os olhos, a ver se ainda restava algum sinal de vida animal. Uma certa apreensão indefinível ainda me prendia ao assento da máquina. Porém nada via que se movesse na terra, no mar ou no céu. Somente o limo verde sobre as rochas testemunhava que a vida não se extinguira de todo. Um banco de areia emergira um pouco acima das águas, e o mar recuara da praia. Tive a momentânea impressão de haver visto um objeto negro se agitar por sobre o banco de areia, mas se imobilizou tão logo olhei para ele; achei que meus olhos me haviam enganado, e que o objeto negro não passava de um rochedo. No céu, as estrelas brilhavam intensamente e pareciam-me cintilar muito pouco.

Repentinamente, notei que o contorno circular do sol havia mudado; na sua curva aparecera uma concavidade, uma reentrância, que se tornava cada vez maior. Durante um minuto, talvez, fiquei a contemplar, cheio de pasmo, esse avanço das trevas sobre o dia, e de chofre compreendi que estava assistindo ao começo de um eclipse. A lua, ou o planeta Mercúrio, passava diante do disco solar. Naturalmente, julguei a princípio que era a lua, mas tenho fundadas razões para acreditar que, na realidade, assisti à passagem de um planeta interior muito perto da Terra.

A escuridão aumentava rapidamente. Um vento frio começou a soprar do leste em lufadas enregelantes, enquanto os flocos de neve caíam com maior intensidade. O mar se encrespou levemente, com um murmúrio longínquo. Afora esses ruídos da natureza, tudo era silêncio. Silêncio? Difícil descrever a profundíssima quietação que pesava sobre o mundo. Todos os rumores da humanidade, o balido dos rebanhos, o canto dos pássaros, o zumbido dos insetos, a agitação que forma como que a música de fundo de nossas vidas — tudo calara. A proporção que as trevas se adensavam, os turbilhões de neve se tornavam mais freqüentes, os flocos dançando diante de meus olhos. O frio era glacial. Por fim, um a um, numa sucessão rápida, os cumes brancos das colinas distantes sumiram na escuridão. A brisa transformou-se num vento lamurioso. A sombra central do eclipse estendia-se na direção do lugar onde me encontrava. Um momento depois, só as pálidas estrelas eram visíveis. Tudo o mais jazia imerso nas trevas. O céu ficara totalmente negro.

Senti-me invadido de horror ante essas trevas mortais. O frio que me penetrava até a medula dos ossos e o sofrimento da respiração difícil acabaram por dominar-me. Eu tiritava. Veio-me uma terrível náusea. Então, como um arco vermelho no céu, apareceu a borda do disco solar. Desci da máquina para me recuperar um pouco, pois me sentia aturdido e incapaz de enfrentar a jornada de volta.

Enquanto eu me punha de pé, enjoado e confuso, vi de novo o objeto que se mexia sobre o banco de areia — e não havia mais dúvida, agora, de que ele se mexia — recortado contra a superfície vermelha do mar. Era uma coisa redonda, talvez do tamanho de uma bola de futebol, ou, quem sabe, um pouco maior, munida de tentáculos que ela arrastava. Dava saltos intermitentes e desajeitados, e parecia negra contra o fundo cor de sangue da água. Nesse momento, tive a impressão de que ia desfalecer. Porém o medo terrível de ficar abandonado naquele pavoroso mundo crepuscular deu-me forças para subir na máquina.

CAPÍTULO 14

E, assim, regressei. Devo ter permanecido longo tempo sem sentidos sobre a máquina. A sucessão ofuscante de dias e noites recomeçou, o sol retomou o seu brilho dourado, o céu era de novo azul. Eu respirava muito mais facilmente. Os contornos flutuantes da paisagem fluíam e refluíam. Os ponteiros dos mostradores giravam ao contrário. Tornei a ver, por fim, as sombras difusas de casas, testemunhas de uma humanidade em decadência. Também passaram, e vieram outras. Quando o ponteiro dos milhões chegou a zero, diminuí a velocidade. Fui aos poucos reconhecendo nossa pobre arquitetura atual. O ponteiro de 1.000 voltou ao ponto de partida. O dia e a noite agora se alternavam mais lentamente. As velhas paredes do laboratório surgiram em torno de mim. Com muito cuidado regulei a marcha a fim de parar.

Observei um pequeno detalhe que me pareceu deveras esquisito. Penso haver contado a vocês que, por ocasião de minha partida e antes que atingisse grande velocidade, vi a Sra. Watchers atravessar a sala como um foguete. Ao voltar, passei por esse mesmo minuto em que ela transpunha o laboratório. Porém, desta vez, todos os seus movimentos me pareceram exatamente no sentido inverso. A porta do fundo se abriu e ela, vindo de costas, deslizou silenciosamente pelo laboratório e desapareceu por trás da porta pela qual havia entrado. Um segundo antes disso, pareceu-me ver Hillyer por um instante; mas ele passou como um relâmpago.

Então parei a máquina e tornei a ver o meu velho e conhecido laboratório, minhas ferramentas, meus aparelhos, tais quais os deixara. Desci da máquina aturdido, vacilante, e sentei-me sobre meu banco. Por alguns minutos fiquei a tremer violentamente. Depois me acalmei. Via novamente em torno de mim a velha oficina, exatamente como sempre fora. Eu devia ter adormecido ali, e tudo não passara de um sonho.

Eu disse «exatamente», mas não! Quando parti, a máquina estava do lado direito do laboratório. Agora estava do lado esquerdo, encostada à parede onde vocês a viram. Essa é justamente a distância entre o relvado onde parei e o pedestal da Esfinge Branca, para cujo interior os Morlocks a levaram.

Por algum tempo meu cérebro permaneceu como que paralisado. Levantei-me finalmente e vim pelo corredor até aqui, manquejando, porque o calcanhar ainda me doía, e sentindo-me desagradavelmente sujo. Vi a Pall Mall Gazette sobre a mesa perto da porta. Estava, mesmo, datada de hoje. Olhei para o relógio: eram quase oito horas. Escutei as vozes de vocês e o ruído dos pratos. Hesitei; eu me sentia doente e muito fraco. Então senti um agradável cheiro de carne, e abri a porta. O resto vocês sabem. Lavei-me, mudei de roupa, jantei, e agora lhes estou contando a minha história.

— Sei — disse ele, após uma pausa — que tudo isso é para vocês absolutamente inacreditável. Para mim, o único fato inacreditável é estar aqui agora, nesta velha sala, contemplando os rostos de meus amigos e contando-lhes estas estranhas aventuras.

Olhou para o Médico.

— Não. Não posso esperar que acreditem. Façam de conta que é uma história inventada — ou uma profecia. Digam que eu dormi e tive um sonho na minha oficina. Ponderem que eu arquitetei essa ficção depois de entregar-me a especulações sobre o destino de nossa raça. Podem considerar minha declaração de que tudo é pura verdade como um simples artifício para aguçar o interesse. Partindo da suposição de que é apenas uma história, que é que vocês acham?

Pegou de seu cachimbo e começou, num gesto que lhe era habitual, a bater nervosamente com ele no guarda-fogo da lareira. Houve um silêncio momentâneo. Em seguida, as cadeiras começaram a ranger e os pés a alisar o tapete. Parei de olhar para o Viajante do Tempo e voltei-me para os seus ouvintes. Estavam na penumbra e diante de seus rostos bailavam pequenas volutas de fumaça. O Médico parecia absorvido na contemplação do dono da casa. O Redator-Chefe fitava obstinadamente a ponta de seu charuto — o sexto. O Jornalista parecia atrapalhado com o seu relógio de bolso. Os demais, tanto quanto me lembro, conservavam-se imóveis.

O Redator-Chefe levantou-se, com um suspiro.

— Que pena que você não seja um escritor! — disse, pousando a mão no ombro do Viajante do Tempo.

— Quer dizer que não acredita?

— Bem..

— Eu sabia que não. Virou-se para nós.

— Onde estão os fósforos?

Riscou um, aproximou a chama do fornilho e falou por entre as baforadas do cachimbo:

— A falar verdade.. custo a crer eu mesmo… E no entanto..

Seus olhos indicaram, numa indagação muda, a mesinha sobre a qual se encontravam as duas flores brancas, murchas. Depois, virou a mão que segurava o cachimbo e pude notar que o fizera para ver as feridas semicicatrizadas nos nós dos dedos.

O Médico se ergueu, foi até a lâmpada da mesinha, e pôs-se a examinar as flores.

— O gineceu é estranho — falou, segurando uma delas. O Psicólogo inclinou-se para ver, e estendeu a mão para a outra flor.

— Macacos me mordam se já não é um quarto para a uma! — exclamou o Jornalista. — Como é que vou para casa?

— Há muitos carros na estação — informou o Psicólogo.

— É curioso — disse o Médico — mas eu não saberia dizer ao certo a que ordem pertencem estas flores. Posso ficar com elas?

O Viajante do Tempo hesitou. Depois disse, num ímpeto:

— Claro que não!

— Onde as encontrou, realmente? — insistiu o Médico. O Viajante do Tempo levou a mão à fronte, e falou como se procurasse reter uma idéia que lhe fugia:

— Essas flores foram colocadas no meu bolso por Weena, quando eu viajava no Tempo. — Correu os olhos pela sala. — Com os diabos se tudo não está muito confuso! Esta sala, vocês, este ambiente familiar, tudo é demais para minha retentiva. Terei eu construído uma Máquina do Tempo ou foi um modelo de Máquina do Tempo? Será tudo isso apenas um sonho? Dizem que a vida é um sonho, um pobre belo sonho às vezes — mas eu não suportaria outro que não se harmonizasse. É uma loucura. Mas esse sonho, de onde me veio ele?. . Devo dar uma olhada nessa máquina. Se é que ela existe!

Com um gesto brusco apanhou a lâmpada e caminhou para o corredor. Nós o acompanhamos.

E a máquina lá estava, não havia dúvida, iluminada pela chama vacilante da lâmpada. Feia, acaçapada, de viés, uma coisa feita de metal amarelo, ébano, marfim e quartzo translúcido e faiscante. Sólida ao tato — pois estendi a mão e toquei na estrutura — e com manchas escuras sobre o marfim, restos de relva e musgo nas partes de baixo, e uma das barras torcida.

O Viajante do Tempo colocou a lâmpada sobre o banco e passou a mão pela barra danificada.

— Agora está tudo bem — disse ele. — A história que lhes contei é verdadeira. Desculpem tê-los trazido para este lugar tão frio.

Apanhou de novo a lâmpada e, no mais absoluto silêncio, nós o seguimos de volta à sala de fumar.

À saída, acompanhou-nos até o vestíbulo e ajudou o Redator-Chefe a vestir o sobretudo. O Médico olhou-o no rosto e, com uma certa hesitação, declarou que seu problema clínico era excesso de trabalho, ao que o Viajante do Tempo respondeu com uma risada. Lembro-me dele parado à porta, dando-nos boa-noite em voz alta.

Tomamos juntos o mesmo carro, o Redator-Chefe e eu. Para ele, tudo não passava de uma «patranha em grande estilo». De minha parte, não conseguia chegar a uma conclusão.

A história era tão fantástica e inverossímil, mas a maneira como fora contada, tão convincente e sóbria! Fiquei a maior parte da noite acordado, pensando no assunto. Resolvi voltar no dia seguinte à casa do Viajante do Tempo.

Disseram-me que estava no laboratório e, sendo uma pessoa conhecida na casa, dei uma subida até lá. No laboratório, no entanto, não havia ninguém. Contemplei por um minuto a Máquina do Tempo, depois toquei de leve na alavanca. Imediatamente, toda aquela massa pesada e sólida começou a balouçar como um ramo de árvore agitado pelo vento. Sua instabilidade foi para mim um forte choque, e curiosamente eu me lembrei de meus tempos de criança, quando sempre me proibiam de mexer nos objetos.

Voltei pelo corredor e encontrei o Viajante do Tempo na sala de fumar. Ele acabava de chegar da rua, e trazia consigo uma pequena câmara fotográfica e uma mochila. Riu ao dar comigo e, como tinha as mãos ocupadas, ofereceu-me o cotovelo para apertar.

— Estou terrivelmente ocupado — disse-me ele — com aquela máquina.

— Mas não se trata de uma burla? — perguntei. — Você de fato viaja pelo tempo?

— Viajo, sim, no sentido real e verdadeiro. — E me olhou, um olhar franco, dentro dos olhos. Pareceu indeciso um momento. Passeou os olhos pela sala. — Preciso de meia hora somente. Sei por que você veio, é uma grande gentileza de sua parte. Aqui estão algumas revistas. Se quiser ficar para o almoço, eu lhe trarei provas conclusivas de minha viagem pelo Tempo, com amostras e tudo o mais. Agora, me dá licença?

Aceitei o convite, sem compreender muito bem todo o alcance de suas palavras. Ele fez um sinal com a cabeça e saiu pelo corredor. Ouvi bater a porta do laboratório. Instalei-me numa poltrona e peguei um jornal para ler. Que iria ele fazer antes da hora do almoço? De repente, vendo um anúncio, lembrei-me de que havia marcado encontro com o editor Richardson às duas. Consultei o relógio e vi que estava quase em cima da hora. Levantei-me e dirigi-me para o laboratório a fim de avisar o Viajante do Tempo.

Mal coloquei a mão na maçaneta da porta, ouvi uma exclamação, que estranhamente não se completou, um estalido e uma pancada surda. Uma lufada de ar me apanhou em cheio quando abri a porta e turbilhonou em torno de mim. Lá de dentro veio o ruído de vidros que se quebravam e caíam sobre o soalho. O Viajante do Tempo não estava ali. Pareceu-me ver, por uma fração de segundo, uma figura indistinta, fantasmagórica, sentada sobre uma massa negra e amarela que rodopiava a uma velocidade indescritível — uma figura tão transparente que, através dela, se podia ver com a maior nitidez a mesa de trabalho, com os desenhos por cima. Mas enquanto eu esfregava os olhos o vulto se desvaneceu. A Máquina do Tempo tinha sumido. Não se via nada no canto do laboratório onde ela antes se encontrava, salvo um pouco de poeira ainda em movimento. Um vidro da clarabóia se partira e caíra no chão.

Fui tomado de um pânico irracional. Eu sabia que havia acontecido alguma coisa extraordinária, mas no primeiro momento não pude discernir o que podia ter sido. Enquanto eu estava ali paralisado, a porta que dava para o jardim se abriu e o empregado apareceu.

Olhamos um para o outro. Meu cérebro voltou a funcionar.

— O Senhor.. saiu pelo jardim?

— Não, senhor. Ninguém saiu por aí. Eu esperava encontrá-lo aqui dentro.

Então compreendi. E, arriscando-me a desapontar Richardson, resolvi aguardar a volta do Viajante do Tempo. Aguardar a segunda narrativa, talvez ainda mais estranha que a primeira, juntamente com os espécimes e as fotografias que ele iria trazer. Começo, todavia, a recear que tenha de esperar a vida inteira. O Viajante do Tempo desapareceu há três anos. E, como todos agora sabem, nunca mais voltou.

EPÍLOGO

Tudo que posso fazer é ficar imaginando. Voltará ele algum dia? Talvez tenha viajado para o passado e caído no meio dos peludos selvagens da Idade da Pedra Lascada, bebedores de sangue. Ou nos abismos do Mar Cretáceo. Ou entre os grotescos sáurios, os gigantescos répteis do Jurássico. Pode estar agora mesmo — se cabe usar essa frase — vagueando sobre um recife de coral oolítico infestado de plesiossauros, ou pelas margens de um solitário lago salgado do Período Triásico. Ou, então, se dirigiu para o futuro, para épocas mais próximas da nossa, em que os homens ainda são homens, mas as indagações de hoje estão já respondidas, e resolvidos nossos problemas mais aflitivos. Uma época em que a raça humana terá atingido o seu pleno amadurecimento — porque, de minha parte, não acho que estes nossos dias de tímidas experiências, de teorias fragmentárias e de mútua discórdia sejam o ponto culminante da humanidade!

Repito: de minha parte. Quanto a ele, bem sei — pois o assunto foi discutido entre nós muito antes de ser construída a Máquina do Tempo — bem sei que tinha idéias bastante sombrias sobre o Progresso da Humanidade, e considerava as crescentes conquistas da civilização como um simples amontoado de loucuras, que inevitavelmente desabaria sobre seus artífices e acabaria por destruí-los. Se de fato é assim, só nos resta viver como se não fosse.

Mas para mim o futuro é ainda informe e nebuloso — uma vasta incógnita, iluminada em alguns pontos esparsos pela recordação da história que o Viajante do Tempo nos contou. E eu guardo comigo, para meu consolo, duas estranhas flores brancas — já agora amarelecidas, e secas, e quebradiças — como testemunho de que, mesmo quando a inteligência e a força houverem desaparecido, a gratidão e a ternura mútua sobreviverão no coração do homem.

Fim.

Tradução de Fausto Cunha

Introdução de Jorge Luis Borges

LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S.A.

Copyright © by Emecé Editores para O primeiro Wells e a citação A flor de Coleridge, tirados de Otras Inquisiciones, com autorização.

Título original: THE TIME MACHINE

Revisão: Lúcia Duarte

Impresso no Brasil Printed in Brazil

198 I

Todos os direitos desta tradução reservados à LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S.A. Rua Sete de Setembro, 177 — Centro 20.050 — Rio de Janeiro, RJ

Coleção Mundos da Ficção Científica

Coordenação: Fausto Cunha

A ESPADA DIABÓLICA

— Michael Moorcock

OS DENTES DO INSPETOR

— L. Sprague de Camp

CONTOS DA TABERNA

— Arthur C. Clarke

CONSTRUTORES DE CONTINENTES

— L Sprague de Camp

O HOMEM QUE VENDEU A LUA

— Robert A. Heinlein

PARASITAS DA MENTE

— Colin Wilson

REVOLTA EM 2100

— Robert A. Heinlein

A AMEAÇA DA TERRA

— Robert A. Heinlein

CIDADE SUBMARINA

— Kenneth Bulmer

OS FILHOS DE MATUSALÉM

— Robert A. Heinlein

O PLANETA DOS DRAGÕES

— Jack Vance

AS SETE FACES DO DR. LAO

— Charles G. Finney

OS FRUTOS DOURADOS DO SOL

— Ray Bradbury

PLANETA DUPLO

— Jack Vance

VAMPIROS DO ESPAÇO

— Colin Wilson

AS CRÔNICAS MARCIANAS

— Ray Bradbury

A LEGIÃO DO ESPAÇO

— Jack Williamson

STAR KING — A Saga dos Príncipes Demônios

— Jack Vance

CHUNG-LI — A Agonia do Verde

— John Christopher

A MÁQUINA DE MATAR

— Jack. Vance

OS AMANTES DO ANO 3050

— Philip José Farmer

ANTOLOGIA CÓSMICA

— Fausto Cunha (Org.)